{"id":494443,"date":"2026-08-20T21:37:11","date_gmt":"2026-08-20T21:37:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/494443\/"},"modified":"2026-08-20T21:37:11","modified_gmt":"2026-08-20T21:37:11","slug":"denise-milan-abre-mostra-com-pedras-no-museu-de-arte-sacra-20-08-2026-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/494443\/","title":{"rendered":"Denise Milan abre mostra com pedras no Museu de Arte Sacra &#8211; 20\/08\/2026 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Tinha uma pedra no meio do caminho. Mas a artista <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1995\/3\/17\/ilustrada\/20.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Denise Milan<\/a> n\u00e3o queria desviar dessa pedra e seguir o caminho. A pedra \u00e9 o caminho. Em sua nova mostra, &#8220;Elementares&#8221;, no Museu de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/arte\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Arte<\/a> Sacra de S\u00e3o Paulo, as pedras s\u00e3o tamb\u00e9m a origem.<\/p>\n<p>As paredes de uma das tr\u00eas salas da exposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o tomadas de impress\u00f5es nas quais pequenas rochas se tornam bidimensionais e s\u00e3o expandidas para uma tela de 1,5 metro de altura.<\/p>\n<p>O resultado s\u00e3o imagens que remetem \u00e0 concep\u00e7\u00e3o. Em v\u00e1rias cores e min\u00e9rios, cada uma das imagens das pedras consiste num n\u00facleo, envolto por uma s\u00e9rie de camadas de outros elementos. Em &#8220;Elementar IV&#8221;, o n\u00facleo, rosa-coral e parecido com um cavalo-marinho, \u00e9 envolto por camadas de tons acobreados e cinza-grafite, at\u00e9 chegar \u00e0 camada mais superficial, de um lil\u00e1s espinhoso. Outras dessas imagens parecem mais humanas, remetendo a figuras de fetos ou de santos.<\/p>\n<p>Milan prefere o scanner \u00e0 fotografia para registrar esses min\u00e9rios, porque, assim, a interven\u00e7\u00e3o humana se torna m\u00ednima. Para ela, os minerais devem ser tanto mat\u00e9ria-prima quanto narradores de uma hist\u00f3ria pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Pode parecer que a mostra, ancorada numa compreens\u00e3o profunda das propriedades da mat\u00e9ria, destoe do resto do acervo do museu, um antigo mosteiro colonial constru\u00eddo no s\u00e9culo 18. Mas a proposta de Milan \u00e9 que h\u00e1 algo de sacro na natureza em si.<\/p>\n<p>&#8220;A sacralidade da natureza pertence a todo mundo. N\u00e3o \u00e9 a minha religi\u00e3o, a tua religi\u00e3o, a religi\u00e3o dele. Os elementais trazem um ch\u00e3o que unifica, que \u00e9 comum a todos os <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2016\/12\/1841205-denise-milan-reflete-sobre-a-conexao-entre-homem-e-a-natureza-em-mostra.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">seres humanos<\/a>&#8220;, afirma a artista.<\/p>\n<p>Esse princ\u00edpio fica evidente na obra &#8220;Cosmos&#8221;. Reservada do espectador numa sala fechada, a pedra de cerca de 30 cent\u00edmetros de comprimento \u00e9 vis\u00edvel por meio de uma lente, que amplifica seus detalhes, mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O geodo de ametista tem duas camadas, uma externa de basalto e a interna, de ametista. A camada cinzenta superficial \u00e9 fina, como se fosse uma casaca de ovo. O interior da pedra \u00e9 povoado pelas forma\u00e7\u00f5es pontiagudas de ametista, em tons de roxo mais claros, perto da casca, e mais escuros perto do centro.<\/p>\n<p>O geodo \u00e9 criado a partir de bolhas de ar que se formam no magma. Milan as define como &#8220;um lugar de conflitos&#8221;. O quartzo e o basalto tentam entrar nessa bolha. Quem entrar, sobrevive. &#8220;\u00c9 o \u2018ser ou n\u00e3o ser\u2019, de Shakespeare&#8221;, diz Milan.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nNo caso de &#8220;Cosmos&#8221;, quem entrou na bolha de ar foi o quartzo. Mas, dentro dessa caverninha violeta, habitam pingos de basalto.<\/p>\n<p>A interfer\u00eancia de Milan na pedra foi m\u00ednima. O trabalho art\u00edstico \u00e9 o de encontrar a mat\u00e9ria e ser capaz de entender qual \u00e9 a narrativa ali. Em &#8220;Cosmos&#8221;, Milan aponta para os registros das tentativas do quartzo de adentrar a bolha de ar.<\/p>\n<p>Na base da pedra, dois dedinhos de casca cinza se sobressaem, como se rumassem em dire\u00e7\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio. S\u00e3o, segundo a artista, movimentos ousados, que conferem personalidade a essa pedra.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/serafina\/2012\/12\/1190620-curadora-do-moma-ajuda-brasileira-a-levar-projeto-para-os-eua.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">carreira de Milan<\/a> \u00e9 calcada nos pedregulhos desde os anos 1980. Em 1986, Milan exp\u00f4s &#8220;Luzes&#8221; no Museu de Arte Moderna, o MAM, em S\u00e3o Paulo, uma s\u00e9rie de obras com objetos como televis\u00f5es, ventiladores e l\u00e2mpadas e luzes incandescentes.<\/p>\n<p>Depois dessa mostra, durante uma visita a seu ateli\u00ea, algu\u00e9m prop\u00f4s que ela trabalhasse com cristais. Eles eram, afinal, grandes condutores de luz. &#8220;Eu mesma n\u00e3o conseguia mexer nos cristais porque eles eram t\u00e3o perfeitos que eu n\u00e3o tinha por onde entrar&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Assim como o pingo de basalto achou uma forma de habitar a caverna de ametista, Milan encontrou seu caminho das pedras. Sem desafiar a perfei\u00e7\u00e3o que tanto a atraiu para os cristais, ela entendeu que sua interfer\u00eancia seria, antes de mais nada, o olhar.<\/p>\n<p>O marco inaugural de seu trabalho com cristais \u00e9 1988, quando exp\u00f4s &#8220;Garden of Lights&#8221; no MoMA PS1, em Nova York, a convite de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2018\/10\/instalacao-de-laurie-anderson-na-mostra-e-melhor-que-montanha-russa.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Laurie Anderson<\/a>. Posicionados numa sala escura, Milan orquestrou seus cristais sobre estruturas luminosas de ferro.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante, as pedras se tornaram a mat\u00e9ria primordial da artista. Numa de suas obras mais c\u00e9lebres, &#8220;Gruta de Maquin\u00e9&#8221;, exibida na 21\u00aa Bienal de S\u00e3o Paulo, ela povoou uma fissura no ch\u00e3o com cristais e luzes.<\/p>\n<p>Noutra, em 2006, exibiu seus &#8220;Entes P\u00e9treos&#8221;, estruturas verticalizadas de ametista que remetem a pessoas.<\/p>\n<p>O que rege o trabalho de Milan, e aparece escancarado em &#8220;Elementares&#8221;, \u00e9 o que ela chama de drama da mat\u00e9ria. Mas o drama, ela diz, &#8220;n\u00e3o \u00e9 a polaridade. O drama n\u00e3o se resolve pela oposi\u00e7\u00e3o. Ele se resolve pela coexist\u00eancia&#8221;. Como um pingo de basalto que habita um mundo de ametista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Tinha uma pedra no meio do caminho. 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