{"id":488900,"date":"2026-08-16T13:27:17","date_gmt":"2026-08-16T13:27:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/488900\/"},"modified":"2026-08-16T13:27:17","modified_gmt":"2026-08-16T13:27:17","slug":"o-dia-em-que-berlim-acordou-com-um-muro-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/488900\/","title":{"rendered":"O dia em que Berlim acordou com um Muro \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>A inf\u00e2ncia de Detlef Jablonski podia ser um romance de Charles Dickens.<\/p>\n<p>Nasceu em 1955 na pris\u00e3o de Jerichow, na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (RDA), onde a sua m\u00e3e estava a cumprir pena. Aos dois meses, foi entregue aos cuidados da fam\u00edlia da tia, onde os maus-tratos eram di\u00e1rios. \u201cEu era tratado como um criado. Fazia as compras, ia buscar carv\u00e3o, cortava madeira, polia sapatos, fazia as limpezas\u201d, conta ao Observador o alem\u00e3o, agora com 71 anos. \u201cSe n\u00e3o fizesse o que ela dizia, era a\u00e7oitado.\u201d<\/p>\n<p>Durante esses tempos, a fam\u00edlia recebia habitualmente a visita de uma mulher. O que Detlef n\u00e3o sabia ao in\u00edcio \u00e9 que se tratava da sua m\u00e3e, que entretanto se tinha mudado para Berlim Ocidental, o lado da capital alem\u00e3 que pertencia \u00e0 Rep\u00fablica Federal Alem\u00e3 (RFA).<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/jablonski1.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"1440\" height=\"1920\"\/>    <\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Detlef Jablonski<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Detlef n\u00e3o era caso \u00fanico. Ao longo das primeiras d\u00e9cadas desde que Berlim fora partida em duas, ficando dividida numa RDA comunista (sob a esfera de influ\u00eancia da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) e numa RFA ocidental (sob a esfera de influ\u00eancia de norte-americanos, brit\u00e2nicos e franceses), era comum muitos berlinenses trocarem Berlim Oriental pela Ocidental.<\/p>\n<p>O fen\u00f3meno intensificava-se e a Alemanha de Leste ia sofrendo uma hemorragia de trabalhadores: entre 1949 e 1961, <strong>dois milh\u00f5es e meio de pessoas atravessaram a linha de demarca\u00e7\u00e3o<\/strong>, 80% delas atrav\u00e9s da fronteira que dividia Berlim. Eram sobretudo trabalhadores qualificados: 7.500 m\u00e9dicos, 1.200 dentistas, centenas de milhares de trabalhadores t\u00e9cnicos, de acordo com os n\u00fameros da historiadora Katja Hoyer.<\/p>\n<p>Procuravam sobretudo uma vida melhor no Ocidente capitalista. \u00c0 altura, circulava uma anedota que ilustrava as dificuldades na RDA: \u201cSabiam que Ad\u00e3o e Eva eram na verdade alem\u00e3es de Leste? N\u00e3o tinham roupa, tiveram de partilhar uma ma\u00e7\u00e3 e faziam-nos acreditar que viviam no Para\u00edso.\u201d<\/p>\n<p>O contraste entre as duas Berlim n\u00e3o podia ser maior, como testemunhou Burkhart Veigel, que chegou a Berlim Ocidental vindo da Tur\u00edngia em abril de 1961 para estudar Medicina. \u201cIa ao teatro em Berlim Oriental duas ou tr\u00eas vezes por semana. Durante as minhas visitas, nunca conheci ningu\u00e9m no Leste \u2014 parecia-me que ali toda a gente tinha \u2018fechado as persianas\u2019\u201d, recorda agora ao Observador o m\u00e9dico de 88 anos. \u201cO facto de tudo ser mais escuro do que em Berlim Ocidental e de as pessoas desviarem timidamente o olhar quando me cruzava com elas era estranho. <strong>Sentia-me sempre aliviado quando entrava no S-Bahn de volta a Berlim Ocidental.<\/strong>\u201d<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/29aveigel-student-1.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"748\" height=\"1008\"\/><br \/>\n    DR<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">Burkhart Veigel<\/p>\n<p>Quatro meses depois, tudo mudaria. O l\u00edder da RDA, Walter Ulbricht, concluiu que a hemorragia de habitantes n\u00e3o podia continuar. A <strong>\u201cOpera\u00e7\u00e3o Rosa\u201d<\/strong> foi colocada em marcha, com o benepl\u00e1cito do l\u00edder sovi\u00e9tico, Nikita Kruschev. Tudo aconteceria na noite de 13 para 14 de agosto de 1961, o dia que ficaria marcado na Hist\u00f3ria com um nome: Stacheldrahtsonntag, o \u201cDomingo do Arame Farpado\u201d.<\/p>\n<p>Apenas dois meses antes, Ulbricht tinha negado qualquer inten\u00e7\u00e3o de separar as duas Berlim. \u201cPrimeiro-secret\u00e1rio, a cria\u00e7\u00e3o de uma Berlim neutral, na sua opini\u00e3o, significa que vai haver uma fronteira no Port\u00e3o de Brandemburgo?\u201d, questionou uma correspondente de Berlim Ocidental na confer\u00eancia de imprensa convocada pelo l\u00edder, para a qual foram convidados jornalistas da RFA \u2014 eram mais de 300 os presentes. <strong>\u201cNingu\u00e9m tenciona construir um muro\u201d<\/strong>, respondeu Ulbricht.<\/p>\n<p>N\u00e3o era verdade. \u00c0 altura, j\u00e1 o primeiro-secret\u00e1rio estava envolvido em longas conversas com Kruschev sobre como estancar a fuga de berlinenses da RDA. E j\u00e1 tinha nomeado um homem para tratar dos preparativos: Erich Honecker, secret\u00e1rio de seguran\u00e7a do Partido que viria a substituir Ulbricht dali a menos de dez anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A inf\u00e2ncia de Detlef Jablonski podia ser um romance de Charles Dickens. 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