{"id":461316,"date":"2026-07-24T21:14:37","date_gmt":"2026-07-24T21:14:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/461316\/"},"modified":"2026-07-24T21:14:37","modified_gmt":"2026-07-24T21:14:37","slug":"na-ilha-de-sumba-homens-e-mulheres-sao-escravos-desde-o-nascimento-ate-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/461316\/","title":{"rendered":"Na ilha de Sumba, homens e mulheres s\u00e3o escravos desde o nascimento at\u00e9 \u00e0 morte"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-caption-text top\">BAY ISMOYO \/ AFP<\/p>\n<p><img loading=\"eager\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-756316 size-kopa-image-size-3\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/4ad79aa5d58b365cc4af32f1511b62dd-783x450.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"402\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">Umbu Ana Rara (E), um maramba (nobre), a olhar para o seu ata (escravo), Kanisius Kanyali Hambarita, na aldeia Tanggedu em East Sumba.<\/p>\n<p><strong>A duas horas de Bali, um sistema de castas envolve nobres servidos por escravos que \u201cn\u00e3o podem perder o seu estatuto\u201d na ilha indon\u00e9sia de Sumba. A viol\u00eancia de v\u00e1rios tipos \u00e9 frequente e n\u00e3o \u00e9 penalizada, apesar de a lei prever puni\u00e7\u00e3o criminal para quem privar outra pessoa da sua liberdade.<\/strong><\/p>\n<p>A duas horas de avi\u00e3o das praias Bali, na ilha indon\u00e9sia de <strong>Sumba<\/strong>, homens e mulheres s\u00e3o escravos, desde o nascimento at\u00e9 \u00e0 morte. S\u00e3o escravos por heran\u00e7a, trabalham dia e noite e sem remunera\u00e7\u00e3o, s\u00e3o muitas vezes maltratados e, no caso das mulheres, violadas. Os filhos v\u00e3o ter o mesmo destino, pois \u201ceste estatuto n\u00e3o pode ser apagado\u201d, afirma <strong>Kanisius Kanyali Hambarita<\/strong> \u00e0 AFP.<\/p>\n<p>Este jovem de 34 anos \u00e9 escravo de <strong>Umbu Ana Rara<\/strong>, tr\u00eas anos mais novo. Para chegar ao lugar onde vivem, na aldeia de Tengeddu, conhecida por turistas pelas espetaculares cascatas, \u00e9 preciso percorrer uma estrada acidentada que serpenteia entre o mar e colinas \u00e1ridas, a 50 quil\u00f3metros de Waingapu, principal cidade de Sumba.<\/p>\n<p>Neste final de manh\u00e3, os dois homens mastigam nozes de areca, semente de palmeira com efeitos euforizantes, sentados em frente da casa do senhor. \u00c0 primeira vista, nada os distingue. Vestem t-shirt e sarongue, vivem na mesma casa por onde circulam galinhas e porcos, dormem numa esteira no ch\u00e3o e partilham a mesma vida num s\u00edtio onde se cozinha em fogueira e n\u00e3o h\u00e1 rede para o telem\u00f3vel.<\/p>\n<p>Umbu Ana Rara diz tratar Kanisius \u201ccomo um membro da fam\u00edlia\u201d. Permite-lhe ganhar algum dinheiro como motot\u00e1xi e confia-lhe um peda\u00e7o de terra, que este cultiva.<\/p>\n<p>O que pensa Kanisius Kanyali Hambarita deste estatuto? \u201cN\u00e3o me oponho, \u00e9 assim que as coisas s\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um fardo. \u00c9 apenas o s\u00edmbolo de uma tradi\u00e7\u00e3o herdada dos nossos antepassados\u201d, afirma \u00e0 AFP na presen\u00e7a daquele que chama de senhor, que muitas vezes termina as frases por ele.<\/p>\n<p>Sistema de tr\u00eas castas<\/p>\n<p>A escravatura, que aqui remonta ao s\u00e9culo XVI, de acordo com historiadores, foi oficialmente abolida na Indon\u00e9sia em 1860, quando o pa\u00eds se encontrava sob dom\u00ednio holand\u00eas. Mas continua profundamente enraizada na cultura de Sumba.<\/p>\n<p>Na ilha de 685 mil habitantes, 80% dos quais crist\u00e3os num pa\u00eds de maioria mu\u00e7ulmana, a sociedade est\u00e1 dividida em tr\u00eas castas: \u201cos nobres, chamados \u2018maramba\u2019, frequentemente grandes propriet\u00e1rios de terras; as pessoas comuns, chamadas kabihu, e os escravos\/servos, os \u2018ata&#8217;\u201d, nota <strong>Martha Hebi<\/strong>, autora de v\u00e1rios estudos sobre o tema.<\/p>\n<p>E, a menos que seja libertado pelo senhor, um \u2018ata\u2019 \u201cn\u00e3o pode perder o seu estatuto, nem mesmo atrav\u00e9s do casamento\u201d.<\/p>\n<p>A vida est\u00e1 assim organizada: os \u2018maramba\u2019 possuem a terra, as vacas e os cavalos criados para corridas antes de serem exportados, o que constitui o valor econ\u00f3mico mais importante a par dos escravos; os \u2018ata\u2019 trabalham de manh\u00e3 \u00e0 noite, cultivam os campos onde os arados s\u00e3o puxados por b\u00fafalos, cuidam da casa, das crian\u00e7as e dos animais, sendo tratados mais ou menos bem consoante para quem trabalham.<\/p>\n<p>\u201cEncontram-se casos de trabalho for\u00e7ado noutros locais da Indon\u00e9sia ou de subjuga\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria, como entre os Dayak de Kalimantan em caso de d\u00edvidas\u201d, afirma \u00e0 AFP <strong>Bondan Kanumoyoso<\/strong>, historiador da Universidade da Indon\u00e9sia em Depok. Mas, diz ainda, a escravatura em vigor em Sumba \u00e9 \u00fanica.<\/p>\n<p>\u201cA ess\u00eancia desta estratifica\u00e7\u00e3o social (\u2026) reside no marapu\u201d, religi\u00e3o local que mistura animismo, culto aos antepassados e o mundo dos esp\u00edritos, diz o sacerdote marapu Umbu Remi Deta. A lenda oral \u201cdiz que os \u2018maramba\u2019 obtiveram \u2018ata\u2019 ao chegarem a Sumba\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil falar em n\u00fameros. Uma assistente social, que pede para n\u00e3o ser identificada, estima que sejam \u201ccerca de 1.700\u201d no distrito de Sumba Oriental, que conta com 350 mil habitantes. Alguns falam de v\u00e1rios milhares.<\/p>\n<p>Afastada dos grandes centros urbanos e tur\u00edsticos, a dois mil quil\u00f3metros de Jacarta e mil quil\u00f3metros de Bali, esta ilha permaneceu isolada durante muito tempo, inclusive do dom\u00ednio holand\u00eas, o que explica a preserva\u00e7\u00e3o das estruturas sociais ancestrais.<\/p>\n<p>Os portugueses, no s\u00e9culo XVI, e posteriormente a Companhia Holandesa das \u00cdndias Orientais, no s\u00e9culo XVII, procuravam ali s\u00e2ndalo e escravos, tal como documenta o antrop\u00f3logo brit\u00e2nico <strong>Rodney Needham<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cO senhor tem o direito de usar a sua serva\u201d<\/p>\n<p>A chegada da modernidade n\u00e3o alterou o sistema nem p\u00f4s fim \u00e0 viol\u00eancia associada a esse estatuto. \u201cJ\u00e1 sofri bastante desde a minha inf\u00e2ncia\u201d, confidencia M., um \u2018ata\u2019 com cerca de quarenta anos, encontrado fora da aldeia de Napu, sem a presen\u00e7a do \u2018maramba\u2019, e cujo nome a AFP prefere n\u00e3o revelar para preservar a seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cEra espancado porque n\u00e3o trabalhava ou porque n\u00e3o o fazia como devia\u201d, prossegue.<\/p>\n<p>Ainda hoje, os escravos sofrem \u201cviol\u00eancias n\u00e3o s\u00f3 f\u00edsicas, mas tamb\u00e9m sexuais\u201d, confirma Marlin Lomi, pastor e presidente do s\u00ednodo protestante de Sumba Oriental, referindo que, segundo a tradi\u00e7\u00e3o, \u201co senhor tem o direito, entre aspas, de \u2018usar\u2019 a sua serva\u201d.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 rara e permanece frequentemente impune \u201cporque as v\u00edtimas n\u00e3o se atrevem a testemunhar\u201d, segundo Hebi, fundadora da ONG Solidariedade para as Mulheres e as Crian\u00e7as de Sumba (Sopan).<\/p>\n<p>O que diz a lei? Governo sabe e n\u00e3o faz nada<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica da escravatura em Sumba entra, no entanto, em conflito com a lei indon\u00e9sia. De acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1945, \u201cningu\u00e9m pode ser mantido em escravatura ou servid\u00e3o\u201d. O C\u00f3digo Penal prev\u00ea a puni\u00e7\u00e3o criminal para \u201cqualquer pessoa que, intencionalmente e ilegalmente, prive outra pessoa da sua liberdade\u201d.<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo, o c\u00f3digo prev\u00ea que o Estado reconhe\u00e7a certas formas de direito consuetudin\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso compreender que a Indon\u00e9sia \u00e9 uma sociedade extremamente plural e que o desenvolvimento social n\u00e3o \u00e9 o mesmo consoante os grupos \u00e9tnicos\u201d, afirmou \u00e0 AFP o ministro da Justi\u00e7a e dos Direitos Humanos, Yusril Ihza Mahendra.<\/p>\n<p>\u201cO Governo n\u00e3o pretende impor mudan\u00e7as repentinas, mas sim acompanhar o desenvolvimento social de cada comunidade passo a passo\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Para o porta-voz da Amnistia Internacional Indon\u00e9sia, Haeril Halim, o Governo \u201cest\u00e1 ciente da situa\u00e7\u00e3o em Sumba\u201d, mas at\u00e9 ao momento \u201cn\u00e3o tomou nenhuma medida para eliminar as pr\u00e1ticas de escravatura\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"BAY ISMOYO \/ AFP Umbu Ana Rara (E), um maramba (nobre), a olhar para o seu ata (escravo),&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":461317,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[27,28,269,315,12001,16564,3026,19728,54058,15,16,14,736,2427,25,26,21,22,62,12,13,19,20,4007,23,24,11099,4516,58,17,18,29,30,31,3097,63,64,65],"class_list":["post-461316","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-capa","tag-cultura","tag-desigualdade","tag-direitos-civis","tag-direitos-humanos","tag-escravatura","tag-etnias","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-headlines","tag-historia","tag-indonesia","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mundo","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-politica-internacional","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-racismo","tag-religiao","tag-sociedade","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-violencia","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/461316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=461316"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/461316\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/461317"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=461316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=461316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=461316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}