{"id":498962,"date":"2026-08-24T17:50:21","date_gmt":"2026-08-24T17:50:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/498962\/"},"modified":"2026-08-24T17:50:21","modified_gmt":"2026-08-24T17:50:21","slug":"aos-99-anos-gabriele-volta-ao-local-de-onde-fugiu-dos-nazis-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/498962\/","title":{"rendered":"Aos 99 anos, Gabriele volta ao local de onde fugiu dos nazis \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Gabriele Keenaghan tinha 12 anos quando deixou Viena, em abril de 1939, num dos comboios da Kindertransport, a opera\u00e7\u00e3o que permitiu retirar milhares de crian\u00e7as judias da Europa ocupada pelos nazis e lev\u00e1-las para o Reino Unido. Esta semana, <strong>aos 99 anos<\/strong>, <strong>regressa \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de Westbahnhof<\/strong>, de onde partiu h\u00e1 87 anos, para celebrar o centen\u00e1rio com v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ao jornal brit\u00e2nico <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2026\/aug\/24\/ill-probably-feel-emotional-kindertransport-centenarian-prepares-to-revisit-site-of-family-separation\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">The Guardian<\/a>, Gabriele recordou o momento em que se despediu da av\u00f3, nos long\u00ednquos anos 30. <strong>As l\u00e1grimas eram proibidas<\/strong> e as fam\u00edlias tinham sido avisadas de que n\u00e3o deveria haver manifesta\u00e7\u00f5es de emo\u00e7\u00e3o. \u201cEu estava apreensiva e preocupada porque havia nazis com uniformes pretos na plataforma\u201d, recordou a agora\u00a0professora reformada, acrescentando: \u201cEu tinha apenas 12 anos, por isso acho que eram assustadores e aterrorizantes. <strong>Tentei n\u00e3o chorar. Foi muito dif\u00edcil<\/strong>. A minha av\u00f3 sorriu\u201d.<\/p>\n<p>A viagem come\u00e7ou de comboio para os Pa\u00edses Baixos e prosseguiu de barco at\u00e9 Harwich, em Inglaterra. A austr\u00edaca viajou com cerca de 150 outras crian\u00e7as. \u201cProvavelmente estava assustada, mas tamb\u00e9m devia estar entusiasmada\u201d, disse. Mas a hist\u00f3ria que a levou at\u00e9 \u00e0quele comboio come\u00e7ou com uma descoberta que s\u00f3 fez depois da chegada dos nazis \u00e0 \u00c1ustria: <strong>era judia<\/strong>. Filha \u00fanica, cresceu com uma m\u00e3e cat\u00f3lica, Hildegard, que morreu em 1935, e um pai judeu, Josef, fabricante de fog\u00f5es de aquecimento.<\/p>\n<p>Gabriele estudava num col\u00e9gio cat\u00f3lico dirigido por freiras quando as autoridades nazis apareceram para anunciar a transfer\u00eancia dos alunos para outras escolas. Os nomes foram sendo chamados, um a um. No final, Gabriele era a \u00fanica crian\u00e7a que continuava de p\u00e9. \u201cE pensei: \u2018<strong>O que est\u00e1 a acontecer comigo?<\/strong>\u2018\u201d<\/p>\n<p>A resposta foi que teria de frequentar uma escola judaica. Pouco depois, <strong>uma estrela de David amarela foi cosida no seu casaco<\/strong>. \u201cEu n\u00e3o tinha percebido que o meu pai era judeu. N\u00e3o sabia. Acho que nem sequer sabia o que significava ser judia\u201d, referiu ao Guardian. A partir da\u00ed, passou a ser alvo de insultos: \u201cChamavam-me \u2018<strong>pequena judia suja\u2019<\/strong> e eu era uma menina sens\u00edvel. <strong>Foi perturbador<\/strong>\u201c.<\/p>\n<p>O pai acabou por ser deportado para \u0141\u00f3d\u017a, na Pol\u00f3nia. Gabriele nunca mais o viu e <strong>acredita que tenha sido assassinado num campo de exterm\u00ednio nazi<\/strong>. Foi a av\u00f3, tamb\u00e9m chamada Gabriele, que conseguiu retirar a neta da \u00c1ustria atrav\u00e9s do Kindertransport.<\/p>\n<p>No Reino Unido, a antiga professora come\u00e7ou uma nova vida. Aprendeu rapidamente ingl\u00eas, estudou e come\u00e7ou a trabalhar como ama de uma fam\u00edlia abastada em Woldingham, no sudeste da Inglaterra.<\/p>\n<p>Um dos momentos que guarda dessa \u00e9poca aconteceu em maio de 1945, quando os brit\u00e2nicos celebraram o <strong>fim da Segunda Guerra Mundial na Europa<\/strong>. As amas da aldeia tiveram o dia livre e viajaram para Londres. \u201cFoi realmente euf\u00f3rico. Nunca tinha experimentado tamanha excita\u00e7\u00e3o e alegria. <strong>As pessoas dan\u00e7avam na rua<\/strong>. Subiam \u00e0s \u00e1rvores\u201d, relatou ao Guardian.<\/p>\n<p>Apesar de a guerra ter acabado, a jovem refugiada acabou por construir o resto da sua vida no Reino Unido. Formou-se como professora no nordeste de Inglaterra, casou com Ken, teve duas filhas, Pat e Christine, e tornou-se diretora de uma escola em Wallsend. D\u00e9cadas mais tarde, o trabalho de educa\u00e7\u00e3o sobre o Holocausto valeu-lhe a atribui\u00e7\u00e3o da <strong>British Empire Medal<\/strong>. Gabriele passou a contar a sua hist\u00f3ria \u00e0s crian\u00e7as, explicando-lhes o impacto da persegui\u00e7\u00e3o nazi e a import\u00e2ncia da toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mas, apesar de ter contado a hist\u00f3ria muitas vezes, a sobrevivente do Holocausto continua a questionar se o mundo aprendeu as li\u00e7\u00f5es do passado. \u201cEspero que tenham aprendido alguma coisa com isso\u201d, disse, questionando: \u201c<strong>Mas ser\u00e1 que alguma vez aprendemos?<\/strong> Olhem para o mundo, vejam o estado em que est\u00e1 agora\u201d.<\/p>\n<p>A quase centen\u00e1ria confessou ao The Guardian que costumava viajar para a \u00c1ustria uma vez por ano para visitar a fam\u00edlia, especialmente a sua av\u00f3, que morreu em 1974. O<strong> \u00fanico lugar onde nunca mais voltou foi \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de comboios<\/strong> de onde partiu quando tinha 12 anos.<\/p>\n<p>Agora, a visita \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de comboios acontece antes do anivers\u00e1rio oficial, em novembro. Como nessa altura estar\u00e1 demasiado frio para a viagem, Keenaghan decidiu celebrar duas vezes. \u201cVou ser como a rainha Isabel. Vou ter dois anivers\u00e1rios\u201d, disse com humor.<\/p>\n<p>Com ela, viajar\u00e3o as duas filhas e outros familiares. Para Christine, a visita ter\u00e1 tamb\u00e9m um significado especial: guarda mem\u00f3rias muito vagas da bisav\u00f3, que n\u00e3o falava ingl\u00eas. \u201cA hist\u00f3ria conta que eu costumava chamar-lhe \u2018Noddy Grandmother\u2019, porque n\u00e3o percebia que ela n\u00e3o conseguia falar ingl\u00eas. Eu falava com ela o tempo todo e ela acenava muito com a cabe\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Agora, prestes a fazer 100 anos, Gabriele prepara-se para voltar ao lugar onde viu a av\u00f3 pela \u00faltima vez antes de fugir da persegui\u00e7\u00e3o nazi. <strong>N\u00e3o sabe exatamente o que sentir\u00e1 quando chegar \u00e0 esta\u00e7\u00e3o<\/strong>. \u201cProvavelmente vou ficar emocionada\u201d, concluiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Gabriele Keenaghan tinha 12 anos quando deixou Viena, em abril de 1939, num dos comboios da Kindertransport, a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":498963,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[27,28,315,15,16,14,8305,8735,13889,25,26,21,22,62,13890,12,13,19,20,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":["post-498962","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-cultura","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-headlines","tag-histu00f3ria","tag-holocausto","tag-ii-guerra-mundial","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mundo","tag-nazismo","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117151755619484612","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/498962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=498962"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/498962\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/498963"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=498962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=498962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=498962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}