{"id":485590,"date":"2026-08-13T19:07:24","date_gmt":"2026-08-13T19:07:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/485590\/"},"modified":"2026-08-13T19:07:24","modified_gmt":"2026-08-13T19:07:24","slug":"sonhos-de-androide-quatro-cinco-um","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/485590\/","title":{"rendered":"Sonhos de androide &#8211; Quatro cinco um"},"content":{"rendered":"<p>Rob\u00f4s futuristas, circuitos eletr\u00f4nicos, equa\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas em telas cristalinas. Assim s\u00e3o as imagens da intelig\u00eancia artificial: s\u00edmbolos de algo et\u00e9reo, abstrato, existente apenas em uma \u201cnuvem\u201d fict\u00edcia. Esse imagin\u00e1rio visual tende a ocultar, por\u00e9m, os recursos necess\u00e1rios para construir e manter essa tecnologia funcionando. E estes s\u00e3o concretos, sejam eles naturais, energ\u00e9ticos ou humanos.<\/p>\n<p>\u00c9 essa dimens\u00e3o material da IA que uma s\u00e9rie de livros recentes busca expor. Nos \u00faltimos meses, foram lan\u00e7ados A m\u00e1quina e n\u00f3s: promessas e armadilhas da intelig\u00eancia artificial, da professora e pesquisadora de matem\u00e1tica Tatiana Roque, e O imp\u00e9rio da ia: por dentro da corrida irrespons\u00e1vel pela domina\u00e7\u00e3o total, da jornalista estadunidense especializada em tecnologia Karen Hao.<\/p>\n<p>Entre os lan\u00e7amentos do ano passado, destacam-se Ref\u00e9m do algorimo: a vida sob a sombra da intelig\u00eancia artificial, da indo-brit\u00e2nica Madhumita Murgia, editora de iA do Financial Times, e Atlas da ia: poder, pol\u00edtica e os custos planet\u00e1rios da intelig\u00eancia artificial, da artista e pesquisadora australiana Kate Crawford.<\/p>\n<p>Imp\u00e9rios<\/p>\n<p>O imp\u00e9rio da IA, best-seller do New York Times, ganhou ampla repercuss\u00e3o ao desvelar os conturbados bastidores da funda\u00e7\u00e3o da Openai e da cria\u00e7\u00e3o do seu principal produto, o Chatgpt. O modelo representou o primeiro contato de muitas pessoas com a intelig\u00eancia artificial e permanece como sin\u00f4nimo da tecnologia no imagin\u00e1rio popular.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria da empresa \u00e9 narrada no livro como um drama corporativo, cada executivo tentando passar a perna no outro. Seu protagonista \u00e9 o carism\u00e1tico e amb\u00edguo fundador da Openai, Sam Altman. J\u00e1 o restante do elenco inclui v\u00e1rias das mais poderosas figuras do Vale do Sil\u00edcio hoje, como o agora trilion\u00e1rio Elon Musk; o cofundador do Google, Larry Page; o fundador da Microsoft, Bill Gates; e os irm\u00e3os Dario e Daniela Amodei, \u00e0 frente da Anthropic, uma das principais rivais da Openai.<\/p>\n<p>A moral da obra se explicita no seu subt\u00edtulo em portugu\u00eas, uma den\u00fancia da \u201ccorrida irrespons\u00e1vel pela domina\u00e7\u00e3o total\u201d da ind\u00fastria da IA. Em outras palavras, o sacrif\u00edcio da ideologia que supostamente guiou a funda\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias empresas da \u00e1rea \u2014 o desenvolvimento de uma tecnologia capaz de beneficiar a humanidade \u2014 em nome de uma busca inescrupulosa por poder e lucro compar\u00e1vel \u00e0quela promovida pelos imp\u00e9rios ultramarinos do passado.<\/p>\n<p>\u00c9 a esses imp\u00e9rios que Hao faz refer\u00eancia no t\u00edtulo do livro. \u00c0 reportagem, a autora justifica a escolha listando as semelhan\u00e7as entre as pot\u00eancias de antigamente e as big techs de hoje. Ambas, ela diz, baseiam seus modelos de neg\u00f3cio na apropria\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias-primas de outrem \u2014 o que, no caso da ind\u00fastria da tecnologia, inclui n\u00e3o s\u00f3 elementos naturais como tamb\u00e9m dados de indiv\u00edduos comuns e propriedades intelectuais de artistas. Aproveitam-se da instabilidade pol\u00edtica e econ\u00f4mica de pa\u00edses empobrecidos para explorar a m\u00e3o de obra deles. Assumem o controle dos fluxos de informa\u00e7\u00e3o. E, por \u00faltimo, justificam a pr\u00f3pria exist\u00eancia apresentando-se como miss\u00f5es civilizat\u00f3rias, imbu\u00eddas da tarefa de levar progresso e modernidade ao restante da humanidade.<\/p>\n<blockquote class=\"s-eye dashed-top\"><p>\n    \u2018Tudo parece brinquedinho de menino. E, se esse menino tiver muito poder, levar\u00e1 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias\u2019\n<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201c\u00c9 exatamente a mesma narrativa\u201d, afirma Hao em entrevista \u00e0 <strong>Quatro Cinco Um<\/strong>. As big techs \u201cest\u00e3o supostamente construindo uma intelig\u00eancia artificial geral para alcan\u00e7ar a utopia, mas somente se elas a controlarem\u201d, diz. O livro come\u00e7a com o mesmo epis\u00f3dio que guia um longa de fic\u00e7\u00e3o sobre a empresa atualmente em produ\u00e7\u00e3o em Hollywood, dirigido por Luca Guadagnino e estrelado por Andrew Garfield.<\/p>\n<p>Questionada pela reportagem se n\u00e3o temeu que as tantas intrigas corporativas do enredo acabassem por obscurecer essa analogia, Hao responde que essa foi, sim, uma preocupa\u00e7\u00e3o constante durante a escrita. Ao mesmo tempo, prossegue, ela queria que o paralelo n\u00e3o se restringisse a uma met\u00e1fora, mas que ficasse evidente no cotidiano da empresa, na leviandade com que seus dirigentes parecem tomar decis\u00f5es que moldar\u00e3o o futuro da IA.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do Vale<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o entre big techs e imp\u00e9rios no que se refere ao expansionismo e \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o de recursos se evidencia nos momentos em que Hao sai do Vale do Sil\u00edcio em dire\u00e7\u00e3o ao Sul Global. \u00c9 em pa\u00edses como o Qu\u00eania e o Chile que ela mostra, na pr\u00e1tica, como a IA afeta indiv\u00edduos comuns, relatando, por exemplo, as tentativas de ativistas latino-americanos de protegerem suas comunidades da explora\u00e7\u00e3o de recursos minerais e energ\u00e9ticos, ou o cotidiano muitas vezes degradante daqueles que atuam classificando e identificando textos e imagens para treinar a tecnologia.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de ir at\u00e9 os lugares e as pessoas que mais sofrem os efeitos da IA tamb\u00e9m \u00e9 usada por Murgia e Crawford em seus livros. Enquanto a primeira acompanhou dezenas de indiv\u00edduos pelo mundo para expor os potenciais benef\u00edcios e malef\u00edcios da intelig\u00eancia artificial, a segunda mostra como essa ind\u00fastria tem sido usada para aumentar a concentra\u00e7\u00e3o de poder no planeta e maximizar a capacidade dos governos e das grandes empresas de explorar a natureza e o trabalho humano.<\/p>\n<p>Elas tamb\u00e9m se alinham a Hao em sua cr\u00edtica \u00e0 express\u00e3o \u201cintelig\u00eancia artificial\u201d. Para as tr\u00eas, o termo \u00e9 acima de tudo uma ferramenta de marketing, uma estrat\u00e9gia ret\u00f3rica para mistificar algo que \u00e9 em ess\u00eancia uma calculadora de previs\u00e3o estat\u00edstica.<\/p>\n<p>Aut\u00f4matos humanos<\/p>\n<p>A mesma discuss\u00e3o guia a primeira metade de A m\u00e1quina e n\u00f3s. Nela, Roque diz temer que a sociedade tenha abdicado do debate sobre o que \u00e9 intelig\u00eancia e a import\u00e2ncia da experi\u00eancia humana para constru\u00ed-la. Estamos cada vez mais adotando uma defini\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia que se ajusta \u00e0s capacidades das m\u00e1quinas, quando o certo seria o inverso.<\/p>\n<p>\u201cOs termos v\u00e3o se adequando aos ares do tempo de tal maneira que nem sequer estranhamos quando um caminh\u00e3o aut\u00f4nomo \u00e9 visto como uma fa\u00e7anha da intelig\u00eancia artificial, mesmo que at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo n\u00e3o ach\u00e1ssemos que dirigir fosse uma atividade inteligente\u201d, escreve a autora.<\/p>\n<p>A segunda parte do livro \u00e9 dedicada aos impactos da IA sobre o trabalho, \u00e1rea que, segundo Roque, ser\u00e1 a mais afetada social e economicamente pela tecnologia. \u00c9 interessante, no entanto, como ela busca historicizar essas transforma\u00e7\u00f5es, optando por posicion\u00e1-las n\u00e3o como uma novidade jamais vista, mas como mais uma etapa de uma \u201cdivis\u00e3o do trabalho mental\u201d que j\u00e1 vinha em curso.<\/p>\n<blockquote class=\"s-eye dashed-top\"><p>\n    \u2018Mitos sobrevivem onde h\u00e1 lacunas de informa\u00e7\u00e3o. Nosso trabalho \u00e9 preencher essas lacunas\u2019\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Afinal, explica ela no livro, a IA s\u00f3 assume tarefas intelectuais depois de elas serem mecanizadas. Ela cita o telemarketing como um exemplo: primeiro, os atendentes foram obrigados a seguir protocolos inflex\u00edveis, agindo como rob\u00f4s, para s\u00f3 ent\u00e3o serem substitu\u00eddos por essas m\u00e1quinas.<\/p>\n<p>Surgem da\u00ed dois riscos. De um lado, a transforma\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios em algo como aut\u00f4matos humanos, como vem acontecendo desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. E, de outro, a apropria\u00e7\u00e3o da economia de tempo gerada pela IA pelas empresas e n\u00e3o pelos funcion\u00e1rios. \u201cH\u00e1 uma luta a ser travada, no sentido sindical, para manter esse tempo livre nas m\u00e3os do trabalhador\u201d, afirma \u00e0 reportagem a autora, que tamb\u00e9m atua na pol\u00edtica institucional.<\/p>\n<p>Roque diz ainda que n\u00e3o se surpreende com o fato de que os quatro livros citados aqui tenham sido escritos por mulheres. Elas est\u00e3o bem menos deslumbradas com a IA do que os homens, observa. \u201cTudo parece um grande brinquedinho de menino. E, se esse menino tiver muito poder, ele levar\u00e1 isso \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. \u00c9 como o Elon Musk mandando foguete para a Lua, querendo colonizar Marte.\u201d<\/p>\n<p>Apocal\u00edpticos e integrados<\/p>\n<p>As autoras das quatro obras tamb\u00e9m contestam a vis\u00e3o, predominante na ind\u00fastria da IA, de que s\u00f3 h\u00e1 dois futuros poss\u00edveis em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tecnologia: desenvolv\u00ea-la a qualquer custo em nome de um imperativo moral, postura adotada pelos chamados \u201cboomers\u201d ou aceleracionistas, ou deter sua evolu\u00e7\u00e3o para evitar que ela ameace existencialmente a humanidade, vis\u00e3o dos \u201cdoomers\u201d ou pessimistas.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, elas argumentam, essa polariza\u00e7\u00e3o acaba funcionando como uma distra\u00e7\u00e3o, ocultando os danos sociais e pol\u00edticos que a tecnologia j\u00e1 provoca no presente e negando a possibilidade de ag\u00eancia das pessoas comuns no seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o duas faces da mesma moeda, duas maneiras de encarar o desenvolvimento da IA como inevit\u00e1vel. Acho que precisamos dizer que n\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nada de inevit\u00e1vel. E isso significa fazer pol\u00edtica\u201d, afirma Roque. \u201cN\u00e3o acredito em nenhuma dessas vers\u00f5es, porque elas n\u00e3o s\u00e3o comprovadas por nenhuma evid\u00eancia cient\u00edfica ou do mundo real. No fim das contas, n\u00e3o devemos nos fixar na ideia de que esses modelos possam, de alguma forma, sair do controle e agir por conta pr\u00f3pria, mas sim nas pessoas por tr\u00e1s deles\u201d, diz Hao. \u201cMitos sobrevivem onde h\u00e1 lacunas de informa\u00e7\u00e3o. O trabalho dos jornalistas e dos pesquisadores \u00e9 preencher essas lacunas.\u201d\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><a data-no-instant=\"1\" href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/assine\" rel=\"noopener nofollow sponsored\" class=\"a2t-link\" target=\"_blank\" aria-label=\"Group 3008\"><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns=\" http:=\"\" alt=\"\" width=\"1056\" height=\"270\" data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Group-3008-1.png\"\/><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n<p><a data-no-instant=\"1\" href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/assine\" rel=\"noopener nofollow sponsored\" class=\"a2t-link\" target=\"_blank\" aria-label=\"Group 3010\"><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns=\" http:=\"\" alt=\"\" width=\"1056\" height=\"270\" data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Group-3010-1.png\"\/><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Rob\u00f4s futuristas, circuitos eletr\u00f4nicos, equa\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas em telas cristalinas. 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