{"id":465477,"date":"2026-07-28T16:24:21","date_gmt":"2026-07-28T16:24:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/465477\/"},"modified":"2026-07-28T16:24:21","modified_gmt":"2026-07-28T16:24:21","slug":"episodio-1-ha-uma-toupeira-a-solta-no-sis-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/465477\/","title":{"rendered":"Epis\u00f3dio 1. H\u00e1 uma toupeira \u00e0 solta no SIS \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Esta transcri\u00e7\u00e3o foi gerada automaticamente por Intelig\u00eancia Artificial e pode conter erros ou imprecis\u00f5es.<\/p>\n<p>Os dois homens chegam juntos ao Caf\u00e9 Number One, em Roma. Pedem duas cervejas e sentam-se numa mesa junto \u00e0 porta. Um deles, o mais novo, tem vis\u00e3o direta para uma das principais avenidas da capital italiana, na zona de Trastevere. Est\u00e1 um dia agrad\u00e1vel. Neste final de maio de 2016, a temperatura est\u00e1 perto dos 27 graus. \u00c9 um dos dias mais quentes do m\u00eas. \u00c9 quase 13h e o caf\u00e9 est\u00e1 praticamente deserto. Uma mulher entra e vai direto ao balc\u00e3o. O homem mais novo move ligeiramente a cabe\u00e7a para a esquerda, na dire\u00e7\u00e3o dela. Mas rapidamente perde o interesse. Deve ser s\u00f3 mais uma cliente. E volta a concentrar-se na conversa. Na realidade, aquela mulher n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mais uma cliente. Faz parte de uma megaopera\u00e7\u00e3o policial que junta quase 30 inspetores de dois pa\u00edses e ainda oficiais de liga\u00e7\u00e3o da Interpol. H\u00e1 tr\u00eas horas que seguem um daqueles homens pelas ruas da cidade. Agora, observam com muita aten\u00e7\u00e3o cada movimento dos dois. E avaliam o momento certo para avan\u00e7ar. O mais velho agarra numa caneta e escreve alguns nomes na folha que tem \u00e0 frente. De seguida, desliza-a pelo tampo de castanho da mesa. O outro pega na folha e l\u00ea com aten\u00e7\u00e3o. Depois, guarda o papel numa pasta de pl\u00e1stico azul. E finalmente coloca a pasta dentro de uma mochila cinzenta. L\u00e1 fora, veste-se um nervosismo entre os inspetores que lideram a vigil\u00e2ncia. Sentem que est\u00e3o ali h\u00e1 demasiado tempo. Temem ser descobertos. A inspetora que acaba de entrar no caf\u00e9 nem sequer foi a primeira a aproximar-se dos dois homens. Eles podem come\u00e7ar a suspeitar de alguma coisa. \u00c9 preciso tomar uma decis\u00e3o. Esperar, mesmo que seja s\u00f3 mais um pouco, pode comprometer uma investiga\u00e7\u00e3o que j\u00e1 dura h\u00e1 seis meses. At\u00e9 agora, nenhum dos suspeitos se apercebeu de que est\u00e3o a ser observados, mas o risco \u00e9 enorme. Eles foram treinados precisamente para detetar opera\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia. S\u00e3o ambos espi\u00f5es. O homem mais novo \u00e9 russo, o mais velho \u00e9 portugu\u00eas. Frederico Carvalh\u00e3o Gil. \u00c9 um dos agentes mais antigos das secretas portuguesas. Est\u00e1 h\u00e1 quase 30 anos no SIS, os Servi\u00e7os de Informa\u00e7\u00f5es e Seguran\u00e7a. Passou por quase todas as \u00e1reas da espionagem. Foi subindo na hierarquia e chegou rapidamente a um cargo de responsabilidade. Mas no final da d\u00e9cada de 1990, durante uma miss\u00e3o em Israel, cometeu uma falha considerada muito grave e a consequ\u00eancia foi dura: despromo\u00e7\u00e3o imediata. A partir desse momento, a carreira dele estagnou. Agora, quase 20 anos mais tarde, o caso \u00e9 ainda mais grave. Ele \u00e9 o alvo de uma opera\u00e7\u00e3o sem paralelo nas secretas portuguesas. \u00c9 suspeito de ter passado documentos classificados da NATO e segredos do Estado portugu\u00eas \u00e0 R\u00fassia. Numa investiga\u00e7\u00e3o que se vai prolongar por v\u00e1rios meses e vai envolver tamb\u00e9m as secretas eslovenas, a pol\u00edcia italiana, a Interpol e a CIA, a Pol\u00edcia Judici\u00e1ria vai descobrir a vida dupla de Frederico Carvalh\u00e3o Gil. As idas di\u00e1rias a bares de striptease, as rela\u00e7\u00f5es com mulheres da Europa de Leste, as liga\u00e7\u00f5es \u00e0 ma\u00e7onaria, o dinheiro vivo escondido em casa e os encontros com um agente russo. Sobre Carvalh\u00e3o Gil paira a suspeita mais grave para um espi\u00e3o: a de ser um traidor ao servi\u00e7o de Vladimir Putin. A vida dupla do espi\u00e3o traidor \u00e9 uma s\u00e9rie para ouvir em seis epis\u00f3dios que faz parte dos podcast plus do Observador. \u00c9 narrada por mim, Ivo Canelas, com banda sonora original de Bruno Pernadas. Epis\u00f3dio um: h\u00e1 uma toupeira \u00e0 solta no SIS.<\/p>\n<p>Conhecer a verdade muda tudo. Muda hist\u00f3rias, muda caminhos. Na estrada, tamb\u00e9m h\u00e1 escolhas que fazem a diferen\u00e7a. A gama el\u00e9trica Kia tem cinco modelos, com op\u00e7\u00f5es para todos os estilos de condu\u00e7\u00e3o e momentos da vida. Uma nova forma de avan\u00e7ar com liberdade em mais de 600 km de autonomia. Gama el\u00e9trica Kia. El\u00e9tricos sem limites. Kia. Movement that inspires.<\/p>\n<p>Dezanove de junho de 2015. Forte da Ameixoeira, Lisboa. Ainda falta quase um ano para aquele encontro clandestino em Roma. No gabinete do diretor-geral do SIS, no hist\u00f3rico complexo militar que agora \u00e9 a sede dos Servi\u00e7os de Informa\u00e7\u00f5es portugueses, a secret\u00e1ria avisa Neiva da Cruz. A mulher de quem tem estado \u00e0 espera acaba de chegar ao edif\u00edcio. A informa\u00e7\u00e3o que traz \u00e9 cr\u00edtica para as secretas portuguesas. A mensagem tem de ser entregue com a maior brevidade. Levam-na pelos t\u00faneis que conduzem at\u00e9 ao gabinete do diretor-geral do SIS. As paredes brancas s\u00e3o iluminadas por uma luz t\u00e9nue. O caminho pode tornar-se labir\u00edntico para quem n\u00e3o conhece aquele emaranhado de corredores. A mulher passa por tr\u00eas portas. Primeiro, uma de vidro. Depois, uma de madeira, \u00e0 esquerda. Por fim, outra, agora \u00e0 direita. Chega finalmente ao gabinete do respons\u00e1vel m\u00e1ximo do SIS. Est\u00e1 ali em representa\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o de informa\u00e7\u00f5es estrangeiro. \u00c9 funcion\u00e1ria das secretas norte-americanas. Trabalha pra CIA. Na m\u00e3o, traz uma pasta simples. L\u00e1 dentro, guardou uma folha. E nessa folha est\u00e1 escrito um nome. Depois de um breve cumprimento, Neiva da Cruz sugere-lhe que se sentem nos sof\u00e1s pretos a um dos cantos da sala. A espia n\u00e3o perde tempo e estende a pasta ao diretor do SIS. Neiva da Cruz abre-a e l\u00ea: &#8220;Frederico Carvalh\u00e3o Gil&#8221;. O diretor reconhece o nome de imediato. Carvalh\u00e3o Gil foi um dos primeiros funcion\u00e1rios a entrar para as secretas. Est\u00e1 no SIS desde 1987 e j\u00e1 exerceu altas responsabilidades nos Servi\u00e7os de Informa\u00e7\u00f5es. O semblante da agente da CIA \u00e9 pesado. Al\u00e9m daquele nome, tem uma mensagem pra entregar. \u00c9 imperativo que o alerta seja claro. A lealdade daquele espi\u00e3o tem de ser verificada. A CIA recebeu informa\u00e7\u00f5es de que Carvalh\u00e3o Gil se encontrou com agentes do SVR, a ag\u00eancia internacional dos servi\u00e7os secretos russos. E n\u00e3o \u00e9 de agora. J\u00e1 acontece h\u00e1 anos. H\u00e1 fortes suspeitas de que foi virado. Na g\u00edria dos Servi\u00e7os de Informa\u00e7\u00f5es, a express\u00e3o &#8220;virado&#8221; \u00e9 sin\u00f4nimo de trai\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso que est\u00e1 ali em causa. Carvalh\u00e3o Gil est\u00e1 a ser sinalizado por haver evid\u00eancias claras de que est\u00e1 a ser controlado por um servi\u00e7o de informa\u00e7\u00f5es estrangeiro. E n\u00e3o \u00e9 um servi\u00e7o qualquer. Carvalh\u00e3o Gil estar\u00e1 a ser controlado pelas secretas russas. Vendeu-se ao SVR. O que o diretor das secretas acaba de ouvir n\u00e3o \u00e9 uma surpresa total. Na verdade, h\u00e1 tr\u00eas meses que a suspeita paira pelo Forte da Ameixoeira. Alguma coisa mudou desde o in\u00edcio de 2015. Foi a partir dessa altura que, subitamente, algumas opera\u00e7\u00f5es das secretas portuguesas come\u00e7aram a falhar. Aconteceu em momentos que deviam ser de pura rotina, de recolha de informa\u00e7\u00e3o sobre figuras de interesse. Podia ser um elemento do corpo diplom\u00e1tico, um empres\u00e1rio ou at\u00e9 um jornalista Os relat\u00f3rios de v\u00e1rias dessas opera\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a referir, uma e outra vez, que os alvos n\u00e3o apareciam onde eram esperados. N\u00e3o existia encontro. E havia um dado comum a todas essas opera\u00e7\u00f5es fracassadas. De uma forma ou de outra, todos os alvos tinham algum tipo de rela\u00e7\u00e3o com a Federa\u00e7\u00e3o Russa. O que estava a acontecer n\u00e3o era normal e a c\u00fapula do SIS come\u00e7ou a questionar-se sobre a situa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 havia uma explica\u00e7\u00e3o: os alvos sabiam que estavam a ser vigiados. E isso s\u00f3 era poss\u00edvel se algu\u00e9m dos pr\u00f3prios servi\u00e7os estivesse a passar informa\u00e7\u00f5es para o exterior. A conclus\u00e3o era alarmante. Havia uma toupeira nas secretas portuguesas. O assunto foi discutido ao mais alto n\u00edvel. O momento era sens\u00edvel. Um dos mais sens\u00edveis das \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. O caso foi mantido num c\u00edrculo absolutamente restrito. J\u00falio Pereira, o secret\u00e1rio-geral do Sistema de Informa\u00e7\u00f5es da Rep\u00fablica Portuguesa, que manda em todos os servi\u00e7os secretos do pa\u00eds. Neiva da Cruz, diretor do SIS, e o bra\u00e7o direito dele, Gil Vicente. Havia um grupo muito reduzido de agentes suspeitos. Entre eles, estava Carvalh\u00e3o Gil. Quando chega a confirma\u00e7\u00e3o da CIA, o espi\u00e3o est\u00e1 colocado como analista no Departamento de Contraterrorismo das Secretas. Foi-lhe atribu\u00edda, h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, a pasta dos Balc\u00e3s e da \u00c1sia Central. S\u00f3 que paralelamente, ele tamb\u00e9m \u00e9 o representante do SIS nos exerc\u00edcios de gest\u00e3o de crises da NATO. E isso garante-lhe acesso direto a informa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel sobre como os v\u00e1rios membros da organiza\u00e7\u00e3o militar respondem a eventos cr\u00edticos. Se as suspeitas se confirmarem, o espi\u00e3o portugu\u00eas conseguiu ter acesso a estes documentos secretos da NATO e entregou-os a uma pot\u00eancia estrangeira. \u00c9 preciso isol\u00e1-lo, sem que Carvalh\u00e3o Gil se aperceba do que est\u00e1 a acontecer. A solu\u00e7\u00e3o passa por lhe atribuir uma miss\u00e3o especial. Ao longo dos pr\u00f3ximos meses, vai ocupar-se de um \u00fanico tema. \u00c9 um pedido direto e especial da chefia do SIS. O assunto, explicam-lhe, \u00e9 delicado e s\u00f3 ele pode resolv\u00ea-lo. Neiva da Cruz pede-lhe dedica\u00e7\u00e3o total. \u00c9 uma solu\u00e7\u00e3o de fachada, que permite afast\u00e1-lo das informa\u00e7\u00f5es mais sens\u00edveis a que tinha acesso at\u00e9 este momento. Informa\u00e7\u00f5es que podem comprometer a seguran\u00e7a da pr\u00f3pria NATO. E tamb\u00e9m permite aos servi\u00e7os ganhar algum tempo e recolher mais informa\u00e7\u00e3o. Assegurar-se de que o caso \u00e9 s\u00f3lido. Na teoria, o plano n\u00e3o levanta d\u00favidas. Na pr\u00e1tica, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente. E a dire\u00e7\u00e3o das secretas vai ter uma dificuldade acrescida. No SIS, mais ningu\u00e9m sabe que ele est\u00e1 a ser investigado. Todos os dias, Carvalh\u00e3o Gil entra no forte da Ameixoeira e continua a sentar-se, como \u00e9 normal, ao lado dos colegas no departamento de Contraterrorismo. Colegas que, ao contr\u00e1rio do que est\u00e1 a acontecer com ele, continuam a ter acesso permanente a informa\u00e7\u00f5es classificadas. E se o espi\u00e3o mostra interesse em ler certos documentos, os colegas passam-lhe essas informa\u00e7\u00f5es. Para eles, n\u00e3o h\u00e1 nada de estranho nisso. Carvalh\u00e3o Gil n\u00e3o pode desconfiar que tem um alvo nas costas, para n\u00e3o comprometer a investiga\u00e7\u00e3o interna. J\u00falio Pereira, o diretor do SIRP, quer faz\u00ea-lo pagar por aquela trai\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso juntar informa\u00e7\u00f5es concretas \u00e0 den\u00fancia que as secretas norte-americanas fizeram ao SIS. E \u00e9 preciso recolher provas que possam ser usadas em tribunal. Em que momentos o espi\u00e3o esteve fora do servi\u00e7o? Quando tirou f\u00e9rias? E em que per\u00edodo pediu para ficar de folga? Por onde \u00e9 que ele andou? Que viagens fez? Durante quanto tempo? Cada uma dessas perguntas vai ter direito a uma resposta. \u00c9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo. S\u00e3o descobertas cinco desloca\u00e7\u00f5es suspeitas entre 2011 e 2015. O SIS sabe agora que nos \u00faltimos quatro anos, Carvalh\u00e3o Gil esteve em Marrocos, na Eslov\u00e1quia, em It\u00e1lia e na Su\u00ed\u00e7a. E sabe tamb\u00e9m que em nenhum desses momentos ele avisou as chefias de que ia estar fora do pa\u00eds. Ao n\u00e3o fazer isso, violou as regras internas de funcionamento do SIS. Foi o primeiro erro do espi\u00e3o. H\u00e1 uma raz\u00e3o para o interesse da R\u00fassia em informa\u00e7\u00f5es da NATO: capacidade de antecipa\u00e7\u00e3o. Putin precisa de saber exatamente o que o advers\u00e1rio far\u00e1 se Moscovo come\u00e7ar a avan\u00e7ar para Ocidente. Em fevereiro de 2014, a Ucr\u00e2nia est\u00e1 \u00e0 beira de uma guerra civil. Nas ruas de Kiev, h\u00e1 violentos protestos contra o presidente Viktor Yanukovych. \u00c0 revelia da maioria dos deputados do Parlamento, Yanukovych acaba de abandonar o processo de negocia\u00e7\u00f5es para uma aproxima\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e0 Uni\u00e3o Europeia. A press\u00e3o da R\u00fassia foi mais forte. A decis\u00e3o faz disparar a revolta popular. Durante tr\u00eas meses, milhares de pessoas v\u00e3o acampar na Pra\u00e7a da Liberdade, em Kiev. Perante o escalar da tens\u00e3o, Yanukovych foge do pa\u00eds atrav\u00e9s da Crimeia, em dire\u00e7\u00e3o a Moscovo. No dia seguinte, \u00e9 formalmente deposto pelo Parlamento ucraniano. Pouco depois, a R\u00fassia lan\u00e7a a opera\u00e7\u00e3o militar que culmina com a ocupa\u00e7\u00e3o da Crimeia. \u00c9 nesta altura que Putin come\u00e7a a refor\u00e7ar as tentativas de penetrar nos servi\u00e7os secretos de v\u00e1rios pa\u00edses ocidentais. Moscovo quer saber o que planeiam as principais pot\u00eancias mundiais e, sobretudo, quer saber como \u00e9 que a NATO agir\u00e1 num momento de crise. H\u00e1 v\u00e1rios caminhos poss\u00edveis para a R\u00fassia se infiltrar nas linhas do inimigo. Militares, respons\u00e1veis pol\u00edticos, diplomatas e at\u00e9 empres\u00e1rios s\u00e3o alvos naturais. Mas os espi\u00f5es tamb\u00e9m. \u00c9 por eles que passam as informa\u00e7\u00f5es mais sens\u00edveis. O jornalista russo Andrei Soldatov estuda h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas o modo de funcionamento de organiza\u00e7\u00f5es como o KGB, que depois deu origem, entre outros, ao SVR.<\/p>\n<p>Diria que em 2014, 2015, as tr\u00eas principais ag\u00eancias de informa\u00e7\u00f5es russas, incluindo o SVR, o Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es Externas da R\u00fassia, se tornaram extremamente agressivas, muito mais do que 10 ou 15 anos antes. Isso aplica-se a muitos pa\u00edses, incluindo Portugal. O principal interesse do SVR num pa\u00eds como Portugal \u00e9 o acesso ao sistema da NATO, porque todos os pa\u00edses-membros da NATO t\u00eam acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o partilhada entre os aliados. Assim, se n\u00e3o for poss\u00edvel obter acesso direto, por exemplo, a segredos americanos, pode tentar-se contornar isso atrav\u00e9s do acesso aos sistemas da NATO a partir de Portugal.<\/p>\n<p>Soldatov explica que h\u00e1 um modo de operar que \u00e9 comum a todos os pa\u00edses que integram a NATO. T\u00eam os mesmos c\u00f3digos, fazem parte de uma rede \u00fanica de comunica\u00e7\u00f5es, partilham um ADN operacional. E os servi\u00e7os de informa\u00e7\u00f5es portuguesas s\u00e3o uma das janelas poss\u00edveis para chegar a dados vitais.<\/p>\n<p>Quando se criam sistemas como o da NATO, que envolvem partilha de informa\u00e7\u00f5es e exerc\u00edcios conjuntos, isso implica procedimentos comuns adotados por todos os estados-membros. Ou seja, os protocolos de seguran\u00e7a da NATO s\u00e3o partilhados por todos os pa\u00edses. Se quiseres perceber, por exemplo, como funciona a seguran\u00e7a no Reino Unido, podes falar com algu\u00e9m em Portugal e ter uma ideia de como as coisas s\u00e3o feitas na B\u00e9lgica, no Reino Unido, em Fran\u00e7a ou na Alemanha. Tudo \u00e9 de interesse, at\u00e9 perceber como os e-mails s\u00e3o escritos nos sistemas internos. Com esse conhecimento, podes imitar esses e-mails, envi\u00e1-los a alvos e organizar opera\u00e7\u00f5es eficazes, fazendo-te passar por outra pessoa. Mas para te fazeres passar por outra pessoa, precisas de saber como as pessoas realmente comunicam dentro desses sistemas. Mesmo que este agente em particular n\u00e3o tivesse acesso a informa\u00e7\u00e3o altamente sens\u00edvel, sabia como tudo estava organizado internamente.<\/p>\n<p>Como representante do SIS, Carvalh\u00e3o Gil tem acesso aos exerc\u00edcios regulares de gest\u00e3o de crises da NATO. Nesses encontros, que acontecem uma vez por ano, os parceiros da NATO testam respostas a situa\u00e7\u00f5es de crise. Os cen\u00e1rios s\u00e3o sempre fict\u00edcios. Os pa\u00edses-alvo de ataque, na realidade, nem sequer existem, mas as amea\u00e7as s\u00e3o reais e a forma como os aliados reagem a elas, tamb\u00e9m. E \u00e9 justamente isso que Moscovo quer saber.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhum servi\u00e7o de informa\u00e7\u00f5es que esteja imune, passe a express\u00e3o, a toupeiras. Nenhum.<\/p>\n<p>Frederico Carvalh\u00e3o Gil n\u00e3o \u00e9 caso \u00fanico, assinala Rui Pereira, antigo diretor do SIS e ex-ministro da Administra\u00e7\u00e3o Interna. Daniel Sanches, que tamb\u00e9m liderou o Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es de Seguran\u00e7a, diz mesmo que a exist\u00eancia de toupeiras \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Porque isso afeta sempre a credibilidade dos servi\u00e7os. Haver uma toupeira, como s\u00e3o chamados na designa\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de informa\u00e7\u00f5es, \u00e9 sempre terr\u00edvel. Seja ele que servi\u00e7o for, mas n\u00e3o h\u00e1 servi\u00e7os quase sem toupeiras, se reparar bem. Se vir a hist\u00f3ria universal das informa\u00e7\u00f5es, h\u00e1 toupeiras por todo lado. Onde h\u00e1 sigilo, h\u00e1 sempre a quebra de sigilo. Portanto, haver\u00e1 mais casos. Alguns que ainda n\u00e3o foram descobertos.<\/p>\n<p>Nos anos 1960, os servi\u00e7os secretos ingleses descobriram um grupo de cinco altos funcion\u00e1rios que espiavam para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e eram liderados por Kim Philby, que recebeu a honra de ser enterrado na Pra\u00e7a Vermelha, em Moscovo. Mais recentemente, nos Estados Unidos, a CIA apanhou Aldrich Ames, ao fim de d\u00e9cadas de trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Friend&#8221;, I said. You say &#8220;yes&#8221;. &#8220;Genuine friend&#8221;, I said. You say &#8220;yes&#8221; again. But you gave him up nevertheless.<\/p>\n<p>That&#8217;s right. Funcion\u00e1rio da Ag\u00eancia de Informa\u00e7\u00f5es norte-americana durante mais de 30 anos, morreu em janeiro de 2026, aos 84 anos, numa pris\u00e3o federal.<\/p>\n<p>You couldn&#8217;t possibly have known that.<\/p>\n<p>I was taking a risk.<\/p>\n<p>You were taking a risk with his life.<\/p>\n<p>That&#8217;s right. Foi o maior traidor da hist\u00f3ria da CIA. Em 2023, Carsten L., funcion\u00e1rio das secretas alem\u00e3s, foi detido e acusado de trai\u00e7\u00e3o, por suspeitas de passar informa\u00e7\u00e3o classificada \u00e0 R\u00fassia a troco de dinheiro. Para conseguirem descobrir as toupeiras, os servi\u00e7os t\u00eam de estar sempre alerta, diz Rui Pereira.<\/p>\n<p>O ponto m\u00e1ximo a que eu cheguei nessa mat\u00e9ria foi, a certa altura, falar com os servi\u00e7os canadianos a prop\u00f3sito do pol\u00edgrafo, porque h\u00e1 servi\u00e7os estrangeiros, incluindo a CIA, que sujeitam agentes ao pol\u00edgrafo. Ali\u00e1s, a CIA tem uma hist\u00f3ria curios\u00edssima de um dirigente conhecido que foi sujeito ao pol\u00edgrafo, revelou que estaria a mentir e ningu\u00e9m acreditou nessa revela\u00e7\u00e3o, porque tinham tanta confian\u00e7a nele, porque achavam que o pol\u00edgrafo \u00e9 que estava enganado. Mais tarde, confirmou-se.<\/p>\n<p>Na g\u00edria da espionagem, h\u00e1 um acr\u00f4nimo bem conhecido: MICE. Money, ideology, coercion and ego. Em portugu\u00eas, pode traduzir-se por: dinheiro, ideologia, coa\u00e7\u00e3o e ego. S\u00e3o as quatro principais raz\u00f5es para um espi\u00e3o se tornar agente duplo.<\/p>\n<p>Normalmente, trata-se de coisas muito b\u00e1sicas. Pode haver dinheiro envolvido, pode haver informa\u00e7\u00e3o comprometedora. Se um agente se envolver com mulheres da Europa de Leste, isso pode criar oportunidades interessantes para os servi\u00e7os russos. Pode tamb\u00e9m haver motiva\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. J\u00e1 no final da d\u00e9cada de 2010, muitas pessoas viam a R\u00fassia, e Putin, em particular, como algu\u00e9m capaz de enfrentar a hegemonia americana. Algumas pessoas podem achar que ajudar a R\u00fassia \u00e9 uma forma de contrabalan\u00e7ar o dom\u00ednio dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe ao certo o que levou Frederico Carvalh\u00e3o Gil a aproximar-se de espi\u00f5es russos, mas a forma como ele ter\u00e1 sido abordado parece tirada do manual de recrutamento das secretas russas. O m\u00e9todo est\u00e1 estudado ao pormenor. S\u00e3o os pr\u00f3prios agentes do SVR que escolhem os alvos. Depois, fazem um primeiro contacto, de forma aparentemente fortuita, para avaliar se esses alvos t\u00eam ou n\u00e3o interesse em colaborar com Moscovo. A vers\u00e3o que Carvalh\u00e3o Gil vai contar mais tarde \u00e9 a de que conheceu o espi\u00e3o russo por absoluto acaso, numa esplanada de Lisboa, junto ao Padr\u00e3o dos Descobrimentos. Diz que ouviu um homem falar russo na mesa ao lado, meteu conversa e acabaram os dois a passear por Bel\u00e9m. Garante que falaram apenas sobre neg\u00f3cios e nunca sobre espionagem. No final desse encontro, combinaram voltar a ver-se dali a uns meses, fora de Portugal. Novembro de 2015. Carvalh\u00e3o Gil informa o respons\u00e1vel do departamento de contraterrorismo do SIS de que precisa de tirar uma folga. Pede dispensa de servi\u00e7o e diz que tem assuntos pessoais a tratar. N\u00e3o vai estar a trabalhar no dia 6 de novembro, uma sexta-feira. O espi\u00e3o diz que vai ter de ir a Castelo Branco e a Coimbra. \u00c9 natural da Beira Baixa, onde tem fam\u00edlia. Por isso mesmo, ningu\u00e9m estranha o pedido. Mas n\u00e3o \u00e9 nada disso que vai acontecer. Carvalh\u00e3o Gil n\u00e3o vai estar em Castelo Branco e tamb\u00e9m n\u00e3o vai viajar para Coimbra. Na verdade, nem sequer vai estar no pa\u00eds naqueles dias. E tamb\u00e9m n\u00e3o vai estar sozinho. A diferen\u00e7a \u00e9 que, desta vez, o SIS sabe que ele est\u00e1 a mentir. Naquele fim de semana, o espi\u00e3o vai viajar at\u00e9 \u00e0 capital da Eslov\u00e9nia. As secretas portuguesas pedem ajuda internacional. Em Liubliana, os espi\u00f5es eslovenos mant\u00eam o portugu\u00eas sob vigil\u00e2ncia e, no final, enviam para a sede do SIS uma mensagem encriptada. S\u00e3o apenas dois fotogramas, mas v\u00e3o ser decisivos pra investiga\u00e7\u00e3o. Mas essa \u00e9 uma hist\u00f3ria para o pr\u00f3ximo epis\u00f3dio. No entanto, se for assinante standard ou premium do Observador, pode ouvir j\u00e1 todos os seis epis\u00f3dios. Se ainda n\u00e3o for, basta assinar em observador.pt\/assinar. No pr\u00f3ximo epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>Era dif\u00edcil montar uma vigil\u00e2ncia a um indiv\u00edduo que, para j\u00e1, tamb\u00e9m te conhece as t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>Teve logo a no\u00e7\u00e3o da gravidade do assunto. Felizmente, s\u00e3o casos \u00fanicos, poucos, que acontecem de tal forma que me chamou antes mesmo de ter decidido o que \u00e9 que ia fazer a seguir.<\/p>\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o, as viaturas, os contratos. And\u00e1mos \u00e0 procura de movimentos financeiros estranhos.<\/p>\n<p>O suspeito, sendo abordado sem prova, naturalmente n\u00e3o pode ser acusado e muito menos julgado. Mas fica alerta e, a partir da\u00ed, as opera\u00e7\u00f5es dele acabavam.<\/p>\n<p>&#8220;A Vida Dupla do Espi\u00e3o Traidor&#8221; \u00e9 uma s\u00e9rie para ouvir em seis epis\u00f3dios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. \u00c9 narrada por mim, Ivo Canelas, e tem banda sonora original de Bruno Pernadas. O gui\u00e3o e as entrevistas s\u00e3o de Pedro Ra\u00ednho. A sonoplastia \u00e9 de Mariana Sousa Aguiar. O design gr\u00e1fico \u00e9 de Miguel Frazo Cabral. A edi\u00e7\u00e3o \u00e9 de Jo\u00e3o Santos Duarte e T\u00e2nia Pereirinha. A coordena\u00e7\u00e3o \u00e9 de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Concei\u00e7\u00e3o e Sara Antunes de Oliveira. Podcast Plus do Observador. \u00c9 mais do que um podcast.<\/p>\n<p>Os Podcast Plus do Observador t\u00eam o apoio da Kia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Esta transcri\u00e7\u00e3o foi gerada automaticamente por Intelig\u00eancia Artificial e pode conter erros ou imprecis\u00f5es. 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