{"id":49144,"date":"2025-08-28T20:22:26","date_gmt":"2025-08-28T20:22:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/49144\/"},"modified":"2025-08-28T20:22:26","modified_gmt":"2025-08-28T20:22:26","slug":"redescoberta-de-ann-quin-permite-ler-o-classico-berg-28-08-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/49144\/","title":{"rendered":"Redescoberta de Ann Quin permite ler o cl\u00e1ssico &#8216;Berg&#8217; &#8211; 28\/08\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Uma das defini\u00e7\u00f5es de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2023\/10\/como-italo-calvino-amante-dos-classicos-que-chega-aos-100-se-tornou-um-classico.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Italo Calvino para cl\u00e1ssico<\/a> \u00e9 aquele livro que nunca se est\u00e1 lendo, mas relendo. E quanto \u00e0s obras que sumiram das prateleiras junto aos seus autores e n\u00e3o tiveram a oportunidade de ser relidas \u00e0 exaust\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da obra de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/walter-porto\/2025\/06\/mercado-de-livros-se-reune-antes-da-bienal-para-discutir-ia-e-como-promover-a-leitura.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Ann Quin<\/a>, que vem sendo redescoberta e revisitada nos \u00faltimos anos. A autora brit\u00e2nica era in\u00e9dita no Brasil at\u00e9 a DBA lan\u00e7ar &#8220;Berg&#8221;, primeiro livro dela, que acaba de sair com tradu\u00e7\u00e3o de Gisele Ebersp\u00e4cher.<\/p>\n<p>&#8220;Um homem chamado Berg, que mudou seu nome para Greb, veio para uma cidade do litoral com a inten\u00e7\u00e3o de matar seu pai.&#8221;<\/p>\n<p>Esse trecho n\u00e3o \u00e9 um spoiler nem uma sinopse \u2014\u00e9, literalmente, a \u00fanica senten\u00e7a do cap\u00edtulo de abertura do romance, uma promessa de Quin para o que ser\u00e1 explorado nas 183 p\u00e1ginas seguintes.<\/p>\n<p>Em uma subvers\u00e3o \u00e1cida e melanc\u00f3lica do mito de \u00c9dipo, o protagonista espera o momento mais oportuno para dar cabo do seu progenitor. O pai, um artista de vaudeville envelhecido e decadente que mora com a amante Judith em uma pens\u00e3o, contrasta com a imagem idealizada que Berg construiu ao longo da vida.<\/p>\n<p>Essa dualidade entre a realidade e a idealiza\u00e7\u00e3o se reflete na obra de Quin, que convida a explorar a complexa rela\u00e7\u00e3o entre o abandono, a busca pela pr\u00f3pria identidade e sexualidade e a influ\u00eancia do passado no presente.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia do pai segue como motiva\u00e7\u00e3o principal, enquanto a figura da m\u00e3e, Edith, contamina parte da hist\u00f3ria em inser\u00e7\u00f5es entre os pensamentos do personagem e a narrativa. O relacionamento de Berg com a m\u00e3e \u00e9 ambivalente: mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia marcadas por intimidade, desconforto e por vezes <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/opiniao\/2023\/12\/educacao-domiciliar-e-os-risco-da-violencia-intrafamiliar.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">viol\u00eancia<\/a> invadem momentos-chave.<\/p>\n<p>O protagonista se lembra, por exemplo, de quando a m\u00e3e o puniu com uma tira de couro e pensa como ela encontrava prazer nisso, uma experi\u00eancia que Berg compartilhava ao n\u00e3o chorar. A ambiguidade desse contato \u00e9 refor\u00e7ada pela linguagem, que mistura repulsa e atra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>A jornada existencial de Berg \u00e9 pontuada por uma est\u00e9tica de detalhes pegajosos, que traduzem a precariedade de sua condi\u00e7\u00e3o. Objetos quebrados, roupas manchadas e o ambiente sujo comunicam a pobreza de seu entorno, a instabilidade de seu mundo psicol\u00f3gico e a vulnerabilidade de sua identidade.<\/p>\n<p>Carregada de estilo experimental influenciado por autores como <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/webstories\/cultura\/2022\/01\/vida-e-obra-de-virginia-woolf\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Virginia Woolf<\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/01\/watt-e-murphy-sao-otimas-portas-de-entrada-para-literatura-de-beckett.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Samuel Beckett<\/a>, Quin se recusa a dar um desfecho \u00f3bvio, mantendo a incerteza e a confus\u00e3o que refletem o estado interno do protagonista.<\/p>\n<p>Longe da trag\u00e9dia linear, o mergulho na psique fragmentada de Berg, aponta para uma crise de identidade de conclus\u00e3o imposs\u00edvel. A autora desafia a no\u00e7\u00e3o de que um ato definidor poderia resolver a crise edipiana do protagonista, subvertendo a narrativa cl\u00e1ssica e demonstrando o car\u00e1ter ousado, elegante e vertiginoso de sua prosa.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que &#8220;Berg&#8221;, e a obra de Ann Quin como um todo, faz com que rememoremos as defini\u00e7\u00f5es de Calvino sobre a imortalidade dos cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>Com uma vida breve \u2014morreu em 1973, aos 37 anos\u2014 e uma carreira marcada por recep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica mista, a escritora teve seus livros relegados \u00e0 obscuridade por um bom tempo. Mas sua prosa experimental, arriscada, sempre em busca de novas possibilidades de express\u00e3o, continua a soar atual.<\/p>\n<p>A redescoberta de Quin \u00e9 um presente para a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/literatura\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">literatura<\/a> contempor\u00e2nea, pois oferece a oportunidade de &#8220;reler&#8221; pela primeira vez uma voz \u00fanica, que se recusou a ser domesticada e que, mesmo ap\u00f3s d\u00e9cadas, ressoa de forma poderosa e desafiadora para os leitores de hoje.<\/p>\n<p>Sua obra prova que a verdadeira vanguarda, mesmo que marginalizada em seu tempo, tem o poder de ressurgir e influenciar o futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma das defini\u00e7\u00f5es de Italo Calvino para cl\u00e1ssico \u00e9 aquele livro que nunca se est\u00e1 lendo, mas relendo.&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":49145,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,1907,236,864,237,170,32,33,1016,14540],"class_list":{"0":"post-49144","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-escritores","12":"tag-folha","13":"tag-literatura","14":"tag-livro","15":"tag-livros","16":"tag-portugal","17":"tag-pt","18":"tag-romance","19":"tag-virginia-woolf"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49144","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49144"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49144\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49145"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}