{"id":459627,"date":"2026-07-23T11:01:25","date_gmt":"2026-07-23T11:01:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/459627\/"},"modified":"2026-07-23T11:01:25","modified_gmt":"2026-07-23T11:01:25","slug":"ha-uma-falha-escondida-sob-evora-o-sismo-de-37-denunciou-a-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/459627\/","title":{"rendered":"H\u00e1 uma falha escondida sob \u00c9vora. O sismo de 3,7 denunciou-a \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas. Fernando Carrilho recorda que situa\u00e7\u00f5es semelhantes ocorreram em Arraiolos e em Sines: as falhas j\u00e1 l\u00e1 estavam, naturalmente, mas n\u00e3o eram conhecidas como estruturas capazes de produzir sismos. N\u00e3o apresentavam um tra\u00e7o claro \u00e0 superf\u00edcie. Foram os pr\u00f3prios abalos que as denunciaram. A de Arraiolos com o sismo de <a href=\"https:\/\/www.ipma.pt\/pt\/media\/noticias\/news.detail.jsp?y=2018&amp;f=sismo-15-janeiro-arraiolos.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">2018<\/a> e a de Sines com os v\u00e1rios abalos entre <a href=\"https:\/\/sicnoticias.pt\/pais\/2024-08-26-video-tremeu-tudo-as-imagens-do-sismo-nas-redes-sociais-a37f0898\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">2024<\/a> e <a href=\"https:\/\/noticiasdesines.blog\/2025\/10\/04\/sismo-de-magnitude-3-5-registado-ao-largo-de-sines\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">2025<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 esse o ponto de partida para a investiga\u00e7\u00e3o que se segue: encontrar, ou pelo menos delimitar melhor, a estrutura que se moveu sob \u00c9vora.<\/p>\n<p>A zona s\u00edsmica mais conhecida do Alentejo interior fica a norte de \u00c9vora e abrange Arraiolos, Azaruja, Mora e Ciborro. Foi ali que ocorreu, a 1<a href=\"https:\/\/www.ipma.pt\/pt\/media\/noticias\/news.detail.jsp?y=2018&amp;f=sismo-15-janeiro-arraiolos.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">5 de janeiro de 2018<\/a>, um sismo de magnitude 4,9, sentido em grande parte do territ\u00f3rio continental, seguido por v\u00e1rias r\u00e9plicas.<\/p>\n<p>J\u00e1 o epicentro, preliminar, do abalo desta quarta-feira encontra-se a sul de \u00c9vora. Questionado pelo Observador sobre a exist\u00eancia de uma continuidade estrutural entre o sismo de 2018 e o atual, Fernando Carrilho \u00e9 taxativo. \u201cEm termos mapeados, em termos de neotect\u00f3nica? N\u00e3o.\u201d Nada a ver? \u201cNada, nada.\u201d<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa que as duas zonas vivam em mundos tect\u00f3nicos separados, mas sim que n\u00e3o existe uma falha cartografada que ligue os dois locais, nem evid\u00eancia de que o sismo desta quarta-feira tenha ocorrido numa extens\u00e3o da estrutura de Arraiolos. \u201cFaz parte do sistema de falhas do Alentejo, certamente\u201d, esclarece Carrilho. <strong>\u201cMas n\u00e3o temos nada mapeado \u00e0 superf\u00edcie que corresponda \u00e0 origem deste sismo.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o \u00e9 importante. O Alentejo n\u00e3o \u00e9 atravessado por uma \u00fanica falha cont\u00ednua, como uma racha bem desenhada numa parede. A crosta \u00e9 cortada por estruturas de diferentes idades, dimens\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es. Algumas cruzam-se, outras terminam, dividem-se em segmentos ou desaparecem sob camadas de sedimentos. E muitas foram formadas em \u00e9pocas geol\u00f3gicas muito anteriores \u00e0 atual configura\u00e7\u00e3o da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica.<\/p>\n<p>Podem todas estar sujeitas ao mesmo campo regional de tens\u00f5es e, apesar disso, movimentar-se separadamente. Arraiolos ser\u00e1 uma estrutura, a falha que provocou o sismo a sul de \u00c9vora poder\u00e1 ser outra. O motor tect\u00f3nico \u00e9 seguramente o mesmo; a pe\u00e7a da crosta que cedeu pode n\u00e3o ser.<\/p>\n<p>Nova para os mapas, seguramente, mas nova do ponto de vista geol\u00f3gico, quase de certeza que n\u00e3o. \u201c\u00c9 uma falha desconhecida neste sentido: j\u00e1 existe h\u00e1 muito tempo, certamente, mas n\u00e3o est\u00e1 reconhecida \u00e0 superf\u00edcie\u201d, explica Fernando Carrilho.<\/p>\n<p>Dizer que o sismo \u201ccriou\u201d uma falha seria enganador, porque a hip\u00f3tese mais razo\u00e1vel \u00e9 que tenha reativado uma estrutura antiga, j\u00e1 instalada na crosta, mas enterrada ou sem express\u00e3o reconhec\u00edvel no relevo. <strong>Pode ter centenas de milh\u00f5es de anos, o movimento \u00e9 que aconteceu agora.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 assim que ocorrem muitos sismos intraplaca: a crosta conserva cicatrizes de colis\u00f5es, separa\u00e7\u00f5es de continentes, levantamento de montanhas e abertura ou fecho de antigos oceanos. Essas cicatrizes podem ficar im\u00f3veis durante per\u00edodos enormes. Depois, quando o campo de for\u00e7as muda ou a tens\u00e3o acumulada ultrapassa a resist\u00eancia das rochas, uma delas volta a deslizar.<\/p>\n<p>\u201cFalhas preexistentes podem sofrer movimenta\u00e7\u00e3o devido \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o destas tens\u00f5es\u201d, diz Fernando Carrilho. Em \u00faltimo caso, admite, as for\u00e7as tect\u00f3nicas tamb\u00e9m podem criar novas fraturas. Mas, estando \u00c9vora afastada da fronteira entre as grandes placas, essa n\u00e3o \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o mais prov\u00e1vel. \u201cA explica\u00e7\u00e3o mais razo\u00e1vel ser\u00e1 reativar falhas preexistentes\u201d, conclui.<\/p>\n<p>N\u00e3o se conhece ainda a geometria da estrutura. Nem a sua extens\u00e3o ou orienta\u00e7\u00e3o. Nem se o sismo resultou do movimento de uma \u00fanica falha ou de uma pequena rede de fraturas em profundidade. Por enquanto, a prova da sua exist\u00eancia \u00e9 o pr\u00f3prio sismo.<\/p>\n<p>Sim. O abalo desta quarta-feira n\u00e3o ocorreu num ponto completamente quieto. <strong>\u201cNos \u00faltimos anos t\u00eam ocorrido v\u00e1rios sismos naquela zona, sempre de magnitudes pequenas\u201d<\/strong>, afirma o chefe da Divis\u00e3o de Sismologia do IPMA. Os focos s\u00e3o relativamente profundos e, por isso, tornam mais dif\u00edcil estabelecer uma liga\u00e7\u00e3o direta com estruturas observ\u00e1veis no terreno.<\/p>\n<p>Este detalhe muda a leitura do epis\u00f3dio desta quarta-feira. O sismo de magnitude 3,7 n\u00e3o revelou que a regi\u00e3o come\u00e7ou subitamente a tremer. Mostrou, com mais for\u00e7a do que os abalos anteriores, uma atividade que j\u00e1 existia e que ainda n\u00e3o foi associada a uma estrutura geol\u00f3gica bem caracterizada. A 15 de dezembro de 2025, o IPMA registou outro sismo, de magnitude 3,5, tamb\u00e9m descrito como tendo o epicentro a cerca de dez quil\u00f3metros a sul de \u00c9vora. Em outubro, um abalo de magnitude 2,5 tinha sido localizado a oeste-sudoeste da cidade.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o basta para concluir que todos ocorreram na mesma falha. As refer\u00eancias divulgadas nos comunicados do IPMA s\u00e3o arredondadas: dois epicentros apresentados como estando \u201cdez quil\u00f3metros a sul de \u00c9vora\u201d podem, na realidade, ficar separados por v\u00e1rios quil\u00f3metros. Tamb\u00e9m podem ter profundidades diferentes ou resultar de movimentos com orienta\u00e7\u00f5es distintas.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 necess\u00e1rio comparar as coordenadas finais, as profundidades, os erros associados \u00e0s localiza\u00e7\u00f5es, a distribui\u00e7\u00e3o de pequenos sismos em redor e, quando os dados o permitirem, os respetivos mecanismos focais. O mecanismo focal funciona como uma esp\u00e9cie de impress\u00e3o digital do sismo. Ajuda a perceber em que dire\u00e7\u00e3o se moveu a falha e que tipo de movimento ocorreu: compress\u00e3o, extens\u00e3o ou deslizamento lateral. Sem essa informa\u00e7\u00e3o, uma semelhan\u00e7a no mapa pode enganar.<\/p>\n<p>De forma simplificada, sim. \u00c9, na verdade, o motor regional desta hist\u00f3ria. A Terra n\u00e3o tem uma crosta \u00fanica e im\u00f3vel, como sabemos. A superf\u00edcie est\u00e1 dividida em grandes placas tect\u00f3nicas e em blocos menores, descritos como microplacas. Estas pe\u00e7as deslocam-se lentamente sobre materiais mais quentes e deform\u00e1veis do interior do planeta.<\/p>\n<p>A Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica faz parte da placa euroasi\u00e1tica, mas encontra-se perto de uma das fronteiras tect\u00f3nicas mais complexas do planeta. A sul e a sudoeste, a placa africana aproxima-se lentamente da Eur\u00e1sia. Entre os A\u00e7ores, Gibraltar e o norte de \u00c1frica, essa converg\u00eancia n\u00e3o se concentra numa linha simples. Distribui-se por <strong>uma zona larga, feita de falhas, blocos e estruturas que acomodam o movimento de formas diferentes.<\/strong><\/p>\n<p>Da\u00ed a dificuldade em desenhar uma fronteira limpa no mapa. N\u00e3o \u00e9 como encaixar duas pe\u00e7as de um puzzle: h\u00e1 setores onde uma placa desliza lateralmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 outra, h\u00e1 zonas de compress\u00e3o, estruturas submarinas deformadas e blocos mais pequenos que tamb\u00e9m se movimentam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas. 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