{"id":4967,"date":"2025-07-28T07:27:08","date_gmt":"2025-07-28T07:27:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/4967\/"},"modified":"2025-07-28T07:27:08","modified_gmt":"2025-07-28T07:27:08","slug":"tatiana-salem-levy-portugal-e-mais-livre-na-circulacao-do-corpo-e-o-brasil-e-mais-livre-na-criatividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/4967\/","title":{"rendered":"Tatiana Salem Levy. \u201cPortugal \u00e9 mais livre na circula\u00e7\u00e3o do corpo e o Brasil \u00e9 mais livre na criatividade\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Voc\u00ea nasceu aqui em Lisboa, mas cresceu no Brasil e agora mora aqui. Como \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com Portugal?<\/strong><\/p>\n<p>Eu nasci aqui durante o ex\u00edlio dos meus pais, o que \u00e9 muito diferente de nascer aqui filha de portugueses. Meus pais eram brasileiros, estavam exilados durante a ditadura militar. E eu nasci em janeiro de 79 e fui pro Brasil em setembro de 79, n\u00e3o tenho nenhuma mem\u00f3ria desses primeiros nove meses aqui. Mas, ao mesmo tempo, acho que o fato de eu ter nascido aqui sempre significou alguma coisa pra mim, Eu sempre disse isso. Eu sempre disse que eu era brasileira, mas que tamb\u00e9m era portuguesa. Porque tamb\u00e9m eu nasci numa \u00e9poca em que valia a lei do solo, bastava nascer aqui que era considerado portuguesa e, de alguma forma, sempre me senti portuguesa. Eu fiquei muitos anos sem vir pra c\u00e1, depois comecei a frequentar quando comecei a publicar o que eu escrevia. A Chave de Casa, que \u00e9 o meu primeiro romance, saiu primeiro em Portugal e depois no Brasil. Uma coincid\u00eancia, na verdade, uma quest\u00e3o de agenda das editoras, mas bem simb\u00f3lico tamb\u00e9m. Por conta disso comecei a frequentar eventos liter\u00e1rios aqui, quando conheci o pai dos meus filhos. Foi, na verdade, por isso que eu vim pra c\u00e1. Ele tinha uma filha de sete anos, ele n\u00e3o podia ir pro Brasil. Pra mim era muito f\u00e1cil ir pra c\u00e1, por ser portuguesa, pelo meu trabalho, porque eu gostava da ideia, porque eu gostava de Portugal. E, na verdade, eu vim pra fazer experi\u00eancias, ficar uns meses e fiquei. Isso foi em mar\u00e7o de 2013.<\/p>\n<p><strong>Entre Brasil e Portugal, quais s\u00e3o as principais diferen\u00e7as que voc\u00ea v\u00ea do modo de vida?<\/strong><\/p>\n<p>Imposs\u00edvel n\u00e3o falar da quest\u00e3o da seguran\u00e7a, n\u00e9? Eu sei que \u00e9 bastante clich\u00ea e \u00f3bvio, mas essa certa liberdade do ir e vir \u00e9 muito importante. Aqui eu me sinto muito tranquila no ir e vir. E com crian\u00e7as, \u00e9 um ponto muito positivo. Por outro lado, eu acho que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds em termos criativos e de pensamento, mais livre do que Portugal. <strong>Ent\u00e3o, Portugal \u00e9 mais livre na quest\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o do corpo e o outro \u00e9 mais livre em termos de criatividade, de imagina\u00e7\u00e3o, de ideias. Eu sinto uma certa falta dos meus filhos estarem nessa cultura brasileira, que \u00e9 mais \u00e9 mais misturada e criativa. Aqui \u00e9 sempre uma educa\u00e7\u00e3o mais formal, menos solta.<\/strong> Mas, ao mesmo tempo, tem toda essa quest\u00e3o da seguran\u00e7a. E, claro que, de um tempo pra c\u00e1, acho que do Bolsonaro pra c\u00e1, foram vindo muito mais brasileiros. Ent\u00e3o, a escola dos meus filhos tem muitos brasileiros. Eu tenho muitos amigos brasileiros e, fora da escola, eles convivem meio a meio. Metade portugu\u00eas e metade brasileiro, eles tamb\u00e9m t\u00eam essa experi\u00eancia do Brasil aqui. E depois \u00e9 uma escolha das coisas que voc\u00ea faz, assim, n\u00e9? Eu escolhi uma escola que tem uma metodologia que n\u00e3o \u00e9 essa metodologia tradicional, careta, \u00e9 uma IPSS. E claro, eu vou pro Brasil todos os anos com as crian\u00e7as, eles t\u00eam essa experi\u00eancia tamb\u00e9m e fa\u00e7o quest\u00e3o que continuem com essa liga\u00e7\u00e3o com o Brasil.<\/p>\n<p><strong>Nos seus livros voc\u00ea escreve muito sobre os sentimentos de n\u00f3s mulheres. Sobre ser mulher, aqui e no Brasil, v\u00ea diferen\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p>Eu volto \u00e0 quest\u00e3o da liberdade de circula\u00e7\u00e3o. Mesmo na quest\u00e3o das roupas, me sinto mais livre aqui. Por exemplo, fazer topless na praia pra mim \u00e9 uma liberdade fundamental que no Brasil n\u00e3o d\u00e1. E poder usar roupa sem ficar achando, ai, v\u00e3o cair em cima de mim na rua. \u00c9 um pouco isso, essa liberdade. Mas eu tamb\u00e9m acho que tem uma quest\u00e3o, eu sou do Rio de Janeiro. E o Rio tem aquela exig\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao corpo tamb\u00e9m. <strong>Eu acho que envelhecer aqui \u00e9 melhor do que envelhecer no Brasil, pela cobran\u00e7a est\u00e9tica. Acho que a cobran\u00e7a est\u00e9tica no Brasil \u00e9 muito pior do que aqui. Eu gosto disso, de poder frequentar menos dermatologistas do que eu frequentaria aqui no Brasil (risos).<\/strong> Agora, a quest\u00e3o do machismo, n\u00e3o tem o que fazer, n\u00e3o temos como fugir disso, tem nos dois pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong>O livro <\/strong><strong>A Chave de Casa<\/strong><strong>, que acaba de ser relan\u00e7ado em Portugal pela Penguim, passa por Rio de Janeiro, Lisboa e Istambul. \u00c9 tamb\u00e9m um pouco sobre a vida de imigrante, como os seus pais tamb\u00e9m foram, apesar de exilados. Para voc\u00ea, o que \u00e9 ser imigrante?<\/strong><\/p>\n<p>Exilado \u00e9 diferente de imigrante, porque tem uma coisa, assim, de tempo hor\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 uma escolha. <strong>O exilado pol\u00edtico n\u00e3o escolhe, est\u00e1 sempre numa situa\u00e7\u00e3o meio de limbo, numa coisa circunstancial, esperando a hora de voltar<\/strong>. E eu n\u00e3o vim pra c\u00e1 esperando a hora de voltar. Eu vim pra c\u00e1 porque eu quis e pra ver no que ia dar. Mas definir o que \u00e9 ser imigrante \u00e9 muito dif\u00edcil. Acho que o imigrante n\u00e3o se sente em casa, que nunca se sente verdadeiramente em casa. Hoje em dia Portugal \u00e9 minha casa, mas sempre tem um estranhamento. Inclusive, hoje em dia, certamente eu sou mais portuguesa, culturalmente falando, do que eu era antes de morar aqui. Antes, eu costumava dizer que eu era brasileira e portuguesa. <strong>S\u00f3 que morando aqui, quando eu come\u00e7o a falar, a primeira coisa que eu t\u00f4 dizendo \u00e9 \u2018Ol\u00e1, eu sou brasileira\u2019 e depois, o que eu realmente quero dizer, porque o meu sotaque me denuncia. Ent\u00e3o, mesmo que quem esteja ouvindo n\u00e3o esteja pensando nisso, eu t\u00f4 sempre pensando que o outro t\u00e1 pensando \u2018Ah, olha, uma brasileira\u2019. E isso pra mim \u00e9 um desconforto, sabe?<\/strong> O fato de o tempo todo ser reconhecida por de onde eu vim. \u00c9 um desconforto no sentido de que faz com que eu n\u00e3o me sinta totalmente em casa, porque eu estou sendo sempre lembrada de onde eu vim, que eu n\u00e3o sou daqui. Ao mesmo tempo, eu me autorizo por estar aqui h\u00e1 muito tempo e por ser portuguesa de nacionalidade desde que nasci, a falar de Portugal com a autoridade de uma portuguesa e de brasileira, imigrante, porque eu me dou esse lugar. Mesmo que queiram tirar esse lugar de mim, eu me dou esse lugar. Eu gosto desse lugar. At\u00e9 porque tenho dois filhos que nasceram aqui. Trabalho aqui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Voc\u00ea nasceu aqui em Lisboa, mas cresceu no Brasil e agora mora aqui. 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