{"id":483656,"date":"2026-08-12T07:30:13","date_gmt":"2026-08-12T07:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/483656\/"},"modified":"2026-08-12T07:30:13","modified_gmt":"2026-08-12T07:30:13","slug":"remedios-para-dormir-aumentam-as-chances-de-alzheimer-12-08-2026-equilibrio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/483656\/","title":{"rendered":"Rem\u00e9dios para dormir aumentam as chances de Alzheimer? &#8211; 12\/08\/2026 &#8211; Equil\u00edbrio"},"content":{"rendered":"<p>Quase toda fam\u00edlia conhece algu\u00e9m que toma um comprimido para dormir. Para alguns, o medicamento ajuda durante uma fase de ansiedade. Para outros, tornou-se parte da rotina h\u00e1 anos. Clonazepam, alprazolam, diazepam, zolpidem e outros medicamentos semelhantes est\u00e3o entre os rem\u00e9dios mais prescritos no mundo. No Brasil, o <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/saude\/noticia\/2025\/10\/22\/clonazepam-uso-irregular-do-calmante-mais-vendido-no-brasil-causa-dependencia-silenciosa-entre-idosos.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">clonazepam (Rivotril)<\/a> figura h\u00e1 anos entre os medicamentos mais consumidos. Ao mesmo tempo, \u00e9 cada vez mais comum aparecerem manchetes afirmando que esses medicamentos poderiam aumentar o risco de doen\u00e7a de Alzheimer.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que esses medicamentos realmente aumentam o risco de Alzheimer? Uma revis\u00e3o conclu\u00edda recentemente de 13 grandes estudos observacionais, da qual fiz parte, deixa claro que <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/42334823\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">a ci\u00eancia ainda n\u00e3o tem uma resposta conclusiva a essa pergunta<\/a>. Os pesquisadores j\u00e1 t\u00eam certeza, por\u00e9m, de que o uso prolongado desses medicamentos est\u00e1 associado a diversos <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/14731058\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">efeitos adversos sobre a cogni\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade<\/a>, independentemente de sua poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o com a dem\u00eancia. Entender essa diferen\u00e7a \u00e9 fundamental para interpretar corretamente o que a ci\u00eancia mostra at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Qual a origem dessa preocupa\u00e7\u00e3o? Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, diversos estudos observaram que pessoas que usam benzodiazep\u00ednicos ou medicamentos para dormir apresentam maior frequ\u00eancia de doen\u00e7a de Alzheimer anos depois. \u00c0 primeira vista, a conclus\u00e3o parece ser que o medicamento aumenta o risco. Mas, em medicina, nem sempre uma associa\u00e7\u00e3o significa que uma coisa causa a outra.<\/p>\n<p>Imagine uma pessoa que, muitos anos antes do diagn\u00f3stico de Alzheimer, come\u00e7a a dormir mal, sentir mais ansiedade e apresentar sintomas depressivos. Ela pode procurar atendimento m\u00e9dico justamente por essas queixas e receber uma receita de benzodiazep\u00ednico ou de um rem\u00e9dio para dormir. Nesse cen\u00e1rio, o medicamento n\u00e3o seria necessariamente um deflagrador da doen\u00e7a, mas uma indica\u00e7\u00e3o de que o processo neurodegenerativo j\u00e1 estava em curso. Os cientistas chamam isso de <a href=\"https:\/\/www.bmj.com\/content\/349\/bmj.g5205\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">causalidade reversa<\/a>.<\/p>\n<p>Olhar mais profundo<\/p>\n<p>Distinguir associa\u00e7\u00e3o (quando duas situa\u00e7\u00f5es aparecem juntas com frequ\u00eancia) de causalidade (quando uma realmente provoca a outra) \u00e9 um dos maiores desafios na interpreta\u00e7\u00e3o de estudos observacionais e uma das raz\u00f5es pelas quais estabelecer rela\u00e7\u00f5es de causa e efeito em medicina costuma ser muito mais dif\u00edcil do que parece. Foi justamente essa quest\u00e3o que motivou nossa pesquisa.<\/p>\n<p>Realizamos uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica com meta-an\u00e1lise reunindo os principais estudos publicados sobre benzodiazep\u00ednicos e medicamentos conhecidos como Z-drugs (como o zolpidem) e o risco de doen\u00e7a de Alzheimer. <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/41187937\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">As Z-drugs<\/a> induzem o sono de forma mais seletiva do que os benzodiazep\u00ednicos, mas o uso prolongado tamb\u00e9m est\u00e1 associado a riscos como depend\u00eancia, abstin\u00eancia, quedas e fraturas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/42334823\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Foram analisados dados de mais de 720 mil participantes provenientes de importantes estudos observacionais<\/a> (aqueles em que os pesquisadores acompanham pessoas ao longo do tempo, mas n\u00e3o determinam quem recebe ou n\u00e3o um tratamento). Quando analisamos todos os estudos em conjunto, encontramos uma associa\u00e7\u00e3o entre o uso desses medicamentos e um aumento da chance de desenvolver Alzheimer. Mas a nossa percep\u00e7\u00e3o mudou quando examinamos os dados com mais cuidado. Vimos que os resultados variavam bastante entre os estudos.<\/p>\n<p>Isso significa que, com as evid\u00eancias dispon\u00edveis hoje, ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar que exista uma rela\u00e7\u00e3o causal, ou seja, n\u00e3o significa que os medicamentos causem Alzheimer.<\/p>\n<p>Existe, por\u00e9m, um ponto importante que n\u00e3o pode ser confundido. Dizer que a ci\u00eancia ainda n\u00e3o sabe se esses medicamentos causam doen\u00e7a de Alzheimer n\u00e3o significa que eles sejam seguros para o uso prolongado. Diversos estudos v\u00eam demonstrando, ao longo de d\u00e9cadas, que o uso cont\u00ednuo de benzodiazep\u00ednicos pode prejudicar mem\u00f3ria, aten\u00e7\u00e3o, velocidade de processamento das informa\u00e7\u00f5es e outras fun\u00e7\u00f5es cognitivas, especialmente em pessoas idosas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, esses medicamentos aumentam o risco de depend\u00eancia, <a href=\"https:\/\/pmc.ncbi.nlm.nih.gov\/articles\/PMC12463801\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">toler\u00e2ncia<\/a>, sonol\u00eancia durante o dia, quedas, fraturas e acidentes. S\u00e3o efeitos que motivam recomenda\u00e7\u00f5es contidas em diversas diretrizes nacionais e internacionais para que seu uso prolongado seja evitado sempre que poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Diferentemente da rela\u00e7\u00e3o com Alzheimer, esses riscos est\u00e3o bem estabelecidos. A principal controv\u00e9rsia cient\u00edfica, portanto, n\u00e3o \u00e9 se benzodiazep\u00ednicos podem causar efeitos cognitivos \u2014isso sabemos que podem. A d\u00favida que persiste \u00e9 se eles participam diretamente do desenvolvimento da doen\u00e7a de Alzheimer ou se apenas identificam pessoas cujo processo neurodegenerativo j\u00e1 havia come\u00e7ado antes mesmo da prescri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia do sono<\/p>\n<p>Talvez a pergunta mais importante seja por que tantas pessoas recorrem aos benzodiazep\u00ednicos. Hoje sabemos que ter ins\u00f4nia ou dormir mal n\u00e3o \u00e9 apenas um problema de qualidade de vida. Durante o sono, especialmente nas fases mais profundas, o c\u00e9rebro realiza fun\u00e7\u00f5es essenciais para sua manuten\u00e7\u00e3o. Entre elas est\u00e1 a <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/38163471\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">elimina\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas e metab\u00f3litos que se acumulam ao longo do dia<\/a>.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, dist\u00farbios cr\u00f4nicos do sono est\u00e3o associados \u00e0 inflama\u00e7\u00e3o, altera\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas, pior controle da press\u00e3o arterial e maior risco cardiovascular \u2014fatores que podem contribuir para o <a href=\"https:\/\/professional.heart.org\/en\/science-news\/impact-of-sleep-disorders-and-disturbed-sleep-on-brain-health\/top-things-to-know\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">decl\u00ednio cognitivo<\/a> ao longo do envelhecimento. A pr\u00f3pria ins\u00f4nia pode ser um fator de risco independente para altera\u00e7\u00f5es cognitivas em muitos casos e, em outros, representar um dos primeiros sintomas de doen\u00e7as neurodegenerativas ainda n\u00e3o diagnosticadas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o devemos parar de tomar medicamentos para dormir? Benzodiazep\u00ednicos e medicamentos para dormir continuam sendo ferramentas importantes da medicina. Em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas \u2014como crises intensas de ansiedade, ins\u00f4nia aguda, algumas doen\u00e7as neurol\u00f3gicas e determinadas condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas\u2014 eles podem oferecer benef\u00edcios importantes e melhorar significativamente a qualidade de vida.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o costuma ser a prescri\u00e7\u00e3o em si, mas quando um tratamento inicialmente previsto para durar dias ou algumas semanas acaba sendo mantido por meses ou anos sem uma reavalia\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica. As <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/jsr.14035\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">recomenda\u00e7\u00f5es atuais permanecem v\u00e1lidas<\/a>: esses medicamentos devem ser utilizados na menor dose eficaz, pelo menor tempo poss\u00edvel, sempre que isso for vi\u00e1vel, associados ao tratamento da causa da ins\u00f4nia ou da ansiedade e acompanhados por um profissional de sa\u00fade.<\/p>\n<p>A maior contribui\u00e7\u00e3o da nossa pesquisa, al\u00e9m de deixar claro que n\u00e3o h\u00e1 conclus\u00f5es definitivas associando o uso dos benzodiazep\u00ednicos ao aumento do risco de vir a ter a doen\u00e7a de Alzheimer, \u00e9 justamente mostrar como a ci\u00eancia costuma ser mais complexa do que as manchetes sugerem. Encontrar uma associa\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas o primeiro passo. Demonstrar que ela representa uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito \u00e9 um desafio muito maior. Enquanto essa resposta n\u00e3o chega, benzodiazep\u00ednicos n\u00e3o devem ser encarados como medicamentos isentos de riscos quando utilizados por longos per\u00edodos.<\/p>\n<p>Nossa revis\u00e3o refor\u00e7a que esses resultados devem ser interpretados com cautela, j\u00e1 que os estudos dispon\u00edveis s\u00e3o observacionais, bastante heterog\u00eaneos e sujeitos a fatores de confus\u00e3o e causalidade reversa. Enquanto novos estudos buscam esclarecer se esses medicamentos participam diretamente do desenvolvimento da doen\u00e7a de Alzheimer, a orienta\u00e7\u00e3o segura \u00e9 cuidar da qualidade do sono. Consultar m\u00e9dicos especialistas, <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s44470-025-00038-8\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">diagnosticar e tratar adequadamente as altera\u00e7\u00f5es do sono e reavaliar periodicamente a necessidade desses medicamentos<\/a> continua sendo uma das estrat\u00e9gias mais importantes para preservar a sa\u00fade do c\u00e9rebro ao longo do envelhecimento.<\/p>\n<p>Este texto foi publicado no <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/the-conversation\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">The Conversation<\/a>. Clique <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/remedios-para-dormir-aumentam-as-chances-de-alzheimer-confira-o-que-a-ciencia-ja-sabe-289135\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">aqui<\/a> para ler a vers\u00e3o original.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Quase toda fam\u00edlia conhece algu\u00e9m que toma um comprimido para dormir. 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