{"id":473917,"date":"2026-08-04T12:48:13","date_gmt":"2026-08-04T12:48:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/473917\/"},"modified":"2026-08-04T12:48:13","modified_gmt":"2026-08-04T12:48:13","slug":"a-obesidade-nao-se-trata-a-correr","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/473917\/","title":{"rendered":"A obesidade n\u00e3o se trata a correr"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify; margin-bottom:11px\">Todos os anos multiplicam-se as publicidades com promessas: &#8220;perca cinco quilos em duas semanas&#8221;, &#8220;resultados vis\u00edveis j\u00e1 na primeira semana&#8221;. A ideia de que tratar a obesidade \u00e9 uma corrida contra o rel\u00f3gio est\u00e1 profundamente enraizada &#8211; e est\u00e1 errada. N\u00e3o porque a ci\u00eancia prove, sem margem para d\u00favida, que a pressa faz sempre mal. Est\u00e1 errada porque a pr\u00f3pria ci\u00eancia, quando se olha para ela com aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 bem mais incerta e mais interessante do que o slogan &#8220;devagar \u00e9 sempre melhor&#8221; deixa perceber.<\/p>\n<p>Vale a pena olhar para o que os ensaios cl\u00ednicos mostram, porque as surpresas n\u00e3o s\u00e3o poucas.<\/p>\n<p>A massa muscular nem sempre paga a fatura<\/p>\n<p>A cren\u00e7a mais comum \u00e9 a de que perder peso depressa custa sempre m\u00fasculo. Um ensaio cl\u00ednico iraniano, publicado em 2017, parece\u00a0confirm\u00e1-la: comparando pessoas que perderam 5% do peso em cinco semanas com outras que perderam o mesmo em quinze, o grupo r\u00e1pido perdeu proporcionalmente mais massa magra.<\/p>\n<p>Mas um ensaio noruegu\u00eas mais recente e com desenho ainda mais cuidado &#8211; as duas dietas com a mesma composi\u00e7\u00e3o de prote\u00edna, gordura e hidratos, a mesma percentagem de peso perdida &#8211; n\u00e3o encontrou qualquer diferen\u00e7a entre grupos. E h\u00e1 mais: a queda no metabolismo basal que se costuma associar \u00e0s dietas r\u00e1pidas revelou-se, nesse estudo, tempor\u00e1ria &#8211; desapareceu ao fim de um m\u00eas, assim que o peso estabilizou. Os pr\u00f3prios autores admitem que a literatura sobre este ponto est\u00e1 longe de ser consensual.<\/p>\n<p>Um terceiro estudo, com mulheres na p\u00f3s-menopausa a fazer uma dieta muito restritiva, mas rica em prote\u00edna (mais de metade das calorias vinham de fontes proteicas) e sob vigil\u00e2ncia m\u00e9dica apertada, mostrou at\u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o dos marcadores de degrada\u00e7\u00e3o muscular. Ou seja: o que protege o m\u00fasculo pode n\u00e3o ser tanto a velocidade da dieta, mas a qualidade do desenho &#8211; sobretudo quanto \u00e0 prote\u00edna.<\/p>\n<p>O osso \u00e9 outra conversa &#8211; e aqui a preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 real.<\/p>\n<p>Se a quest\u00e3o muscular \u00e9 amb\u00edgua, a do osso n\u00e3o \u00e9 &#8211; mas vale precisar do que se est\u00e1 a falar. Uma revis\u00e3o publicada este ano na Lancet Diabetes &amp; Endocrinology mostra que perder peso atrav\u00e9s de dieta (com ou sem exerc\u00edcio associado) se associa, de forma consistente ao longo de v\u00e1rios estudos, a perda de densidade \u00f3ssea na anca a partir de cerca de 7% a 10% do peso corporal. N\u00e3o \u00e9 o mesmo que dizer que qualquer forma de perder peso tem esse efeito: a cirurgia bari\u00e1trica e os f\u00e1rmacos para perda de peso t\u00eam perfis de risco \u00f3sseo pr\u00f3prios, e geralmente mais acentuados. E n\u00e3o fica pelos n\u00fameros da densitometria:\u00a0no ensaio Look AHEAD, mais de cinco mil pessoas com obesidade e diabetes tipo 2 foram seguidas durante quase uma d\u00e9cada, e quem fez dieta e exerc\u00edcio de forma intensiva teve um risco 39% maior de fraturas de fragilidade do que o grupo de controlo.<\/p>\n<p>\u00c9 importante uma ressalva: esta evid\u00eancia \u00e9 sobretudo sobre a quantidade de peso perdido, mais do que sobre a velocidade a que se perde. Mas h\u00e1 uma revis\u00e3o de 2014 que junta as duas coisas e \u00e9 direta: a perda de peso r\u00e1pida ou de grande dimens\u00e3o tende a associar-se a mais perda \u00f3ssea do que a perda lenta ou mais modesta, sobretudo quando n\u00e3o vem acompanhada de treino de for\u00e7a. E h\u00e1 boas not\u00edcias dentro desta m\u00e1 not\u00edcia: um estudo com doentes operados a obesidade mostrou que suplementar prote\u00edna, c\u00e1lcio e vitamina D, associados a exerc\u00edcio, reduziu a perda \u00f3ssea para menos de metade.<\/p>\n<p>E as perturba\u00e7\u00f5es alimentares?<\/p>\n<p>Aqui talvez esteja a maior surpresa. \u00c9 comum ouvir-se que dietas restritivas &#8220;despoletam&#8221; compuls\u00e3o alimentar em pessoas vulner\u00e1veis. \u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima, mas uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica de 2015 n\u00e3o encontrou provas consistentes de que a restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica severa, por si s\u00f3, aumente esse risco. Isto n\u00e3o quer dizer que o cuidado deva desaparecer &#8211; quer dizer que a equa\u00e7\u00e3o &#8220;dieta agressiva = perturba\u00e7\u00e3o alimentar&#8221; \u00e9 mais simples do que a realidade cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o qual \u00e9 a velocidade certa?<\/p>\n<p>A resposta honesta \u00e9: depende. E \u00e9 aqui que a ci\u00eancia, apesar de toda a incerteza que revela, acaba por confirmar algo muito simples &#8211; n\u00e3o existe uma velocidade universalmente certa de perder peso. Existe, isso sim, a necessidade de adaptar cada plano \u00e0 pessoa: \u00e0 sua prote\u00edna, ao seu exerc\u00edcio, \u00e0 sua sa\u00fade \u00f3ssea, \u00e0 sua hist\u00f3ria com a comida, ao que consegue sustentar n\u00e3o durante seis semanas, mas durante os pr\u00f3ximos vinte anos.<\/p>\n<p>O exerc\u00edcio f\u00edsico e uma alimenta\u00e7\u00e3o individualizada \u2014 n\u00e3o uma dieta gen\u00e9rica copiada de uma revista \u2014 continuam a ser os dois pilares que realmente sustentam qualquer resultado. Sem eles, mesmo a perda de peso mais lenta e mais bem-intencionada corre o risco de ser apenas um par\u00eantese.<\/p>\n<p>Perder peso depressa n\u00e3o \u00e9, por si, um erro. O erro \u00e9 acreditar que a velocidade \u00e9 o que importa. O que importa \u00e9 chegar l\u00e1 de uma forma que o corpo &#8211; m\u00fasculo, osso e cabe\u00e7a inclu\u00eddos &#8211; consiga aguentar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Todos os anos multiplicam-se as publicidades com promessas: &#8220;perca cinco quilos em duas semanas&#8221;, &#8220;resultados vis\u00edveis j\u00e1 na&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":473918,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[609,836,611,27,607,608,333,832,604,135,4124,610,476,6991,301,830,116,603,570,831,833,62,834,13,835,602,52,32,33,117,29],"class_list":["post-473917","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-alerta","tag-analise","tag-ao-minuto","tag-breaking-news","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-comentadores","tag-costa","tag-crime","tag-desporto","tag-dieta","tag-direto","tag-economia","tag-emagrecer","tag-governo","tag-guerra","tag-health","tag-justica","tag-live","tag-mais-vistas","tag-marcelo","tag-mundo","tag-negocios","tag-noticias","tag-opiniao","tag-pais","tag-politica","tag-portugal","tag-pt","tag-saude","tag-ultimas"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117037322150818482","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/473917","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=473917"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/473917\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/473918"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=473917"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=473917"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=473917"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}