{"id":461792,"date":"2026-07-25T10:54:49","date_gmt":"2026-07-25T10:54:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/461792\/"},"modified":"2026-07-25T10:54:49","modified_gmt":"2026-07-25T10:54:49","slug":"o-irao-transformou-o-estreito-de-ormuz-numa-arma-mas-o-mundo-ja-esta-a-construir-alternativas-a-volta-dele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/461792\/","title":{"rendered":"O Ir\u00e3o transformou o Estreito de Ormuz numa arma. Mas o mundo j\u00e1 est\u00e1 a construir alternativas \u00e0 volta dele"},"content":{"rendered":"<p>                Est\u00e1 em curso uma aut\u00eantica corrida aos oleodutos. Governos e empresas energ\u00e9ticas de todo o M\u00e9dio Oriente est\u00e3o a acelerar a constru\u00e7\u00e3o de portos e corredores de transporte concebidos para movimentar petr\u00f3leo, g\u00e1s e mercadorias \u00e0 volta de Ormuz, em vez de atrav\u00e9s dele<\/p>\n<p>As guerras muitas vezes terminam num lugar diferente daquele onde come\u00e7am.<\/p>\n<p>O atual conflito com o Ir\u00e3o tem sido marcado por finalidades mal definidas e em constante mudan\u00e7a, desde aspira\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7a de regime at\u00e9 objetivos mais espec\u00edficos de reduzir as capacidades nucleares e militares do Ir\u00e3o.<\/p>\n<p>Quase seis meses depois, evoluiu para algo completamente diferente: uma luta sobre quem controla o Estreito de Ormuz e, com ele, uma das art\u00e9rias mais importantes do mundo para a energia global. O Ir\u00e3o demonstrou tanto a capacidade como a vontade de atacar navios comerciais que passam pela rota, a menos que sejam conduzidos sob as regras definidas por Teer\u00e3o.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos &#8211; e grande parte do mundo, incluindo todos os Estados do Golfo adjacentes ao estreito &#8211; consideraram, com raz\u00e3o, que isso \u00e9 inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>O objetivo estrat\u00e9gico est\u00e1 agora cada vez mais centrado numa quest\u00e3o. O Estreito de Ormuz continua a ser uma via mar\u00edtima internacional ou o Ir\u00e3o adquire a capacidade de determinar quem passa por ele e sob que condi\u00e7\u00f5es? Ceder o controlo ao Ir\u00e3o daria ao regime dezenas de milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares em taxas de tr\u00e2nsito por ano e a capacidade de regular os fluxos de energia para o resto do mundo. O Ir\u00e3o controlaria efetivamente o term\u00f3stato da economia global.<\/p>\n<p>A curto prazo: vantagem do Ir\u00e3o <\/p>\n<p>O Ir\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 fisicamente a bloquear o estreito. Est\u00e1 a lan\u00e7ar drones e m\u00edsseis de cruzeiro contra navios civis. Isso \u00e9 suficiente para interromper o com\u00e9rcio e derrubar uma suposi\u00e7\u00e3o de longa data: a de que o Estreito de Ormuz permaneceria uma passagem internacional mesmo durante per\u00edodos de conflito. Durante a guerra dos 12 dias em junho de 2025, por exemplo, incluindo os ataques dos EUA contra as instala\u00e7\u00f5es nucleares iranianas, Ormuz permaneceu sem altera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa suposi\u00e7\u00e3o de longa data foi agora quebrada e representa um enorme desafio para os Estados Unidos e para o mundo.<\/p>\n<p>Servi na Casa Branca quando os Houthis, grupo aliado do Ir\u00e3o, utilizaram m\u00edsseis e drones iranianos para fechar o Mar Vermelho atrav\u00e9s das mesmas t\u00e1ticas no estreito de Bab al-Mandeb. Os EUA constru\u00edram uma coliga\u00e7\u00e3o e realizaram uma campanha a\u00e9rea para reduzir as capacidades dos Houthis,\u00a0 mas n\u00e3o conseguiram impedir todos os lan\u00e7amentos nem restaurar a confian\u00e7a dos transportadores comerciais para utilizarem a passagem. Os Houthis s\u00f3 deixaram de disparar depois de chegarem a um acordo com Washington.<\/p>\n<p>Hoje, os EUA enfrentar\u00e3o o mesmo problema: uma miss\u00e3o demorada, dispendiosa e extremamente dif\u00edcil para negar ao Ir\u00e3o a capacidade de atacar com drones e m\u00edsseis de cruzeiro, que podem ser lan\u00e7ados a mais de 1.000 quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia. \u00c9 uma miss\u00e3o cl\u00e1ssica de procurar uma agulha num palheiro.<\/p>\n<p>S\u00f3 que este problema \u00e9 muito pior. O Bab al-Mandeb representa 10% do transporte mar\u00edtimo mundial. Isso \u00e9 suficiente para aumentar um pouco a infla\u00e7\u00e3o. Ormuz representa 20% do com\u00e9rcio mundial de energia. Isso \u00e9 suficiente, como afirmou o presidente Donald Trump antes de anunciar um acordo de curta dura\u00e7\u00e3o com o Ir\u00e3o, para provocar uma &#8220;cat\u00e1strofe econ\u00f3mica&#8221;.<\/p>\n<p>A longo prazo: vantagem dos EUA <\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia do Ir\u00e3o consiste em aumentar o pre\u00e7o da energia a n\u00edvel mundial para pressionar a Casa Branca a ceder totalmente o controlo do estreito. No entanto, as suas t\u00e1ticas, com ataques a navios civis e em todo o Golfo, est\u00e3o a provocar uma rea\u00e7\u00e3o de longo prazo que acabar\u00e1 por funcionar contra o pr\u00f3prio Ir\u00e3o.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/6a635390d34e511da0b2f826.webp\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>   Imagens de sat\u00e9lite parecem mostrar o petroleiro saudita\u00a0Encelia\u00a0em chamas ap\u00f3s ter sido atingido no Mar Vermelho. (NASA Worldview) <\/p>\n<p>Em todo o M\u00e9dio Oriente, governos e empresas energ\u00e9ticas est\u00e3o a acelerar a constru\u00e7\u00e3o de oleodutos, portos e corredores de transporte concebidos para movimentar petr\u00f3leo, g\u00e1s e mercadorias \u00e0 volta de Ormuz, em vez de atrav\u00e9s dele. Os EUA est\u00e3o agora a apoiar diretamente estas iniciativas.<\/p>\n<p>O estreito continuar\u00e1 a ser importante. Mas, pela primeira vez em d\u00e9cadas, a regi\u00e3o est\u00e1 a investir seriamente num futuro no qual poder\u00e1 deixar de ser indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>O mapa energ\u00e9tico do M\u00e9dio Oriente est\u00e1 a ser redesenhado especificamente para reduzir a influ\u00eancia do Ir\u00e3o sobre este ponto estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>O novo mapa <\/p>\n<p>Vejamos ao detalhe. Antes da guerra, aproximadamente 23 milh\u00f5es de barris de produtos energ\u00e9ticos por dia passavam pelo Estreito de Ormuz. Era o \u00fanico ponto de estrangulamento para as exporta\u00e7\u00f5es do Iraque, Kuwait, Catar e Bahrain, e a principal rota de tr\u00e2nsito para produtos provenientes da Ar\u00e1bia Saudita e dos Emirados \u00c1rabes Unidos.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"1068\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/6a635bf8d34e511da0b2f836.webp\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>Agora, os governos est\u00e3o a preparar-se para um futuro em que Ormuz poder\u00e1 fechar periodicamente ou permanecer comercialmente pouco fi\u00e1vel. Isto altera a equa\u00e7\u00e3o. Em vez de um \u00fanico ponto de estrangulamento indispens\u00e1vel, os Estados est\u00e3o a investir num sistema de m\u00faltiplas rotas de exporta\u00e7\u00e3o que pode reduzir gradualmente a influ\u00eancia do Ir\u00e3o.<\/p>\n<p>Estes projetos n\u00e3o v\u00e3o substituir todos os barris que passavam por Ormuz antes da guerra, mas reduzir\u00e3o significativamente a sua import\u00e2ncia. A Goldman Sachs estimou recentemente que as rotas alternativas existentes ou novas poder\u00e3o, at\u00e9 ao final de 2028, transportar cerca de 60% do petr\u00f3leo que normalmente atravessa o estreito.<\/p>\n<p>Considere-se os seguintes projetos que est\u00e3o a avan\u00e7ar devido \u00e0 guerra:<\/p>\n<ul>\n<li>\n<p><strong>Ar\u00e1bia Saudita (9 milh\u00f5es):<\/strong> A \u00faltima vez que o Ir\u00e3o contestou o Estreito de Ormuz foi h\u00e1 quatro d\u00e9cadas, durante a guerra Ir\u00e3o-Iraque. Na altura, a Ar\u00e1bia Saudita decidiu investir milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares num oleoduto &#8220;este-oeste&#8221; atrav\u00e9s do seu territ\u00f3rio, desde as prov\u00edncias produtoras de petr\u00f3leo at\u00e9 ao Mar Vermelho. Durante a atual crise, este oleoduto forneceu al\u00edvio ao mercado mundial com aproximadamente sete milh\u00f5es de barris de exporta\u00e7\u00f5es por dia. A Ar\u00e1bia Saudita anunciou entretanto uma expans\u00e3o deste sistema de oleodutos para acrescentar mais um a dois milh\u00f5es de barris por dia at\u00e9 ao final de 2029, aumentando a capacidade total de desvio de Ormuz para at\u00e9 nove milh\u00f5es de barris por dia.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p><strong>Emirados \u00c1rabes Unidos (3,6 milh\u00f5es):<\/strong> Os Emirados \u00c1rabes Unidos tamb\u00e9m possuem um porto e um oleoduto existentes a sul de Ormuz, que atualmente fornecem at\u00e9 1,8 milh\u00f5es de barris. O pa\u00eds anunciou desde ent\u00e3o um enorme programa de expans\u00e3o para duplicar esta capacidade at\u00e9 ao final de 2027, atingindo um total de 3,6 milh\u00f5es de barris por dia.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p><strong>Iraque-S\u00edria (2-3 milh\u00f5es):<\/strong> Na semana passada, o novo primeiro-ministro do Iraque visitou a Casa Branca e anunciou investimentos de dezenas de milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares em empresas petrol\u00edferas norte-americanas, em coordena\u00e7\u00e3o com a S\u00edria, para recuperar oleodutos inativos e integrar novas linhas para exportar petr\u00f3leo iraquiano e kuwaitiano para o Mediterr\u00e2neo. O enviado de Trump para o Iraque e a S\u00edria, Tom Barrack, afirmou que os projetos pretendem tornar Ormuz &#8220;uma quest\u00e3o secund\u00e1ria&#8221;, com conclus\u00e3o prevista por volta de 2030. Eu n\u00e3o iria t\u00e3o longe, mas deslocar os vastos recursos energ\u00e9ticos do Iraque para oeste, em vez de sul, atrav\u00e9s de Ormuz seria uma mudan\u00e7a decisiva.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p><strong>Iraque-Turquia (1 milh\u00e3o):<\/strong> Os projetos iraquianos incluem a recupera\u00e7\u00e3o deste oleoduto existente, mas frequentemente inativo, que liga Kirkuk, no Iraque, a Ceyhan, na costa mediterr\u00e2nica da Turquia. Afetada durante anos por disputas pol\u00edticas entre Ancara e Bagdade, a nova procura mundial est\u00e1 novamente a colocar esta rota de exporta\u00e7\u00e3o no centro das aten\u00e7\u00f5es como um recurso essencial e lucrativo.<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p><strong>Iraque-Jord\u00e2nia (1-2,5 milh\u00f5es):<\/strong> O governo do Iraque est\u00e1 tamb\u00e9m a acelerar os planos para um oleoduto de petr\u00f3leo para a Jord\u00e2nia. Este oleoduto ligaria Basra a Haditha, no oeste do Iraque, com uma deriva\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao porto jordano de Aqaba e exportaria atrav\u00e9s do Mar Vermelho para os mercados mundiais. Embora tenha sido discutido durante muito tempo, os governos jordano e iraquiano anunciaram no in\u00edcio deste m\u00eas planos para acelerar o seu desenvolvimento devido \u00e0 crise no Estreito de Ormuz.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>Tudo isto \u00e9 apenas o in\u00edcio, \u00e0 medida que estes e outros projetos avan\u00e7am para contornar Ormuz. A Ar\u00e1bia Saudita tamb\u00e9m est\u00e1 a discutir uma rota a norte para transportar carregamentos at\u00e9 Aqaba ou mais para norte, atrav\u00e9s da Turquia, para chegar ao Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 algo sem precedentes <\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/6a635390d34ef04b4f3f8b02.webp\" width=\"800\"\/> <\/p>\n<p>   Trabalhadores colocam uma sec\u00e7\u00e3o do oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan junto ao terminal de Sangachal, perto de Baku, a 11 de agosto de 2003. (Riza Ozel\/AFP\/Getty Images\/Arquivo) <\/p>\n<p>Existe um importante precedente hist\u00f3rico. Ap\u00f3s o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, os EUA propuseram um ambicioso oleoduto que atravessaria o Azerbaij\u00e3o, a Ge\u00f3rgia e a Turquia at\u00e9 ao Mediterr\u00e2neo. Conhecido como projeto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC), exigiu milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares em investimentos e anos de diplomacia norte-americana sustentada entre diferentes administra\u00e7\u00f5es. Inicialmente, muitos especialistas consideraram o BTC demasiado ambicioso (estende-se por mais de 1.000 quil\u00f3metros), demasiado caro e politicamente imposs\u00edvel. A hist\u00f3ria provou o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Quando ficou conclu\u00eddo em 2006, o BTC reduziu permanentemente a depend\u00eancia das rotas de exporta\u00e7\u00e3o controladas pela R\u00fassia e demonstrou que as infraestruturas energ\u00e9ticas podem remodelar a pol\u00edtica mundial tanto quanto as alian\u00e7as militares.<\/p>\n<p>Em contraste, a Europa fez a escolha estrat\u00e9gica oposta, mantendo uma forte depend\u00eancia da energia e dos oleodutos russos. Moscovo transformou mais tarde essa depend\u00eancia em influ\u00eancia &#8211; uma li\u00e7\u00e3o que os atuais Estados do Golfo parecem determinados a n\u00e3o repetir em rela\u00e7\u00e3o ao Ir\u00e3o.<\/p>\n<p>Dire\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica <\/p>\n<p>Estas novas redes de parcerias e oleodutos v\u00e3o enfrentar desafios e contratempos. O Ir\u00e3o poder\u00e1 atacar oleodutos fixos e atrasar a sua constru\u00e7\u00e3o. Poder\u00e1 existir burocracia ou dificuldades de financiamento. Mas, em conjunto, revelam uma dire\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica que dificilmente ser\u00e1 revertida.<\/p>\n<p>As capitais do M\u00e9dio Oriente que antes assumiam que Ormuz permaneceria sempre aberto est\u00e3o agora a planear a possibilidade de isso deixar de acontecer. Rotas de exporta\u00e7\u00e3o resistentes e redundantes tornaram-se imperativos de seguran\u00e7a nacional, apoiados por lideran\u00e7as e fundos soberanos, com apoio e assist\u00eancia dos EUA.<\/p>\n<p>Novo destino: redund\u00e2ncia <\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia do Ir\u00e3o depende, em \u00faltima an\u00e1lise, da suposi\u00e7\u00e3o de que o mundo n\u00e3o tem uma alternativa pr\u00e1tica ao Estreito de Ormuz. Poder\u00e1 acabar por descobrir que, ao transformar esta passagem numa arma, convenceu os seus vizinhos a construir uma regi\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o dependa dele.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um resultado que Washington &#8211; e os seus aliados &#8211; devem ajudar ativamente a concretizar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Est\u00e1 em curso uma aut\u00eantica corrida aos oleodutos. 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