{"id":480673,"date":"2026-08-09T18:40:23","date_gmt":"2026-08-09T18:40:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/480673\/"},"modified":"2026-08-09T18:40:23","modified_gmt":"2026-08-09T18:40:23","slug":"acucar-foi-tao-crucial-quanto-carne-na-evolucao-humana-09-08-2026-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/480673\/","title":{"rendered":"A\u00e7\u00facar foi t\u00e3o crucial quanto carne na evolu\u00e7\u00e3o humana &#8211; 09\/08\/2026 &#8211; Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Os paleoantrop\u00f3logos passaram algumas d\u00e9cadas destacando a import\u00e2ncia da prote\u00edna e da gordura de origem animal para a evolu\u00e7\u00e3o humana, mas um grupo de especialistas agora defende que \u00e9 preciso ado\u00e7ar um pouco essa hist\u00f3ria. Para eles, a busca por a\u00e7\u00facar teria sido igualmente importante para moldar a nossa trajet\u00f3ria evolutiva.<\/p>\n<p>A equipe cunhou at\u00e9 uma sigla para condensar a ideia. Trata-se da palavra inglesa &#8220;Sweet&#8221; (&#8220;Doce&#8221;), cujas letras correspondem \u00e0 frase &#8220;os a\u00e7\u00facares foram essenciais para a evolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m&#8221;). \u00c9 com ela que o grupo liderado por Jennie Brand-Miller, da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/universidade\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Universidade<\/a> de Sydney, na Austr\u00e1lia, conclui seu artigo publicado na \u00faltima quinta-feira (6) no <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.aed8437?adobe_mc=MCMID%3D08110867246235383532660416131634320417%7CMCORGID%3D242B6472541199F70A4C98A6%2540AdobeOrg%7CTS%3D1786051164\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">peri\u00f3dico especializado Science<\/a>.<\/p>\n<p>O quarteto formado por Brand-Miller e seus colegas examinou o consumo desse tipo de mol\u00e9cula nas dietas de grandes primatas n\u00e3o humanos e popula\u00e7\u00f5es tradicionais de hoje, bem como a maneira como os a\u00e7\u00facares s\u00e3o metabolizados pelo organismo da nossa esp\u00e9cie e de seus parentes. Com isso, eles chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que a busca por essas subst\u00e2ncias na dieta foi uma pe\u00e7a-chave para o desenvolvimento do c\u00e9rebro humano ao longo de milh\u00f5es de anos, por exemplo.<\/p>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o, afinal de contas, \u00e9 especialmente \u00e1vido por glicose (a forma &#8220;b\u00e1sica&#8221; do a\u00e7\u00facar, empregada nas diferentes fun\u00e7\u00f5es do metabolismo de energia do organismo), principalmente no caso de gestantes, dos fetos que elas carregam e das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Essa lista corresponde \u00e0s fases da vida mais importantes para o sucesso reprodutivo de mam\u00edferos como n\u00f3s, e, portanto, s\u00e3o um dos alvos preferenciais do processo de sele\u00e7\u00e3o natural, cuja chave \u00e9 o favorecimento de quem consegue deixar mais descendentes.<\/p>\n<p>Desde meados do s\u00e9culo passado, a descoberta de instrumentos de pedra em s\u00edtios arqueol\u00f3gicos da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/africa\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">\u00c1frica<\/a> Oriental, alguns dos quais associados a ossos de animais de grande porte, levaram os cientistas a postular que os usu\u00e1rios dessas ferramentas (em muitos casos, membros primitivos do g\u00eanero Homo, o mesmo ao qual pertencemos) passaram a intensificar pr\u00e1ticas de ca\u00e7a ou de obten\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/carne\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">carne<\/a> de herb\u00edvoros ca\u00e7ados por grandes predadores.<\/p>\n<p>Como h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entre essas pistas e o momento em que o c\u00e9rebro desses ancestrais come\u00e7a a ficar maior que o de um chimpanz\u00e9 atual (em torno de 2 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s), surgiu a ideia de que as novas habilidades de ca\u00e7ador (e\/ou carniceiro) teria trazido recursos alimentares que propiciaram o desenvolvimento cerebral.<\/p>\n<p>Segundo essa vis\u00e3o, tanto a prote\u00edna quanto a gordura da carne, bem como o rico tutano, tamb\u00e9m gorduroso, presente na medula dos ossos, seriam acessados com mais facilidade e frequ\u00eancia gra\u00e7as \u00e0 disponibilidade dos instrumentos de pedra.<\/p>\n<p>A ideia foi complementada por estudos sobre as ca\u00e7adas conduzidas por chimpanz\u00e9s. Embora se alimentem principalmente de frutas, esses primos da humanidade tamb\u00e9m adotam m\u00e9todos cooperativos para capturar macacos de pequeno porte (sem parentesco pr\u00f3ximo com eles), filhotes de ant\u00edlopes e outros animais.<\/p>\n<p>Todos esses dados s\u00e3o relevantes, concordam os autores da nova pesquisa, mas \u00e9 preciso complement\u00e1-los com o outro lado da moeda: dietas muito pobres em a\u00e7\u00facares e totalmente focadas em alimentos de origem animal costumam ser problem\u00e1ticas para a maioria dos seres humanos, em especial por causa das necessidades de glicose do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Acontece que, embora existam mecanismos do organismo que viabilizam a transforma\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas e gorduras em glicose, trata-se de um processo relativamente lento e ineficiente, que consume quantidades consider\u00e1veis de energia. Al\u00e9m disso, dietas muito pobres em a\u00e7\u00facares parecem ter efeitos negativos sobre a cogni\u00e7\u00e3o de adultos e afetar o desenvolvimento cerebral de fetos, por exemplo.<\/p>\n<p>Essas necessidades, para os pesquisadores, moldaram as estrat\u00e9gias de obten\u00e7\u00e3o de alimentos dos grupos mais recentes de ca\u00e7adores-coletores e de seus ancestrais desde o surgimento da linhagem humana, levando \u00e0 continuidade da coleta de frutas em todos os ambientes nos quais isso fosse poss\u00edvel, \u00e0 busca por fontes de mel (antes do surgimento da produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar, uma das fontes mais ricas de nutrientes desse tipo) e, talvez principalmente, ao processamento de diferentes formas de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2024\/10\/como-os-primeiros-humanos-evoluiram-para-comer-amido.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">amido<\/a>.<\/p>\n<p>De fato, para os pesquisadores, embora o uso de instrumentos de pedra tenha sido importante na obten\u00e7\u00e3o de prote\u00edna e gordura animal, essas mesmas ferramentas tamb\u00e9m ajudaram os ancestrais da humanidade a preparar para o consumo ra\u00edzes, tub\u00e9rculos e sementes ricos em carboidratos.<\/p>\n<p>A capacidade de macerar essas fontes de amido, somada, por volta de 1 milh\u00e3o de anos atr\u00e1s, ao dom\u00ednio do fogo e do cozimento, viabilizou a obten\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facares a partir dessa via. Isso ficaria ainda mais dispon\u00edvel quando o cultivo de cereais e outras plantas surgiu, ap\u00f3s o fim da Era do Gelo, h\u00e1 cerca de 10 mil anos.<\/p>\n<p>Segundo os c\u00e1lculos de Jennie Brand-Miller e seus colegas, enquanto os primeiros homin\u00ednios obteriam cerca de 65% de suas necessidades energ\u00e9ticas a partir do consumo de frutas e outros alimentos doces, a propor\u00e7\u00e3o caiu para 25% nos seres humanos modernos \u2013ainda assim superior \u00e0 energia advinda de prote\u00ednas, em torno de 19%.<\/p>\n<p>Para a equipe, os problemas de sa\u00fade atuais derivados do consumo excessivo de a\u00e7\u00facares est\u00e3o associados principalmente \u00e0 forma ultraprocessada desses nutrientes, sem a presen\u00e7a de fibras e demais nutrientes ingeridos com as frutas in natura. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Os paleoantrop\u00f3logos passaram algumas d\u00e9cadas destacando a import\u00e2ncia da prote\u00edna e da gordura de origem animal para a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":480674,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[10172,2369,2950,3440,20549,4288,11310,236,116,3536,32,33,67917,117,3062],"class_list":["post-480673","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-acucar","tag-alimentacao","tag-alimento","tag-antropologia","tag-carne","tag-cerebro","tag-evolucao-humana","tag-folha","tag-health","tag-pesquisa-cientifica","tag-portugal","tag-pt","tag-revista-science","tag-saude","tag-universidade"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117067017581895863","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/480673","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=480673"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/480673\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/480674"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=480673"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=480673"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=480673"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}