{"id":473119,"date":"2026-08-03T21:27:52","date_gmt":"2026-08-03T21:27:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/473119\/"},"modified":"2026-08-03T21:27:52","modified_gmt":"2026-08-03T21:27:52","slug":"empresas-de-ia-estao-a-comprar-livros-raros-para-os-digitalizar-e-destruir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/473119\/","title":{"rendered":"Empresas de IA est\u00e3o a comprar livros raros para os digitalizar e destruir"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-caption-text top\">ZAP \/\/ Dall-E-2<\/p>\n<p><img loading=\"eager\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-kopa-image-size-3 wp-image-757943\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/eccbc87e4b5ce2fe28308fd9f2a7baf3-1-783x450.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"402\"  \/><\/p>\n<p><strong>Um livreiro neerland\u00eas julgou que um pedido de 3.000 livros era \u201cspam ou phishing\u201d. Por tr\u00e1s da invulgar encomenda estava, na realidade, outra coisa: as empresas de IA est\u00e3o a digitalizar e destruir obras para treinar modelos.<\/strong><\/p>\n<p>Era apenas mais um dia soalheiro de ver\u00e3o em Haarlem, nos Pa\u00edses Baixos, quando <strong>Pieter de Vries<\/strong>, um alfarrabista neerland\u00eas, recebeu um pedido invulgar por correio eletr\u00f3nico.<\/p>\n<p>Uma mulher chamada <strong>Natalia<\/strong>, que se apresentou como representante de uma empresa denominada \u201c<strong>2077AI<\/strong>\u201c, procurava adquirir aquilo que descreveu como uma \u201cencomenda bastante grande\u201d de livros.<\/p>\n<p>Em anexo seguia uma folha de c\u00e1lculo com <strong>mais de 3.000 ISBN<\/strong>, acompanhada de instru\u00e7\u00f5es para identificar os t\u00edtulos correspondentes, elaborar or\u00e7amentos e calcular os custos de envio para a China.<\/p>\n<p>De Vries mal olhou para o documento. Considerou que a mensagem era spam, ou uma tentativa de phishing, e n\u00e3o leu al\u00e9m das primeiras linhas.<\/p>\n<p>S\u00f3 algumas semanas depois, quando um jornalista neerland\u00eas que investigava o pedido de aquisi\u00e7\u00e3o o contactou, percebeu que o caso estava relacionado com intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>\u201cFiquei chocado!\u201d, afirmou De Vries, que forneceu \u00e0 <a href=\"https:\/\/fortune.com\/2026\/07\/31\/dutch-bookseller-ai-spam-phishing-3000-book-copies-scan-destroy\/\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">Fortune<\/a> o correio eletr\u00f3nico e a folha de c\u00e1lculo enviada posteriormente. A lista tinha <strong>3.001 t\u00edtulos<\/strong>, publicados na maioria entre 2020 e 2021 por editoras acad\u00e9micas como a Emerald Publishing, a Elsevier, a Wiley, a Routledge e a Oxford University Press.<\/p>\n<p>As obras abrangiam \u00e1reas t\u00e3o diferentes como gest\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, engenharia, pol\u00edticas p\u00fablicas e medicina. \u201cFoi muito invulgar\u201d, disse De Vries. \u201cFoi por isso que considerei que o pedido era spam ou phishing.\u201d<\/p>\n<p>De Vries n\u00e3o foi o \u00fanico a receber a mensagem. Segundo contou \u00e0 Fortune, v\u00e1rios outros alfarrabistas neerlandeses receberam o mesmo pedido e tamb\u00e9m o ignoraram. \u201cN\u00e3o o levaram a s\u00e9rio\u201d e \u201cconsideraram que era uma burla\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Embora o contacto pouco tenha afetado a sua atividade, o caso poderia ter tido consequ\u00eancias diferentes para livreiros especializados na venda de grandes quantidades de obras em segunda m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cTrabalho com <strong>livros antigos e raros<\/strong>\u201c, explicou De Vries, acrescentando que raramente recebe encomendas por correio eletr\u00f3nico e que, quando isso acontece, se trata, no m\u00e1ximo, de um \u00fanico livro.<\/p>\n<p>\u201cEstes livros s\u00e3o caros e exclusivos. Por isso, n\u00e3o fa\u00e7o com\u00e9rcio por grosso.\u201d<\/p>\n<p>O apetite da IA por livros<\/p>\n<p>A mensagem recebida por De Vries nunca mencionava intelig\u00eancia artificial nem explicava para que seriam utilizados os livros. O pedido surgiu, por\u00e9m, numa altura em que as<strong> empresas de IA<\/strong> procuram cada vez mais materiais escritos de elevada qualidade fora da Internet aberta para treinar grandes modelos de linguagem.<\/p>\n<p>No ver\u00e3o passado, aumentou a aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica sobre a utiliza\u00e7\u00e3o de livros por empresas de intelig\u00eancia artificial, depois de documentos judiciais revelarem que a Anthropic tinha comprado milh\u00f5es de exemplares f\u00edsicos, retirado as encaderna\u00e7\u00f5es, digitalizado as p\u00e1ginas e deitado fora os originais.<\/p>\n<p>Segundo o <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/technology\/2026\/01\/27\/anthropic-ai-scan-destroy-books\/\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">The Washington Post<\/a>, a empresa pretendia criar uma biblioteca digital pesquis\u00e1vel para treinar os seus modelos de IA, numa opera\u00e7\u00e3o designada em documentos internos como \u201c<strong>Projeto Panam\u00e1<\/strong>\u201c.<\/p>\n<p>O processo, conhecido como \u201cdigitaliza\u00e7\u00e3o destrutiva\u201d, consiste em cortar a lombada do livro para que as p\u00e1ginas possam passar por digitalizadores de alta velocidade. O que resta do exemplar f\u00edsico \u00e9 depois descartado.<\/p>\n<p>Segundo a <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/world\/us-judge-approves-anthropics-15-billion-settlement-copyright-lawsuit-2026-07-20\/\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">Reuters<\/a>, o processo judicial terminou mais tarde com um acordo, depois de um juiz federal ter considerado que a utiliza\u00e7\u00e3o de livros adquiridos legalmente para treinar modelos de IA constitu\u00eda uma utiliza\u00e7\u00e3o leg\u00edtima ao abrigo da legisla\u00e7\u00e3o de direitos de autor dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O acordo tamb\u00e9m resolveu alega\u00e7\u00f5es distintas relacionadas com o descarregamento, pela Anthropic, de livros das bibliotecas digitais LibGen e PiLiMi.<\/p>\n<p>De acordo com um porta-voz da Anthropic, os modelos Claude s\u00e3o treinados com uma combina\u00e7\u00e3o de dados publicamente dispon\u00edveis na Internet, conjuntos de dados adquiridos comercialmente e dados gerados internamente.<\/p>\n<p>A Anthropic compra livros atrav\u00e9s dos canais comerciais habituais e nenhum dos seus programas de aquisi\u00e7\u00e3o de dados compra ou destr\u00f3i obras antigas ou raras, acrescentou o porta-voz.<\/p>\n<p>A cadeia de abastecimento escondida<\/p>\n<p>Os documentos judiciais mostraram o que acontecia depois de os livros serem adquiridos, mas n\u00e3o explicaram como \u00e9 que as empresas conseguem, \u00e0 partida, obter milh\u00f5es de exemplares f\u00edsicos.<\/p>\n<p>No in\u00edcio deste ano, a <a href=\"https:\/\/www.404media.co\/ai-companies-are-buying-tons-of-old-books-because-theyre-free-of-ai-slop\/\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">404 Media<\/a> noticiou que a <a href=\"https:\/\/isbndb.com\/\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">ISBNdb<\/a>, empresa conhecida sobretudo por manter metadados associados aos n\u00fameros ISBN, os identificadores num\u00e9ricos \u00fanicos codificados nos c\u00f3digos de barras da maioria dos livros, come\u00e7ara a anunciar servi\u00e7os destinados a ajudar laborat\u00f3rios de IA a adquirir grandes quantidades de obras impressas.<\/p>\n<p>As encomendas poderiam variar entre 1.000 e 1 milh\u00e3o de livros. Segundo a reportagem, o site da empresa afirmava que o servi\u00e7o fora concebido para responder \u00e0s \u201cnecessidades de treino de grandes modelos de linguagem\u201d e permitir entregas \u201c\u00e0 escala exigida pela IA\u201d.<\/p>\n<p>As p\u00e1ginas foram entretanto removidas. Mais tarde, a ISBNdb disse \u00e0 Fortune que o servi\u00e7o nunca chegou a ser lan\u00e7ado, que nunca comprou nem digitalizou livros para empresas de IA e que as p\u00e1ginas descreviam apenas um conceito em estudo, e n\u00e3o uma atividade comercial em funcionamento.<\/p>\n<p>Surgiram relatos semelhantes na <a href=\"https:\/\/www.boersenblatt.net\/home\/us-firmen-kaufen-massenhaft-antiquarische-buecher-fuers-ki-training-428539\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">Alemanha<\/a> e na <a href=\"https:\/\/www.srf.ch\/kultur\/gesellschaft-religion\/jagd-auf-alte-buecher-ki-firmen-kaufen-antiquariate-leer-und-vernichten-die-buecher\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">Su\u00ed\u00e7a<\/a>. Meios de comunica\u00e7\u00e3o locais noticiaram que vendedores de livros em segunda m\u00e3o tinham recebido encomendas invulgares de grandes quantidades de obras altamente especializadas, que pareciam incompat\u00edveis com as pr\u00e1ticas tradicionais de colecionismo ou revenda.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/zoombooks.ca\/\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">Zoom Books<\/a>, empresa canadiana identificada em algumas dessas not\u00edcias, negou as acusa\u00e7\u00f5es. Em declara\u00e7\u00f5es \u00e0 esta\u00e7\u00e3o su\u00ed\u00e7a SRF, afirmou que as compras faziam parte do seu modelo habitual de reciclagem e com\u00e9rcio de livros.<\/p>\n<p>Para uma ind\u00fastria constru\u00edda sobre algoritmos, o correio eletr\u00f3nico oferece uma rara vis\u00e3o de algo muito mais concreto: a cadeia f\u00edsica de abastecimento de livros que poder\u00e3o, em \u00faltima an\u00e1lise, alimentar os modelos de intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>A Fortune contactou a 2077AI para saber qual era o objetivo do pedido de aquisi\u00e7\u00e3o e se os livros se destinavam ao treino de modelos de IA. A empresa n\u00e3o respondeu aos pedidos de esclarecimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"ZAP \/\/ Dall-E-2 Um livreiro neerland\u00eas julgou que um pedido de 3.000 livros era \u201cspam ou phishing\u201d. 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