{"id":491061,"date":"2026-08-18T10:37:18","date_gmt":"2026-08-18T10:37:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/491061\/"},"modified":"2026-08-18T10:37:18","modified_gmt":"2026-08-18T10:37:18","slug":"memoria-subsiste-mesmo-apagando-50-dos-elos-de-neuronios-18-08-2026-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/491061\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria subsiste mesmo apagando 50% dos elos de neur\u00f4nios &#8211; 18\/08\/2026 &#8211; Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Se pouco mais da metade das conex\u00f5es entre neur\u00f4nios do c\u00e9rebro forem deletadas, ser\u00e1 que as lembran\u00e7as supostamente armazenadas nelas v\u00e3o desaparecer? Cientistas japoneses investigaram essa quest\u00e3o em experimentos com camundongos e aparentemente a resposta \u00e9 n\u00e3o, o que traz implica\u00e7\u00f5es intrigantes para a tentativa de compreender como a mem\u00f3ria funciona.<\/p>\n<p>Os detalhes do trabalho est\u00e3o em um artigo que saiu no \u00faltimo dia 13 na <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/science.aee7004\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">revista especializada Science<\/a>. Coordenado por Kazumasa Tanaka, do Instituto de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/ciencia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Ci\u00eancia<\/a> e Tecnologia de Okinawa, o trabalho se valeu de uma metodologia que \u00e9 equivalente a produzir uma hiberna\u00e7\u00e3o artificial e de curto prazo nos roedores de laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Nas esp\u00e9cies que passam pela hiberna\u00e7\u00e3o em seu ambiente natural, os cientistas j\u00e1 sabiam que a grande redu\u00e7\u00e3o da temperatura corporal e do metabolismo \u00e9 capaz de afetar a manuten\u00e7\u00e3o de diferentes sistemas do organismo, incluindo o sistema nervoso. Seus neur\u00f4nios e as conex\u00f5es entre eles passam por uma forte diminui\u00e7\u00e3o de sua atividade, mas ainda assim as mem\u00f3rias adquiridas pelos bichos antes do inverno continuam presentes quando a primavera retorna.<\/p>\n<p>A equipe japonesa buscou replicar alguns dos principais efeitos da hiberna\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rio manipulando o organismo dos camundongos. Isso \u00e9 poss\u00edvel ativando um circuito cerebral correspondente aos chamados neur\u00f4nios Q (de &#8220;quiesc\u00eancia&#8221;, ou seja, um estado de letargia), que faz com que as cobaias passem a um estado de metabolismo e temperatura do corpo muito mais baixos do que o normal.<\/p>\n<p>Depois que os camundongos passaram cerca de 48 horas nessa hiberna\u00e7\u00e3o simulada, os pesquisadores usaram diversas t\u00e9cnicas de medi\u00e7\u00e3o da atividade cerebral e microscopia para verificar quais tinham sido os efeitos sobre os neur\u00f4nios dos bichos.<\/p>\n<p>Conduziram ainda uma s\u00e9rie de testes comportamentais para saber se o processo tinha produzido algum efeito sobre a mem\u00f3ria dos roedores, analisando, por exemplo, o aprendizado de uma rea\u00e7\u00e3o de medo e tamb\u00e9m o da localiza\u00e7\u00e3o espacial dos indiv\u00edduos, comparando esses dados antes e depois da hiberna\u00e7\u00e3o artificial e tamb\u00e9m com a mem\u00f3ria de camundongos que n\u00e3o tinham passado pelo processo. Por fim, tamb\u00e9m compararam esses resultados com os obtidos no estudo de cobaias que n\u00e3o hibernaram, mas foram submetidas ao equivalente de uma anestesia geral em seres humanos.<\/p>\n<p>A principal preocupa\u00e7\u00e3o dos pesquisadores, em todos esses experimentos, foi documentar as mudan\u00e7as na arquitetura das sinapses, como s\u00e3o conhecidas as conex\u00f5es entre neur\u00f4nios. Em geral, as sinapses correspondem aos pontos de contato entre estruturas ramificadas de cada neur\u00f4nio, chamadas dendritos, e longas proje\u00e7\u00f5es vindas de outros neur\u00f4nios, denominadas ax\u00f4nios.<\/p>\n<p>Em vez de encostarem uns nos outros nas sinapses, existe um pequeno espa\u00e7o entre dendritos e ax\u00f4nios, dentro do qual circulam, de uma c\u00e9lula para outra, certas subst\u00e2ncias mensageiras. O processo de aprendizado \u2013que pode envolver o reconhecimento de sons ou imagens, certos tipos de movimento, emo\u00e7\u00f5es etc.\u2013 pode fortalecer as conex\u00f5es nas sinapses, levando ao surgimento de pequenas proje\u00e7\u00f5es nos dendritos, as espinhas dendr\u00edticas.<\/p>\n<p>Elas podem estar presente \u00e0s centenas ou aos milhares em cada dendrito, multiplicando muito a possibilidade de conex\u00f5es entre cada neur\u00f4nio. Faz sentido imaginar que essa seria uma das bases celulares da forma\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias, j\u00e1 que, quanto mais intenso e frequente o processo que induz o desenvolvimento das espinhas, mais forte e duradoura seria a liga\u00e7\u00e3o entre neur\u00f4nios e, portanto, menos suscet\u00edvel ao esquecimento seria a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Embora a hip\u00f3tese pare\u00e7a muito l\u00f3gica, n\u00e3o foi bem isso que os pesquisadores verificaram ao analisar o que acontecia, com a hiberna\u00e7\u00e3o induzida, nos neur\u00f4nios da estrutura cerebral denominada hipocampo. Essa \u00e1rea do c\u00e9rebro, tamb\u00e9m presente em seres humanos, \u00e9 muito importante para a mem\u00f3ria de longo prazo envolvendo, por exemplo, a localiza\u00e7\u00e3o espacial (tanto que os neurocientistas costumam usar o seguinte trocadilho para decorar o nome dela: &#8220;para saber qual o caminho para o campo, voc\u00ea precisa do hipocampo&#8221;).<\/p>\n<p>Acontece que, nos camundongos em hiberna\u00e7\u00e3o induzida, houve uma redu\u00e7\u00e3o de at\u00e9 57% das sinapses \u2013as espinhas dendr\u00edticas foram severamente podados com a redu\u00e7\u00e3o da atividade cerebral. Algo parecido se deu com os camundongos anestesiados.<\/p>\n<p>No entanto, testes feitos pelos pesquisadores alguns dias depois da hiberna\u00e7\u00e3o revelaram que os roedores continuavam passando nos testes de mem\u00f3ria que tinham enfrentado antes do processo, mas o mesmo n\u00e3o acontecia com as cobaias que tinham passado pela anestesia geral.<\/p>\n<p>Qual teria sido a m\u00e1gica, ent\u00e3o? Uma diferen\u00e7a significativa entre um caso e outro \u00e9 que, apesar do sumi\u00e7o de espinhas dendr\u00edticas nos camundongos que hibernaram, elas se reconstru\u00edram mais ou menos nos mesmos lugares de antes nos dias subsequentes.<\/p>\n<p>E, de quebra, as que sobraram (j\u00e1 que nem todas foram apagadas de in\u00edcio) eram as que formavam aglomera\u00e7\u00f5es de espinhas em pontos espec\u00edficos dos neur\u00f4nios. Talvez essas aglomera\u00e7\u00f5es sejam a chave para as mem\u00f3rias de longo prazo \u2013ainda que seja cedo para ter certeza disso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Se pouco mais da metade das conex\u00f5es entre neur\u00f4nios do c\u00e9rebro forem deletadas, ser\u00e1 que as lembran\u00e7as supostamente&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":491062,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[84],"tags":[4288,109,107,108,236,2790,8736,6780,3536,32,33,105,103,104,106,110,3062],"class_list":["post-491061","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-ciencia-e-tecnologia","tag-cerebro","tag-ciencia","tag-ciencia-e-tecnologia","tag-cienciaetecnologia","tag-folha","tag-memoria","tag-mente","tag-neurociencia","tag-pesquisa-cientifica","tag-portugal","tag-pt","tag-science","tag-science-and-technology","tag-scienceandtechnology","tag-technology","tag-tecnologia","tag-universidade"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117116079066586244","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/491061","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=491061"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/491061\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/491062"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=491061"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=491061"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=491061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}