{"id":502191,"date":"2026-08-27T08:11:12","date_gmt":"2026-08-27T08:11:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/502191\/"},"modified":"2026-08-27T08:11:12","modified_gmt":"2026-08-27T08:11:12","slug":"cegar-para-saturar-como-a-ucrania-transformou-o-tamanho-da-russia-numa-dor-de-cabeca-para-putin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/502191\/","title":{"rendered":"&#8220;Cegar&#8221; para &#8220;saturar&#8221;. Como a Ucr\u00e2nia transformou o tamanho da R\u00fassia numa dor de cabe\u00e7a para Putin"},"content":{"rendered":"<p>                A vaga de ataques com drones a refinarias e dep\u00f3sitos de combust\u00edvel est\u00e1 a expor as limita\u00e7\u00f5es da defesa antia\u00e9rea russa. For\u00e7ado a dispersar baterias por milh\u00f5es de quil\u00f3metros quadrados para proteger infraestruturas cr\u00edticas, o Kremlin v\u00ea-se perante um dilema estrat\u00e9gico que pode abalar o regime<\/p>\n<p>A R\u00fassia voltou a acordar com imagens de mais uma refinaria em chamas, ap\u00f3s nova vaga de ataques de drones ucranianos. Desta vez, o alvo foi a refinaria de Kstovo, na regi\u00e3o de Nizhny Novgorod, uma infraestrutura respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o de 11% da gasolina do pa\u00eds. Esta est\u00e1 longe de ser a \u00fanica instala\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera russa atingida e, apesar de a R\u00fassia deter uma das mais densas e extensas redes de defesa antia\u00e9rea do mundo, as perspetivas s\u00e3o de que o cen\u00e1rio piore face \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia de Kiev.<\/p>\n<p>&#8220;Os ucranianos mudaram de estrat\u00e9gia e t\u00eam abatido uma s\u00e9rie de radares de defesa a\u00e9rea nos territ\u00f3rios ocupados pela R\u00fassia. S\u00f3 que com a intensifica\u00e7\u00e3o dos ataques ucranianos, Moscovo ficou obrigada a puxar radares da linha da frente para proteger infraestruturas cr\u00edticas&#8221;, explica o tenente-general Rafael Martins, especialista em Assuntos Militares.<\/p>\n<p>Ao longo dos \u00faltimos meses, a Ucr\u00e2nia tem intensificado a campanha de ataques contra radares russos, com o objetivo de &#8220;cegar&#8221; as for\u00e7as russas. E estes ataques est\u00e3o a atingir alvos cada vez mais distantes da frente. No in\u00edcio do m\u00eas, a Ucr\u00e2nia partilhou imagens de um conjunto de ataques que atingiu mais de sete radares a 270 quil\u00f3metros da linha da frente, na regi\u00e3o de Krasnodar. Passadas poucas semanas, os drones ucranianos regressaram \u00e0 regi\u00e3o, mas desta vez para atingir estruturas portu\u00e1rias e armaz\u00e9ns log\u00edsticos de empresas russas.<\/p>\n<p>Incurs\u00f5es como a da madrugada desta quarta-feira em Kstovo mostram a dificuldade de Moscovo em suster o ritmo de ataques quase di\u00e1rios de Kiev. A estrat\u00e9gia ucraniana aposta na satura\u00e7\u00e3o continuada atrav\u00e9s de vagas de drones contra alvos altamente inflam\u00e1veis e raramente protegidos, onde apenas um ou dois drones s\u00e3o capazes de desencadear danos de grandes dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>Isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque a Ucr\u00e2nia foi capaz de transformar aquele que foi sempre um dos maiores trunfos estrat\u00e9gicos da R\u00fassia &#8211; a sua dimens\u00e3o territorial &#8211; numa das suas principais fraquezas. Com refinarias, oleodutos e terminais petrol\u00edferos dispersos em milh\u00f5es de quil\u00f3metros quadrados, o Kremlin \u00e9 confrontado com um dilema praticamente imposs\u00edvel de resolver. Ou as For\u00e7as Armadas tentam proteger todas as infraestruturas em simult\u00e2neo ou abdicam da sua eficaz doutrina de defesa em camadas sobrepostas.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Existem tantos alvos potenciais que a R\u00fassia precisa de tentar defender. \u00c0 medida que a Ucr\u00e2nia obriga a R\u00fassia a dispersar as suas defesas a\u00e9reas por uma \u00e1rea muito mais vasta, verifica-se uma perda desproporcional de efic\u00e1cia&#8221;, explica Justin Bronk, investigador do Royal United Services Institute, especialista em poder a\u00e9reo, ao Kyiv Independent.\u00a0<\/p>\n<p>Isto acontece porque o escudo antia\u00e9reo russo funciona por camadas, como uma &#8220;cebola&#8221;. No topo est\u00e3o os sistemas de longo alcance, como os S-400 ou S-300, criados para detetar e abater alvos a centenas de quil\u00f3metros. Depois existem os sistemas de m\u00e9dio alcance, como os sistemas Buk ou Tor, que cobrem dist\u00e2ncias at\u00e9 50 quil\u00f3metros. A \u00faltima linha de defesa fica \u00e0 responsabilidade dos Pantsir-S1, encarregues de abater tudo o que os outros dois n\u00e3o consigam intercetar.\u00a0<\/p>\n<p>O segredo da efic\u00e1cia deste sistema est\u00e1 na integra\u00e7\u00e3o destas camadas no mesmo espa\u00e7o geogr\u00e1fico. Quando a Ucr\u00e2nia for\u00e7a a R\u00fassia a espalhar estas baterias por milhares de quil\u00f3metros para cobrir refinarias isoladas, o escudo perde a densidade e deixa brechas que s\u00e3o exploradas por Kiev.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;Mas \u00e9 preciso ter em conta a satura\u00e7\u00e3o. A Ucr\u00e2nia est\u00e1 a lan\u00e7ar centenas de drones por noite. \u00c0s vezes, Moscovo afirma que abateu 400 drones. Mas basta terem passado dez para os estragos serem tremendos&#8221;, explica o tenente-general Rafael Martins.\u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, Kiev sabe bem o que \u00e9 estar do outro lado destes ataques e o qu\u00e3o desfavor\u00e1vel \u00e9 a matem\u00e1tica da defesa antia\u00e9rea. Enquanto a Ucr\u00e2nia lan\u00e7a drones que custam poucas dezenas de milhares de euros e que podem ser produzidos \u00e0s dezenas de milhares por ano, os m\u00edsseis interceptores podem custar milh\u00f5es por unidade e demoram muito tempo a produzir, devido \u00e0 complexidade da tecnologia em causa. As for\u00e7as ucranianas conhecem bem este problema, devido \u00e0 falta de m\u00edsseis interceptores Pac-3 para os sistemas norte-americanos Patriot.<\/p>\n<p>Esta assimetria est\u00e1 a provocar um desgaste acelerado nos arsenais de curto alcance como o Pantsir, for\u00e7ando a R\u00fassia a queimar muni\u00e7\u00f5es a um ritmo superior \u00e0 sua capacidade de produ\u00e7\u00e3o industrial. E este problema agrava-se nas f\u00e1bricas russas, porque as perdas acumuladas de centenas de radares e lan\u00e7adores desde o in\u00edcio da guerra n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis de repor.\u00a0 A ind\u00fastria de defesa russa, sujeita a pesadas san\u00e7\u00f5es internacionais, enfrenta estrangulamentos no acesso a componentes cr\u00edticos para a reposi\u00e7\u00e3o destes equipamentos, estando a recorrer cada vez mais \u00e0 canibaliza\u00e7\u00e3o das reservas sovi\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Este cen\u00e1rio est\u00e1 a fazer com que a R\u00fassia esteja cada vez mais dependente de helic\u00f3pteros e dos seus sistemas de m\u00e9dio e longo alcance para intercetar drones ucranianos que voam quase todas as noites em dire\u00e7\u00e3o a infraestruturas russas.\u00a0<\/p>\n<p>Esta ter\u00e7a-feira, as autoridades de Moscovo admitiram que n\u00e3o t\u00eam capacidade de proteger todas as refinarias da regi\u00e3o em caso de ataque ucraniano, admitindo ainda que est\u00e3o a prever uma onda de fal\u00eancias de pequenas e m\u00e9dias empresas na sequ\u00eancia dos ataques \u00e0 Wildberries, o gigante do com\u00e9rcio digital russo, que tem visto os seus armaz\u00e9ns a ser destru\u00eddos um pouco por todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Horas mais tarde, o presidente russo, Vladimir Putin, assinou um decreto que permite ao Estado russo tomar controlo de infraestruturas cr\u00edticas caso os seus operadores privados n\u00e3o sejam capazes de as proteger. A decis\u00e3o acontece numa altura em que diversas regi\u00f5es do pa\u00eds est\u00e3o a ter dificuldades no fornecimento de combust\u00edvel, em v\u00e9speras de elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um efeito domin\u00f3 que atinge o cora\u00e7\u00e3o econ\u00f3mico do regime. Ao golpear refinarias e paralisar unidades de destila\u00e7\u00e3o cruciais, Kiev n\u00e3o s\u00f3 obriga o Kremlin a redistribuir meios militares vitais da linha da frente, como reduz a capacidade de produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis e as receitas energ\u00e9ticas que financiam a pr\u00f3pria invas\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O pr\u00f3prio Putin emitiu um decreto que aponta que empresas e infraestruturas que n\u00e3o consigam defender as suas infraestruturas ele passa a nacionaliz\u00e1-las. Isto confere ao governo de extrair dessas empresas as receitas desse neg\u00f3cio, \u00e9 outra forma de se financiar, num momento em que precisa de fundos&#8221;, explica Rafael Martins.\u00a0<\/p>\n<p>Ao atingir refinarias, destruir radares e paralisar unidades de processamento cruciais, Kiev conseguiu transformar uma campanha de drones de baixo custo num estrangulamento estrat\u00e9gico. Sem conseguir repor o seu escudo antia\u00e9reo ao ritmo das perdas, o Kremlin v\u00ea-se obrigado a escolher entre proteger as tropas que combatem na Ucr\u00e2nia ou as infraestruturas que pagam a pr\u00f3pria invas\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o existem recursos para defender tudo. Dep\u00f3sitos de refinarias, refinarias, centros log\u00edsticos, est\u00e3o espalhados por v\u00e1rias cidades. A R\u00fassia n\u00e3o vai conseguir ter defesa a\u00e9rea nos s\u00edtios todos&#8221;, frisa o tenente-general.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A vaga de ataques com drones a refinarias e dep\u00f3sitos de combust\u00edvel est\u00e1 a expor as limita\u00e7\u00f5es da&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":502192,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[609,836,611,27,28,607,608,333,832,604,135,610,837,476,15,16,301,830,14,603,25,26,570,21,22,831,833,62,834,12,13,19,20,835,602,52,32,23,24,24419,839,17,18,840,29,30,31,63,64,65],"class_list":["post-502191","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-alerta","tag-analise","tag-ao-minuto","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-comentadores","tag-costa","tag-crime","tag-desporto","tag-direto","tag-drones","tag-economia","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-governo","tag-guerra","tag-headlines","tag-justica","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-live","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mais-vistas","tag-marcelo","tag-mundo","tag-negocios","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-opiniao","tag-pais","tag-politica","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-refinarias","tag-russia","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ucrania","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/502191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=502191"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/502191\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/502192"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=502191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=502191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=502191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}