{"id":500551,"date":"2026-08-25T22:05:43","date_gmt":"2026-08-25T22:05:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/500551\/"},"modified":"2026-08-25T22:05:43","modified_gmt":"2026-08-25T22:05:43","slug":"caso-lito-sousa-revela-limite-da-ciencia-diante-urgencia-25-08-2026-equilibrio-e-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/500551\/","title":{"rendered":"Caso Lito Sousa revela limite da ci\u00eancia diante urg\u00eancia &#8211; 25\/08\/2026 &#8211; Equil\u00edbrio e Sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p>O <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2026\/08\/lito-faz-apelo-em-video-na-redes-sociais-para-ter-acesso-a-tratamento-experimental.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">apelo do piloto e influenciador Joselito Geraldo de Sousa, conhecido como Lito Sousa<\/a>, 59, que recebeu o diagn\u00f3stico de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2026\/08\/doenca-de-creutzfeldt-jakob-que-acomete-lito-sousa-e-agressiva-veja-perguntas-e-respostas.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">doen\u00e7a de Creutzfeldt-Jakob <\/a>e que <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2026\/08\/lito-sousa-nao-consegue-acesso-a-tratamento-experimental-para-doenca-de-creutzfeldt-jakob.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">n\u00e3o conseguiu ser inclu\u00eddo em dois estudos experimentais<\/a> que buscam um tratamento, reacendeu uma pergunta recorrente: como um paciente consegue acesso a um rem\u00e9dio ainda em fase de pesquisa?<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 bem menos aberta do que a como\u00e7\u00e3o nas redes costuma sugerir. Existe no Brasil e no exterior um conjunto de regras r\u00edgidas que determina quem pode entrar em um ensaio cl\u00ednico, em que momento isso \u00e9 poss\u00edvel e por quais portas.<\/p>\n<p>O erro mais comum na leitura p\u00fablica de casos como o de Lito \u00e9 tratar um estudo cl\u00ednico como se fosse uma fila de atendimento, em que a urg\u00eancia do caso deveria determinar a prioridade. Um ensaio cl\u00ednico n\u00e3o funciona assim.<\/p>\n<p>Antes de o primeiro paciente ser recrutado, pesquisadores definem (e ag\u00eancias regulat\u00f3rias aprovam) um protocolo que fixa exatamente quantos participantes ser\u00e3o inclu\u00eddos, em quais grupos e sob quais crit\u00e9rios.<\/p>\n<p>Esse n\u00famero \u00e9 parte do desenho estat\u00edstico do experimento, n\u00e3o uma estimativa administrativa. Alter\u00e1-lo no meio do caminho equivale, na pr\u00e1tica, a alterar o pr\u00f3prio experimento, com implica\u00e7\u00f5es diretas sobre a validade dos resultados e sobre a rela\u00e7\u00e3o da pesquisa com as ag\u00eancias que a supervisionam.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica se repete nas quatro fases que comp\u00f5em o desenvolvimento de qualquer medicamento: a fase 1, com dezenas de volunt\u00e1rios, dedicada a avaliar seguran\u00e7a e dose; a fase 2, com centenas de pacientes j\u00e1 acometidos pela doen\u00e7a-alvo, em que se testa a efic\u00e1cia inicial; a fase 3, com milhares de participantes em m\u00faltiplos centros, decisiva para o pedido de registro; e a fase 4, posterior \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o, voltada ao monitoramento de efeitos de longo prazo.<\/p>\n<p>Cada etapa tem finalidade e escala pr\u00f3prias. E nenhuma delas comporta inclus\u00e3o fora do protocolo sem comprometer o desenho como um todo. Soma-se a isso um mecanismo pouco compreendido fora do meio cient\u00edfico: o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2026\/02\/pesquisa-de-novos-medicamentos-como-a-polilaminina-deve-seguir-regras-rigidas-internacionais.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">grupo controle<\/a>, composto por pacientes acompanhados nas mesmas condi\u00e7\u00f5es dos demais, mas sem receber a subst\u00e2ncia em teste.<\/p>\n<p>Sem esse contraponto, seria imposs\u00edvel distinguir o efeito do medicamento da evolu\u00e7\u00e3o natural da doen\u00e7a ou do pr\u00f3prio acompanhamento cl\u00ednico mais pr\u00f3ximo. Para uma fam\u00edlia em situa\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia, no entanto, entrar no grupo controle pode significar meses de espera sem qualquer garantia de acesso \u00e0 subst\u00e2ncia, um c\u00e1lculo que nem sempre \u00e9 compat\u00edvel com o tempo que a doen\u00e7a permite.<\/p>\n<p>Quando o protocolo j\u00e1 atingiu seu n\u00famero de participantes, ou o paciente n\u00e3o se enquadra nos crit\u00e9rios de inclus\u00e3o, o sistema regulat\u00f3rio brasileiro prev\u00ea alternativas, mas nenhuma delas \u00e9 autom\u00e1tica.<\/p>\n<p>A resolu\u00e7\u00e3o n\u00ba 38\/2013, da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/anvisa\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Anvisa<\/a> (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria), estabelece tr\u00eas mecanismos distintos. O uso compassivo permite que uma empresa pe\u00e7a autoriza\u00e7\u00e3o para fornecer um medicamento ainda em pesquisa a um paciente espec\u00edfico, desde que haja ind\u00edcio razo\u00e1vel de que os benef\u00edcios superam os riscos, independentemente da fase em que o estudo se encontre.<\/p>\n<p>O acesso expandido, por sua vez, \u00e9 voltado a um grupo de pacientes, e exige dados j\u00e1 consolidados de fase 3. J\u00e1 o fornecimento p\u00f3s-estudo garante que participantes de um ensaio continuem recebendo o medicamento ap\u00f3s seu encerramento, enquanto houver benef\u00edcio cl\u00ednico. Mecanismos equivalentes existem em outros pa\u00edses, como o expanded access regulado pela FDA, ag\u00eancia regulat\u00f3ria norte-americana.<\/p>\n<p>Nenhum desses caminhos dispensa avalia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. No Brasil, toda solicita\u00e7\u00e3o, seja de um novo protocolo, seja de uso compassivo ou acesso expandido, passa pelo crivo de comit\u00eas de \u00e9tica em pesquisa, eventualmente pela Comiss\u00e3o Nacional de \u00c9tica em Pesquisa e pela pr\u00f3pria Anvisa.<\/p>\n<p>A exig\u00eancia de laudo m\u00e9dico detalhado, com diagn\u00f3stico confirmado por exames espec\u00edficos; de enquadramento em crit\u00e9rios pr\u00e9-estabelecidos de idade, est\u00e1gio da doen\u00e7a e aus\u00eancia de comorbidades; de avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica presencial; e de assinatura de termo de consentimento informado n\u00e3o \u00e9 entrave burocr\u00e1tico gratuito.<\/p>\n<p>\u00c9 o mecanismo que garante que a decis\u00e3o sobre riscos e benef\u00edcios n\u00e3o fique restrita \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 farmac\u00eautica, as duas partes mais suscet\u00edveis \u00e0 press\u00e3o emocional e comercial do caso.<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico do uso compassivo, tamb\u00e9m \u00e9 preciso saber se o paciente em quest\u00e3o tem alguma chance real de resposta terap\u00eautica, j\u00e1 que administrar uma subst\u00e2ncia experimental sem essa perspectiva exp\u00f5e a pessoa a riscos sem contrapartida.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, limita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas que independem de qualquer decis\u00e3o institucional. Em doen\u00e7as que afetam o sistema nervoso central, a barreira hematoencef\u00e1lica, uma esp\u00e9cie de filtro de seguran\u00e7a do c\u00e9rebro que deixa os nutrientes entrarem e barra subst\u00e2ncias perigosas presentes no sangue, exige doses calibradas com precis\u00e3o para n\u00e3o comprometer fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas essenciais.<\/p>\n<p>Em doen\u00e7as raras, graves e de evolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, como a que acomete Lito, a equa\u00e7\u00e3o de risco-benef\u00edcio que orienta a pesquisa cl\u00ednica se desloca. A aus\u00eancia de qualquer tratamento capaz de deter o avan\u00e7o da doen\u00e7a justifica, do ponto de vista m\u00e9dico, a aceita\u00e7\u00e3o de um grau maior de incerteza para testar terapias experimentais.<\/p>\n<p>Essa flexibiliza\u00e7\u00e3o, no entanto, tem limites: o risco assumido ainda precisa ser justific\u00e1vel e monitorado dentro de crit\u00e9rios \u00e9ticos e de seguran\u00e7a que n\u00e3o desaparecem diante da urg\u00eancia. Isso ocorre justamente para proteger pacientes no momento em que est\u00e3o mais vulner\u00e1veis a decis\u00f5es precipitadas.<\/p>\n<p>Casos como o de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/lito-sousa\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Lito Sousa<\/a> cumprem uma fun\u00e7\u00e3o real: ampliam a visibilidade sobre doen\u00e7as raras, pressionam por agilidade em processos que muitas vezes s\u00e3o lentos por raz\u00f5es evit\u00e1veis, e mobilizam recursos e aten\u00e7\u00e3o que de outra forma n\u00e3o existiriam.<\/p>\n<p>Mas a decis\u00e3o sobre quem entra em um protocolo de pesquisa, e em que momento, permanece (e deve permanecer) uma decis\u00e3o t\u00e9cnica e regulat\u00f3ria. Trat\u00e1-la como uma quest\u00e3o de engajamento nas redes sociais n\u00e3o apenas distorce a expectativa de pacientes e fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 extremamente dif\u00edcil, como desconsidera o prop\u00f3sito do pr\u00f3prio desenho cient\u00edfico: proteger, ao final, os mesmos pacientes que se pretende ajudar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O apelo do piloto e influenciador Joselito Geraldo de Sousa, conhecido como Lito Sousa, 59, que recebeu o&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":500552,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[145],"tags":[5671,211,210,4288,52010,40366,114,115,236,72924,1208,32,33,117,5731],"class_list":["post-500551","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-celebridades","tag-anvisa","tag-celebridades","tag-celebrities","tag-cerebro","tag-doenca-degenerativa","tag-doenca-neurologica","tag-entertainment","tag-entretenimento","tag-folha","tag-lito-sousa","tag-medicina","tag-portugal","tag-pt","tag-saude","tag-vigilancia-sanitaria"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117158420689238955","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/500551","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=500551"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/500551\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/500552"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=500551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=500551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=500551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}