{"id":476617,"date":"2026-08-06T12:17:13","date_gmt":"2026-08-06T12:17:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/476617\/"},"modified":"2026-08-06T12:17:13","modified_gmt":"2026-08-06T12:17:13","slug":"como-joan-miro-matou-a-pintura-para-alimentar-o-primitivo-06-08-2026-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/476617\/","title":{"rendered":"Como Joan Mir\u00f3 matou a pintura para alimentar o primitivo &#8211; 06\/08\/2026 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 quem diga que os rabiscos de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2022\/09\/calder-e-miro-tem-amizade-celebrada-em-mostra-blockbuster-no-rio.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Joan Mir\u00f3<\/a> podem facilmente ser imitados por crian\u00e7as. At\u00e9 seu neto <a href=\"https:\/\/m.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2015\/11\/1712934-atelie-de-joan-miro-e-recriado-em-londres-com-ajuda-de-neto-do-artista.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Joan Punyet Mir\u00f3<\/a>, administrador de seu legado, compara a imagina\u00e7\u00e3o do av\u00f4 \u00e0 de uma mente fresca, atra\u00edda por cores prim\u00e1rias, criaturas sorridentes e a rebeldia de subverter diferentes materiais.<\/p>\n<p>Testemunha da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/especial\/fj111207.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Guerra Civil Espanhola<\/a> e da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/segunda-guerra-mundial\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Segunda Guerra Mundial<\/a>, o artista nunca domesticou traumas e outros ecos do inconsciente. Pelo contr\u00e1rio. Fez dos instintos uma maneira de repensar quadros e esculturas, sempre aberto a improvisar obras que o neto chama de &#8220;primitivas&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Mir\u00f3 era o sonho, a imagina\u00e7\u00e3o, a liberdade criativa. Sempre se unia ao acidente&#8221;, afirma ele, citando gravuras que o espanhol criou sobre placas de cobre mordidas por cachorros. Da\u00ed surgiram retratos indescrit\u00edveis dos esp\u00e9cimes, com um emaranhado de tons vibrantes, em que patas se tornam tra\u00e7os finos e focinhos desaparecem em borr\u00f5es pretos.<\/p>\n<p>As pe\u00e7as est\u00e3o entre as mais de cem que o Museu de Arte Brasileira Faap, em S\u00e3o Paulo, exibe a partir desta sexta, numa mostra repleta de p\u00e1ssaros, estrelas e outros signos com que Mir\u00f3 aproximou o c\u00e9u da terra.<\/p>\n<p>Organizada pelo <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/04\/como-e-a-maior-exposicao-de-andy-warhol-ja-realizada-fora-dos-estados-unidos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Instituto Totex<\/a>, junto da Funda\u00e7\u00e3o Joan Mir\u00f3, a exposi\u00e7\u00e3o expande a mostra que o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2015\/05\/1632464-mostra-com-mais-de-cem-obras-de-joan-miro-entra-em-cartaz-em-sp.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Instituto Tomie Ohtake <\/a>recebeu em 2015, dedicada ao descarte de tradi\u00e7\u00f5es art\u00edsticas.<\/p>\n<p>Agora, a proposta \u00e9 organizar o vocabul\u00e1rio err\u00e1tico de Mir\u00f3 em eixos tem\u00e1ticos, que priorizam a narrativa po\u00e9tica em vez da cronologia hist\u00f3rica. H\u00e1 ainda o acr\u00e9scimo de algumas obras que deixam a Espanha pela primeira vez \u2014como um desenho de 1937, em que um animal alado, um monstro com antenas e um ser de cauda enorme se confundem num espa\u00e7o terroso.<\/p>\n<p>A escolha curatorial n\u00e3o significa que a &#8220;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq2403200513.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">morte da pintura<\/a>&#8220;, como ficou conhecido o desprezo do artista por regras acad\u00eamicas, esteja em segundo plano. A partir da imprevisibilidade de Mir\u00f3, \u00e9 poss\u00edvel achar quadros que rejeitam a profundidade de campo, barbantes queimados em pain\u00e9is t\u00eaxteis e formas que misturam a anatomia de homens e mulheres.<\/p>\n<p>A refer\u00eancia a elas \u00e9 feita por ventres, olhos e seios sugeridos por pinceladas escuras \u2014mais pr\u00f3ximas de um alfabeto alternativo do que de silhuetas. Para o espanhol, a fertilidade feminina era como uma resposta \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o sistematizada dos conflitos armados.<\/p>\n<p>&#8220;Meu av\u00f4 era crist\u00e3o e explorava a vida, a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o&#8221;, diz seu neto, que fala do erotismo com menos timidez que os textos do curador Jordi J. Clavero. &#8220;Para ele, h\u00e1 muitos sexos femininos que s\u00e3o a porta para a vida, e muitos sexos masculinos que nos ajudam a entender como a vida se forma. O erotismo alimentava seu ar primitivo e os mist\u00e9rios sobre o planeta.&#8221;<\/p>\n<p>A ideia de reprodu\u00e7\u00e3o marca as primeiras obras da mostra, quando os tra\u00e7os ainda eram abundantes e os signos l\u00fadicos que iriam se repetir n\u00e3o estavam definidos. \u00c0s v\u00e9speras da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2025\/11\/espanha-se-divide-entre-remover-ou-cultuar-memoria-de-franco-ditador-morto-ha-50-anos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">ditadura franquista<\/a>, que tomou a Espanha no fim dos anos 1930, essas pinturas retratavam mundos paralelos, ora voltadas ao relevo de planetas estranhos, ora aos personagens de pontos suspensos no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Esse \u00edmpeto de fugir do mundo real definiu seus primeiros passos na arte. Criado por artes\u00e3os em Barcelona, Mir\u00f3 foi for\u00e7ado a seguir os passos do pai e se tornar comerciante. Sua avers\u00e3o ao of\u00edcio era tamanha que, aos 18, Mir\u00f3 foi acometido por uma febre quase mortal, da qual s\u00f3 se recuperou quando foi para a fazenda da fam\u00edlia, no interior da Catalunha.<\/p>\n<p>Foi l\u00e1 que surgiram algumas obras distantes da abstra\u00e7\u00e3o que o autor desenvolveu ao longo da carreira \u2014ele captava em detalhe a vegeta\u00e7\u00e3o e as casas rurais guardadas na mem\u00f3ria, mesmo que com tra\u00e7os cubistas e outras quebras com o realismo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, &#8220;A Fazenda&#8221;, de 1922, marca a transi\u00e7\u00e3o entre a realidade dos quadros e o flerte com o surrealismo. Naquele ano, j\u00e1 vivia em Paris, onde conheceu <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/webstories\/cultura\/2020\/11\/o-pintor-salvador-dali\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Salvador Dal\u00ed<\/a>, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/webstories\/cultura\/2021\/12\/vida-e-obra-de-pablo-picasso\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Pablo Picasso<\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2024\/07\/surrealismo-ha-cem-anos-rompeu-com-logica-e-mudou-visao-sobre-o-mundo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Andr\u00e9 Breton<\/a>, escritor do manifesto que cunhou o movimento pautado pelos sonhos e pelo rompimento com a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, dizia Breton, Mir\u00f3 era o mais surrealista dos surrealistas, especializado num fazer espont\u00e2neo, movido pelo acaso e por rabiscos aleat\u00f3rios, que jamais pressupunha seu estado final desde o come\u00e7o. O processo era distante do que Dal\u00ed e Picasso usavam para expurgar as composi\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas com que sonhavam.<\/p>\n<p>Dado a raridade das primeiras pinturas, em que se v\u00ea o abandono gradual de cen\u00e1rios, da perspectiva e do contraste entre luz e sombra, a exposi\u00e7\u00e3o parte de meados dos anos 1940, quando o espanhol espelhava a dor em corpos bizarros \u2014mesmo que j\u00e1 anunciassem a atmosfera solar de futuros projetos.<\/p>\n<p>S\u00e3o figuras que, entre bichos de tra\u00e7os pretos e esguios e bestas imponentes em vermelhos saturados, antecipam as manchas, os s\u00f3is, as penas, os membros e as faces que o artista tomaria como letras primordiais.<\/p>\n<p>A const\u00e2ncia nesse referencial perpassa as v\u00e1rias bases materiais que Mir\u00f3 explorou e at\u00e9 dificulta a separa\u00e7\u00e3o entre as se\u00e7\u00f5es da mostra.<\/p>\n<p>Basta ver as esculturas que re\u00fanem pedras, madeira e outros materiais ao sobrepor a biologia humana \u00e0 animal ou gravuras como &#8220;Mulher e Cachorro Diante da Lua&#8221;, al\u00e9m daquelas em que retrata escorpi\u00f5es, formigas e outros insetos com que se identificava. Como eles, Mir\u00f3 dizia ter antenas que captavam for\u00e7as inexplic\u00e1veis. Outras esculturas, como &#8220;Garota Fugindo&#8221;, transgrediram a academia ao pintar bronze com cores prim\u00e1rias.<\/p>\n<p>&#8220;Picasso era v\u00edtima de sua genialidade e de seu virtuosismo&#8221;, afirma o neto de Mir\u00f3, comparando o trabalho dos dois artistas. &#8220;Ele era genial demais para fazer arte primitiva, liberar o seu inconsciente e estar com as estrelas e o universo.&#8221;<\/p>\n<p>A ideia do g\u00eanio ideal \u00e9 revista tamb\u00e9m na \u00e1rea com tape\u00e7arias que o espanhol idealizou, pouco mais de uma d\u00e9cada antes de morrer, ao lado de Josep Royo, ent\u00e3o um artes\u00e3o na faixa dos 20 anos. A diferen\u00e7a de idade e outras parcerias que marcaram Mir\u00f3 \u2014como aquela com o diretor <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2021\/10\/quem-e-o-cineasta-espanhol-parceiro-de-miro-e-admirado-por-almodovar-e-glauber.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Pere Portabella<\/a>, cujos curtas exploram a finitude das imagens\u2014 ilustram um autor que nunca se negou a compartilhar a criatividade.<\/p>\n<p>As tape\u00e7arias reunidas na mostra pertencem a &#8220;Le L\u00e9zard aux Plumes d\u2019Or&#8221;, o lagarto de plumas douradas, s\u00e9rie que o artista planejou em litografias e s\u00f3 se concretizou ap\u00f3s sua morte, gra\u00e7as \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o entre Royo e descendentes de Mir\u00f3. Uma das pe\u00e7as foi reduzida a cinzas, no World Trade Center, no <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/11-de-setembro\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">11 de Setembro<\/a>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m por isso, diz o CEO do Instituto Totex, Roberto Souza Le\u00e3o, essas pe\u00e7as estiveram entre as mais dif\u00edceis de se trazer para o Brasil. Esse tipo de tr\u00e2mite, que exige negocia\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias com herdeiros e seguradoras, tornou-se ainda pior ap\u00f3s os <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2026\/05\/apos-visita-de-flavio-bolsonaro-eua-determinam-que-cv-e-pcc-sao-organizacoes-terroristas.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Estados Unidos classificarem o PCC e o Comando Vermelho<\/a> como organiza\u00e7\u00f5es terroristas internacionais.<\/p>\n<p>Valeu o esfor\u00e7o. Ver as obras \u00e9 como andar por um pal\u00e1cio, cujos tapetes abandonaram o ch\u00e3o para saltar das paredes com penas coloridas, manchas que lembram olhos humanos e tra\u00e7os pretos espalhados por quase toda a superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Afinal, foi essa a cor que Mir\u00f3 escolheu para suas \u00faltimas obras, em que massas escuras tomam o espa\u00e7o antes ocupado por cores vivas e formas \u00fanicas. Ainda que possam representar a aproxima\u00e7\u00e3o da morte,  n\u00e3o deixam de espelhar algu\u00e9m que tentou investigar e unificar todos os enigmas do mundo, como  defende o curador Jordi J. Clavero.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas diziam: &#8216;meu neto pode fazer isso\u2019&#8221;, diz o neto de Mir\u00f3. &#8220;Ele respondia vendendo obras por milh\u00f5es em grandes leil\u00f5es e, logo em seguida, se voltava a uma revis\u00e3o completa do que j\u00e1 havia feito, para nunca deixar de ser uma crian\u00e7a humilde e apaixonada pela rebeldia.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 quem diga que os rabiscos de Joan Mir\u00f3 podem facilmente ser imitados por crian\u00e7as. 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