{"id":486235,"date":"2026-08-14T08:14:13","date_gmt":"2026-08-14T08:14:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/486235\/"},"modified":"2026-08-14T08:14:13","modified_gmt":"2026-08-14T08:14:13","slug":"a-europa-esta-a-dormir-e-a-china-vai-nove-jogadas-a-frente-chineses-preparam-servico-regular-de-transporte-atraves-do-artico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/486235\/","title":{"rendered":"&#8220;A Europa est\u00e1 a dormir&#8221; e a China vai \u201cnove jogadas \u00e0 frente\u201d. Chineses preparam servi\u00e7o regular de transporte atrav\u00e9s do \u00c1rtico"},"content":{"rendered":"<p>                O \u00c1rtico deixou de ser um deserto de gelo e pode transformar-se num novo gargalo da geopol\u00edtica global, onde a China j\u00e1 vai &#8220;nove jogadas \u00e0 frente&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify; margin-bottom:11px\">Muitos pensavam que seria uma realidade distante, mas esta semana a operadora chinesa de transporte mar\u00edtimo Sea Legend vai lan\u00e7ar o primeiro servi\u00e7o regular de porta-contentores atrav\u00e9s do \u00c1rtico. O atalho promete cortar os tempos de viagem de 40 para 20 dias, surgindo como um bal\u00e3o de oxig\u00e9nio comercial num momento de crise nos mares do Sul. Contudo, por tr\u00e1s da promessa de efici\u00eancia, especialistas alertam que a Europa est\u00e1 a caminhar para uma armadilha de depend\u00eancia estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>&#8220;A Europa est\u00e1 a dormir. Os europeus est\u00e3o a perder tempo com discuss\u00f5es internas e n\u00e3o conseguimos antecipar os problemas mesmo \u00e0 nossa porta\u201d, avisa Manuel Serrano, especialista em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, admitindo que a China beneficia da capacidade de pensar &#8220;em d\u00e9cadas e n\u00f3s pensamos em ciclos pol\u00edticos. A China antecipa a jogada, vendo nove jogadas \u00e0 frente&#8221;.<\/p>\n<p>Para o especialista, enquanto a Europa permanece dividida a discutir temas internos, trazidos ao debate por partidos que buscam dividendos pol\u00edticos a n\u00edvel interno, o bloco Europeu tem perdido a capacidade de debater e preparar quest\u00f5es estrat\u00e9gicas a longo prazo, contrastando com o gigante asi\u00e1tico. O caso da rota do \u00c1rtico \u00e9 mais um exemplo dessa incapacidade.<\/p>\n<p>Para a China, o investimento nesta rota n\u00e3o \u00e9 um impulso recente. H\u00e1 muitos anos que Pequim olha com aten\u00e7\u00e3o para o potencial desta rota que tem vindo a tornar-se cada vez mais vi\u00e1vel, devido ao degelo provocado pelas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Em 2018, o executivo formalizou o conceito &#8220;Rota da Seda Polar&#8221;, a estrat\u00e9gia do pa\u00eds para esta nova rota comercial.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;A China est\u00e1 a assumir claramente a dianteira e isso \u00e9 preocupante. Est\u00e3o a preparar-se para um futuro quando as coisas forem mais complicadas\u201d, sublinha Manuel Serrano.<\/p>\n<p>Para os chineses, esta rota responde a uma dupla necessidade estrat\u00e9gica. Por um lado, permite \u00e0 China reduzir para metade o tempo de entrega dos seus produtos na Europa, o que permite reduzir custos e escoar produtos. Ligar os portos do Leste chin\u00eas, como Ningbo, ao norte da Europa, como Roterd\u00e3o ou Hamburgo, via Polo Norte encurta a viagem de sensivelmente 21 mil quil\u00f3metros para cerca de 13 mil quil\u00f3metros. Na pr\u00e1tica, significa cortar o tempo de tr\u00e2nsito de 40 para cerca de 20 dias, com poupan\u00e7as significativas de combust\u00edvel e custos operacionais.<\/p>\n<p>Por outro lado, esta nova rota surge como uma alternativa estrat\u00e9gica \u00e0s rotas mar\u00edtimas tradicionais, que, em alguns casos, podem ser focos de instabilidade ou at\u00e9 mesmo de perigo existencial. \u00c9 esse o caso do estreito de Malaca, uma esp\u00e9cie de gargalo mar\u00edtimo, por onde quase 80% das importa\u00e7\u00f5es de energia e do com\u00e9rcio chin\u00eas passam, e que pode ser facilmente bloqueado pela marinha americana, em caso de um conflito. Al\u00e9m disso, a recente disrup\u00e7\u00e3o no Bab el-Mandeb e no Mar Vermelho, provocada pelos ataques Houthi, demonstrou a fragilidade das rotas do Sul. O \u00c1rtico surge, assim, como uma rota de fuga estrat\u00e9gica totalmente fora da esfera de influ\u00eancia militar ocidental.<\/p>\n<p>&#8220;Num mundo onde os estreitos e os canais est\u00e3o condicionados, este desenvolvimento \u00e9 absolutamente relevante. Os recursos e as travessias tornaram-se os novos temas centrais da pol\u00edtica global. Quem reduzir a exposi\u00e7\u00e3o a conflitos, ganha economicamente&#8221;, destaca o analista de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais.\u00a0<\/p>\n<p>A rota ainda n\u00e3o \u00e9 transit\u00e1vel todo o ano. Durante o ver\u00e3o, a \u00e1gua salgada gelada derrete apenas o suficiente no sul para permitir que os navios passem pela estreita passagem, sem o aux\u00edlio de navios quebra-gelo. Agora, com as press\u00f5es geopol\u00edticas do conflito no M\u00e9dio Oriente, as seguradoras est\u00e3o a ver um aumento do interesse por parte das empresas de navega\u00e7\u00e3o em fazer a travessia.<\/p>\n<p>Rahul Khanna, diretor da consultora de risco mar\u00edtimo Allianz, disse que se est\u00e1 a verificar um &#8220;aumento claro&#8221; do tr\u00e1fego na regi\u00e3o, com os operadores mar\u00edtimos a olhar para a rota como &#8220;uma oportunidade&#8221; de poupar custos e tempo, mas tamb\u00e9m para evitar &#8220;estrangulamentos geopol\u00edticos&#8221;. E os n\u00fameros confirmam-no. Em 2025, 23 navios fizeram a travessia no ver\u00e3o, comparado com 15 no ano anterior.<\/p>\n<p>O que, \u00e0 partida, poderia ser uma oportunidade para a Europa pode acabar por tornar-se num problema. Isto porque a rota do \u00e1rtico n\u00e3o cruza \u00e1guas neutras ou internacionais. A grande maioria da Rota do Mar do Norte atravessa quase exclusivamente a Zona Econ\u00f3mica Exclusiva (ZEE) da R\u00fassia, que est\u00e1 sob a tutela da empresa at\u00f3mica estatal russa.<\/p>\n<p>Ao recorrer a esta rota para contornar os problemas no M\u00e9dio Oriente, a Europa arrisca-se a trocar a volatilidade de outras regi\u00f5es por uma depend\u00eancia direta e perigosa do Kremlin. \u201cPoder\u00edamos ficar dependentes da R\u00fassia. Se vamos atravessar pa\u00edses que privilegiam o conflito em vez do confronto, vamos ter problemas\u201d, adverte Nabo Martins, especialista no setor da log\u00edstica e transportes, e Diretor-geral da Associa\u00e7\u00e3o dos Transit\u00e1rios de Portugal (APAT), recordando que submeter os fluxos comerciais a Moscovo seria entregar uma alavanca de chantagem futura, como aconteceu com a depend\u00eancia do g\u00e1s natural, no in\u00edcio da invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia, em 2022.<\/p>\n<p>&#8220;Cria-se um problema para a Europa, porque \u00e9 uma zona geopoliticamente condicionada pela R\u00fassia. Mas a R\u00fassia e a China t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o de quase vassalagem. Isto \u00e9 um trunfo espetacular para quem o tem, e um grande problema para quem quer passar por l\u00e1 e n\u00e3o o tem&#8221;, defende Manuel Serrano.<\/p>\n<p>Mas existem desafios no caminho para todos aqueles que querem operar na &#8220;Rota da Seda do Gelo&#8221;. Apesar de o degelo acelerado ter levado o gelo marinho a registar a maior queda de sempre na \u00e9poca de pico, com um recuo de 5,8% e atingindo o segundo n\u00edvel mais baixo da hist\u00f3ria, as condi\u00e7\u00f5es operacionais continuam extremas. A constru\u00e7\u00e3o de embarca\u00e7\u00f5es adaptadas a este tipo de travessia disparou, com dados da Veson Nautical a mostrarem a constru\u00e7\u00e3o de 167 navios com capacidade de atravessar o gelo num s\u00f3 ano e a previs\u00e3o de mais 164 unidades a entrar em linha. Mas mesmo com estes navios os perigos na \u00e1gua permanecem elevados.<\/p>\n<p>Navegar nestas latitudes implica enfrentar falhas frequentes nos sistemas de GPS, al\u00e9m do risco constante de os navios ficarem retidos no gelo sem assist\u00eancia imediata de quebra-gelos. Como alerta Rahul Khanna, da seguradora Allianz, qualquer acidente no Polo Norte enfrenta meios de salvamento, combate a inc\u00eandios e reboque extremamente limitados. Na \u00faltima d\u00e9cada registaram-se mais de 500 incidentes mar\u00edtimos no C\u00edrculo Polar \u00c1rtico, com avarias e falhas de m\u00e1quinas a representarem quase metade do total.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 uma rota totalmente segura, porque o degelo est\u00e1 dependente das condi\u00e7\u00f5es climat\u00e9ricas. Se vamos ter um inverno muito rigoroso, a Rota do \u00c1rtico fica novamente anulada. A quantidade de navios que passam nas rotas normais n\u00e3o vai passar para aqui assim t\u00e3o rapidamente&#8221;, afirma Ant\u00f3nio Nabo Martins.<\/p>\n<p>Estes fatores de risco t\u00e9cnico, somados a preocupa\u00e7\u00f5es de polui\u00e7\u00e3o ambiental num ecossistema fr\u00e1gil e \u00e0s san\u00e7\u00f5es a Moscovo, justificam a decis\u00e3o dos grandes armadores ocidentais \u2014 como a dinamarquesa Maersk \u2014 de se manterem afastados do trajeto.\u00a0 \u201cEsta rota diminui consideravelmente o tempo de viagem, mas \u00e9 mais para desenrascar do que outra coisa. \u00c9 uma coisa que desenrasca, mas n\u00e3o resolve\u201d, contrap\u00f5e Nabo Martins.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o impede a China de continuar a acelerar o transporte de mercadorias por esta rota, construindo infraestruturas alternativas para um futuro de maior fric\u00e7\u00e3o entre blocos. S\u00f3 que enquanto Pequim e Moscovo desenvolvem e consolidam as suas posi\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o, a Europa arrisca-se a ficar a assistir \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da rota na sua pr\u00f3xima grande depend\u00eancia estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>&#8220;A Europa deve parar de perder tempo com discuss\u00f5es internas. Gostamos muito de falar de Donald Trump, mas n\u00e3o precisamos do presidente americano para nos suicidarmos politicamente&#8221;, lamenta Manuel Serrano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O \u00c1rtico deixou de ser um deserto de gelo e pode transformar-se num novo gargalo da geopol\u00edtica global,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":486236,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[609,836,77764,611,11579,27,28,607,608,333,832,604,11578,135,610,476,15,16,301,830,14,603,25,26,570,21,22,831,833,62,834,12,13,19,20,835,602,52,32,23,24,77763,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":["post-486235","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-alerta","tag-analise","tag-antonio-nabo-martins","tag-ao-minuto","tag-artico","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-comentadores","tag-costa","tag-crime","tag-degelo","tag-desporto","tag-direto","tag-economia","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-governo","tag-guerra","tag-headlines","tag-justica","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-live","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mais-vistas","tag-marcelo","tag-mundo","tag-negocios","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-opiniao","tag-pais","tag-politica","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-rota-da-seda-do-gelo","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/486235","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=486235"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/486235\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/486236"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=486235"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=486235"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=486235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}