{"id":493978,"date":"2026-08-20T14:36:33","date_gmt":"2026-08-20T14:36:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/493978\/"},"modified":"2026-08-20T14:36:33","modified_gmt":"2026-08-20T14:36:33","slug":"adrian-bridge-alerta-para-colapso-do-vinho-do-porto-e-propoe-reestruturacao-com-arranque-de-vinhas-no-douro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/493978\/","title":{"rendered":"Adrian Bridge alerta para colapso do Vinho do Porto e prop\u00f5e reestrutura\u00e7\u00e3o com arranque de vinhas no Douro"},"content":{"rendered":"<p>Adrian Bridge fala num portugu\u00eas escorreito, sem nunca perder o sotaque brit\u00e2nico. O CEO do grupo que det\u00e9m marcas de vinho do Porto como a Croft, Fonseca ou Taylor\u2019s e outras de vinho de mesa &#8211;  Principal (Bairrada), Bella (D\u00e3o) ou Quinta do Portal (Douro), recebeu o Dinheiro Vivo na cave da Taylor\u2019s . Foi mais de uma hora de conversa, que passou por um olhar anal\u00edtico da crise no Douro e por cr\u00edticas \u00e0 falta de decis\u00e3o de quem est\u00e1 longe do terrreno. Para o gestor \u00e9 muito claro que o Douro precisa de seguir tend\u00eancias de outras regi\u00f5es europeias e arrancar vinha, e defende ainda o fim do sistema de \u2018benef\u00edcio\u2019, institu\u00eddo no in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p><strong>Como avalia a atual crise no Douro e o sistema de benef\u00edcio?  <\/strong><\/p>\n<p>A minha opini\u00e3o n\u00e3o muda muito em 20 e tal anos. A realidade \u00e9 que temos uma estrutura com o \u2018benef\u00edcio\u2019 que congela um sistema que era relevante em 1933, mas que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 completamente relevante hoje em dia. Desde 2000 at\u00e9 2015, a \u00e1rea plantada aumentou 25%. A grande dificuldade \u00e9 que o Douro n\u00e3o est\u00e1 reestruturado. Temos muitos pequenos lavradores com contratos que n\u00e3o s\u00e3o rent\u00e1veis. Os lavradores profissionais (que tipicamente possuem entre cinco a dez hectares) t\u00eam videiras a mais, o que os impede de fazer o trabalho apenas com a fam\u00edlia, obrigando-os a contratar terceiros. Como n\u00e3o t\u00eam escala suficiente para vender com marca pr\u00f3pria, ficam muito dependentes de que terceiros ou grandes empresas comprem as suas uvas. Para mim, o benef\u00edcio tem de acabar. Quem \u00e9 contra a sua elimina\u00e7\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o quer que a realidade do mercado tenha impacto no Douro. No mundo ideal, a reestrutura\u00e7\u00e3o passaria por um modelo semelhante ao aplicado nos Estados Unidos ou noutros locais, onde se paga \u00e0s pessoas para arrancarem as vinhas, em vez de dar dinheiro aos grandes produtores para o fazerem. Acho que vamos ter de arrancar vinha. Sem o papel do \u201cbenef\u00edcio\u201d, os pequenos produtores que n\u00e3o entregam uvas \u00e0s cooperativas por falta de viabilidade produziriam apenas vinho para consumo pr\u00f3prio e familiar. Atualmente, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel produzir exclusivamente Vinho do Porto. Com as limita\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o para Vinho do Porto (onde, por exemplo, apenas cerca de um ter\u00e7o ou um quinto da produ\u00e7\u00e3o de uma letra A pode ser convertida em Porto), os produtores t\u00eam de canalizar o restante para a produ\u00e7\u00e3o de vinhos de mesa de qualidade como alternativa vi\u00e1vel, em vez de converter as uvas excedentes em vinho barato de volume para mercados saturados<\/p>\n<p><strong>De que forma o aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo e a falta de mecaniza\u00e7\u00e3o afetam a regi\u00e3o?<\/strong>  <\/p>\n<p>O sal\u00e1rio m\u00ednimo em Portugal aumentou 53% desde 2019. Embora isso seja justo para os trabalhadores, o Vale do Douro \u00e9 uma regi\u00e3o agr\u00edcola extremamente dependente de m\u00e3o-de-obra e que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de mecanizar. Por causa disso, n\u00e3o tivemos tempo suficiente para reajustar o nosso neg\u00f3cio a este aumento r\u00e1pido de custos. No entanto, estamos a tentar adaptar-nos: no ano passado, pela primeira vez, apanh\u00e1mos uvas mecanicamente numa quinta perto de Alij\u00f3, onde fizemos 6,5 hectares num dia &#8211; o que normalmente levaria uma semana de trabalho para uma equipa grande. Mas para expandir a colheita mec\u00e2nica, \u00e9 preciso adaptar as adegas, o que exige investimento. \u00c9 sempre um equil\u00edbrio entre o investimento e a possibilidade.<\/p>\n<p><strong>Como analisa as press\u00f5es internacionais contra o consumo de bebidas alco\u00f3licas?<\/strong>  <\/p>\n<p>Existe um lobby muito forte a n\u00edvel mundial contra as bebidas alco\u00f3licas, promovido por grupos que chamo de \u2018neo-proibicionistas\u2019. S\u00e3o os mesmos grupos do fim do s\u00e9culo XIX, agora com novos nomes, que disp\u00f5em de muito dinheiro. Eles acham que, como j\u00e1 resolveram o problema do tabaco, o \u00e1lcool \u00e9 o pr\u00f3ximo alvo, mas esquecem-se de que o tabaco n\u00e3o tem qualquer tipo de consumo positivo. O setor do vinho acaba por sofrer mais com este ataque porque \u00e9 extremamente fragmentado e n\u00e3o tem a escala necess\u00e1ria para combater esta narrativa. O setor da cerveja consegue defender-se com as op\u00e7\u00f5es sem \u00e1lcool, e os destilados s\u00e3o controlados por grandes grupos com muito mais for\u00e7a de marketing\u2026<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que se sobrevive a isto? \u00c9 com cautela e continuando a fazer investimentos estrat\u00e9gicos, para al\u00e9m destas mudan\u00e7as estruturais que devem ser feitas?<\/strong><\/p>\n<p>Neste momento, o problema n\u00e3o \u00e9 a falta de dinheiro, mas sim a falta de confian\u00e7a, que vem da incerteza mundial das guerras, das op\u00e7\u00f5es do clima e da falta de lideran\u00e7a pol\u00edtica. Precisamos de l\u00edderes que tomem decis\u00f5es definitivas e que expliquem bem ao povo o porqu\u00ea de as coisas serem feitas de determinada maneira, pois n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel deixar toda a gente contente o tempo todo. Eu pr\u00f3prio n\u00e3o sou pol\u00edtico porque n\u00e3o tenho a capacidade de tentar agradar a toda a gente; acho que isso \u00e9 imposs\u00edvel. O que vemos hoje \u00e9 que, por vezes, n\u00e3o se tomam decis\u00f5es porque se prefere continuar a debater, ou porque h\u00e1 tanta informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel que se adia a decis\u00e3o \u00e0 espera de ter mais dados no dia seguinte. A minha forma\u00e7\u00e3o \u00e9 militar: n\u00f3s tomamos decis\u00f5es com a informa\u00e7\u00e3o que temos no momento e avan\u00e7amos.<\/p>\n<p><strong>O consumo de vinho do Porto tem ca\u00eddo bastante. Ainda h\u00e1 mercados novos a aparecer?<\/strong> <\/p>\n<p>Temos de construir novos mercados. A Coreia \u00e9 atualmente um excelente mercado e foi o nosso principal consumidor no centro de visitas da Taylor\u2019s no primeiro trimestre do ano. A \u00cdndia tem um potencial incr\u00edvel, planeando construir cerca de 700 novos aeroportos nos pr\u00f3ximos 15 anos. Al\u00e9m disso, as fam\u00edlias indianas t\u00eam o h\u00e1bito cultural de relaxar e conversar ap\u00f3s as refei\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 ideal para o vinho do Porto. Tamb\u00e9m vemos potencial de crescimento em pa\u00edses africanos como a \u00c1frica do Sul, Ruanda e Nig\u00e9ria.<\/p>\n<p><strong>O que acha da medida do Governo de obrigar ao uso de aguardente do Douro na produ\u00e7\u00e3o de vinho do Porto? Vai solucionar a crise?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 a aguardente do Douro vai custar quatro vezes mais do que a que usamos atualmente. Neste momento, n\u00f3s pagamos entre 1,70 e 2,50 euros por um litro de aguardente, mas a aguardente do Douro vai custar entre dez euros e 12 euros por litro. Como o vinho do Porto tem 20% de aguardente, o pre\u00e7o na prateleira ter\u00e1 de aumentar cerca de seis euros, passando para 11 euros. O consumidor vai reagir e n\u00e3o vai beber vinho do Porto; a sua garrafa no supermercado vai custar o dobro. Esta ideia \u00e9 boa no papel e funciona bem politicamente porque se diz que o vinho do Porto passa a ser 100% portugu\u00eas. Mas, operacionalmente, \u00e9 muito m\u00e1 e implicar\u00e1 que um neg\u00f3cio de sete milh\u00f5es de caixas baixe provavelmente para quatro milh\u00f5es, existindo o potencial de eliminar completamente a base do vinho do Porto. O Douro \u00e9 um dos locais mais caros para produzir uvas na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, pelo que us\u00e1-las para fazer aguardente n\u00e3o tem qualquer l\u00f3gica. Esta decis\u00e3o vai agravar muito a crise.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o o que se pode fazer para contrariar a crise na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Controlar a quantidade e estimular a qualidade. O vale do Douro tem capacidade para fazer vinhos de alta qualidade. Devemos dar liberdade \u00e0s pessoas, eliminar o benef\u00edcio e permitir que decidam se querem transformar as suas uvas em vinho do Porto, vinho de mesa ou espumante. Defendo um sistema de liberalismo econ\u00f3mico. O maior problema \u00e9 o Governo tentar controlar o neg\u00f3cio sem assumir responsabilidades financeiras ou operacionais. Para arrancar vinhas, \u00e9 preciso criar um pacote que tenha uma l\u00f3gica. Devemos priorizar os pequenos lavradores, que t\u00eam menos capacidade de se adaptar \u00e0 realidade, salvar os nossos lavradores profissionais &#8211; que s\u00e3o quem d\u00e1 emprego na regi\u00e3o &#8211; e preservar as melhores vinhas. Al\u00e9m disso, n\u00f3s vendemos o nosso azeite por mais, por litro, do que o nosso vinho do Porto. Hoje pagam-se 20 euros por meio litro de azeite da Taylor\u2019s no aeroporto. O mercado est\u00e1 preparado para pagar bem pelo azeite do Douro. Por isso, temos de perceber este sinal do mercado, investir na marca do azeite do Douro, arrancar algumas vinhas e plantar mais oliveiras, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o sobre o facto a ViniPortugal n\u00e3o poder promover o Vinho do Porto no estrangeiro devido a quest\u00f5es legislativas?<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, n\u00e3o tem grande l\u00f3gica que n\u00e3o estejamos todos juntos dentro da marca \u2018Vinhos de Portugal\u2019, sob uma bandeira \u00fanica para o nosso pa\u00eds que promova tudo. Ainda existe aquela ideia, de h\u00e1 duas gera\u00e7\u00f5es, de que o Vinho do Porto n\u00e3o precisa de ajuda porque \u00e9 um neg\u00f3cio de ricos bem estabilizado, mas hoje em dia isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 real. Atualmente, os produtores tamb\u00e9m t\u00eam de fazer vinho de mesa, porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel produzir apenas Vinho do Porto. Se n\u00e3o tivermos a coragem de tomar esta decis\u00e3o de uni\u00e3o e continuarmos a adiar de ano para ano, ser\u00e1 pior.<\/p>\n<p> <strong>A The Fladgate Partnership investiou mais de 100 milh\u00f5es no World of Wine mesmo antes de pandemia. Como foram as contas do ano passado e que contributo o Turismo tem dado para a vossa solidez financeira? <\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, n\u00f3s perdemos dinheiro com o Vinho do Porto, mas felizmente o setor do turismo tem compensado essas perdas. Em 2025, o nosso grupo faturou cerca de 150 milh\u00f5es de euros, o que nos coloca acima dos valores de 2019. Conseguimos isto porque abrimos novos neg\u00f3cios, aproveit\u00e1mos o crescimento do turismo e investimos, em 2023 e 2024, em vinhos de mesa. Embora o WOW continue com preju\u00edzos, est\u00e1 em fase de crescimento. E est\u00e1 a correr bem. Temos tido o apoio da cidade &#8211; este presidente entende a import\u00e2ncia do WOW, que chamou investidores para a \u00e1rea. A recupera\u00e7\u00e3o da zona aqui \u00e0 volta representa um impacto de 600 milh\u00f5es de euros\u2026<\/p>\n<p><strong>Houve relatos de muitos cancelamentos de encomendas de uvas a produtores da regi\u00e3o. A sua empresa reduziu a compra de uvas aos produtores este ano? <\/strong><\/p>\n<p>Sim, diminu\u00edmos as nossas compras de uva em 25% este ano. Tom\u00e1mos esta decis\u00e3o porque as regras nos obrigam a pagar as uvas at\u00e9 ao dia 15 de janeiro. Como n\u00e3o sei exatamente qual ser\u00e1 o nosso n\u00edvel de vendas at\u00e9 dezembro, preferi n\u00e3o assumir um compromisso financeiro que pudesse falhar nessa data. Para ajudar os produtores nesta fase, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 o Governo intervir com um fundo de financiamento ou uma garantia banc\u00e1ria que apoie as empresas nas compras, permitindo maior flexibilidade.<\/p>\n<p><strong>Que inova\u00e7\u00f5es e tecnologias t\u00eam implementado para reduzir custos e atrair consumidores?<\/strong>  <\/p>\n<p>A inova\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para n\u00f3s. Lan\u00e7\u00e1mos um Vinho do Porto Branco muito velho (VLP), com mais de 80 anos, que \u00e9 um produto hist\u00f3rico e especial capaz de atrair novos consumidores e resgatar antigos. Na \u00e1rea da efici\u00eancia, lan\u00e7\u00e1mos uma nova garrafa mais leve para a Taylor\u2019s, reduzindo o peso de 600g para 440g. Isto permite-nos poupar no custo do vidro, no transporte e nos impostos ecol\u00f3gicos no Reino Unido, onde existe a taxa \u201cextended price responsibility\u201d baseada no peso da garrafa, que foi implementada recentemente. Tamb\u00e9m introduzimos rob\u00f4s nas linhas de engarrafamento para substituir tarefas repetitivas, usamos Intelig\u00eancia Artificial para o planeamento administrativo e utilizamos drones para analisar a sa\u00fade das videiras e aplicar tratamentos agr\u00edcolas de forma seletiva.  <\/p>\n<p><strong>Se olhar para um horizonte de cinco anos, qual considera ser o maior desafio para o setor?<\/strong><\/p>\n<p>O maior desafio vai ser o clima, com toda a certeza, porque o mundo est\u00e1 desregulado neste momento e esta n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o f\u00e1cil de retificar. O peso t\u00e9rmico dos nossos oceanos est\u00e1 mais alto, o que faz com que evaporem mais \u00e1gua e isso implica mais tempestades. O clima que temos hoje \u00e9 fruto do que foi feito h\u00e1 dez ou 15 anos. Ainda assim, continuo otimista. O mundo funciona em ciclos e, embora o consumidor esteja atualmente preocupado e a gastar menos, a capacidade humana e a inventividade para dar a volta a estas situa\u00e7\u00f5es de forma r\u00e1pida \u00e9 incr\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Adrian Bridge fala num portugu\u00eas escorreito, sem nunca perder o sotaque brit\u00e2nico. 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