{"id":49725,"date":"2025-08-29T07:18:08","date_gmt":"2025-08-29T07:18:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/49725\/"},"modified":"2025-08-29T07:18:08","modified_gmt":"2025-08-29T07:18:08","slug":"sem-despedidas-novo-livro-da-escritora-han-kang-e-lancado-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/49725\/","title":{"rendered":"\u2018Sem despedidas\u2019, novo livro da escritora Han Kang, \u00e9 lan\u00e7ado no Brasil"},"content":{"rendered":"<p class=\"texto\">Em junho de 2014, Han Kang teve um sonho. Andava por uma plan\u00edcie cheia de neve, em meio a toras de \u00e1rvores sem folhas. Atr\u00e1s de cada uma, havia um t\u00famulo. Ent\u00e3o a \u00e1gua do mar come\u00e7ou a subir de repente, inundando seus p\u00e9s, amea\u00e7ando as tumbas, afogando os mortos. Ela acordou.<\/p>\n<p class=\"texto\">A escritora coreana, que 10 anos depois viria a ganhar o <strong><a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/internacional\/2024\/10\/6966782-han-kang-vencedora-do-nobel-espera-que-sua-vida-nao-mude-muito.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">pr\u00eamio Nobel de Literatura<\/a><\/strong>, sentiu que ali havia a semente de um livro. Anotou o sonho em duas p\u00e1ginas. Escreveu mais algumas, jogou fora. Come\u00e7ou de novo, chegou a 50 p\u00e1ginas, mas tudo foi para o lixo.<\/p>\n<p class=\"texto\">S\u00f3 anos depois, quando a autora viajou para a ilha de Jeju \u2013 palco de um massacre de trabalhadores que se levantavam contra o governo da Coreia do Sul no fim da d\u00e9cada de 1940, no qual ao menos 30 mil vidas foram ceifadas \u2013, Han entendeu o que viu enquanto dormia.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;O trauma coletivo daquela ilha foi infundido em mim&#8221;, conta a discreta autora de 54 anos. &#8220;De repente, percebi que meu sonho estava conectado com aquilo. Ent\u00e3o consegui escrever.&#8221;<\/p>\n<p class=\"texto\">A inspira\u00e7\u00e3o virou &#8220;Sem despedidas&#8221;, sua obra mais recente, que saiu em 2021 e chega agora com tradu\u00e7\u00e3o direta de Nat\u00e1lia T. M. Okabayashi por sua casa brasileira, a Todavia.<\/p>\n<p class=\"texto\">A protagonista do romance \u2013 Kyung-ha, que tem a mesma vis\u00e3o da autora durante o sono \u2013 recebe de uma amiga hospitalizada, Inseon, a incumb\u00eancia de cuidar de seu p\u00e1ssaro, que havia ficado sem ningu\u00e9m na casa vazia dela em Jeju.<\/p>\n<p><strong>Trama sobre viagem<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Ap\u00f3s uma viagem tortuosa, a mo\u00e7a chega a uma casa t\u00e3o impregnada de mist\u00e9rio quanto de mem\u00f3ria \u2013 a m\u00e3e de Inseon foi testemunha da matan\u00e7a de rebeldes promovida pelo governo de direita logo antes da Guerra da Coreia. A estimativa \u00e9 que cerca de um d\u00e9cimo da popula\u00e7\u00e3o da ilha tenha sido dizimada, incluindo familiares das mulheres fict\u00edcias do livro.<\/p>\n<p class=\"texto\">Numa hist\u00f3ria que borra cada vez mais fronteiras entre vida e morte, passado e presente, se desenrola a saga das personagens para descobrir o que houve com seus parentes. Ou melhor, com suas ossadas. &#8220;Confundo intencionalmente quem est\u00e1 morto e quem est\u00e1 vivo&#8221;, diz a escritora. &#8220;Isso n\u00e3o importa. O mais importante \u00e9 que est\u00e3o todas conectadas.&#8221;<\/p>\n<p class=\"texto\">O bastidor de como nasceu &#8220;Sem despedidas&#8221; ilustra bem o processo criativo da primeira autora coreana a ganhar o maior pr\u00eamio da literatura mundial. No discurso de aceite, em dezembro, Han afirmou que gosta de escrever romances porque ali pode &#8220;permanecer o tempo necess\u00e1rio para fazer perguntas importantes e urgentes&#8221;. Tudo bem se levar um, dois, sete anos.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;Toda vez que escrevo um romance, enfrento essas perguntas e vivo dentro delas. Quando chego ao fim das quest\u00f5es \u2013 n\u00e3o quando encontro suas respostas \u2013, concluo o livro.&#8221;<\/p>\n<p>Atitude de paci\u00eancia<\/p>\n<p class=\"texto\">\u00c9 uma atitude de paci\u00eancia e considera\u00e7\u00e3o t\u00edpica de Han Kang \u2013 quando o Nobel foi anunciado, em outubro, n\u00e3o quis dar a tradicional entrevista coletiva \u00e0 imprensa porque precisava de tempo para pensar o que o pr\u00eamio significava para ela. &#8220;Teria apenas alguns dias, e era r\u00e1pido demais para mim&#8221;, diz ela agora.<\/p>\n<p class=\"texto\">Quando fala sobre &#8220;Sem despedidas&#8221;, Han retorna com frequ\u00eancia a &#8220;Atos humanos&#8221;, livro publicado logo antes de ela ter aquele sonho de \u00e1rvores e t\u00famulos, demonstrando o processo org\u00e2nico que estrutura seu projeto liter\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"texto\">Naquele romance, ela escreveu sobre outro epis\u00f3dio brutal, em 1980, quando o ditador Chun Doo-hwan mandou o Ex\u00e9rcito reprimir manifestantes pr\u00f3-democracia na cidade de Gwangju, vitimando centenas de pessoas \u2013 principalmente jovens estudantes.<\/p>\n<p class=\"texto\">Han nasceu naquele lugar e, mesmo tendo se mudado ainda crian\u00e7a, afirma ter crescido com o imagin\u00e1rio do massacre. Estava &#8220;sempre \u00e0s franjas dos meus pesadelos&#8221;, diz. &#8220;Eu n\u00e3o achei que ia escrever um livro sobre Gwangju, porque sempre estive focada no interior das pessoas. Mas a vida \u00e9 assim.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Significado de \u201cA vegetariana\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">A autora era mais conhecida por &#8220;A vegetariana&#8221;, obra que venceu o <strong><a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/internacional\/2016\/05\/16\/interna_internacional,763277\/sul-coreana-leva-man-booker-prize-de-melhor-romance-traduzido-ao-ingle.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">pr\u00eamio Booker Internacional<\/a><\/strong> contando a espiral insana que toma a vida de uma mulher quando ela decide parar de comer carne. Mas a defini\u00e7\u00e3o de Han para o livro \u00e9 melhor. &#8220;\u00c9 sobre uma mulher que recusa a viol\u00eancia de uma maneira perfeccionista. At\u00e9 chegar a um estado que \u00e9 irreconcili\u00e1vel com o mundo.&#8221;<\/p>\n<p class=\"texto\">A dificuldade de comer aparece nos outros romances, sempre como um desconforto existencial que se manifesta em engulhos f\u00edsicos. &#8220;Minhas personagens n\u00e3o conciliam nem concedem f\u00e1cil ao mundo. \u00c9 seu jeito de lutar&#8221;, diz.<\/p>\n<p class=\"texto\">Han acabou celebrada como uma escritora de pendor pol\u00edtico. Durante o governo da conservadora Park Geun-hye, de 2013 a 2017, sua obra foi inclu\u00edda numa lista de autores vetados, que n\u00e3o podiam receber recursos p\u00fablicos. &#8220;Quando terminei o livro, podia esperar rea\u00e7\u00e3o das pessoas \u00e0 direita. Elas n\u00e3o falavam a verdade sobre o massacre. Com certeza n\u00e3o iam gostar. E conforme a recep\u00e7\u00e3o do livro aumentou, a direita come\u00e7ou a me atacar mais.&#8221;<\/p>\n<p class=\"texto\">Mas h\u00e1 o outro lado. Nos protestos no come\u00e7o deste ano contra a lei marcial que o ent\u00e3o presidente Yoon Suk Yeol tentou impor ao pa\u00eds \u2013 ele depois sofreu impeachment, em abril \u2013, Han conta que viu pessoas levando seus livros \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es. &#8220;Eram pessoas que levantavam sua voz contra a viol\u00eancia, contra voltar ao passado. Uma mulher envolveu \u2018Atos humanos\u2019 em luzinhas brilhantes de Natal. Fiquei comovida.&#8221;<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>\u201cSEM DESPEDIDAS\u201d<\/strong><br \/>\u2022\u00a0De Han Kang<br \/>\u2022\u00a0Tradu\u00e7\u00e3o Nat\u00e1lia T. M. Okabayashi<br \/>\u2022\u00a0Editora Todavia<br \/>\u2022\u00a0272 p\u00e1gs.<br \/>\u2022\u00a0Pre\u00e7o R$ 84,90 ; R$ 59,90 (ebook)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em junho de 2014, Han Kang teve um sonho. 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