{"id":498502,"date":"2026-08-24T10:31:11","date_gmt":"2026-08-24T10:31:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/498502\/"},"modified":"2026-08-24T10:31:11","modified_gmt":"2026-08-24T10:31:11","slug":"as-erupcoes-que-escureceram-o-sol-e-devastaram-a-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/498502\/","title":{"rendered":"As erup\u00e7\u00f5es que escureceram o Sol e devastaram a Europa"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-caption-text top\">The Metropolitan Museum of Art \/ Robert Lehman Collection<\/p>\n<p><img loading=\"eager\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-kopa-image-size-3 wp-image-761236\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/c4ca4238a0b923820dcc509a6f75849b-37-783x450.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"402\"  \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text bot\">\u201cSouvenir de N\u00e1poles\u201c, aguarela de artista desconhecido, c.1821<\/p>\n<p class=\"PDq2pG_selectionAnchorContainer\"><strong>Vulc\u00f5es situados at\u00e9 no outro lado do mundo tiveram o poder de mergulhar a Europa medieval na escurid\u00e3o, destruindo colheitas e vidas. \u00c9 uma realidade que hoje n\u00e3o deve ser ignorada.<\/strong><\/p>\n<p>Quando as pessoas pensam em erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas, imaginam fluxos mort\u00edferos de lava e quedas de cinzas sufocantes.<\/p>\n<p>O destino dos habitantes de <a href=\"https:\/\/zap.aeiou.pt\/tag\/Pompeia\" data-wpel-link=\"internal\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Pompeia<\/a> ap\u00f3s a erup\u00e7\u00e3o do Ves\u00favio, no ano 79 d.C., continua a impressionar ainda hoje.<\/p>\n<p>Mas as erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas t\u00eam consequ\u00eancias muito mais vastas do que muitas vezes se pensa, como mostram v\u00e1rios relatos hist\u00f3ricos, escreve o professor de Hist\u00f3ria <strong>Alex Brown<\/strong>, da Durham University, num artigo no <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/the-sun-was-dark-and-its-darkness-lasted-for-18-months-what-we-can-learn-from-worst-volcanic-eruptions-in-history-289250\" data-wpel-link=\"external\" rel=\"noopener nofollow\" class=\"ext-link\" target=\"_blank\">The Conversation<\/a>.<\/p>\n<p>As grandes erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas libertam gases e part\u00edculas de cinza para a atmosfera. Embora a pr\u00f3pria cinza assente ao fim de algumas semanas, os aeross\u00f3is espalham-se pelo planeta e podem permanecer suspensos na atmosfera durante anos.<\/p>\n<p>Os testemunhos de gelo, longas amostras cil\u00edndricas retiradas de glaciares, revelam estas camadas de sedimentos do passado ao longo de centenas de milhares de anos.<\/p>\n<p>O estudo dos registos hist\u00f3ricos mostra que as erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas podem provocar altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e uma r\u00e1pida propaga\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as como a peste. Podem tamb\u00e9m afetar sistemas meteorol\u00f3gicos muito para al\u00e9m das proximidades do pr\u00f3prio vulc\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO pior ano para estar vivo\u201d<\/p>\n<p>Uma enorme erup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica em 536 levou historiadores a descrever esse ano como \u201co pior ano para estar vivo\u201d.<\/p>\n<p>A localiza\u00e7\u00e3o exata da erup\u00e7\u00e3o \u00e9 desconhecida, embora possa ter ocorrido na Isl\u00e2ndia. A Europa, o M\u00e9dio Oriente e partes da \u00c1sia mergulharam na escurid\u00e3o durante 18 meses. As temperaturas no ver\u00e3o ca\u00edram entre 1,5 \u00b0C e 2,5 \u00b0C, dando in\u00edcio a uma das d\u00e9cadas mais frias dos \u00faltimos dois mil\u00e9nios.<\/p>\n<p><strong>Proc\u00f3pio<\/strong>, historiador bizantino que viveu em Roma, escreveu que \u201co Sol emitia a sua luz sem brilho, como a Lua, durante todo este ano, e parecia extraordinariamente semelhante ao Sol durante um eclipse\u201d.<\/p>\n<p>Em Constantinopla, <strong>Jo\u00e3o Lido<\/strong>, administrador e escritor bizantino, relatou que \u201co Sol se tornou t\u00e9nue durante quase um ano inteiro\u201d.<\/p>\n<p>Outro escritor da \u00e9poca, que se pensa ter sido J<strong>o\u00e3o de \u00c9feso<\/strong>, observou que \u201co Sol estava escuro e a sua escurid\u00e3o durou dezoito meses; todos os dias brilhava durante cerca de quatro horas, e mesmo essa luz era apenas uma sombra d\u00e9bil\u201d.<\/p>\n<p>Seguiram-se <strong>quebras nas colheitas<\/strong>. Os Anais de Ulster e de Inisfallen, duas cr\u00f3nicas da \u00e9poca, registaram uma \u201cfalta de p\u00e3o\u201d na Irlanda em 536.<\/p>\n<p>\u00c0 erup\u00e7\u00e3o de 536 seguiram-se outras duas, em 540 e 547. Estas foram, por sua vez, seguidas por um per\u00edodo prolongado de arrefecimento conhecido como Pequena Idade do Gelo da Antiguidade Tardia.<\/p>\n<p>Os investigadores sugeriram que este per\u00edodo frio contribuiu para o aparecimento da peste de Justiniano, entre 541 e 549, um dos piores surtos de peste bub\u00f3nica da Hist\u00f3ria. Em parte, isso ter\u00e1 sido provocado por migra\u00e7\u00f5es, falta de alimentos e importa\u00e7\u00f5es de cereais que transportavam ratos e pulgas infetados.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o houve ver\u00e3o durante o ver\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>A erup\u00e7\u00e3o do Samalas, na Indon\u00e9sia, em 1257, foi uma das mais importantes dos \u00faltimos dois mil\u00e9nios. Produziu nos testemunhos de gelo dep\u00f3sitos de enxofre com o dobro do volume dos deixados pela erup\u00e7\u00e3o do Tambora, em 1815, famosa por ter provocado o\u00a0 <a href=\"https:\/\/zap.aeiou.pt\/1815-nao-houve-verao-culpa-um-vulcao-na-indonesia-280746\" data-wpel-link=\"internal\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">\u201cano sem ver\u00e3o\u201d de 1816<\/a>.<\/p>\n<p>O norte da Europa j\u00e1 atravessava dificuldades devido \u00e0s chuvas intensas e ao mau tempo. A erup\u00e7\u00e3o agravou ainda mais a situa\u00e7\u00e3o, provocando quebras generalizadas nas colheitas e fome em 1258.<\/p>\n<p><strong>Jean d\u2019Essey<\/strong>, bispo de Coutances, na Normandia, relatou que \u201cn\u00e3o houve ver\u00e3o durante o ver\u00e3o. O tempo estava muito chuvoso e frio na altura das colheitas, nem a colheita dos campos nem a das uvas foi boa\u201d.<\/p>\n<p>O monge e cronista <strong>Richer de Senones<\/strong>, em Fran\u00e7a, escreveu na \u00e9poca que o calor do Sol quase n\u00e3o conseguia chegar \u00e0 Terra. Observou que \u201cuma camada de nuvens t\u00e3o espessa cobriu o c\u00e9u durante todo aquele ver\u00e3o que quase ningu\u00e9m conseguia perceber se era ver\u00e3o ou outono\u201d.<\/p>\n<p>Os efeitos est\u00e3o particularmente bem documentados em Inglaterra.<\/p>\n<p>Ao resumir o ano de 1257, o monge beneditino ingl\u00eas <strong>Matthew Paris<\/strong> descreveu-o como um \u201cano est\u00e9ril e miser\u00e1vel\u201d. Acrescentou que \u201cuma grande multid\u00e3o de pessoas morreu de fome\u201d. Paris acreditava que a situa\u00e7\u00e3o tinha provocado \u201cdoen\u00e7as cr\u00f3nicas\u201d, que mal deixavam \u201crespirar quem j\u00e1 estava doente\u201d.<\/p>\n<p>Escreveu ainda que Inglaterra sofreu um frio particularmente intenso em abril, maio e junho, que impediu o crescimento das culturas: \u201cdevido \u00e0 escassez de trigo, morreu um enorme n\u00famero de pobres; e encontravam-se cad\u00e1veres por toda a parte, inchados e l\u00edvidos em pocilgas, em montes de estrume e nas ruas enlameadas.\u201d<\/p>\n<p>O elevado n\u00famero de mortes na Inglaterra medieval ultrapassou a capacidade dos coroners, os funcion\u00e1rios encarregados de investigar mortes.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, deveriam realizar uma investiga\u00e7\u00e3o para determinar a causa da morte de cada pessoa. Mas havia tantos pobres \u201ca morrer de fome\u201d que os funcion\u00e1rios n\u00e3o conseguiam acudir a todos.<\/p>\n<p>Em abril, o rei Henrique III ordenou que essas investiga\u00e7\u00f5es fossem suspensas nos casos em que n\u00e3o houvesse suspeitas de crime.<\/p>\n<p>Os <strong>Anais de Burton<\/strong>, tamb\u00e9m da \u00e9poca, registaram um grande n\u00famero de vagabundos que morreram \u201cde fome e inani\u00e7\u00e3o\u201d devido \u00e0 \u201cescassez daqueles tempos\u201d. Muitos deslocavam-se para vilas e cidades na esperan\u00e7a de receber esmolas. Londres atraiu muitos desses pobres desesperados, agravando a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\">As Chronicles of the Mayors and Sheriffs of London registaram que \u201cnesse ano, houve uma quebra nas colheitas, de que resultou uma fome t\u00e3o grave que as pessoas das aldeias acorreram \u00e0 cidade em busca de comida; e ali, \u00e0 medida que a fome se agravava, morreram muitos milhares de pessoas; muitos milhares mais teriam morrido de fome se n\u00e3o tivesse chegado naquele momento cereal da Alemanha.\u201d<\/p>\n<p>Os <strong>Anais de Tewkesbury<\/strong>, uma cr\u00f3nica da \u00e9poca escrita pelos monges da Abadia de Tewkesbury, estimaram em 20.000 o n\u00famero de mortos pela fome.<\/p>\n<p>Morte e valas comuns<\/p>\n<p>A mortalidade atingiu tal escala que Paris relatou que, \u201cquando eram encontrados v\u00e1rios cad\u00e1veres, abriam-se nos cemit\u00e9rios grandes e espa\u00e7osas covas e nelas eram colocados muitos corpos em conjunto\u201d.<\/p>\n<p>Essas \u201cgrandes e espa\u00e7osas covas\u201d foram entretanto encontradas no hospital de St Mary Spital, em Londres. O s\u00edtio arqueol\u00f3gico de Spitalfields cont\u00e9m cerca de 2.300 esqueletos da d\u00e9cada de 1250, associados tanto \u00e0 seca de 1252 como \u00e0 fome de 1257-58.<\/p>\n<p>As erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas t\u00eam consequ\u00eancias globais e afetam vidas muito para al\u00e9m das suas proximidades.<\/p>\n<p>Vulc\u00f5es situados at\u00e9 no outro lado do mundo tiveram o poder de mergulhar a Europa medieval na escurid\u00e3o, destruindo colheitas e vidas. \u00c9 uma realidade que hoje n\u00e3o deve ser ignorada, conclui Alex Brown.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"The Metropolitan Museum of Art \/ Robert Lehman Collection \u201cSouvenir de N\u00e1poles\u201c, aguarela de artista desconhecido, c.1821 Vulc\u00f5es&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":498503,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[7833,116,79887,32,33,117,11166],"class_list":["post-498502","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-geologia","tag-health","tag-histotia","tag-portugal","tag-pt","tag-saude","tag-vulcoes"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117150029867753762","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/498502","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=498502"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/498502\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/498503"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=498502"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=498502"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=498502"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}