{"id":498368,"date":"2026-08-24T07:52:19","date_gmt":"2026-08-24T07:52:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/498368\/"},"modified":"2026-08-24T07:52:19","modified_gmt":"2026-08-24T07:52:19","slug":"uma-bacteria-consegue-fabricar-dna-sem-usar-dna-como-molde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/498368\/","title":{"rendered":"Uma bact\u00e9ria consegue fabricar DNA sem usar DNA como molde"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-caption-text top\">David S. Goodsell \/ The Scripps Research Institute<\/p>\n<p><img loading=\"eager\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-kopa-image-size-3 wp-image-761177\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/e4da3b7fbbce2345d7772b0674a318d5-13-783x450.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"402\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">\u201cAglomera\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas\u201d (a azul). Ilustra\u00e7\u00e3o do interior denso e do inv\u00f3lucro celular da Escherichia coli.<\/p>\n<p><strong>Uma bact\u00e9ria usa duas transcriptases reversas para produzir as duas cadeias de ADN por caminhos diferentes, uma a partir de ARN e outra a partir de uma prote\u00edna. \u00c9 um pouco como usar um bolo como molde para escrever uma receita, em vez de usar uma receita para fazer um bolo.<\/strong><\/p>\n<p>As c\u00e9lulas usam normalmente as cadeias do seu ADN como molde para copiar o pr\u00f3prio ADN e para produzir ARN. O ARN mensageiro fornece, por sua vez, as instru\u00e7\u00f5es para produzir prote\u00ednas.<\/p>\n<p>Mas uma bact\u00e9ria revelou agora um caminho diferente, que envolve duas enzimas. E \u00e9 profundamente surpreendente.<\/p>\n<p>A descoberta foi apresentada num <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S009286742600810X\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">artigo<\/a> recentemente publicado na revista Cell.<\/p>\n<p>Numa das metades deste sistema, uma enzima funciona como molde molecular para construir uma sequ\u00eancia espec\u00edfica e repetitiva de ADN. Na pr\u00e1tica, permite que informa\u00e7\u00e3o escrita em amino\u00e1cidos determine informa\u00e7\u00e3o escrita em ADN.<\/p>\n<p>E isso acontece ao contr\u00e1rio do habitual, um pouco como usar um <strong>bolo como molde para escrever uma receita<\/strong>, em vez de usar uma receita para fazer um bolo.<\/p>\n<p>\u201cEm vez de copiar uma cadeia de ADN para produzir a outra, como acontece na replica\u00e7\u00e3o normal do ADN, o sistema usa duas <strong>transcriptases reversas<\/strong> diferentes para gerar de forma independente as duas cadeias complementares\u201d, explicou ao <a href=\"https:\/\/www.sciencealert.com\/scientists-discover-a-bizarre-new-way-life-can-make-dna-without-dna\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">Science Alert<\/a> o bioqu\u00edmico <strong>Samuel Sternberg<\/strong>, investigador da Columbia University e corresponding author do estudo.<\/p>\n<p>\u201cUma enzima copia um molde de ARN, enquanto a outra usa amino\u00e1cidos da pr\u00f3pria prote\u00edna para determinar que componentes do ADN s\u00e3o acrescentados. As duas cadeias de ADN resultantes encontram-se depois e emparelham-se, produzindo ADN de cadeia dupla, que acaba por ajudar a bact\u00e9ria a defender-se dos v\u00edrus\u201d.<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text top\"><a href=\"https:\/\/www.genome.gov\/genetics-glossary\/Double-Helix\" rel=\"nofollow noopener\" data-wpel-link=\"external\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">National Human Genome Research Institute<\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-761172 \" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/c4ca4238a0b923820dcc509a6f75849b-36-642x762.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"593\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">A estrutura do ADN, mostrando como as suas duas cadeias est\u00e3o unidas por pares de bases complementares: A com T e C com G<\/p>\n<p>O ADN \u00e9, basicamente, o sistema de armazenamento de informa\u00e7\u00e3o da vida. A sua famosa estrutura de dupla h\u00e9lice \u00e9 constitu\u00edda por duas cadeias formadas a partir de quatro bases qu\u00edmicas: adenina (A), citosina (C), guanina (G) e timina (T). Estes quatro componentes formam o material gen\u00e9tico de todos os seres vivos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podem ser simplesmente misturados ao acaso. Emparelham de acordo com regras espec\u00edficas: A com T e C com G. Isto significa que a sequ\u00eancia de qualquer uma das cadeias cont\u00e9m a informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para construir a outra.<\/p>\n<p>Quando uma c\u00e9lula replica ADN, separa as duas cadeias como se abrisse um <strong>fecho-\u00e9clair.<\/strong> Cada cadeia isolada passa ent\u00e3o a servir de molde para construir a nova cadeia que se enrola \u00e0 sua volta. Uma cadeia com a sequ\u00eancia A-G-C-T, por exemplo, ter\u00e1 necessariamente como correspondente T-C-G-A.<\/p>\n<p>Em alguns casos, enzimas chamadas transcriptases reversas conseguem produzir ADN usando ARN como molde. \u00c9 um truque usado, por exemplo, pelos <strong>retrov\u00edrus<\/strong>. Mas, de uma forma ou de outra, h\u00e1 sempre um <strong>\u00e1cido nucleico<\/strong> envolvido no processo.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que as bact\u00e9rias agora descobertas come\u00e7am a ficar um pouco estranhas, descobriram Sternberg e os colegas.<\/p>\n<p>Sabe-se que estes organismos usam um sistema chamado \u201ctranscriptases reversas associadas \u00e0 defesa\u201d (<strong>DRT<\/strong>) como parte da sua resposta imunit\u00e1ria contra v\u00edrus. Mas n\u00e3o se sabia ao certo como funcionava.<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text top\">NIAID<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-kopa-image-size-3 wp-image-180228\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/321dfeaef80b47ad3fc75cf40b32ec8c-783x450.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"402\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">Bact\u00e9rias E.coli vistas ao microsc\u00f3pio electr\u00f3nico<\/p>\n<p>Sternberg e os colegas estudaram um desses sistemas, chamado <strong>DRT3<\/strong>, em Escherichia coli, recorrendo a v\u00e1rias experi\u00eancias para perceber o que faziam as suas duas transcriptases reversas.<\/p>\n<p>Quando examinaram a estrutura de uma dessas enzimas, a <strong>DRT3b<\/strong>, atrav\u00e9s de microscopia crioeletr\u00f3nica, encontraram algo que n\u00e3o esperavam.<\/p>\n<p>\u201cSab\u00edamos, pelas nossas experi\u00eancias, que a DRT3b conseguia produzir esta sequ\u00eancia repetitiva de ADN muito espec\u00edfica sem o ARN de que a outra transcriptase reversa necessita. Mas n\u00e3o sab\u00edamos como \u00e9 que o fazia\u201d, disse Sternberg.<\/p>\n<p>\u201cO verdadeiro momento \u2018eureka\u2019 surgiu com as experi\u00eancias bioqu\u00edmicas e com a estrutura obtida por <strong>crio-EM<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Hiroshi Nishimasu<\/strong>, tamb\u00e9m corresponding author do estudo, e a sua equipa conseguiram ver o produto de ADN dentro da enzima, e a estrutura colocou estes dois amino\u00e1cidos exatamente nas posi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para explicar a sequ\u00eancia alternada\u201d.<\/p>\n<p>\u201cIsso sugeriu imediatamente uma possibilidade bastante extraordin\u00e1ria: a pr\u00f3pria <strong>prote\u00edna estava a determinar a sequ\u00eancia<\/strong>\u201c, diz o investigador da Universidade de T\u00f3quio.<\/p>\n<p>S\u00f3 a estrutura, por\u00e9m, n\u00e3o bastava para o provar. Os investigadores alteraram ent\u00e3o os dois amino\u00e1cidos que suspeitavam serem respons\u00e1veis por determinar a sequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando o fizeram, tanto a s\u00edntese de ADN como a defesa antiviral da bact\u00e9ria deixaram de funcionar. Ficou assim confirmado que os amino\u00e1cidos eram essenciais para o processo.<\/p>\n<p>Mais surpreendente ainda, a DRT3b fazia tudo isto sem qualquer molde de \u00e1cido nucleico. Em vez disso, os dois amino\u00e1cidos posicionados junto do centro ativo da enzima funcionavam, na pr\u00e1tica, como o <strong>pr\u00f3prio molde<\/strong>: um favorecia a incorpora\u00e7\u00e3o de A e o outro de C.<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text top\">Wang et al. \/ Cell<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-761173 \" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/c81e728d9d4c2f636f067f89cc14862c-36-642x567.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"442\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">A sequ\u00eancia repetitiva de ADN produzida pela DRT3b, revelada por microscopia crioelectr\u00f3nica. A enzima utiliza amino\u00e1cidos da pr\u00f3pria prote\u00edna para determinar a sequ\u00eancia alternada C-A-C-A<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 uma cadeia de ADN extraordinariamente simples, constitu\u00edda pela <strong>sequ\u00eancia repetitiva C-A-C-A-C-A<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cPortanto, num sentido muito literal, a informa\u00e7\u00e3o presente na sequ\u00eancia de amino\u00e1cidos da prote\u00edna est\u00e1 a ser traduzida numa sequ\u00eancia de ADN\u201d, explicou Sternberg. \u201c\u00c9 um fluxo de informa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica muito diferente daquele em que normalmente pensamos\u201d.<\/p>\n<p>Mas isso <strong>\u00e9 apenas metade<\/strong> do que o DRT3 faz.<\/p>\n<p>A cadeia de ADN produzida pela DRT3b a partir de um molde proteico \u00e9 apenas uma das duas cadeias criadas pelo sistema. Uma segunda transcriptase reversa, a DRT3a, constr\u00f3i de forma independente outra cadeia repetitiva de ADN. Desta vez, por\u00e9m, f\u00e1-lo de maneira mais convencional, usando ARN como molde.<\/p>\n<p>As duas cadeias s\u00e3o complementares. Depois de produzidas, encontram-se espontaneamente e emparelham-se, formando a conhecida dupla h\u00e9lice do ADN de cadeia dupla.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m isto acontece <strong>ao contr\u00e1rio do processo habitual<\/strong>. Normalmente, as duas cadeias de ADN n\u00e3o s\u00e3o produzidas de forma independente: uma cadeia existente serve de molde para a nova cadeia complementar.<\/p>\n<p>Aqui, nenhuma das novas cadeias fornece as instru\u00e7\u00f5es para produzir a outra. Uma recebe a informa\u00e7\u00e3o da sua sequ\u00eancia a partir de ARN, a outra de uma prote\u00edna. S\u00f3 depois se juntam.<\/p>\n<p>\u201cOutro aspeto do estudo que considero especialmente fascinante \u00e9 o facto de desafiar a forma habitual como imaginamos a produ\u00e7\u00e3o de ADN de cadeia dupla\u201d, disse Sternberg.<\/p>\n<p>\u201cNormalmente, pensamos numa cadeia como aquela que transporta a informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para produzir a outra. Aqui, as duas cadeias s\u00e3o sintetizadas de forma independente, recorrendo a dois tipos de molde completamente diferentes, ARN para uma e prote\u00edna para a outra, e s\u00f3 depois se juntam para formar uma dupla h\u00e9lice\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPara mim, \u00e9 um exemplo bastante extraordin\u00e1rio da forma inventiva como a evolu\u00e7\u00e3o consegue trabalhar com componentes moleculares muito familiares\u201d.<\/p>\n<p class=\"wp-caption-text top\">Wang et al. \/ Cell<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-761174 \" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/eccbc87e4b5ce2fe28308fd9f2a7baf3-18-642x642.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"500\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">O sistema de defesa DRT3 em a\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Mas o DRT3 n\u00e3o executa este elaborado truque molecular apenas para se exibir. \u00c9 um <strong>sistema de defesa<\/strong>, e o estranho ADN parece funcionar como uma esp\u00e9cie de armadilha para v\u00edrus invasores.<\/p>\n<p>Em condi\u00e7\u00f5es normais, uma enzima chamada <strong>RecBCD<\/strong> destr\u00f3i continuamente o ADN produzido pelo DRT3, impedindo que se acumule. A pr\u00f3pria RecBCD faz parte das defesas da bact\u00e9ria e ajuda a destruir ADN viral invasor. Alguns v\u00edrus, como parte do seu arsenal de ataque, produzem prote\u00ednas que desativam a RecBCD.<\/p>\n<p>\u201cO v\u00edrus tenta desativar a RecBCD porque a RecBCD \u00e9, por si s\u00f3, uma importante defesa antiviral\u201d, explicou Sternberg. \u201cMas, ao desativ\u00e1-la, o v\u00edrus retira inadvertidamente o trav\u00e3o ao DRT3\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o ADN produzido pelo DRT3 se acumula, a bact\u00e9ria deixa de crescer. Isso impede, por sua vez, que o v\u00edrus se replique de forma eficiente. A c\u00e9lula bacteriana \u00e9 sacrificada para impedir que o v\u00edrus se espalhe pela popula\u00e7\u00e3o circundante.<\/p>\n<p>\u201cSuspeito que isto seja apenas a ponta do icebergue\u201d, disse Sternberg.<\/p>\n<p>\u201cDuvido que a DRT3b seja a \u00fanica enzima capaz deste tipo de s\u00edntese de ADN pouco convencional. Ainda n\u00e3o sabemos se existem muitas outras prote\u00ednas que usam exatamente este mecanismo baseado num molde de amino\u00e1cidos, mas ficaria surpreendido se a natureza o tivesse inventado apenas uma vez\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"David S. Goodsell \/ The Scripps Research Institute \u201cAglomera\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas\u201d (a azul). 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