{"id":46250,"date":"2025-08-26T18:38:08","date_gmt":"2025-08-26T18:38:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/46250\/"},"modified":"2025-08-26T18:38:08","modified_gmt":"2025-08-26T18:38:08","slug":"a-pilula-magica-que-cura-tudo-da-gordura-no-figado-a-falta-de-vontade-jornal-da-usp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/46250\/","title":{"rendered":"a p\u00edlula m\u00e1gica que cura tudo, da gordura no f\u00edgado \u00e0 falta de vontade? \u2013 Jornal da USP"},"content":{"rendered":"<p>Por Hamilton Roschel, coordenador do grupo de pesquisa em Fisiologia Aplicada e Nutri\u00e7\u00e3o da Escola de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica e Esporte e da Faculdade de Medicina da USP<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-727581\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/chapeu_articulista_hamilton-roschel.jpg\" alt=\"\" width=\"788\" height=\"72\"  \/>Se existe um assunto que tomou de assalto as rodas de conversa, as redes sociais e at\u00e9 mesmo as piadas de stand-up nos \u00faltimos tempos \u00e9 a tal da \u201ccanetinha milagrosa\u201d. Ozempic, Wegovy, Mounjaro\u2026 nomes que, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, eram restritos aos c\u00edrculos m\u00e9dicos e de pacientes com diabetes tipo 2, hoje s\u00e3o sin\u00f4nimos de emagrecimento r\u00e1pido e, para alguns, a promessa de um corpo \u201cperfeito\u201d sem esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>A demanda explodiu, a ponto de faltar medicamento para quem realmente precisa para controlar a glicemia. Virou febre, modismo, quase um acess\u00f3rio de status. Mas, como costuma acontecer na ci\u00eancia e na medicina, a hist\u00f3ria \u00e9 bem mais complexa do que o marketing ou o boca-a-boca sugerem. Enquanto a sociedade debate a \u00e9tica do uso \u201cest\u00e9tico\u201d e os padr\u00f5es de beleza irreais, a pesquisa cient\u00edfica avan\u00e7a a passos largos, descobrindo que esses medicamentos, conhecidos como agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1 RAs), podem ter efeitos que v\u00e3o muito al\u00e9m do controle do a\u00e7\u00facar no sangue e da perda de peso.<\/p>\n<p>Doen\u00e7as do f\u00edgado, problemas cardiovasculares, talvez at\u00e9 condi\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas\u2026 a lista de potenciais benef\u00edcios parece crescer a cada novo estudo. Seriam eles, ent\u00e3o, a panaceia do s\u00e9culo 21? Ou estamos diante de mais um ciclo de entusiasmo exagerado, que pode esconder riscos e complexidades ainda n\u00e3o totalmente compreendidos? Vamos tentar separar o joio do trigo (ou a semaglutida da solu\u00e7\u00e3o simplista).<\/p>\n<p><strong>Entendendo os agonistas GLP-1: mais que emagrecimento<\/strong><\/p>\n<p>O GLP-1 (pept\u00eddeo-1 semelhante ao glucagon) \u00e9 um horm\u00f4nio que produzimos naturalmente no intestino ap\u00f3s as refei\u00e7\u00f5es. Ele tem m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es: estimula a secre\u00e7\u00e3o de insulina pelo p\u00e2ncreas (ajudando a baixar a glicose no sangue), diminui a produ\u00e7\u00e3o de glucagon (outro horm\u00f4nio que aumenta a glicose), retarda o esvaziamento do est\u00f4mago e aumenta a sensa\u00e7\u00e3o de saciedade no c\u00e9rebro. Os medicamentos como a semaglutida (Ozempic\/Wegovy), liraglutida (Saxenda\/Victoza) e tirzepatida (Mounjaro\/Zepbound \u2013 que tamb\u00e9m atua em outro receptor, o GIP) mimetizam ou potencializam a a\u00e7\u00e3o desse horm\u00f4nio natural. Inicialmente desenvolvidos para diabetes tipo 2, seu potente efeito na redu\u00e7\u00e3o do apetite e na perda de peso levou \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o do seu uso tamb\u00e9m para o tratamento da obesidade, com resultados impressionantes, diga-se. Mas a ci\u00eancia n\u00e3o parou por a\u00ed. Pesquisadores come\u00e7aram a observar outros efeitos desses medicamentos\u2026<\/p>\n<p><strong>O f\u00edgado agradece? O potencial contra a gordura hep\u00e1tica <\/strong><\/p>\n<p>Uma das \u00e1reas mais promissoras \u00e9 o tratamento da doen\u00e7a hep\u00e1tica gordurosa associada \u00e0 disfun\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica (MASLD, antiga NAFLD) e sua forma mais grave e inflamat\u00f3ria, a esteato-hepatite associada \u00e0 disfun\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica (MASH, antiga NASH). Essa condi\u00e7\u00e3o, intimamente ligada \u00e0 obesidade e \u00e0 s\u00edndrome metab\u00f3lica, \u00e9 caracterizada pelo ac\u00famulo de gordura no f\u00edgado, podendo levar \u00e0 fibrose, cirrose e c\u00e2ncer de f\u00edgado. At\u00e9 recentemente, n\u00e3o havia tratamento medicamentoso aprovado especificamente para MASH.<\/p>\n<p>Estudos recentes, incluindo pesquisas destacadas em publica\u00e7\u00f5es como Nature Medicine e apresentadas em congressos m\u00e9dicos, sugerem que a semaglutida pode ser eficaz na resolu\u00e7\u00e3o da MASH e na melhora da fibrose hep\u00e1tica. Um estudo internacional recente, por exemplo, mostrou que a semaglutida conseguiu reverter danos hep\u00e1ticos em pacientes com MASH. Os mecanismos exatos ainda est\u00e3o sendo elucidados, mas provavelmente envolvem a redu\u00e7\u00e3o da inflama\u00e7\u00e3o, do estresse oxidativo e da pr\u00f3pria gordura no f\u00edgado, al\u00e9m dos efeitos ben\u00e9ficos no controle glic\u00eamico e no peso corporal.<\/p>\n<p>Isso abre uma nova perspectiva terap\u00eautica para milh\u00f5es de pessoas com doen\u00e7a hep\u00e1tica gordurosa, uma epidemia silenciosa que acompanha a de obesidade e diabetes. Mas, claro, ainda s\u00e3o necess\u00e1rios estudos maiores e de longo prazo para confirmar esses achados e entender completamente o papel desses medicamentos no manejo da MASH.<\/p>\n<p><strong>Outros horizontes<\/strong><\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es n\u00e3o param no f\u00edgado. H\u00e1 evid\u00eancias crescentes de que os GLP-1 RAs oferecem prote\u00e7\u00e3o cardiovascular, reduzindo o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular em pacientes com diabetes tipo 2 e\/ou obesidade. Alguns estudos sugerem at\u00e9 benef\u00edcios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fun\u00e7\u00e3o renal e poss\u00edveis efeitos neuroprotetores, embora estes \u00faltimos ainda sejam bem mais especulativos. Pesquisas recentes publicadas mapearam uma vasta gama de associa\u00e7\u00f5es, mostrando potenciais benef\u00edcios na sa\u00fade cognitiva e comportamental, mas tamb\u00e9m levantando alertas sobre certos riscos envolvendo com o uso dos medicamentos.<\/p>\n<p><strong>A calma necess\u00e1ria: nem tudo \u00e9 na base da \u201ccanetinha\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Diante de tanto potencial, \u00e9 f\u00e1cil cair na armadilha do entusiasmo desmedido. No entanto, \u00e9 crucial manter uma perspectiva cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao outro lado da moeda.<\/p>\n<p>Os GLP-1 RAs n\u00e3o s\u00e3o isentos de efeitos adversos. Os mais comuns s\u00e3o os j\u00e1 bem relatados efeitos gastrointestinais (n\u00e1useas, v\u00f4mitos, diarreia, constipa\u00e7\u00e3o). Embora geralmente manej\u00e1veis, podem ser intensos para alguns pacientes. H\u00e1 tamb\u00e9m preocupa\u00e7\u00f5es mais raras, por\u00e9m s\u00e9rias, como pancreatite e, em estudos com roedores, tumores de c\u00e9lulas C da tireoide (cuja relev\u00e2ncia para humanos ainda \u00e9 debatida).<\/p>\n<p>Relatos aned\u00f3ticos e alguns sinais em bancos de dados de farmacovigil\u00e2ncia levantaram preocupa\u00e7\u00f5es sobre um poss\u00edvel aumento no risco de idea\u00e7\u00e3o suicida. Estudos maiores e mais controlados, at\u00e9 o momento, n\u00e3o confirmaram essa associa\u00e7\u00e3o causal, mas a vigil\u00e2ncia continua sendo necess\u00e1ria, especialmente em pacientes com hist\u00f3rico psiqui\u00e1trico.<\/p>\n<p>A perda de peso induzida por esses medicamentos n\u00e3o \u00e9 apenas de gordura, mas tamb\u00e9m de massa magra, o que pode ser problem\u00e1tico, especialmente em idosos, se n\u00e3o for acompanhada de exerc\u00edcios de for\u00e7a e ingest\u00e3o proteica adequada (mais sobre isso em um artigo futuro).<\/p>\n<p>E o que acontece quando se para o uso do medicamento? Na maioria dos casos, o peso perdido \u00e9 recuperado, pelo menos parcialmente. Isso levanta quest\u00f5es sobre a necessidade de uso cr\u00f4nico (talvez vital\u00edcio?) e a sustentabilidade financeira e de sa\u00fade a longo prazo.<\/p>\n<p>Quest\u00f5es relacionadas ao acesso e equidade tamb\u00e9m permeiam o t\u00f3pico. S\u00e3o medicamentos caros. Quem pode pagar? Seu uso crescente exacerba as desigualdades em sa\u00fade? Como garantir o acesso para quem realmente tem indica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, como pacientes com diabetes ou obesidade grave com MASH, em detrimento do uso puramente est\u00e9tico?<\/p>\n<p>Resta claro que os GLP-1 RAs n\u00e3o s\u00e3o solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas. Nenhum medicamento parece ser capaz de substituir, em sua integralidade, a multitude e pot\u00eancia de efeitos de um estilo de vida saud\u00e1vel. Alimenta\u00e7\u00e3o equilibrada e atividade f\u00edsica continuam sendo pilares fundamentais para a boa sa\u00fade. Reduzir a obesidade e suas complica\u00e7\u00f5es a uma inje\u00e7\u00e3o parece contraproducente frente \u00e0 complexidade do problema.<\/p>\n<p>Os agonistas do GLP-1 representam, sem d\u00favida, um avan\u00e7o farmacol\u00f3gico not\u00e1vel, com um potencial terap\u00eautico que parece se expandir para al\u00e9m de suas indica\u00e7\u00f5es originais. A perspectiva de tratar eficazmente a MASH ou reduzir o risco cardiovascular \u00e9 animadora. Contudo, a euforia midi\u00e1tica e a busca incessante por solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas para problemas complexos como a obesidade nos cegam para as nuances, os riscos e as quest\u00f5es sociais envolvidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o, o Ozempic (e sua turma) n\u00e3o \u00e9 a p\u00edlula m\u00e1gica que vai curar todos os males do estilo de vida moderno. \u00c9 uma ferramenta poderosa, sim, mas que exige conhecimento, crit\u00e9rio m\u00e9dico, acompanhamento cuidadoso e, acima de tudo, uma discuss\u00e3o honesta sobre seus benef\u00edcios, riscos, custos e o lugar que ocupa (ou deveria ocupar) na nossa sociedade obcecada pela magreza e pela gratifica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea. Assim, pol\u00edticas focadas em construir ambientes que promovam, de fato, sa\u00fade e bem-estar para todos, com ou sem canetinha, s\u00e3o imperativas.<\/p>\n<p>_______________<br \/>(As opini\u00f5es expressas pelos articulistas do <strong>Jornal da USP<\/strong> s\u00e3o de inteira responsabilidade de seus autores e n\u00e3o refletem opini\u00f5es do ve\u00edculo nem posi\u00e7\u00f5es institucionais da Universidade de S\u00e3o Paulo. Acesse aqui nossos <a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/noticias\/parametros-editoriais-para-artigos-de-opiniao-no-jornal-da-usp\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">par\u00e2metros editoriais para artigos de opini\u00e3o<\/a>.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Hamilton Roschel, coordenador do grupo de pesquisa em Fisiologia Aplicada e Nutri\u00e7\u00e3o da Escola de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":46251,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[116,32,33,117],"class_list":{"0":"post-46250","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-health","9":"tag-portugal","10":"tag-pt","11":"tag-saude"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46250","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46250"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46250\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46251"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46250"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46250"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46250"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}