{"id":493564,"date":"2026-08-20T07:39:45","date_gmt":"2026-08-20T07:39:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/493564\/"},"modified":"2026-08-20T07:39:45","modified_gmt":"2026-08-20T07:39:45","slug":"os-novos-assaltantes-do-velho-oeste-nos-eua-os-comboios-de-mercadorias-voltaram-a-ser-alvo-mas-agora-roubam-se-tenis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/493564\/","title":{"rendered":"Os novos assaltantes do Velho Oeste: nos EUA, os comboios de mercadorias voltaram a ser alvo, mas agora roubam-se t\u00e9nis"},"content":{"rendered":"<p>        Mais de 75 mil roubos de carga foram registados nos principais caminhos de ferro norte-americanos em 2025, segundo a ind\u00fastria ferrovi\u00e1ria. O fen\u00f3meno est\u00e1 a tornar-se mais organizado e sofisticado e h\u00e1 uma nova gera\u00e7\u00e3o de assaltantes que j\u00e1 n\u00e3o procura ouro: procura t\u00e9nis, ferramentas, eletr\u00f3nica e tudo o que possa desaparecer de um comboio e reaparecer na internet.    <\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Durante d\u00e9cadas, os assaltos a comboios ficaram associados ao imagin\u00e1rio do Velho Oeste americano: homens a cavalo, len\u00e7os sobre a cara e caixas de ouro \u00e0 espera de um destino pouco recomend\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Hoje, a paisagem mudou. Os cavalos deram lugar a carrinhas, os rev\u00f3lveres a ferramentas el\u00e9tricas e o ouro foi substitu\u00eddo por algo aparentemente mais banal \u2014 mas bastante lucrativo: sapatilhas, electr\u00f3nica, ferramentas e outros bens de elevado valor.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O problema, contudo, \u00e9 tudo menos folcl\u00f3rico.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Segundo a Association of American Railroads (AAR), os grandes operadores ferrovi\u00e1rios norte-americanos registaram mais de 75 mil incidentes de roubo de carga em 2025, com perdas superiores a 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares. A associa\u00e7\u00e3o diz que o valor das perdas aumentou mais de 50% num ano, embora alerte que altera\u00e7\u00f5es nos m\u00e9todos de recolha e reporte dos dados afectam a compara\u00e7\u00e3o entre per\u00edodos.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A AAR considera que o fen\u00f3meno est\u00e1 a ganhar escala e sofistica\u00e7\u00e3o e descreve redes criminosas que actuam de forma coordenada, atravessam jurisdi\u00e7\u00f5es e utilizam mercados online para escoar rapidamente os produtos roubados.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">N\u00e3o \u00e9, portanto, apenas uma quest\u00e3o de algu\u00e9m aproveitar um comboio parado para levar uma caixa. A ind\u00fastria ferrovi\u00e1ria fala de organiza\u00e7\u00f5es que estudam cargas, coordenam opera\u00e7\u00f5es e exploram as dificuldades de articula\u00e7\u00e3o entre diferentes autoridades.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A velha pilhagem de comboios ganhou, entretanto, departamento de log\u00edstica.<\/p>\n<p>Quando o comboio leva Nike, algu\u00e9m fica \u00e0 espera<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Um dos casos mais reveladores aconteceu no Arizona.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Segundo o Departamento de Justi\u00e7a dos Estados Unidos, 11 pessoas foram acusadas, em fevereiro de 2025, de posse de cerca de 1.985 pares de sapatilhas Nike, avaliados em mais de 440 mil d\u00f3lares, depois de a mercadoria ter sido roubada de um comboio da BNSF no norte do Arizona.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Os t\u00e9nis tinham uma particularidade: muitas ainda nem tinham chegado ao mercado.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Segundo a acusa\u00e7\u00e3o federal, o ataque ocorreu a 13 de janeiro de 2025. Um comboio da BNSF foi imobilizado em Perrin, no Arizona, depois de uma mangueira de ar ter sido cortada. Um agente da pol\u00edcia ferrovi\u00e1ria encontrou caixas de sapatilhas junto \u00e0 linha. Mais tarde, as autoridades localizaram dois ve\u00edculos que, segundo o Departamento de Justi\u00e7a, estavam envolvidos no transporte da mercadoria.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">No interior dos ve\u00edculos estavam os 1.985 pares de sapatilhas Nike ainda n\u00e3o lan\u00e7adas, avaliados em mais de 440 mil d\u00f3lares.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O crime organizado, aparentemente, tamb\u00e9m acompanha o calend\u00e1rio de lan\u00e7amentos.<\/p>\n<p>Como se assalta um comboio agora?<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O m\u00e9todo utilizado est\u00e1 bem longe do dos filmes de cowboys.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">De acordo com o Departamento de Justi\u00e7a, os grupos que atuaram em 2025 cortaram as mangueiras de ar dos sistemas de travagem para controlar o local onde o comboio acabava por parar. Depois, equipas diferentes entravam em ac\u00e7\u00e3o: uns retiravam as caixas dos contentores, enquanto outros chegavam em ve\u00edculos de transporte para levar a mercadoria.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O risco \u00e9 enorme. Segundo a acusa\u00e7\u00e3o federal, os comboios podem viajar a\u00a0113 quil\u00f3metros por hora, e a manipula\u00e7\u00e3o do sistema de travagem pode provocar um descarrilamento.<\/p>\n<p>A log\u00edstica do crime<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A investiga\u00e7\u00e3o descrita pelo Departamento de Justi\u00e7a mostra uma opera\u00e7\u00e3o com v\u00e1rios n\u00edveis.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Depois de o comboio ser imobilizado, uma equipa abre os contentores e retira a carga. Outra chega em carrinhas ou cami\u00f5es e trata do transporte. No caso das sapatilhas Nike, segundo as autoridades, a mercadoria seria levada para a Calif\u00f3rnia e posteriormente vendida online.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 aqui que o velho assaltante de comboios encontra a economia digital.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">J\u00e1 n\u00e3o basta roubar.\u00a0 \u00c9 preciso transportar, armazenar, distribuir e vender. E, aparentemente, tamb\u00e9m ter um bom departamento comercial.<\/p>\n<p>Muito mais do que uns t\u00e9nis\u2026<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A Nike pode ter direito \u00e0s melhores manchetes, mas est\u00e1 longe de representar todo o problema.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Em fevereiro de 2025, o Departamento de Justi\u00e7a anunciou a deten\u00e7\u00e3o de dois homens acusados de roubar carga de outro comboio que atravessava o deserto de Mojave, na Calif\u00f3rnia. Segundo a acusa\u00e7\u00e3o, foram encontrados aproximadamente 71 volumes de ferramentas Milwaukee, avaliados em cerca de 16.307 d\u00f3lares, dentro de uma carrinha, al\u00e9m de outros 13 volumes junto \u00e0 linha ferrovi\u00e1ria, avaliados em cerca de 7.792 d\u00f3lares.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O caso mostra que o alvo dos ladr\u00f5es pode ser t\u00e3o variado quanto o conte\u00fado dos comboios. Sapatilhas, ferramentas, electr\u00f3nica, bens de consumo: se tem valor, \u00e9 transport\u00e1vel e existe procura, pode tornar-se atrativo.<\/p>\n<p>Um problema que j\u00e1 chegou a Washington<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O fen\u00f3meno deixou de ser apenas uma preocupa\u00e7\u00e3o das companhias ferrovi\u00e1rias e das for\u00e7as policiais locais.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Em Washington, o Combating Organized Retail Crime Act (CORCA) procura refor\u00e7ar a capacidade das autoridades federais para combater redes organizadas envolvidas no roubo e revenda de mercadorias.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A legisla\u00e7\u00e3o passou pela C\u00e2mara dos Representantes em maio de 2026 com apoio bipartid\u00e1rio e avan\u00e7ou para o Senado. Em julho, o senador Chuck Grassley e outros apoiantes pressionavam para que o CORCA fosse inclu\u00eddo no National Defense Authorization Act (NDAA).<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">O pr\u00f3prio Senado voltou a apresentar os dados da ind\u00fastria ferrovi\u00e1ria: mais de 75 mil roubos e mais de 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares em perdas em 2025.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A AAR defende que a resposta federal \u00e9 necess\u00e1ria porque as redes criminosas atravessam estados e fronteiras e aproveitam as diferen\u00e7as entre jurisdi\u00e7\u00f5es. A legisla\u00e7\u00e3o prev\u00ea, entre outras medidas, uma maior coordena\u00e7\u00e3o entre autoridades federais, estaduais e locais e a cria\u00e7\u00e3o de uma estrutura nacional dentro do Homeland Security Investigations.<\/p>\n<p>A corrida entre ladr\u00f5es e tecnologia<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">As empresas ferrovi\u00e1rias tamb\u00e9m est\u00e3o a refor\u00e7ar a resposta.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Segundo a AAR, os operadores t\u00eam investido em seguran\u00e7a, incluindo sistemas de monitoriza\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia, refor\u00e7o das instala\u00e7\u00f5es e maior coopera\u00e7\u00e3o com as autoridades.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Mas existe um problema estrutural: os Estados Unidos t\u00eam uma rede ferrovi\u00e1ria gigantesca, que atravessa cidades, zonas industriais e \u00e1reas rurais remotas.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">N\u00e3o \u00e9 propriamente poss\u00edvel construir um muro \u00e0 volta dos carris. E os criminosos sabem disso.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A quest\u00e3o tornou-se, por isso, uma corrida entre tecnologia e organiza\u00e7\u00e3o criminosa: de um lado, sistemas de vigil\u00e2ncia e rastreamento; do outro, grupos que procuram antecipar onde est\u00e1 a carga mais valiosa e qual o melhor momento para a retirar.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o acaba por chegar ao consumidor<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">A AAR sustenta que os efeitos do crime ferrovi\u00e1rio ultrapassam as perdas directas das companhias.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Os roubos provocam atrasos nas entregas, danos em equipamentos e infra-estruturas, custos de seguran\u00e7a mais elevados, aumento dos custos operacionais e press\u00e3o sobre os seguros. A associa\u00e7\u00e3o considera que esses efeitos acabam por repercutir-se em toda a cadeia de abastecimento e, em \u00faltima an\u00e1lise, nos consumidores.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">\u00c9 por isso que uma caixa de sapatilhas roubada num tro\u00e7o ferrovi\u00e1rio remoto do Arizona pode ter uma hist\u00f3ria econ\u00f3mica bastante mais longa do que parece.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Primeiro desaparece do comboio. Depois entra numa carrinha. Segue para outro estado. Pode acabar numa plataforma online. E, algures pelo caminho, algu\u00e9m paga pela seguran\u00e7a adicional, pelo atraso ou pela mercadoria que ter\u00e1 de ser substitu\u00edda.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Mais de um s\u00e9culo depois dos lend\u00e1rios assaltos ferrovi\u00e1rios que ajudaram a construir a mitologia americana, os comboios continuam a ser atacados.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Mas os ladr\u00f5es modernos j\u00e1 n\u00e3o precisam de cavalos, dinamite ou um rev\u00f3lver apontado ao maquinista.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">Segundo as autoridades e a ind\u00fastria ferrovi\u00e1ria, t\u00eam ve\u00edculos de apoio, informa\u00e7\u00e3o sobre as cargas, m\u00e9todos para imobilizar composi\u00e7\u00f5es e canais digitais para escoar rapidamente aquilo que retiram dos carris.<\/p>\n<p class=\"isSelectedEnd\">As autoridades americanas est\u00e3o agora a tentar acompanhar essa transforma\u00e7\u00e3o. Porque o comboio continua a avan\u00e7ar. A carga continua a chegar. E, aparentemente, h\u00e1 quem esteja sempre \u00e0 espera na pr\u00f3xima paragem.<\/p>\n<p>O Velho Oeste acabou. O assalto ao comboio, pelos vistos, apenas fez uma atualiza\u00e7\u00e3o de software.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mais de 75 mil roubos de carga foram registados nos principais caminhos de ferro norte-americanos em 2025, segundo&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":493565,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[83],"tags":[88,2587,89,90,32,33],"class_list":["post-493564","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-empresas","tag-business","tag-comboio","tag-economy","tag-empresas","tag-portugal","tag-pt"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117126703646739091","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/493564","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=493564"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/493564\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/493565"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=493564"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=493564"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=493564"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}