{"id":466558,"date":"2026-07-29T16:11:14","date_gmt":"2026-07-29T16:11:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/466558\/"},"modified":"2026-07-29T16:11:14","modified_gmt":"2026-07-29T16:11:14","slug":"a-nova-geografia-do-fogo-ate-onde-vai-arder-a-europa-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/466558\/","title":{"rendered":"A nova geografia do fogo. At\u00e9 onde vai arder a Europa? \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>O Mediterr\u00e2neo continua a ser o grande territ\u00f3rio do fogo na Europa. Portugal, Espanha, It\u00e1lia, Gr\u00e9cia e o sul de Fran\u00e7a concentram h\u00e1 d\u00e9cadas uma parte importante da \u00e1rea ardida do continente e \u00e9 para estes pa\u00edses que olhamos quando chega o calor e a floresta come\u00e7a, aparentemente de forma inevit\u00e1vel, a arder. S\u00f3 que esse mapa j\u00e1 n\u00e3o conta a hist\u00f3ria toda. Nos \u00faltimos anos, <strong>os registos come\u00e7aram a mostrar grandes inc\u00eandios em regi\u00f5es europeias onde eram raros<\/strong>; e h\u00e1 at\u00e9 mudan\u00e7as na altitude a que o fogo chega, na altura do ano em que aparece e nas condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas que deixam a vegeta\u00e7\u00e3o pronta para arder. N\u00e3o significa que a Esc\u00f3cia esteja a transformar-se na Andaluzia, nem que exista uma linha de fogo a avan\u00e7ar impar\u00e1vel do Mediterr\u00e2neo para o norte da Europa. Significa que come\u00e7am a aparecer novas geografias do fogo \u2014 e algumas delas j\u00e1 eram vis\u00edveis antes deste ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das pistas vem de 2025, o pior ano de inc\u00eandios alguma vez registado na Uni\u00e3o Europeia pelo <a href=\"https:\/\/forest-fire.emergency.copernicus.eu\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">EFFIS<\/a>, o sistema europeu de informa\u00e7\u00e3o sobre inc\u00eandios florestais. O Joint Research Centre da Comiss\u00e3o Europeia contabilizou <strong>1.079.538 hectares ardidos na UE, quase o dobro da m\u00e9dia anual entre 2006 e 2024<\/strong>, e a \u00e9poca come\u00e7ou cedo: no final de mar\u00e7o j\u00e1 tinham ardido mais de 100 mil hectares. Mas h\u00e1 outra forma de perceber como 2025 saiu do normal. Um grupo internacional de investigadores que estudou o que aconteceu come\u00e7a o trabalho assim: \u201cA \u00e9poca de inc\u00eandios europeia de 2025 foi historicamente extrema\u201d. Os autores contabilizam mais de 1,4 milh\u00f5es de hectares no universo europeu que analisam e v\u00e1rios inc\u00eandios sem precedentes \u00e0 escala regional.<\/p>\n<p>O trabalho, <a href=\"https:\/\/egusphere.copernicus.org\/preprints\/2026\/egusphere-2026-1193\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Attribution of the Record-Breaking 2025 European Fire Season to Climate Change<\/a>, tem entre os autores Ricardo Trigo, do Instituto Dom Luiz, e Andreia Ribeiro, al\u00e9m de investigadores como Friederike Otto. A primeira vers\u00e3o foi submetida em mar\u00e7o ao <a href=\"https:\/\/egusphere.copernicus.org\/preprints\/2026\/egusphere-2026-1193\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">EGUsphere<\/a>: os investigadores escolheram cinco regi\u00f5es onde 2025 tinha sido particularmente fora do normal: o noroeste da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica; o norte e oeste da Gr\u00e3-Bretanha; a Occit\u00e2nia, no sul de Fran\u00e7a, entre os Piren\u00e9us e o Mediterr\u00e2neo; a zona do Adri\u00e1tico oriental e do J\u00f3nico, uma faixa dos Balc\u00e3s que desce em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Gr\u00e9cia; e o norte e oeste da Turquia. Tr\u00eas destas geografias voltaram a aparecer no mapa dos inc\u00eandios deste ver\u00e3o: Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, Fran\u00e7a e Reino Unido. Os autores usam a express\u00e3o<strong> <a href=\"https:\/\/egusphere.copernicus.org\/preprints\/2026\/egusphere-2026-1193\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">emerging fire regimes<\/a> para falar de mudan\u00e7as no padr\u00e3o dos inc\u00eandios<\/strong>. N\u00e3o significa que o fogo tenha surgido onde nunca existira. Pode mudar a frequ\u00eancia com que aparece, a dimens\u00e3o que atinge, a \u00e9poca do ano em que arde ou os territ\u00f3rios onde encontra condi\u00e7\u00f5es para crescer. E h\u00e1 uma frase no resumo do estudo que ajuda a perceber por que raz\u00e3o isto deixou de ser apenas um problema do sul da Europa: estes novos padr\u00f5es e o comportamento extremo do fogo est\u00e3o a criar \u201cdesafios crescentes de adapta\u00e7\u00e3o\u201d. H\u00e1 pa\u00edses e regi\u00f5es que se prepararam durante d\u00e9cadas para conviver com inc\u00eandios; outros est\u00e3o agora a descobrir que tamb\u00e9m t\u00eam de o fazer.<\/p>\n<p>Uma das respostas encontradas pelos investigadores est\u00e1 na seca, mas n\u00e3o apenas a que vem da falta de chuva. Analisaram tamb\u00e9m o <strong>d\u00e9fice de press\u00e3o de vapor, ou <a href=\"https:\/\/egusphere.copernicus.org\/preprints\/2026\/egusphere-2026-1193\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">VPD<\/a><\/strong>, uma medida que ajuda a perceber a capacidade que a atmosfera tem para retirar \u00e1gua \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o. Quanto mais quente e seco est\u00e1 o ar, maior pode ser esse d\u00e9fice e mais depressa plantas, matos e \u00e1rvores perdem \u00e1gua. Ou seja, n\u00e3o basta olhar para a chuva, o estado da vegeta\u00e7\u00e3o depende tamb\u00e9m do calor e da humidade do ar que a rodeia.<\/p>\n<p>Os investigadores encontraram uma tend\u00eancia para ver\u00f5es mais secos e para valores extremos deste d\u00e9fice de press\u00e3o de vapor. Concluem que a altera\u00e7\u00e3o do VPD \u00e9 \u201ca principal raz\u00e3o\u201d para as combina\u00e7\u00f5es de calor, seca e vento se terem tornado mais frequentes do que seria de esperar apenas pela varia\u00e7\u00e3o natural do clima. A s\u00edntese do trabalho deixa ainda uma ideia inquietante: \u201cAs condi\u00e7\u00f5es de 2025 n\u00e3o foram raras em algumas regi\u00f5es, apesar dos inc\u00eandios devastadores\u201d. Ou seja, <strong>a meteorologia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 extraordin\u00e1ria, as consequ\u00eancias que consegue produzir \u00e9 que podem ser ainda mais graves<\/strong>.<\/p>\n<p>Mas o estudo tamb\u00e9m impede uma conclus\u00e3o demasiado limpinha. Na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, no Adri\u00e1tico\/J\u00f3nico e na Turquia, os modelos clim\u00e1ticos reproduzem melhor as tend\u00eancias encontradas nas observa\u00e7\u00f5es. Na Occit\u00e2nia e na Gr\u00e3-Bretanha, isso n\u00e3o acontece da mesma maneira. Seria por isso precipitado olhar para Espanha, Fran\u00e7a e Esc\u00f3cia neste ver\u00e3o e concluir simplesmente que o fogo mediterr\u00e2nico est\u00e1 a subir para norte por causa das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. O que arde e quanto arde depende do tempo, mas tamb\u00e9m da vegeta\u00e7\u00e3o que existe, da quantidade e continuidade do combust\u00edvel, da forma como o territ\u00f3rio \u00e9 usado e gerido e, claro, das igni\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 outra mudan\u00e7a que n\u00e3o se mede de sul para norte. Mede-se em metros. Um estudo publicado a 30 de abril na <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41467-026-72551\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Nature Communications<\/a>, liderado por Mirela Beloiu, analisou 6.225 inc\u00eandios que queimaram quase 2,85 milh\u00f5es de hectares em oito regi\u00f5es montanhosas europeias entre 2000 e 2025. Logo na primeira frase, os autores escrevem que os inc\u00eandios florestais s\u00e3o \u201cuma amea\u00e7a emergente para as regi\u00f5es montanhosas\u201d. E os n\u00fameros mostram porqu\u00ea: <strong>em 25 anos, os grandes inc\u00eandios subiram, em m\u00e9dia, cerca de 72 metros por d\u00e9cada e tornaram-se mais frequentes depois de 2015<\/strong>.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o foi igual em todo o lado. As montanhas ib\u00e9ricas, os Balc\u00e3s e os Apeninos continuam a concentrar a grande maioria dos inc\u00eandios analisados. Mas <strong>nos Alpes, C\u00e1rpatos e montanhas franco-su\u00ed\u00e7as, onde a atividade era baixa, o fogo come\u00e7ou a aparecer com maior consist\u00eancia<\/strong>. \u00c9 a estes territ\u00f3rios que os investigadores aplicam a classifica\u00e7\u00e3o low and emerging fire regime: podemos falar de novos padr\u00f5es de inc\u00eandio em regi\u00f5es onde o fogo era historicamente pouco frequente. Nos Piren\u00e9us e nas montanhas da Turquia, onde j\u00e1 havia inc\u00eandios com alguma regularidade, a frequ\u00eancia tamb\u00e9m aumentou depois de 2015.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda um resultado que vale a pena reter: um quarto dos inc\u00eandios estudados ocorreu acima dos 1.400 metros e, nessa altitude, os autores encontraram uma liga\u00e7\u00e3o \u00e0 aridez extrema da atmosfera. A conclus\u00e3o \u00e9 particularmente relevante para ecossistemas de montanha que durante muito tempo estiveram protegidos do fogo pelo frio, pela neve e pela maior humidade. O aquecimento est\u00e1 a retirar parte dessa prote\u00e7\u00e3o e a permitir que o fogo chegue a lugares onde antes tinha mais dificuldade em chegar.<\/p>\n<p>Os dois trabalhos n\u00e3o estudam a mesma coisa: um tenta perceber o que esteve por tr\u00e1s da \u00e9poca extraordin\u00e1ria de 2025; o outro acompanha 25 anos de inc\u00eandios nas montanhas. Mas chegam a um ponto comum: o mapa europeu do fogo j\u00e1 n\u00e3o tem fronteiras t\u00e3o n\u00edtidas como tinha. O Mediterr\u00e2neo continua a arder e continua a concentrar os grandes inc\u00eandios, mas h\u00e1 sinais de <strong>mudan\u00e7a para norte, para altitudes maiores e para \u00e9pocas do ano diferentes<\/strong>.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir daqui que vale a pena olhar melhor para o que est\u00e1 a acontecer neste final de julho de 2026.<\/p>\n<p>Se os estudos mostram que as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis aos inc\u00eandios est\u00e3o a chegar a novos territ\u00f3rios, 2026 est\u00e1 a dar-nos uma demonstra\u00e7\u00e3o bastante r\u00e1pida. <strong>At\u00e9 22 de julho, o <a href=\"https:\/\/joint-research-centre.ec.europa.eu\/projects-and-activities\/natural-and-man-made-hazards\/forest-fires\/current-wildfire-situation-europe_en\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">EFFIS<\/a> tinha detetado 1.254 inc\u00eandios com mais de 30 hectares na Uni\u00e3o Europeia desde o in\u00edcio do ano. Na m\u00e9dia de longo prazo, deveriam ser 569 nesta altura<\/strong>. Ou seja, estamos com mais do dobro. A \u00e1rea ardida chegava aos 254.388 hectares, acima da m\u00e9dia hist\u00f3rica, embora ainda ligeiramente abaixo dos 270.449 hectares que j\u00e1 tinham ardido \u00e0 mesma data em 2025, o pior ano da s\u00e9rie. H\u00e1 ainda 8,31 milh\u00f5es de toneladas de CO\u2082 emitidas pelos inc\u00eandios desde janeiro. E estes n\u00fameros t\u00eam uma limita\u00e7\u00e3o importante: o EFFIS atualiza este balan\u00e7o semanalmente, pelo que a fotografia de 22 de julho ainda n\u00e3o apanha tudo o que aconteceu no fim de semana em Espanha e Fran\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O Mediterr\u00e2neo continua a ser o grande territ\u00f3rio do fogo na Europa. 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