{"id":489072,"date":"2026-08-16T16:44:30","date_gmt":"2026-08-16T16:44:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/489072\/"},"modified":"2026-08-16T16:44:30","modified_gmt":"2026-08-16T16:44:30","slug":"um-filme-brasileiro-sobre-o-seculo-chines","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/489072\/","title":{"rendered":"Um filme brasileiro sobre o s\u00e9culo chin\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>UMA ENTREVISTA DE<\/p>\n<p>\t\t\tHugo Albuquerque\t\t<\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Ap\u00f3s serem convidados para uma resid\u00eancia art\u00edstica na China, j\u00e1 nos primeiros meses da presid\u00eancia de Jair Bolsonaro em 2019, os autores cogitaram produzir um document\u00e1rio sobre essa epopeia, mas preferiram filmar uma fic\u00e7\u00e3o sobre os muitos significados e caminhos que essa viagem abriu: a travessia da c\u00e9lebre Muralha do milenar pa\u00eds asi\u00e1tico, mais que uma quest\u00e3o geogr\u00e1fica, trouxe in\u00fameros pontos sobre o futuro do mundo.\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o era a primeira vez que Gregorio Gananian havia filmado na China, tendo dirigido o document\u00e1rio <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=IHhNegrYkpA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Inaudito<\/a> (2017), que tratou da vida do ic\u00f4nico instrumentista e compositor Lanny Gordin, nascido em Shanghai. Mas era a primeira vez de Negro Leo no pa\u00eds do presidente Mao, logo ap\u00f3s ter visitado Nova Iorque, produzindo um contraste fundante na obra que al\u00e9m de dirigir, tamb\u00e9m atua ao dar vida a X, o protagonista.<\/p>\n<p>Dedicado \u00e0 multiartista Paula Gait\u00e1n, ao pianista S\u00e9rgio Villafranca e ao artista pl\u00e1stico Jos\u00e9 Roberto Aguilar, este \u00faltimo um ilustre morador do Bixiga onde o filme acabou por ser montado, no Ateli\u00ea do Bixiga, em 2022, sendo finalizado em 2024. No fim, apesar das filmagens iniciais chinesas, muito da produ\u00e7\u00e3o, textos, enredo e, ao final, a montagem ocorreram ao longo dos \u00faltimos anos incorporando muito do que passamos e vivemos.\u00a0<\/p>\n<p>Unindo uma est\u00e9tica cyberpunk, poesia e jazz, a trama gira em torno do p\u00e9riplo de X, um homem brasileiro que teria se voluntariado a ser cobaia de testes de uma multinacional, a Prolife, que pretende escanear mem\u00f3rias. Isso leva X a Shanghai, onde a multinacional tem sua filial, lan\u00e7ando v\u00e1rias quest\u00f5es sobre as mem\u00f3rias do protagonista e os mist\u00e9rios do experimento que ele teria feito parte.<\/p>\n<p>Com Ava Rocha, Danielly O.M.M. Kaufmann, Uma Gait\u00e1n Campelo Rocha Gon\u00e7alves, Lena Kilina, Al\u00ea Amaz\u00f4nia  \u2013 respons\u00e1vel pelo convite para a resid\u00eancia art\u00edstica em 2019   \u2013, Sun Yuchen e Sun Mingzhen, al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o especial de Clara Choveaux, o filme ganhou o pr\u00eamio ganhou como melhor filme da Mostra Olhos Livres do Festival de Tiradentes de 2024, mas s\u00f3 agora estreia no circuito de cinema nacional.<\/p>\n<p>Assim, Gregorio Gananian e Negro Leo falaram com exclusividade para esta Revista Jacobina sobre as m\u00faltiplas camadas e sentidos desse filme, seu processo de produ\u00e7\u00e3o, os rumos e agonias do Brasil e do mundo nesse p\u00e9riplo geogr\u00e1fico e hist\u00f3rico, cuja luta central ainda est\u00e1 sendo disputada com consequ\u00eancias que v\u00e3o muito al\u00e9m do momento atual e das telas de cinema.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">Hugo Albuquerque <\/p>\n<p><strong>O que que foi o processo de cria\u00e7\u00e3o desse filme, uma vez que ele atravessa v\u00e1rios anos?\u00a0 O que foi essa travessia, que tamb\u00e9m atravessou o processo criativo, da concep\u00e7\u00e3o do filme at\u00e9 ele chegar no circuito de cinema? o que que significou para voc\u00eas?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">Gregorio Gananian \u00a0<\/p>\n<p>A \u00faltima palavra do Grande sert\u00e3o: veredas de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa \u00e9 travessia, n\u00e9? Ent\u00e3o o que atravessa \u00e9 a pr\u00f3pria travessia mesmo. Termos sido convidados por Al\u00ea Amaz\u00f4nia, que tamb\u00e9m atua no filme, para fazer a resid\u00eancia art\u00edstica na China, tr\u00eas meses depois de Bolsonaro ter assumido a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica \u00e9 parte disso.\u00a0<\/p>\n<p>Quantos signos isso n\u00e3o envolve, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Quantas quest\u00f5es isso n\u00e3o levanta, a gente estar l\u00e1 na China naquele momento, em que a gente sabia que a democracia brasileira estava por um triz, al\u00e9m de tudo que a gente passou e ia passar? Voltamos da China, passamos pela pandemia,\u00a0 o Lula volta curiosamente e terminamos o filme em 2024.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 um processo que \u00e9 uma esp\u00e9cie de amuleto para prote\u00e7\u00e3o dos momentos que passamos na nossa vida pessoal, e transpessoal: eu como aquele que v\u00ea o abismo no sentido pessoal, um amuleto, um escudo e uma espada para ter tido for\u00e7as \u2014 mas, ao mesmo tempo, \u00e9 um filme e dava energia para querer atravessar.<\/p>\n<p class=\"answer\">Negro Leo<\/p>\n<p id=\"answer\">Sim, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 travessia, o filme come\u00e7a com especula\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e acho que \u00e9 bom a reiterarmos, porque muito do que se passou depois da nossa viagem \u00e0 China est\u00e1 no campo das possibilidades do pr\u00f3prio no filme. Hoje, est\u00e1 muito candente essa coisa da imortalidade, do avan\u00e7o da biomedicina, do geneticismo\u2026Ent\u00e3o, encaramos esse momento e come\u00e7amos a especular com isso, n\u00e9?\u00a0 Para onde que vai esse tro\u00e7o?\u00a0<\/p>\n<p>Todos vimos, em 2025, uma conversa informal entre Putin e Xi Jinping, enquanto eles caminhavam nos festejos de 80 anos da vit\u00f3ria chinesa sobre o fascismo: eles estavam falando sobre isso, sobre a imortalidade, o futuro e essas coisas todas, n\u00e9? Vimos essas coisas todas acontecerem em um per\u00edodo de cinco anos.\u00a0<\/p>\n<p>Tem uma frase no filme que diz: infelizmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel realizar complexos experimentos neurocient\u00edficos com ratos. Em algum momento, esses \u201ccomplexos experimentos neurocient\u00edficos\u201d, que o filme trata, v\u00e3o come\u00e7ar a ser realizados. Se a gente pensar nas experi\u00eancias que foram feitas em psiquiatrias ao longo do s\u00e9culo 20, at\u00e9 interromper isso nos anos 1950, por um entendimento mais abrangente \u2013 e humano \u2013 sobre que se chama de doen\u00e7a mental.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 o que eu acho curioso dessa especula\u00e7\u00e3o do filme,\u00a0 quando esses experimentos neurocient\u00edficos realmente come\u00e7arem a acontecer, quem ser\u00e1 o sujeito da experi\u00eancia? Quem ser\u00e1 o paciente dessa experi\u00eancia? Ent\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 muito determinante que essa figura seja, como foi no passado, um homem negro como eu \u2013 assim como os demais povos e etnias vilipendiados pelo pelo avan\u00e7o do capitalismo e a degrada\u00e7\u00e3o que isso provoca.<\/p>\n<p>Depois disso, vem a pandemia. Imagine s\u00f3 que loucura, a gente estava pensando nessas coisas, mas veio a pandemia \u2013 junto com todas as controv\u00e9rsias em rela\u00e7\u00e3o a como o v\u00edrus se espalhou. Enfim, tem todo aquele lance paranoico, entende? Porque era um lance paranoico a coisa da pandemia. \u00c9 um pouco isso: vem o Bolsonaro, aquela coisa toda e depois Lula de novo. Ent\u00e3o, parte da Reden\u00e7\u00e3o do filme, quando o X acerta o enigma l\u00f3gico, e que ele finalmente volta para fam\u00edlia, aquela coisa toda est\u00e1 ali tamb\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HA<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que essa ideia do filme surgiu? Quando voc\u00eas receberam um convite para ir at\u00e9 a China, voc\u00eas j\u00e1 estavam pensando em algo do tipo ou o filme de certa forma se construiu l\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">GG <\/p>\n<p>O filme nasce com o convite para a China feito pelo Al\u00ea Amaz\u00f4nia exatamente. Quando soubemos que \u00edamos pra China, a princ\u00edpio o convite era para fazer um document\u00e1rio, mas logo percebemos que a melhor forma para a gente atravessar isso era criar uma fic\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a partir disso, come\u00e7amos o que Leo chamou de especular: quer\u00edamos mostrar como as for\u00e7as agem sobre os corpos, mais especificamente sobre o corpo negro no capitalismo naquele momento \u2013 e ir al\u00e9m apenas da for\u00e7a do capitalismo, mas tamb\u00e9m a for\u00e7a da gravidade etc.<\/p>\n<p>Tem uma sequ\u00eancia onde o personagem sofre tortura, \u00e9 uma esp\u00e9cie de crucifica\u00e7\u00e3o, mas se voc\u00ea olhar bem, parece quase um diagrama x e y cartesiano. O nome do personagem \u00e9 X, mas nesse nosso universo de hoje o que \u00e9 um X? O que \u00e9 uma inc\u00f3gnita? Como a gente especula uma ci\u00eancia n\u00e3o t\u00e3o exata, mas sim ouvindo o desenho e a coreografia do X. No fundo, estamos fazendo uma grande tentativa de criar uma m\u00fasica para essa dan\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"answer\">NL<\/p>\n<p>E eu tenho impress\u00e3o de que as for\u00e7as que agem sobre o X aparecem, por exemplo, no momento em que ele diz que \u00e9 um volunt\u00e1rio. Eu acho que as for\u00e7as colocam, de certa forma, a ilus\u00e3o da pr\u00f3pria vontade, entende? Ou como a pr\u00f3pria vontade n\u00e3o pode se manifestar de forma plena \u2013 ou s\u00f3 n\u00e3o existe. Estamos sujeitos a essas for\u00e7as, vamos aderindo \u00e0s tecnologias \u2013 \u00e9 quase um processo que n\u00e3o conseguimos frear. Essas for\u00e7as tamb\u00e9m est\u00e3o ali no filme.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HA <\/p>\n<p><strong>O que foi a experi\u00eancia de estar na China para esse processo de cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">GG <\/p>\n<p>Quando a turma da poesia concreta no Brasil <a href=\"https:\/\/aulasdathaisunitau.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/plano-piloto-para-poesia-concreta.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">encontra<\/a> Sergei Eisenstein\u00a0 \u2013 o revolucion\u00e1rio cineasta sovi\u00e9tico que escreveu sobre o <a href=\"https:\/\/arquivo.bocc.ubi.pt\/pag\/penkala-ana-paula-eisenstein-ideogramas-chineses.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">ideograma e o processo de montagem<\/a>\u00a0 \u2013 e, tamb\u00e9m, pega o <a href=\"https:\/\/pt.scribd.com\/document\/848588077\/E-FENELLOSA-OS-CARACTERES-DA-ESCRITA-CHINESA-COMO-INSTRUMENTO-PARA-A-POESIA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">ensaio de Ernest Fenollosa<\/a> sobre o ideograma, ela entendeu que ao unir os radicais de \u00e1gua \u6c34 e de olho \u76ee, se chega ao caractere para l\u00e1grima \u6cea.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, ao unir os radicais de sol\/dia \u65e5 e lua \u6708, se forma m\u00edng \u660e, que \u00e9 o processo de ilumina\u00e7\u00e3o total: o sol projeta sua luz na lua e n\u00f3s a vemos \u00e0 noite\u00a0 \u2013 assim como a\u00a0 proje\u00e7\u00e3o do cinema \u00e9 uma luz que vai para a tela e se reprojeta na gente. \u00c9 a\u00ed que compreendemos que o cinema n\u00e3o \u00e9 apenas uma tecnologia, mas uma arte natural como a m\u00fasica, pois consiste em olhar para a lua \u2013 e como me disse uma vez Tom Z\u00e9, ser de esquerda \u00e9 olhar para a lua.\u00a0<\/p>\n<p>Estar na China \u00e9 reencontrar o ideograma. Esse processo de ilumina\u00e7\u00e3o \u660e me guia: entender o cinema como o sol enquanto projetor e a lua como a tela. Estar na China \u00e9 voltar para o cinema, \u00e9 aprender o cinema.\u00a0<\/p>\n<p>Enquanto no Inaudito, t\u00ednhamos a ideia do ideograma no primeiro, segundo e terceiro plano, o Aquele que viu o abismo \u00e9 uma ideogramatiza\u00e7\u00e3o meio eisensteiniana: o ideograma est\u00e1 na montagem e tamb\u00e9m \u00e9 a montagem do filme, mas tamb\u00e9m \u00e9 como essas for\u00e7as montam a gente.\u00a0<\/p>\n<p>O personagem do X expressa isso, ao refor\u00e7ar nosso estado atual de embarcar na tecnologia, sendo supostamente volunt\u00e1rios dela \u00e9 essa condi\u00e7\u00e3o de volunt\u00e1rios involunt\u00e1rios, que o Leo comentou antes, e tem a ver com todos n\u00f3s hoje em dia.<\/p>\n<p class=\"answer\">NL <\/p>\n<p>Por outro lado, quando a gente foi para China no final de 2019, eu tinha voltado de Nova Iorque, que foi o epicentro durante o s\u00e9culo XX das inova\u00e7\u00f5es e tudo que diz respeito \u00e0 tecnologia. Quando chegamos a Shanghai, Nova Iorque pareceu muito pequena, em uma dimens\u00e3o eu diria at\u00e9 quase provinciana\u2026<\/p>\n<p class=\"answer\">GG <\/p>\n<p>\u2026Nova Iorque\/Shanghai: tem esses dois planos que o Leo acabou de criar: tem a imagem de Nova Iorque, corta para a imagem de Shanghai \u2013 com Nova Iorque ficando pequena\u2026<\/p>\n<p class=\"answer\">NL<\/p>\n<p>Tem essa coisa do laser no filme: de repente, voc\u00ea \u00e9 tomado por aquele laser, que j\u00e1 foi usado antes em outras obras pelo Gregorio, mas aqui esse recurso parece encontrar sua paisagem: em Shanghai, o laser parece encontrar sua vida.\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 nesse momento em que ele se cruzam, porque quando voc\u00ea olha, por exemplo, a margem oriental do rio Huangpu, o Pudong: ele \u00e9 o lado moderno hoje, mas antes era o atrasado porque era a margem chinesa, enquanto a margem ocidental, o Puxi, o antigo lado colonial de Shanghai, antes mais moderno, mas hoje n\u00e3o mais.<\/p>\n<p>A margem oriental \u00e9 da China e do futuro, onde filmamos uma cena em que a c\u00e2mera gira em torno do meu personagem. Se a gente for pensar no mundo atual, em qualquer coisa ligada \u00e0\u00a0 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, qual \u00e9 o lugar? N\u00e3o tem como ser outro lugar sen\u00e3o a China. H\u00e1 dez anos, seria nos Estados Unidos. Quer dizer, \u00e9 um filme do S\u00e9culo XXI, um filme brasileiro sobre o s\u00e9culo chin\u00eas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"704\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-05-at-14.57.20-704x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-66486\"  \/><\/p>\n<p class=\"pergunta\">HA <\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/solysombrabar\/\" aria-label=\"[SyS]-Banner-site\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/SyS-Banner-site.gif\" alt=\"\"   width=\"300\" height=\"600\"\/><\/a><\/p>\n<p><strong>Mas a\u00ed quando voc\u00eas retornaram ao Brasil, voltam ao Brasil de Bolsonaro e depois para a pandemia. O que que isso impactou nessa cria\u00e7\u00e3o que transcorreu tamb\u00e9m durante isso da\u00ed?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">GG <\/p>\n<p>Exigiu uma sensibilidade maior, uma compreens\u00e3o e at\u00e9 uma parceria com a paranoia. Tem <a href=\"https:\/\/www.beatdom.com\/burroughs-paranoia-quote\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">aquela frase do Burroughs<\/a> que o Kurt Cobain reinventa: s\u00f3 porque voc\u00ea \u00e9 paranoico n\u00e3o significa que n\u00e3o est\u00e3o atr\u00e1s de voc\u00ea. Ent\u00e3o, foi aprender com o m\u00e9todo e a sagacidade da paranoia: nela, o cara no lugar de ver uma ma\u00e7\u00e3, ele v\u00ea o veneno.\u00a0<\/p>\n<p>O m\u00e9todo paranoico \u00e9 enxergar \u00e0 for\u00e7a o veneno que est\u00e1 na ma\u00e7\u00e3. Por isso, a paranoia tem uma import\u00e2ncia muito grande, se voc\u00ea lembrar que naquele momento do bolsonarismo os caras come\u00e7aram a liberar veneno em todas as comidas, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Foi um momento que a gente teve que usar o m\u00e9todo paranoico para enxergar as coisas como um ant\u00eddoto que \u00e9 feito do veneno que ele busca combater \u2013 isto \u00e9, ver n\u00e3o apenas o produto, mas seu processo.<\/p>\n<p class=\"answer\">NL <\/p>\n<p>A paranoia se manifesta na superf\u00edcie das coisas. Assim o X, a montagem e a edi\u00e7\u00e3o de som, elas que fazem essa paranoia atravessar o filme inteiro. Isso \u00e9 a for\u00e7a e a linguagem do filme.<\/p>\n<p class=\"answer\">GG <\/p>\n<p>Agora um certo romantismo talvez seja acreditar que a m\u00e3o do X, que tremia, carregava uma resposta, uma equa\u00e7\u00e3o, alguma coisa que a gente tinha que aprender a ler \u2013 porque o maestro filme \u00e9 a m\u00e3o da personagem.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HA <\/p>\n<p><strong>Se o s\u00e9culo XX foi americano e o XXI chin\u00eas, como voc\u00eas veem o s\u00e9culo brasileiro que n\u00e3o aconteceu ou aconteceu?\u00a0 O que \u00e9 esse enigma do Brasil?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">NL <\/p>\n<p>Olha, eu come\u00e7o pelo fato que o X \u00e9 brasileiro, fala portugu\u00eas, embora haja outros personagens de outros cantos do mundo. H\u00e1 que se especular, o que \u00e9 o Brasil nesse filme diante dessa personagem brasileira. E o Brasil est\u00e1 h\u00e1 muito nessa sinuca de bico. Eu vi a declara\u00e7\u00e3o recente do nosso ministro da Defesa Jos\u00e9 M\u00facio, aquele papo meio maluco de que simplesmente abriria os port\u00f5es para uma invas\u00e3o americana \u2013 repetindo um certo servilismo hist\u00f3rico uma certa falta de identifica\u00e7\u00e3o com o que pode ser Brasil, o que \u00e9 pr\u00f3prio da nossa elite.<\/p>\n<p>O Brasil ainda \u00e9 algo em disputa, de certa forma, neste s\u00e9culo XXI \u2013 e precisamos disputar esse fato de n\u00e3o termos uma identidade completa. Quando eu digo que a personagem \u00e9 brasileira tamb\u00e9m, isso diz respeito \u00e0s muitas ambiguidades: qual ser\u00e1 o papel do Brasil nesse s\u00e9culo chin\u00eas?\u00a0<\/p>\n<p>A Prolife \u00e9 uma multinacional que oferece servi\u00e7os de digitaliza\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro \u2013 e o x est\u00e1 em uma institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica onde \u00e9 recrutado, de \u201cforma volunt\u00e1ria\u201d, para participar desse projeto, assim como tem gente indo para a Ucr\u00e2nia morrer na guerra. Acho que essa ades\u00e3o supostamente volunt\u00e1ria talvez seja a chave para perceber o Brasil.<\/p>\n<p class=\"answer\">GG<\/p>\n<p>Quando a gente estava l\u00e1 na China, naquele momento que o Bolsonaro tinha vencido as elei\u00e7\u00f5es aqui, uma coisa que me comoveu foi que o L\u00e9o tinha dado um feito um show uma vez no Instituto Goethe e ele falou uma coisa muito interessante: que o Brasil estava se orientalizando\u2026<\/p>\n<p class=\"answer\">NL <\/p>\n<p>Sim, o Brasil estava se orientalizando naquele primeiro per\u00edodo do Lula, o que tinha a ver com o Brics e tudo mais. Eu acho que o fato de sermos brasileiros e termos ido para criar isso na China foi poss\u00edvel porque o Brasil, antes, se aproximou da China pol\u00edtica, econ\u00f4mica e culturalmente \u2014 com os chineses indo atr\u00e1s de cultura brasileira, inclusive no mundo editorial. \u00c9 nesse sentido que disse que o Brasil estava se orientalizando, e isso volta com o retorno de Lula, mas n\u00e3o sei at\u00e9 que ponto isso pode livrar o Brasil da cat\u00e1strofe anunciada\u2026<\/p>\n<p class=\"answer\">GG<\/p>\n<p>Pode ser uma coisa um pouco ing\u00eanua, mas me vem \u00e0 mente aquela entrevista em que tinham perguntado para o Caetano Veloso sobre o socialismo e o Brasil no contexto dos anos 1960: o Caetano fala que se n\u00f3s tiv\u00e9ssemos, talvez, chegado ao socialismo, n\u00e3o me interessaria tanto saber o que o socialismo faria de n\u00f3s, mas o que o Brasil faria do socialismo. Ter ido para China e visto o que ela est\u00e1 fazendo com o socialismo foi algo muito expansivo. Foi entender que os chineses criaram a forma de socialismo deles.<\/p>\n<p>O Brasil tem for\u00e7a suficiente para criar sua forma de socialismo, que n\u00e3o vai ser o socialismo chin\u00eas, nem sovi\u00e9tico, mas o nosso \u2013 respeitando e aprendendo com as nossas patologias. Temos que voltar a ser inventores, n\u00e3o diluidores, como na\u00e7\u00e3o. A pot\u00eancia \u2014 e o que o mundo espera \u2013 do Brasil \u00e9 ser o lugar da cultura e da arte no mundo, o que nos permitiria criar um socialismo art\u00edstico\u00a0 onde caiba uma personagem como o X, capaz de conviver com o del\u00edrio, a arte e o fora da curva, sem fazer o carro bater na parede ou sem aproximar a parede do carro.<\/p>\n<p>Quero dizer, como conseguir trazer a ovelha e o lobo juntos, entendendo que todo mundo \u00e9 ovelha e lobo ao mesmo tempo. Todo mundo gosta de ser comunidade, mas todo mundo quer ter seu espa\u00e7o individual, sonhando com a sua pr\u00f3pria vida, ent\u00e3o como somar esses dois mundos simult\u00e2neos que fazem parte do ser humano? A insoci\u00e1vel sociabilidade que nos pertence? Talvez o Brasil possa dar essa resposta \u2013 e talvez essa seja uma das grandes perguntas que o socialismo tenha que responder: como lidar com a loucura?\u00a0<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HA <\/p>\n<p><strong>E houve a pandemia toda e todo o desafio de gestar o filme nela at\u00e9 que, bem no fim do per\u00edodo pand\u00eamico, teve o momento de finalizar o filme em que voc\u00eas foram para o Ateli\u00ea do Bixiga em S\u00e3o Paulo.\u00a0 O que isso significou?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">GG <\/p>\n<p>Esse filme para mim foi um ancoramento pessoal na pandemia. Foi um lugar que me permitiu n\u00e3o me perder por completo, porque tinha essa miss\u00e3o do filme \u2013 e isso da\u00ed me deu uma b\u00fassola.<\/p>\n<p class=\"answer\">NL <\/p>\n<p>Foi um per\u00edodo muito tr\u00e1gico. E a\u00ed depois a gente ainda viveu o luto na sequ\u00eancia. Muitas vidas que n\u00e3o precisavam ter sido perdidas, um per\u00edodo complicado para trabalhar, usar m\u00e1scara, ficar doente, voltar, ter que se testar, por isso o filme tamb\u00e9m levou muito tempo. A pandemia influenciou muito o filme.<\/p>\n<p>O X j\u00e1 tinha o tremelique, a hist\u00f3ria da empresa, mas a pandemia influenciou muito, uma vez que muitos dos textos foram escritos nesse per\u00edodo \u2013 e os textos tamb\u00e9m foram aparecendo em decorr\u00eancia da montagem, trazendo essa coisa da paranoia.<\/p>\n<p class=\"answer\">GG <\/p>\n<p>Na pandemia, houve muitas idas e vindas, mas a hora que o filme engrenou foi no Bixiga, especificamente junto da ent\u00e3o sede da Autonomia Liter\u00e1ria, onde fomos acolhidos. Ent\u00e3o, olha que incr\u00edvel, depois de tudo isso, a gente finaliza o filme na Bixiga de Jos\u00e9 Roberto Aguilar, que pode responder muitas coisas que a gente quer sobre o Brasil: luz bal\u00e3o, conecta as coisas, fez entender o final do abismo, isto \u00e9, que n\u00e3o h\u00e1 abismo que caiba no Brasil. \u00c9 um lugar de utopia, a gente precisa de Utopia, cara real viva aqui agora.<\/p>\n<p class=\"pergunta\">HA <\/p>\n<p><strong>Para concluir, o filme chegou ao grande circuito de cinema bem \u00e0s v\u00e9speras dessa elei\u00e7\u00e3o, uma nova disputa existencial no Brasil, o que que isso quer dizer para voc\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p class=\"answer\">NL <\/p>\n<p>Olha, no filme o X resolve o enigma l\u00f3gico e volta para sua fam\u00edlia. Isso \u00e9 a linha de tempo de uma de um indiv\u00edduo, mas \u00e9 redentora. Como ser\u00e1 a linha do tempo da na\u00e7\u00e3o brasileira em um caso de invas\u00e3o dos Estados Unidos? Como engajar a sociedade brasileira nesse tremendo problema que est\u00e1 se avizinhando?<\/p>\n<p class=\"pergunta\">GG <\/p>\n<p>O Bolsonaro ganhou uma elei\u00e7\u00e3o, a gente teve uma pandemia. As coisas acontecem e o m\u00ednimo que temos que fazer \u00e9 entender que as coisas podem acontecer. Uma guerra com os Estados Unidos? Isso do Trump n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 blefe como no poker, mas mesmo l\u00e1, tem hora que os caras v\u00e3o para o tudo ou nada: temos que aprender com toda essa trag\u00e9dia recente que as coisas acontecem.<\/p>\n<p>Lula \u00e9 um estrategista do tipo chin\u00eas, que sabe bem que toda vit\u00f3ria \u00e9 uma cerim\u00f4nia f\u00fanebre \u2013 por isso os chineses, assim como Lula, sempre tentam evitar a guerra. Porque entendem que uma guerra j\u00e1 \u00e9 uma derrota.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, se voc\u00ea est\u00e1 na guerra, como no Bhagavad gita, uma hora Krishna vira para Arjuna e fala \u201cmeu amigo, se voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 aqui na guerra, tem que ser s\u00e1bio, parar com seus problemas e partir para o ataque\u201d. Ent\u00e3o \u00e9 isso, tem horas que precisamos tomar uma decis\u00e3o que nos lan\u00e7a no abismo: tivemos, pessoalmente, que tomar essa decis\u00e3o de fazer uma fic\u00e7\u00e3o, quando teria sido mais f\u00e1cil fazer um document\u00e1rio. Tem uma hora que precisamos tomar uma decis\u00e3o e cumpri-la.<\/p>\n<p class=\"answer\">NL<\/p>\n<p>E o abismo se avizinha, precisamos ficar muito atentos com rela\u00e7\u00e3o a isso.<\/p>\n<p class=\"answer\">GG <\/p>\n<p>E assumir que ele est\u00e1 se avizinhando \u00e9, exatamente, fazer com que as pessoas enxerguem essas for\u00e7as que est\u00e3o atuando sobre o Brasil, o que pode permitir que o abismo n\u00e3o chegue.<\/p>\n<p>\u00e9 publisher da Revista Jacobina, editor da Autonomia Liter\u00e1ria, mestre em direito pela PUC-SP e advogado.<\/p>\n<p>Dirigiu os longas Aquele que Viu o Abismo (2024), em parceria com Negro Leo, premiado como Melhor Filme na 27\u00aa Mostra de Cinema de Tiradentes, e Inaudito (2018), realizado com Danielly O.M.M. e vencedor da 21\u00aa Mostra de Tiradentes. Atualmente finaliza seu terceiro longa-metragem, O Inspetor Geral, com Clara Choveaux, Ivon Patroc\u00ednio e grande elenco. Tamb\u00e9m realizou curtas, videoclipes e espet\u00e1culos na interse\u00e7\u00e3o entre cinema, m\u00fasica e performance. \u00c9 s\u00f3cio da produtora Zaum ao lado de Marisa Merlo e Clara Choveaux.<\/p>\n<p>\u00e9 m\u00fasico, maranhense e reside em S\u00e3o Paulo. Ao longo de uma d\u00e9cada de atividade profissional, conta mais de 10 discos, apari\u00e7\u00f5es no teatro (Pretoperitamar, dir. Grace Pass\u00f4 e Anelis Assump\u00e7\u00e3o), no cinema (\u00c9 Rocha e Rio, Negro Leo, dir. Paula Gait\u00e1n e Inaudito, dir. Gregorio Gananian), em palcos internacionais da m\u00fasica (ADR Lincoln Center, Cafe Oto, Shanghai Modern Sky Lab) e na imprensa internacional (The New York Times, Playboy Magazine, The Wire).<\/p>\n<p>\t\t\tCierre<\/p>\n<p><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"UMA ENTREVISTA DE Hugo Albuquerque Ap\u00f3s serem convidados para uma resid\u00eancia art\u00edstica na China, j\u00e1 nos primeiros meses&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":489073,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[140],"tags":[726,358,114,115,40236,147,148,146,32,33],"class_list":["post-489072","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-filmes","tag-brasil","tag-china","tag-entertainment","tag-entretenimento","tag-fascismo","tag-film","tag-filmes","tag-movies","tag-portugal","tag-pt"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117106198216219834","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/489072","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=489072"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/489072\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/489073"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=489072"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=489072"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=489072"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}