{"id":461726,"date":"2026-07-25T09:23:13","date_gmt":"2026-07-25T09:23:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/461726\/"},"modified":"2026-07-25T09:23:13","modified_gmt":"2026-07-25T09:23:13","slug":"descoberto-mais-um-cancer-infeccioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/461726\/","title":{"rendered":"Descoberto mais um c\u00e2ncer infeccioso"},"content":{"rendered":"<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 fVfMho theme-default  theme-pulsa\">Esta hist\u00f3ria poderia inspirar um filme de terror. Troque peixe por ser humano, o lago por uma comunidade e deixe a imagina\u00e7\u00e3o voar.<\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 fVfMho theme-default  theme-pulsa\">O lago Memphremagog \u00e9 longo, tem 50 quil\u00f4metros, e cruza verticalmente a fronteira entre o Estado de Vermont, nos Estados Unidos, e a prov\u00edncia de Quebec, no Canad\u00e1. Ele \u00e9 bem preservado, riqu\u00edssimo em peixes de \u00e1gua doce, e atrai centenas de pescadores amadores desde o s\u00e9culo XIX. <\/p>\n<p><img  loading=\"lazy\" class=\"lazy-load-img\"\/><\/p>\n<p>O lago Memphremagog, na fronteira entre Estados Unidos e Canad\u00e1\u00a0Foto:  S. Lemyre\/Adobe Stock<\/p>\n<p>Em 1858, o escritor Henry David Thoreau relatou que havia capturado um bagre marrom (Ameiurus nebulosus) com a cabe\u00e7a \u201ccovered with an inky-black kind of leprosy, like a crustaceous lichen\u201d (coberta por uma les\u00e3o leprosa, preta-nanquim, semelhante a um l\u00edquen crust\u00e1ceo). Ou seja, horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Desde 1912 pescadores e bi\u00f3logos descrevem a presen\u00e7a dessa les\u00e3o em muitos bagres dessa esp\u00e9cie no lago Memphremagog. Nas d\u00e9cadas seguintes, foi demonstrado que a les\u00e3o \u00e9 um tipo de <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/tudo-sobre\/melanoma\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\" title=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/tudo-sobre\/melanoma\/\">melanoma<\/a> que aparece nos esp\u00e9cimes jovens, cresce e pode invadir outros \u00f3rg\u00e3os, mas raramente \u00e9 fatal para esses peixes, que s\u00e3o lindos, podem chegar a meio metro de comprimento e s\u00e3o deliciosos na brasa.<\/p>\n<p>Veja outras colunas<\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 fVfMho theme-default  theme-pulsa\">Apesar de ser relativamente frequente, esse tumor s\u00f3 aparece nessa esp\u00e9cie e nesse \u00fanico lago. Esse fato e a descoberta, na primeira metade do s\u00e9culo XX, de que compostos qu\u00edmicos podem causar <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/tudo-sobre\/cancer\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\" title=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/tudo-sobre\/cancer\/\">c\u00e2ncer<\/a> levaram muitos bi\u00f3logos e ambientalistas a propor que a culpa deveria ser da contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua por algum composto qu\u00edmico, hip\u00f3tese fortalecida pela instala\u00e7\u00e3o de uma ind\u00fastria qu\u00edmica na beira do lago. <\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 fVfMho theme-default  theme-pulsa\">J\u00e1 os geneticistas argumentavam que os tumores eram muito semelhantes e que talvez esse fosse um caso semelhante ao dos tumores que est\u00e3o exterminando o diabo-da-tasm\u00e2nia. Nesse mam\u00edfero, o tumor aparece no focinho e, quando eles brigam, algumas c\u00e9lulas do tumor passam de um animal para o outro, <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/ciencia\/cancer-infeccioso\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\" title=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/ciencia\/cancer-infeccioso\/\">como descrevi em 2016, no artigo \u201cCancer infeccioso\u201d<\/a>. <\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 fVfMho theme-default  theme-pulsa\"><a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-026-10828-6\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\" title=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-026-10828-6\">Agora um novo estudo<\/a> resolveu a pol\u00eamica. O DNA do genoma do peixe e do tumor foi sequenciado. Ficou claro que os tumores s\u00e3o compostos por c\u00e9lulas do peixe, exatamente como ocorre quando um melanoma humano e o genoma da pessoa afetada s\u00e3o sequenciados. E, como no caso dos humanos, o tumor do peixe possui diferen\u00e7as em muitos genes, o que explica por que as c\u00e9lulas tumorais se dividem loucamente. <\/p>\n<p><img  loading=\"lazy\" class=\"lazy-load-img\"\/><\/p>\n<p>O Ameiurus nebulosus \u00e9 encontrado apenas no lago Memphremagog\u00a0Foto:  Rostislav\/Adobe Stock<\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 fVfMho theme-default  theme-pulsa\">Em seguida, os cientistas sequenciaram o DNA do tumor e do peixe afetado em 19 animais, e o DNA de 84 peixes saud\u00e1veis. Quando todas essas amostras foram analisadas, ficou claro que os tumores eram muito parecidos entre si, como se descendessem de um ancestral comum. Isso foi observado tamb\u00e9m para o DNA de todos os peixes. Ou seja, os tumores s\u00e3o semelhantes entre si, os peixes s\u00e3o semelhantes entre si, mas tumores e peixes, apesar de descenderam de um ancestral comum, v\u00eam divergindo faz tempo. \u00c9 como se fossem duas popula\u00e7\u00f5es que evoluem separadamente, os tumores pulando de um peixe para o outro quando eles se tocam.<\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 fVfMho theme-default  theme-pulsa\">A conclus\u00e3o \u00e9 que, em algum momento no passado (a \u00e9poca exata ainda precisa ser determinada), um peixe apareceu com um tumor e esse tumor adquiriu a capacidade de pular de um peixe para o outro, como se fosse um parasita. Atualmente, 90% dos peixes dessa esp\u00e9cie no lago Memphremagog est\u00e3o contaminados pelo tumor. <\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 fVfMho theme-default  theme-pulsa\">No caso do diabo-da-tasm\u00e2nia, o tumor infeccioso amea\u00e7a extinguir a esp\u00e9cie. No caso dos peixes, talvez seja poss\u00edvel conter o tumor nesse \u00fanico lago sacrificando sistematicamente os animais afetados.<\/p>\n<p>Agora o roteiro do nosso filme de terror. Um melanoma letal aparece na face de uma pessoa e, ainda invis\u00edvel, passa de pessoa a pessoa quando elas se beijam. A epidemia se espalha pela cidade enquanto bravos cientistas tentam descobrir a causa e convencer a comunidade a parar de se beijar. \u00c9 quando um deles se contamina e se apaixona pelo outro. Se quiserem apimentar o roteiro, existe um tumor desse tipo em cachorros que ocorre no p\u00eanis e \u00e9 transmitido por via sexual.<\/p>\n<p><strong>Mais informa\u00e7\u00f5es: <\/strong>Brown bullhead catfish melanoma represents a novel transmissible cancer. Nature <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1038\/s41586-026-10828-6\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">https:\/\/doi.org\/10.1038\/s41586-026-10828-6<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Esta hist\u00f3ria poderia inspirar um filme de terror. 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