{"id":49156,"date":"2025-08-28T20:28:08","date_gmt":"2025-08-28T20:28:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/49156\/"},"modified":"2025-08-28T20:28:08","modified_gmt":"2025-08-28T20:28:08","slug":"luis-lucas-adeus-cronica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/49156\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Lucas, adeus! | Cr\u00f3nica"},"content":{"rendered":"<p>Foi sim, como tanta gente tem dito, foi uma pessoa que viveu de uma maneira diferente, \u00fanica, inventando o passar do tempo como ningu\u00e9m, como se j\u00e1 soubesse que a vida que gostar\u00edamos de ter n\u00e3o ia durar o tempo suficiente para conhecer tudo, sem qualquer proibi\u00e7\u00e3o nem caminho tra\u00e7ado. Soube como ningu\u00e9m, guiado pelo desejo e pela curiosidade, prezar o que lhe foi acontecendo, alheio a hierarquias ou a padr\u00f5es de comportamento e n\u00e3o desprezando coisa nenhuma, nem pessoa, nem lugar. E foi de verdade, com extremo pudor e sempre em busca de um carinho que fosse universal, e de uma lealdade f\u00e9rrea que um dia havia de ser natural em toda a gente, que construiu tudo o que foi a sua vida, sem nenhuma viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Foi um dos poucos de n\u00f3s que nunca trabalhou para a fama, s\u00f3 foi actor para conhecer por dentro tudo o que de \u00fanico tem cada um de n\u00f3s, e porque o que se vive no teatro e no cinema \u00e9 mesmo para viver mais, viver sempre e, como se fosse por acaso, n\u00e3o par\u00e1ssemos de trabalhar sem que o vaso da vida no-lo impedisse. Mas n\u00e3o faz mal. \u00c9 cada um de n\u00f3s que constr\u00f3i o seu pr\u00f3prio vaso. A vida do <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/08\/24\/culturaipsilon\/noticia\/luis-lucas-19522025-actor-incandescente-2144843\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Lu\u00eds<\/a> s\u00f3 parou porque o seu vaso n\u00e3o lhe deu mais espa\u00e7o e ele transbordou.<\/p>\n<p>Vou eu tamb\u00e9m, como aposto que acontecer\u00e1 a todos com quem ele se cruzou ou que ele conheceu, sentir que ficou um vazio no seu lugar. N\u00e3o s\u00f3 porque j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1, mas porque ningu\u00e9m se adaptaria \u00e0 forma do espa\u00e7o que ele deixou. E porque o lugar dele era todo o mundo. Foi convivendo com o mundo atrav\u00e9s de tudo o que viveu que nos deixou um vazio que j\u00e1 nem sei se \u00e9 vida. N\u00f3s que ainda n\u00e3o acab\u00e1mos, mas a quem falta pouco para o cora\u00e7\u00e3o parar de bater, teremos menos alegria para al\u00e9m daquela pouca que o fim da vida nos d\u00e1. Faltar\u00e1 a sua companhia. Quem mais saber\u00e1 viver aquela fragilidade, sem se defender da amea\u00e7a que, nos nossos dias, anula a liberdade de cada um e nos formata como rob\u00f4s?<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Fez parte da minha vida toda. Devo-lhe quase tudo o que aprendi a viver. Sinto-me agora amputado. Cheg\u00e1mos h\u00e1 poucos dias a combinar um jantarito, que n\u00e3o chegou a haver. Eu temia que assim acontecesse. Mais uma vez me distra\u00ed. Mas j\u00e1 percebi que me custar\u00e1 caro ter lutado contra a morte, em vez de, como o Lu\u00eds, me ter convencido do que sempre ele me quis ensinar: n\u00e3o \u00e9 por viver a lutar por mais que se vive melhor.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi preciso mais tempo para al\u00e9m dos bocados de tempo que vivemos juntos. Com ele, descobri muito de como se pode amar. Passaram tr\u00eas dias desde que morreu e s\u00e3o tantas as mem\u00f3rias que me enchem o cora\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Conto um bocadinho, agora que j\u00e1 ele n\u00e3o corre risco nenhum: viv\u00edamos os dois na Travessa da Portuguesa, esquina com o elevador da Bica. Foi a\u00ed que nos acordou um telefonema do meu primo Paulo, na <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2024\/02\/07\/politica\/noticia\/saida-salgueiro-maia-santarem-vai-reconstituida-madrugada-25-abril-2079614\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">madrugada do 25 de Abril<\/a>. Logo ele, sem ligar \u00e0 minha obedi\u00eancia tonta, sem querer saber do pedido do MFA para que n\u00e3o sa\u00edssemos de casa, vestiu a roupa que estava \u00e0 m\u00e3o e saltou para a rua, para o Largo do Carmo. Pouco tempo depois, voltava ele para me vir buscar. \u201cQue est\u00e1s a fazer metido em casa? Vamos para o Carmo.\u201d Foi assim. T\u00e3o simples como isto. Passou algum tempo, cada um de n\u00f3s viveu separado do outro, mas deixei-lhe a nossa casa para viver. Soube depois que a casa tinha andado de m\u00e3o em m\u00e3o. E muito tempo depois, o nosso senhorio telefonou-me um dia, pedindo-me que levasse dali o que l\u00e1 tinha ficado: uma G3! N\u00e3o sei nem importa quem l\u00e1 a deixou, mas sei que foi o Lucas que teve coragem para conseguir que desaparecesse noite dentro no fundo do mar. Uma arma \u00e9 de metal, resiste ao tempo. Ficou onde, pelo menos, Deus nos estava a ver. E porque n\u00e3o hei-de agora cont\u00e1-lo, Lu\u00eds?<\/p>\n<p>N\u00e3o tem nada a ver com teatros, mas tem a ver com a paix\u00e3o com que fez o <a href=\"https:\/\/www.imdb.com\/pt\/title\/tt0082266\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Dina e Django<\/a> com a <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2001\/01\/19\/jornal\/a-mulher-que-escrevia-livros-e-era-velha-153811\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Solveig<\/a>, esse lindo filme, e tanta coisa menos espectacular. Tem a ver com a paix\u00e3o com que foi capaz de amar t\u00e3o bem tanta gente, no fundo, assumindo o peso de todos os maus bocados do mundo.<\/p>\n<p>Nunca com a morte de ningu\u00e9m senti tanta vontade de contar o que vivemos. Perdoem-me, mas n\u00e3o consigo guardar para mim tanto desgosto e n\u00e3o contar pelo menos um ou outro peda\u00e7o da vida que vivemos os dois.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Foi sim, como tanta gente tem dito, foi uma pessoa que viveu de uma maneira diferente, \u00fanica, inventando&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":49157,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[85],"tags":[1404,1413,114,115,32,33],"class_list":{"0":"post-49156","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-entretenimento","8":"tag-cronica","9":"tag-cultura-ipsilon","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49156","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49156"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49156\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49157"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49156"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49156"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49156"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}