{"id":492312,"date":"2026-08-19T08:37:18","date_gmt":"2026-08-19T08:37:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/492312\/"},"modified":"2026-08-19T08:37:18","modified_gmt":"2026-08-19T08:37:18","slug":"as-doencas-nao-transmissiveis-como-um-desafio-coletivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/492312\/","title":{"rendered":"As doen\u00e7as n\u00e3o transmiss\u00edveis como um desafio coletivo"},"content":{"rendered":"<p>Por <strong><a href=\"https:\/\/medicinasa.com.br\/tag\/sergio-okamoto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">S\u00e9rgio Okamoto<\/a><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/medicinasa.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Sergio-Okamoto-3.jpg\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-138137 alignright\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Sergio-Okamoto-3-283x300.jpg\" alt=\"\" width=\"283\" height=\"300\"  \/><\/a>O Brasil vive uma transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica e epidemiol\u00f3gica acelerada. Se por um lado, celebramos o aumento na expectativa de vida conquistado nas \u00faltimas d\u00e9cadas, por outro, somos confrontados pela alarmante realidade de que as Doen\u00e7as e Agravos N\u00e3o Transmiss\u00edveis (DANT) j\u00e1 respondem por mais da metade dos \u00f3bitos registrados no pa\u00eds. \u00c9 nesse cen\u00e1rio cr\u00edtico que se insere o Plano de A\u00e7\u00f5es Estrat\u00e9gicas do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para o per\u00edodo de 2021 a 2030, evidenciando que a sustentabilidade da nossa sociedade, do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (<strong><a href=\"https:\/\/medicinasa.com.br\/tag\/sus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">SUS<\/a><\/strong>) e do sistema de sa\u00fade no geral enfrenta um desafio cr\u00edtico diante do avan\u00e7o silencioso de condi\u00e7\u00f5es cr\u00f4nicas, acidentes e viol\u00eancias \u2013 fatores que hoje moldam de forma profunda o perfil de adoecimento nacional.<\/p>\n<p>Dados contidos no plano estrat\u00e9gico do <strong><a href=\"https:\/\/medicinasa.com.br\/tag\/ministerio-da-saude\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/a><\/strong> revelam que, em 2019, 54,7% das mortes no Brasil decorreram de doen\u00e7as cr\u00f4nicas (como problemas cardiovasculares, c\u00e2nceres, diabetes e doen\u00e7as respirat\u00f3rias), enquanto 11,5% foram causadas por agravos externos (viol\u00eancias e acidentes). O impacto social desse cen\u00e1rio \u00e9 avassalador: somente naquele ano, o Pa\u00eds registrou 738.371 \u00f3bitos por doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o transmiss\u00edveis. No entanto, por mais expressivo que seja esse volume, nada se compara \u00e0 gravidade do custo humano: 41,8% desses \u00f3bitos ocorreram de forma prematura, entre os 30 e 69 anos de idade, ou seja, estamos perdendo cidad\u00e3os no auge de sua capacidade produtiva, intelectual e familiar.<\/p>\n<p>\u00c9 c\u00f4modo, sob uma \u00f3tica estritamente individualista, culpar o cidad\u00e3o por suas escolhas. Afinal, tabagismo, consumo excessivo de \u00e1lcool, sedentarismo e alimenta\u00e7\u00e3o inadequada s\u00e3o os principais fatores de risco modific\u00e1veis. Contudo, o documento oficial do governo acerta ao reconhecer a determina\u00e7\u00e3o social da sa\u00fade, deixando claro que o adoecimento \u00e9 reflexo direto do acesso, ou da falta dele, a bens, servi\u00e7os p\u00fablicos, renda, emprego e informa\u00e7\u00e3o. O que nos faz questionar como exigir escolhas alimentares perfeitas em um cotidiano, muitas vezes, marcado pela vulnerabilidade social e uma rotina acelerada? Nesse contexto, os produtos ultraprocessados se imp\u00f5em pela praticidade imediata, maior durabilidade e um custo-benef\u00edcio percept\u00edvel diante do risco de perda r\u00e1pida de hortali\u00e7as e alimentos frescos. O pre\u00e7o dessa din\u00e2mica para a sa\u00fade, contudo, \u00e9 alt\u00edssimo, gerando desequil\u00edbrio nutricional e ingest\u00e3o excessiva de calorias.<\/p>\n<p>Ademais, ao expandirmos o olhar para as causas externas, percebe-se que o fortalecimento da vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica e da notifica\u00e7\u00e3o de viol\u00eancias se consolidou como uma pol\u00edtica p\u00fablica essencial no Pa\u00eds. Nesse contexto, estruturou-se em 2006 o Sistema de Vigil\u00e2ncia de Viol\u00eancias e Acidentes (VIVA), operacionalizado em duas frentes complementares: o VIVA Inqu\u00e9rito (amostragem realizada em servi\u00e7os de urg\u00eancia e emerg\u00eancia) e o VIVA\/Sinan (notifica\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de casos de viol\u00eancia interpessoal e autoprovocada integrada ao Sistema de Informa\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o). Enquanto o sistema monitora os agravos na popula\u00e7\u00e3o em geral, a notifica\u00e7\u00e3o tornou-se compuls\u00f3ria para casos envolvendo segmentos vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o, como crian\u00e7as, adolescentes, mulheres, idosos, pessoas com defici\u00eancia, popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+ e povos ind\u00edgenas, atuando como um importante instrumento de garantia de direitos e de acionamento de linhas de cuidado.<\/p>\n<p>Entre 2011 e 2018, registraram-se mais de 1,8 milh\u00e3o de casos no VIVA\/Sinan, um salto de 263,2%, impulsionado sobretudo pelo aumento expressivo das notifica\u00e7\u00f5es no sexo feminino (194%) e na popula\u00e7\u00e3o com 60 anos ou mais (261%). No mesmo per\u00edodo, a propor\u00e7\u00e3o de munic\u00edpios notificantes no Pa\u00eds subiu de 38,0% (2.114) para 78,7% (4.381). No entanto, o sistema ainda enfrenta importantes desigualdades regionais, com necessidade de amplia\u00e7\u00e3o da cobertura principalmente nas regi\u00f5es Norte e Nordeste e o desafio cr\u00f4nico da subnotifica\u00e7\u00e3o, alimentado pelo desconhecimento das fichas e fluxos, receio de retalia\u00e7\u00f5es ou medo de quebra do sigilo profissional. Esse diagn\u00f3stico exp\u00f5e profundas desigualdades de g\u00eanero, ra\u00e7a, faixa et\u00e1ria e classe social no Brasil, revelando que a inseguran\u00e7a e a viol\u00eancia ultrapassam a esfera da seguran\u00e7a p\u00fablica para impactar diretamente o sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Na mesma linha de gravidade, o aumento expressivo de 42,6% na taxa de suic\u00eddios, registrado entre 2000 e 2019, lan\u00e7a luz sobre o sofrimento ps\u00edquico, um adoecimento que por muito tempo permaneceu invisibilizado pelo estigma e pelo tabu. Esse dado alarmante refor\u00e7a a urg\u00eancia de encararmos a sa\u00fade mental n\u00e3o como uma pauta secund\u00e1ria ou individual, mas como uma prioridade do Estado, demandando a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso aos servi\u00e7os de psicologia e psiquiatria, o fortalecimento das Redes de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (RAPS) e a cria\u00e7\u00e3o de ambientes comunit\u00e1rios e de trabalho que promovam o bem-estar emocional em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Diante desse panorama, o plano desenhado para o horizonte 2021-2030 estabelece metas bem delineadas: reduzir em um ter\u00e7o a taxa de mortalidade prematura por doen\u00e7as cr\u00f4nicas; reduzir em 50% a taxa de mortalidade por les\u00f5es de tr\u00e2nsito; reduzir em um ter\u00e7o a taxa de mortalidade por homic\u00eddios (com recortes espec\u00edficos para mulheres e jovens de 15 a 29 anos); deter o crescimento da mortalidade por suic\u00eddios e de idosos por quedas acidentais; al\u00e9m de aumentar em 40% o percentual de munic\u00edpios notificantes no Viva\/Sinan, reconhecendo que o sucesso dessa agenda n\u00e3o depende exclusivamente do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Combater as DANT exige que a sa\u00fade transcenda suas fronteiras tradicionais para engajar ativamente os setores de planejamento urbano, transporte, seguran\u00e7a p\u00fablica, educa\u00e7\u00e3o e a iniciativa privada. Trata-se de promover cidades inteligentes que estimulem a mobilidade ativa por meio de ciclovias eficientes, regula\u00e7\u00e3o r\u00edgida sobre produtos nocivos (como \u00e1lcool e tabaco), seguran\u00e7a vi\u00e1ria e fomento \u00e0 agricultura familiar na merenda escolar.<\/p>\n<p>Tratar o adoecimento cr\u00f4nico e a viol\u00eancia apenas na l\u00f3gica do leito hospitalar equivale a enxugar gelo a um pre\u00e7o insustent\u00e1vel. A promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e a preven\u00e7\u00e3o devem ser encaradas como investimentos estruturais urgentes. Com o horizonte de 2030 cada vez mais pr\u00f3ximo, garantir uma sociedade verdadeiramente saud\u00e1vel exige um esfor\u00e7o coordenado e um compromisso cont\u00ednuo de todos os setores p\u00fablicos e privados.<\/p>\n<p><strong>*S\u00e9rgio Okamoto \u00e9 m\u00e9dico especialista em Sa\u00fade Ocupacional e Superintendente Geral do Hospital Nipo-Brasileiro (HNIPO).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por S\u00e9rgio Okamoto O Brasil vive uma transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica e epidemiol\u00f3gica acelerada. 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