{"id":481091,"date":"2026-08-10T03:27:09","date_gmt":"2026-08-10T03:27:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/481091\/"},"modified":"2026-08-10T03:27:09","modified_gmt":"2026-08-10T03:27:09","slug":"pacientes-com-hipotireoidismo-apresentam-apneia-do-sono-com-maior-frequencia-e-gravidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/481091\/","title":{"rendered":"Pacientes com hipotireoidismo apresentam apneia do sono com maior frequ\u00eancia e gravidade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fernanda Bassette | Ag\u00eancia FAPESP<\/strong> \u2013 Pessoas com hipotireoidismo apresentam quadros mais frequentes e graves de apneia obstrutiva do sono (AOS) \u2013 dist\u00farbio em que as vias respirat\u00f3rias colapsam repetidamente durante a noite, interrompendo a respira\u00e7\u00e3o e causando pequenos despertares. A conclus\u00e3o \u00e9 de um estudo <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/sleep\/article\/49\/Supplement_1\/A463\/8674319\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">publicado<\/a> em maio na revista Sleep. De acordo com os resultados, pacientes que fazem reposi\u00e7\u00e3o hormonal para tratar a disfun\u00e7\u00e3o da tireoide conseguem dormir mais e alcan\u00e7am per\u00edodos mais longos de sono profundo.<\/p>\n<p>A pesquisa foi financiada pela FAPESP e conduzida na Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), com participantes do Estudo Epidemiol\u00f3gico do Sono de S\u00e3o Paulo (EPISONO). Em sua quarta edi\u00e7\u00e3o, com dados coletados entre 2018 e 2019, esse grande projeto de base populacional mapeou a qualidade do sono de uma amostra representativa de moradores da capital paulista.<\/p>\n<p>A partir do banco de dados gerado pelo EPISONO 2018, os pesquisadores analisaram as informa\u00e7\u00f5es de 761 paulistanos que passaram por exames laboratoriais e pela polissonografia, exame padr\u00e3o-ouro que monitora diferentes par\u00e2metros do sono durante uma noite inteira. O hipotireoidismo foi identificado em 12,6% dos participantes e, entre eles, quase metade (49,5%) apresentava apneia obstrutiva do sono.<\/p>\n<p>\u201cEsper\u00e1vamos que a preval\u00eancia de apneia do sono fosse consider\u00e1vel entre pessoas com hipotireoidismo, mas o resultado foi mais elevado do que imagin\u00e1vamos. Na literatura, os estudos costumam apontar valores variados, em m\u00e9dia entre 30% e 40%, e n\u00f3s encontramos praticamente metade dos participantes com as duas condi\u00e7\u00f5es\u201d, afirma a pesquisadora Ellen Maria Sampaio Xerfan, p\u00f3s-doutoranda no Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp) e primeira autora do estudo.<\/p>\n<p>O trabalho foi apoiado pela FAPESP por meio de dois projetos (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/110874\/relacao-da-apneia-obstrutiva-do-sono-e-suas-comorbidades-com-a-microbiota-intestinal-interface-com-s\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">20\/13467-8<\/a> e <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/109945\/desenvolvimento-de-vacinas-de-subunidade-contra-o-sars-cov-2-baseadas-no-dominio-de-ligacao-ao-recep\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">21\/13004-0<\/a>).<\/p>\n<p><strong>Rela\u00e7\u00e3o bidirecional<\/strong><\/p>\n<p>O hipotireoidismo \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o caracterizada pela produ\u00e7\u00e3o insuficiente de horm\u00f4nios pela tireoide, gl\u00e2ndula localizada na regi\u00e3o do pesco\u00e7o e respons\u00e1vel por regular fun\u00e7\u00f5es como metabolismo, temperatura corporal, frequ\u00eancia card\u00edaca e gasto energ\u00e9tico. Entre os sintomas mais frequentes est\u00e3o cansa\u00e7o, sonol\u00eancia, ganho de peso, queda de cabelo, pele seca, constipa\u00e7\u00e3o e dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o. A preval\u00eancia do hipotireoidismo varia conforme a popula\u00e7\u00e3o, mas estimativas apontam que entre 4% e 8% das pessoas s\u00e3o afetadas pela condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 a preval\u00eancia da apneia obstrutiva do sono vem crescendo nos \u00faltimos anos, de acordo com dados do EPISONO: de 32,9% em 2010 para 37,1% em 2018. Ou seja, cerca de quatro em cada dez pessoas sofrem com o problema. A condi\u00e7\u00e3o provoca queda nos n\u00edveis de oxig\u00eanio e fragmenta\u00e7\u00e3o do sono, podendo causar ronco, sonol\u00eancia diurna e dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m est\u00e1 associada a um aumento do risco de doen\u00e7as cardiovasculares e metab\u00f3licas.<\/p>\n<p>Segundo Xerfan, a rela\u00e7\u00e3o entre tireoide e sono tem despertado interesse dos pesquisadores porque ambos participam da manuten\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio do organismo (homeostase). A tireoide integra um sistema hormonal respons\u00e1vel por regular diversas fun\u00e7\u00f5es do corpo, enquanto o sono exerce papel fundamental na recupera\u00e7\u00e3o f\u00edsica e na regula\u00e7\u00e3o hormonal. \u201cO sono e a tireoide est\u00e3o ligados a mecanismos fundamentais de homeostase. Existe uma intera\u00e7\u00e3o complexa entre os sistemas, e tanto altera\u00e7\u00f5es de sono podem influenciar a regula\u00e7\u00e3o hormonal quanto disfun\u00e7\u00f5es da tireoide podem afetar a qualidade de sono\u201d, explica.<\/p>\n<p>Os resultados do estudo refor\u00e7am essa hip\u00f3tese. Em compara\u00e7\u00e3o com os demais participantes, as pessoas com hipotireoidismo tiveram noites de sono mais fragmentadas, acordaram mais vezes ao longo da noite e apresentaram mais apneia obstrutiva do sono. O estudo tamb\u00e9m mostrou que, quanto mais elevados estavam os n\u00edveis de TSH (horm\u00f4nio usado para avaliar o funcionamento da tireoide), maior era a probabilidade de a pessoa apresentar formas mais graves de apneia.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise apontou ainda o caminho inverso. Caracter\u00edsticas associadas \u00e0 pior qualidade do sono e \u00e0 maior gravidade da apneia estiveram relacionadas a uma probabilidade maior de hipotireoidismo. Para os pesquisadores, esse foi um dos resultados mais relevantes do trabalho, pois sugere uma poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o bidirecional entre as duas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para a professora da EPM-Unifesp <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/15176\/monica-levy-andersen\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Monica Levy Andersen<\/a>, orientadora do estudo, os resultados refor\u00e7am a necessidade de olhar para o sono de forma mais integrada na pr\u00e1tica cl\u00ednica. \u201cHoje, quando um paciente procura atendimento, raramente o sono \u00e9 investigado de forma aprofundada. Muitas vezes ele relata cansa\u00e7o, altera\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas ou outros sintomas, mas nem sempre se considera que um dist\u00farbio do sono possa estar contribuindo para esse quadro\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Segundo Andersen, esse cen\u00e1rio \u00e9 reflexo de uma mudan\u00e7a relativamente recente na medicina. H\u00e1 poucas d\u00e9cadas, os dist\u00farbios do sono eram pouco abordados durante a forma\u00e7\u00e3o dos profissionais de sa\u00fade. Hoje, por\u00e9m, cresce o reconhecimento de que problemas relacionados ao sono podem influenciar desde doen\u00e7as cardiovasculares e metab\u00f3licas at\u00e9 altera\u00e7\u00f5es hormonais, imunol\u00f3gicas e cognitivas.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora, embora ainda n\u00e3o seja poss\u00edvel afirmar qual condi\u00e7\u00e3o surge primeiro, os resultados indicam que altera\u00e7\u00f5es da tireoide e dist\u00farbios do sono podem influenciar-se mutuamente. \u201cA principal mensagem \u00e9 a import\u00e2ncia de investigar essa intera\u00e7\u00e3o. Muitas vezes o profissional est\u00e1 atento a um problema, mas n\u00e3o considera a possibilidade de o outro estar presente ao mesmo tempo\u201d, diz Andersen.<\/p>\n<p><strong>Import\u00e2ncia do tratamento<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho tamb\u00e9m investigou o impacto do tratamento do hipotireoidismo por reposi\u00e7\u00e3o hormonal sobre o sono. Entre os participantes diagnosticados com a doen\u00e7a, aqueles que faziam o tratamento dormiam, em m\u00e9dia, cerca de 49 minutos a mais por noite do que os n\u00e3o tratados. Eles tamb\u00e9m permaneciam aproximadamente 22 minutos adicionais no est\u00e1gio N3, conhecido como sono profundo. \u201cEssa fase do sono est\u00e1 relacionada a processos de repara\u00e7\u00e3o do organismo, consolida\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e recupera\u00e7\u00e3o tecidual. O fato de os pacientes tratados passarem mais tempo nesse est\u00e1gio sugere um efeito positivo da reposi\u00e7\u00e3o hormonal sobre a arquitetura do sono\u201d, diz Xerfan.<\/p>\n<p>Para Andersen, os resultados refor\u00e7am a import\u00e2ncia do tratamento adequado do hipotireoidismo. \u201cA reposi\u00e7\u00e3o com levotiroxina auxilia na regulariza\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis dos horm\u00f4nios tireoidianos e esteve associada \u00e0 melhora da dura\u00e7\u00e3o total do sono e da organiza\u00e7\u00e3o de sua arquitetura. Isso pode contribuir n\u00e3o apenas para o controle da doen\u00e7a, mas tamb\u00e9m para uma melhor qualidade de vida\u201d, avalia.<\/p>\n<p>As pesquisadoras destacam que tanto a apneia do sono quanto o hipotireoidismo est\u00e3o associados ao aumento do risco cardiovascular quando n\u00e3o s\u00e3o tratados adequadamente. A apneia provoca quedas repetidas nos n\u00edveis de oxig\u00eanio durante a noite e aumenta a sobrecarga sobre o sistema cardiovascular. J\u00e1 o hipotireoidismo favorece altera\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas e ganho de peso, fatores que tamb\u00e9m elevam o risco de complica\u00e7\u00f5es. Quando as duas condi\u00e7\u00f5es coexistem, seus efeitos podem se somar.<\/p>\n<p>Por isso, segundo Andersen, o tratamento de uma condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o substitui necessariamente o da outra. \u201cAs evid\u00eancias sugerem que tratar o hipotireoidismo pode contribuir para a melhora de alguns par\u00e2metros do sono, mas isso n\u00e3o dispensa a avalia\u00e7\u00e3o e o tratamento espec\u00edfico da apneia do sono. S\u00e3o duas condi\u00e7\u00f5es distintas, que podem interagir e potencializar riscos cardiovasculares\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Embora novos estudos sejam necess\u00e1rios para esclarecer os mecanismos envolvidos, as autoras j\u00e1 planejam analisar dados de acompanhamento dos participantes do EPISONO para investigar, por exemplo, se interven\u00e7\u00f5es para apneia do sono est\u00e3o associadas a mudan\u00e7as nos par\u00e2metros da fun\u00e7\u00e3o tireoidiana.<\/p>\n<p>\u201cA principal mensagem \u00e9 que profissionais que acompanham pacientes com apneia do sono devem considerar a investiga\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o tireoidiana. Da mesma forma, pessoas com hipotireoidismo podem se beneficiar da avalia\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis dist\u00farbios de sono. O diagn\u00f3stico precoce e o tratamento adequado das duas condi\u00e7\u00f5es t\u00eam potencial para melhorar a qualidade de vida e reduzir riscos \u00e0 sa\u00fade\u201d, conclui Xerfan.<\/p>\n<p>O artigo 1040 sleep traits and obstructive sleep apnea in hypothyroidism: Findings from the EPISONO database pode ser lido em: <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/sleep\/article\/49\/Supplement_1\/A463\/8674319\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">academic.oup.com\/sleep\/article\/49\/Supplement_1\/A463\/8674319<\/a>.<br \/>&#13;<br \/>\n\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Fernanda Bassette | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Pessoas com hipotireoidismo apresentam quadros mais frequentes e graves de apneia obstrutiva&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":481092,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[5986,10366,43750,116,24955,32,33,46968,117,536],"class_list":["post-481091","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-apneia","tag-frequencia","tag-gravidade","tag-health","tag-hipotireoidismo","tag-portugal","tag-pt","tag-repouso","tag-saude","tag-sono"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117069089723626507","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/481091","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=481091"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/481091\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/481092"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=481091"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=481091"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=481091"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}