{"id":471060,"date":"2026-08-02T06:19:16","date_gmt":"2026-08-02T06:19:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/471060\/"},"modified":"2026-08-02T06:19:16","modified_gmt":"2026-08-02T06:19:16","slug":"eva-baltasar-lanca-mamute-romance-de-seu-triptico-01-08-2026-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/471060\/","title":{"rendered":"Eva Baltasar lan\u00e7a &#8216;Mamute&#8217;, romance de seu tr\u00edptico &#8211; 01\/08\/2026 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o sou uma escritora mapa. Sou uma escritora b\u00fassola.&#8221; A frase de<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2026\/07\/eva-baltasar-e-susy-freitas-defendem-literatura-sem-rotulos-na-flip.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Eva Baltasar<\/a> parece uma defini\u00e7\u00e3o de m\u00e9todo, mas \u00e9 antes uma declara\u00e7\u00e3o de desobedi\u00eancia. A autora catal\u00e3, que lan\u00e7a no Brasil o terceiro volume de um tr\u00edptico, diz n\u00e3o escrever para confirmar uma ideia que j\u00e1 tem na cabe\u00e7a, mas para descobrir o que ainda n\u00e3o sabe.<\/p>\n<p>&#8220;Eu nunca sei o que vou escrever. N\u00e3o sei qual ser\u00e1 a hist\u00f3ria, nem para onde ela vai me levar. Simplesmente me entrego ao processo&#8221;, diz ela em <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/paraty\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Paraty<\/a>, onde foi destaque da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/flip\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Flip<\/a>. &#8220;\u00c0s vezes sigo numa dire\u00e7\u00e3o e descubro que n\u00e3o h\u00e1 nada ali. Acontece de destruir meses inteiros de trabalho.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 a partir desta incerteza que nasce &#8220;Mamute&#8221;, terceiro romance da trilogia traduzida pela editora Dublinense e iniciada com &#8220;Permafrost&#8221;, de 2018, e continuada com &#8220;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2024\/05\/romance-boulder-usa-casal-lesbico-para-encenar-os-dois-lados-da-maternidade.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Boulder<\/a>&#8220;, de 2020, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/tv\/2024\/06\/boulder-narra-historia-de-megera-que-se-ve-domada-em-romance-lesbico-veja-video.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">finalista do prestigioso<\/a> International Booker Prize.<\/p>\n<p>Poeta e romancista, Baltasar se consolidou como uma das vozes mais singulares da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/literatura\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">literatura<\/a> catal\u00e3 contempor\u00e2nea. Seus livros acompanham mulheres que n\u00e3o s\u00e3o nomeadas, narradas em primeira pessoa, que vivem situa\u00e7\u00f5es limite e s\u00e3o repletas de desejos, desconfortos e de uma urg\u00eancia em escapar das formas preconcebidas de exist\u00eancia feminina.<\/p>\n<p>Em &#8220;Mamute&#8221;, essa fuga ganha contornos radicais que bebem na biografia da autora. A protagonista abandona a cidade e se desloca para uma regi\u00e3o rural, onde a sobreviv\u00eancia passa a depender do contato direto com a terra, com os ciclos naturais e com o pr\u00f3prio corpo. Longe de tudo, ela tenta descobrir o que sobra quando as conven\u00e7\u00f5es da vida urbana contempor\u00e2nea s\u00e3o retiradas.<\/p>\n<p>&#8220;Sempre parto de paisagens da minha pr\u00f3pria vida. A mat\u00e9ria-prima \u00e9 sempre alguma coisa que vivi. Mas \u2018Mamute\u2019 \u00e9 o livro que mais se aproxima da minha experi\u00eancia&#8221;, diz.<\/p>\n<p>&#8220;Quando eu tinha 26 anos, morava em <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/barcelona\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Barcelona<\/a> e era m\u00e3e solo da minha primeira filha. Tinha um trabalho muito prec\u00e1rio na universidade e dividia apartamento. Um dia, quando minha filha tinha dois anos, larguei tudo e fui viver numa regi\u00e3o muito isolada.&#8221;<\/p>\n<p>No romance, a protagonista deixa a cidade em busca de solitude numa casa antiga numa regi\u00e3o in\u00f3spita, onde o acesso \u00e9 dif\u00edcil e o \u00fanico vizinho \u00e9 um pastor de ovelhas. Apesar de se relacionar com mulheres, ela responde a um chamado interno para gestar uma vida e procura engravidar.<\/p>\n<p>A casa onde Baltasar viveu por tr\u00eas anos era remota como a da protagonista de &#8220;Mamute&#8221;, mas ainda mais prec\u00e1ria: n\u00e3o tinha sequer eletricidade.<\/p>\n<p>Na literatura de Baltasar, a solid\u00e3o n\u00e3o aparece como aus\u00eancia, mas como oportunidade de autoconhecimento e campo de investiga\u00e7\u00e3o em que suas personagens confrontam aquilo que normalmente evitam.<\/p>\n<p>E a natureza, t\u00e3o presente em seus enredos, surge fora das p\u00e1ginas como inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Eu escrevo boa parte dos meus romances no bosque. Mas n\u00e3o \u00e9 que eu escreva com o computador no bosque. Para mim, escrever n\u00e3o \u00e9 estar com o computador ou com a caderneta, mas \u00e9 deixar que o romance venha at\u00e9 mim.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Dedico duas ou tr\u00eas horas por dia a caminhar pelo bosque com meu cachorrinho. E ali o romance acontece. Chego em casa e escrevo. Boa parte do processo \u00e9 estar na natureza. A rua n\u00e3o me serve.&#8221;<\/p>\n<p>Essa entrega ao desconhecido ajuda a explicar uma das marcas mais reconhec\u00edveis de sua obra: uma fronteira borrada entre autora e cria\u00e7\u00e3o. &#8220;H\u00e1 coisas minhas em todos os romances, mas n\u00e3o \u00e9 a minha vida, imposs\u00edvel. Eu n\u00e3o tenho 400 anos, e em 48 n\u00e3o d\u00e1 para viver tudo aquilo.&#8221;<\/p>\n<p>Suas personagens, assim como ela, relacionam-se preferencialmente com mulheres, e a autora diz criar uma rela\u00e7\u00e3o de arrebatamento com elas.<\/p>\n<p>&#8220;Eu me apaixono [pelas protagonistas] porque elas despertam em mim uma enorme curiosidade&#8221;, afirma. &#8220;A vida do romance come\u00e7a a contaminar a minha pr\u00f3pria vida. Come\u00e7o a sentir sintomas de apaixonamento. Perco a fome. Durmo muito pouco. \u00c9 uma qu\u00edmica real.&#8221;<\/p>\n<p>Neste processo, Baltasar diz que precisa compreender suas protagonistas por inteiro para tornar suas decis\u00f5es coerentes. &#8220;O que acho mais interessante \u00e9 que, por meio delas, consigo mergulhar no meu pr\u00f3prio inconsciente, nas regi\u00f5es mais escuras, onde vivem os monstros. E \u00e9 muito seguro fazer isso como escritora, mas tamb\u00e9m como leitora&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A autora diz considerar o ato da escrita um aprofundamento \u00edntimo e que n\u00e3o h\u00e1 inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por tr\u00e1s dos retratos crus que fez sobre <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/maternidade\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">maternidade<\/a> e sexualidade, mas afirma gostar quando seus escritos ganham essas interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Cada leitor pode acrescentar uma camada diferente de leitura. Algo que era apenas um dado natural da vida para mim pode se transformar numa ferramenta pol\u00edtica&#8221;, afirma. &#8220;Essa nunca foi a minha inten\u00e7\u00e3o, mas acho extraordin\u00e1rio quando isso acontece. O livro cresce e segue o caminho que precisa seguir.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;N\u00e3o sou uma escritora mapa. 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