{"id":46025,"date":"2025-08-26T15:57:08","date_gmt":"2025-08-26T15:57:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/46025\/"},"modified":"2025-08-26T15:57:08","modified_gmt":"2025-08-26T15:57:08","slug":"onde-nasce-a-consciencia-26-08-2025-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/46025\/","title":{"rendered":"Onde nasce a consci\u00eancia? &#8211; 26\/08\/2025 &#8211; Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>No campo cient\u00edfico, poucas perguntas geram tanto debate quanto a origem da consci\u00eancia humana. Agora, um experimento que levou sete anos para ser realizado p\u00f4s \u00e0 prova as duas teorias neurocient\u00edficas rivais mais proeminentes sobre esse enigma, desencadeando uma controv\u00e9rsia central na discuss\u00e3o: um animal, uma m\u00e1quina ou um feto teria acesso \u00e0 experi\u00eancia consciente?<\/p>\n<p>O estudo, que envolveu 256 participantes e 12 laborat\u00f3rios colaboradores, conhecido como Cons\u00f3rcio Cogitate, submeteu os participantes a diversos testes visuais enquanto seus c\u00e9rebros eram monitorados utilizando tr\u00eas t\u00e9cnicas diferentes de neuroimagem.<\/p>\n<p>O objetivo era tentar identificar qual tese est\u00e1 mais pr\u00f3xima da realidade: se a teoria da informa\u00e7\u00e3o integrada (TII) ou a teoria do espa\u00e7o de trabalho neuronal global (GNWT, na sigla em ingl\u00eas). As duas diferem tanto em seus pressupostos que quase parecem falar de fen\u00f4menos distintos.<\/p>\n<p>A GNWT sugere que uma rede de \u00e1reas cerebrais seleciona informa\u00e7\u00f5es importantes, trazendo-as para o primeiro plano da mente. Quando essas informa\u00e7\u00f5es competem pela aten\u00e7\u00e3o nas regi\u00f5es cerebrais e superam outros sinais, elas se difundem amplamente pelo c\u00e9rebro, gerando a experi\u00eancia consciente.<\/p>\n<p>Para a teoria, atividades mentais que n\u00e3o foram destacadas correm no c\u00e9rebro mesmo que de forma inconsciente. Esse processo est\u00e1 principalmente associado ao c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal, mas n\u00e3o se limita a ele.<\/p>\n<p>A TII, por sua vez, parte de uma defini\u00e7\u00e3o mais abstrata: prop\u00f5e que a consci\u00eancia emerge da integra\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica da informa\u00e7\u00e3o dentro de um sistema. Se diferentes partes do c\u00e9rebro trocam informa\u00e7\u00f5es de forma altamente conectada e unificada, atuando como um todo, surge a experi\u00eancia consciente.<\/p>\n<p>Segundo essa teoria, a consci\u00eancia resulta dessa intera\u00e7\u00e3o entre v\u00e1rias partes do c\u00e9rebro, especialmente nas regi\u00f5es posteriores, e pode ser quantificada por meio de uma medida chamada phi; quanto mais integrada a informa\u00e7\u00e3o, maior o valor de phi e maior a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;As duas teorias s\u00e3o criaturas muito diferentes&#8221;, explicou \u00e0 revista especializada Scientific American Christof Koch, cientista cognitivo do Instituto Allen em Seattle e coautor do <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-025-08888-1\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">estudo <\/a>publicado em abril deste ano na revista cient\u00edfica <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Nature<\/a>.<\/p>\n<p>Resultados inconclusivos, mas deixam pistas<\/p>\n<p>Os resultados do experimento, liderado por Lucia Melloni, do Instituto Max Planck de Est\u00e9tica Emp\u00edrica, foram inconclusivos. Enquanto alguns achados favoreciam a TII \u2013como a decodifica\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas visuais em regi\u00f5es posteriores do c\u00e9rebro e uma atividade neuronal mais sustentada durante a percep\u00e7\u00e3o consciente\u2013 outros padr\u00f5es de sincronicidade se alinhavam melhor \u00e0s previs\u00f5es da GNWT.<\/p>\n<p>De fato, como reconhece o professor Anil Seth, especialista em neuroci\u00eancia cognitiva e computacional da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/universidade\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Universidade<\/a> de Sussex, &#8220;era claro que nenhum experimento refutaria de forma decisiva nenhuma das duas teorias&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Dito isso, os resultados da colabora\u00e7\u00e3o continuam sendo muito valiosos: aprendemos muito sobre ambas as teorias e sobre em que parte do c\u00e9rebro \u00e9 poss\u00edvel decodificar a informa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia visual&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p>Mais do que um duelo t\u00e9cnico, os dados levantam novas quest\u00f5es sobre onde, e como, a consci\u00eancia \u00e9 gerada. Por exemplo, a pesquisa demonstrou que existe uma conex\u00e3o funcional entre neur\u00f4nios das primeiras \u00e1reas visuais (na parte posterior do c\u00e9rebro) e \u00e1reas frontais, ajudando a entender como nossas percep\u00e7\u00f5es se ligam aos pensamentos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os achados reduzem a \u00eanfase no c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal no processo consciente, sugerindo que, embora seja crucial para racioc\u00ednio e planejamento, a consci\u00eancia em si pode estar mais vinculada ao processamento sensorial e \u00e0 percep\u00e7\u00e3o. Como resume o estudo do Instituto Allen: &#8220;A intelig\u00eancia consiste em fazer, enquanto a consci\u00eancia consiste em ser&#8221;.<\/p>\n<p>Estudo abre controv\u00e9rsia \u00e9tica<\/p>\n<p>O empate t\u00e9cnico n\u00e3o acalmou os \u00e2nimos. O verdadeiro drama se deu fora do laborat\u00f3rio. Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o preliminar do estudo em 2023, um grupo de 124 cientistas assinou uma carta aberta acusando a TII de ser uma &#8220;pseudoci\u00eancia&#8221;, argumentando que ela n\u00e3o \u00e9 false\u00e1vel, ou seja, que n\u00e3o pode ser refutada experimentalmente. Nessa mesma linha, um segundo artigo, assinado por cem pesquisadores, reiterou as cr\u00edticas: aus\u00eancia de previs\u00f5es precisas e incompatibilidade com as leis f\u00edsicas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a pol\u00eamica ganhou for\u00e7a devido \u00e0s implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas da TII. Segundo cr\u00edticos, a teoria poderia sugerir que sistemas como a intelig\u00eancia artificial, animais e at\u00e9 fetos em est\u00e1gio inicial poderiam possuir algum grau de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Nos casos de pacientes em coma, consci\u00eancia em IA e abortos, nos perguntamos: &#8216;como sabemos se o paciente, o feto ou a IA s\u00e3o conscientes?&#8217;. Ainda n\u00e3o podemos usar a atividade cerebral para responder adequadamente a essa quest\u00e3o e seria perigoso, neste est\u00e1gio, basear nossas respostas em qualquer teoria que n\u00e3o tenha valida\u00e7\u00e3o emp\u00edrica&#8221;, alertou Chris Frith, da Universidade de Londres, signat\u00e1rio de ambas as cr\u00edticas.<\/p>\n<p>J\u00e1 os defensores da TII, como Christof Koch, do Instituto Allen para a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/ciencia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Ci\u00eancia<\/a> do C\u00e9rebro, atribuem a rea\u00e7\u00e3o negativa a ci\u00fames profissionais. &#8220;A TII foi percebida como mais atraente que outras teorias, recebendo mais aten\u00e7\u00e3o e recursos&#8221;, afirmou Koch \u00e0 revista New Scientist. &#8220;Qualquer infer\u00eancia ou implica\u00e7\u00e3o de uma teoria deveria ser irrelevante para a quest\u00e3o de se ela est\u00e1 correta ou n\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Anil Seth, por sua vez, argumenta que outras teorias revolucion\u00e1rias \u2013do heliocentrismo \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o darwiniana\u2013 foram inicialmente rejeitadas por suas implica\u00e7\u00f5es. &#8220;O consequencialismo n\u00e3o \u00e9 uma raz\u00e3o v\u00e1lida para rejeitar uma teoria como n\u00e3o cient\u00edfica&#8221;, declarou ao peri\u00f3dico cient\u00edfico.<\/p>\n<p>A pesquisa, no entanto, trouxe impactos positivos para al\u00e9m do debate te\u00f3rico. As descobertas podem ter aplica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas sobre como melhorar a detec\u00e7\u00e3o de &#8220;consci\u00eancia encoberta&#8221;, por exemplo, quando um paciente parece inconsciente, mas tem algum n\u00edvel de atividade consciente, ainda que n\u00e3o seja detectada externamente.<\/p>\n<p>Segundo estudos recentes publicados no New England Journal of Medicine, a consci\u00eancia encoberta ocorre em um quarto dos casos de pacientes com les\u00f5es graves que n\u00e3o respondem a est\u00edmulos, como quando est\u00e3o em coma, por exemplo.<\/p>\n<p>Melloni, a principal autora da pesquisa, minimiza a controv\u00e9rsia e, em entrevista \u00e0 New Scientist, defende uma abordagem mais pragm\u00e1tica. &#8220;\u00c9 apenas uma novela. O que precisamos s\u00e3o de mais dados, n\u00e3o de mais cartas&#8221;, diz. Sua equipe planeja tornar p\u00fablicos os dados para que outros pesquisadores possam testar todas as teorias potenciais sobre o tema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No campo cient\u00edfico, poucas perguntas geram tanto debate quanto a origem da consci\u00eancia humana. 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