{"id":504368,"date":"2026-08-29T08:28:33","date_gmt":"2026-08-29T08:28:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/504368\/"},"modified":"2026-08-29T08:28:33","modified_gmt":"2026-08-29T08:28:33","slug":"akira-volta-ao-cinema-como-feito-epico-de-virtuosismo-28-08-2026-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/504368\/","title":{"rendered":"&#8216;Akira&#8217; volta ao cinema como feito \u00e9pico de virtuosismo &#8211; 28\/08\/2026 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>T\u00f3quio, 16 de julho de 1988. Uma explos\u00e3o silenciosa engole a cidade e ilumina a telona. A data da primeira cena do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq2410200426.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">filme &#8220;Akira&#8221;<\/a> era tamb\u00e9m a ocasi\u00e3o do seu lan\u00e7amento nas salas do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/japao\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Jap\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>Na fic\u00e7\u00e3o, aquele \u00e9 o marco zero de uma Terceira Guerra Mundial, cujas ru\u00ednas seriam a base para Neo T\u00f3quio, a metr\u00f3pole dist\u00f3pica onde se passa a trama, em 2019. No mundo real, abria-se ali um novo cap\u00edtulo da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2025\/05\/anime-japones-domina-mercado-de-streamings-e-se-torna-mina-de-ouro-da-propriedade-intelectual.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">anima\u00e7\u00e3o japonesa<\/a>.<\/p>\n<p>&#8220;Akira&#8221; n\u00e3o foi o primeiro sucesso da era de ouro da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/animacao\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">anima\u00e7\u00e3o<\/a> japonesa, j\u00e1 marcada por &#8220;Dragon Ball&#8221; e pelo <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2026\/02\/como-manga-nausicaa-enfim-completo-no-pais-deu-a-luz-o-studio-ghibli.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Studio Ghibli<\/a>, fundado tr\u00eas anos antes, mas sua abordagem adulta e t\u00e9cnica abriu o Ocidente ao g\u00eanero.<\/p>\n<p>Violento, denso, cient\u00edfico e m\u00edstico, distanciava-se da pegada infantil de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/acontece\/ac2301201003.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Astro Boy&#8221;<\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq0805200807.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Speed Racer&#8221;<\/a> \u2014para citar desenhos exibidos na TV brasileira nos anos 1960\u2014 e se aproximava de obras como <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2026\/08\/tumulo-dos-vagalumes-volta-aos-cinemas-com-retrato-sensivel-da-guerra.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;T\u00famulo dos Vagalumes&#8221;<\/a>, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq13039913.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Gen &#8211; P\u00e9s Descal\u00e7os&#8221;<\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/12\/angels-egg-40-anos-depois-e-um-testemunho-da-riqueza-dos-animes.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Angel&#8217;s Egg&#8221;<\/a>, emocionalmente fortes e experimentais.<\/p>\n<p>O filme impressionou o mercado americano, que ampliou as importa\u00e7\u00f5es para TV a cabo e v\u00eddeo, e ajudou a espalhar o universo &#8220;otaku&#8221; por aqui.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o agora est\u00e1 de volta \u00e0s telonas, nos 35 anos de sua estreia no Brasil, quando a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/blogs\/k-cultura\/2025\/03\/fundador-da-sato-quer-levar-mais-filmes-coreanos-aos-cinemas-e-ao-streaming.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Sato Company <\/a>trouxe este que foi o primeiro anime exibido comercialmente em salas do pa\u00eds. \u00c0 \u00e9poca, somou cerca de 250 mil espectadores.<\/p>\n<p>Agora a distribuidora traz uma c\u00f3pia remasterizada em 4K, de alt\u00edssima defini\u00e7\u00e3o, que d\u00e1 a ver os tr\u00eas anos e o 1 bilh\u00e3o de ienes, cerca de R$ 32 milh\u00f5es, investidos nesta empreitada que surfou no &#8220;boom&#8221; econ\u00f4mico do Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Quase quatro d\u00e9cadas depois, o filme persiste como um grande exerc\u00edcio de virtuosismo, por vezes agradando mais pelo seu bal\u00e9 visual do que propriamente pelo primor de seu enredo.<\/p>\n<p>Os feitos t\u00e9cnicos impressionam \u2014foram mais de 160 mil quadros pintados \u00e0 m\u00e3o em celuloide, o dobro das produ\u00e7\u00f5es de ent\u00e3o, garantindo fluidez nos movimentos, cenas em c\u00e2mera lenta e outras com mais de uma dezena de personagens na tela.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse, a equipe apostou no dif\u00edcil processo de pr\u00e9-sonoriza\u00e7\u00e3o. Os di\u00e1logos foram gravados primeiro, permitindo que os animadores desenhassem perfeitamente a sincronia labial e traduzissem a expressividade dos atores-dubladores.<\/p>\n<p>Mas hoje mesmo os maiores f\u00e3s reconhecem as fragilidades da trama, tendo em vista o mang\u00e1. Originalmente publicado em quadrinhos a partir de 1982, &#8220;Akira&#8221; entrou em produ\u00e7\u00e3o quando <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq150421.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Katsuhiro Otomo<\/a>, cineasta e autor da hist\u00f3ria original, ainda estava na metade da publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O interesse em levar o gibi para os cinemas era tamanho que sete gigantes de diferentes setores \u2014como a editora Kodansha, a fabricante de brinquedos Bandai, a distribuidora Toho e outros\u2014 se uniram num cons\u00f3rcio, o Akira Committee, disposto a bancar a empreitada, com controle criativo total para Otomo.<\/p>\n<p>A HQ s\u00f3 seria encerrada dois anos ap\u00f3s o lan\u00e7amento do filme, e suas mais de 2.000 p\u00e1ginas tiveram de ser enxugadas para um storyboard com cerca de 700.<\/p>\n<p>Tudo parte dos amigos de inf\u00e2ncia Kaneda \u2014marrento, mas de bom cora\u00e7\u00e3o\u2014 e Tetsuo \u2014com um incur\u00e1vel complexo de inferioridade\u2014, parceiros numa gangue de motoqueiros. Liderado pelo primeiro, dono de um invej\u00e1vel possante vermelho, esse grupo de delinquentes passa as noites barbarizando por bares e pelas ruas de Neo T\u00f3quio.<\/p>\n<p>\u00c9 numa dessas que os encontramos nos fren\u00e9ticos primeiros minutos do filme, uma apresenta\u00e7\u00e3o de mundo mais centrada na a\u00e7\u00e3o do que nos di\u00e1logos. Vistas panor\u00e2micas da cidade, tomada por lixo, criminalidade, neons e hologramas no melhor estilo <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2019\/10\/blade-runner-que-se-passa-em-novembro-de-2019-nao-previu-a-tecnologia-de-hoje.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Blade Runner&#8221;<\/a>, d\u00e3o \u00e0 cidade aspecto de coisa viva.<\/p>\n<p>\u00c9 um cen\u00e1rio no qual elementos tipicamente japoneses, como o xinto\u00edsmo, se mesclam a um capitalismo exacerbado, embalado por uma trilha que reflete esses contrastes, cruzando sintetizadores, coral e um tipo de percuss\u00e3o do sudeste asi\u00e1tico. Os anti-her\u00f3is n\u00e3o passam de uma c\u00e9lula nesse fluxo sangu\u00edneo de luzes e concreto.<\/p>\n<p>O acaso joga contra eles quando acabam cruzando com uma disputa entre terroristas pol\u00edticos e um grupo de militares a cargo de um projeto secreto com crian\u00e7as ps\u00edquicas.<\/p>\n<p>O contato de Tetsuo com uma dessas figuras \u2014de porte infantil, mas apar\u00eancia idosa\u2014 manifestar\u00e1 nele tamb\u00e9m uma for\u00e7a, que se alimentar\u00e1 de seus tormentos \u00edntimos at\u00e9 transform\u00e1-lo num monstro apocal\u00edptico. Tudo, pouco a pouco, vai nos encaminhando para Akira, ser quase impalp\u00e1vel ao longo do filme.<\/p>\n<p>O retrato do personagem-t\u00edtulo, um misterioso garotinho, \u00e9 um ponto de clivagem nas duas vers\u00f5es da hist\u00f3ria. O longa n\u00e3o abarca, por exemplo, o extenso segundo ato do gibi. A obra foi publicada no Brasil pela Globo nos anos 1990, em edi\u00e7\u00f5es coloridas no formato americano, e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2018\/09\/manga-akira-traz-mundo-complexo-ao-leitor.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">depois pela JBC em preto e branco<\/a> e no correto sentido de leitura oriental.<\/p>\n<p>Encarna\u00e7\u00e3o do ins\u00f3lito, Akira encapsula o trauma japon\u00eas com os ciclos de morte \u2014como se toda T\u00f3quio ou Neo T\u00f3quio fosse sempre uma ru\u00edna potencial. Mas, tanto no filme como no mang\u00e1, h\u00e1 algo de \u00e9pico ao ver o leque de personagens se abrir gradualmente.<\/p>\n<p>O protagonismo vai se diluindo entre v\u00e1rios n\u00facleos, sem ignorar a rivalidade entre Kaneda e Tetsuo. Tomar\u00e3o caminhos diferentes, sim. Mas, enquanto um prefere sumir, o outro ser\u00e1 desses que insistem na vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"T\u00f3quio, 16 de julho de 1988. 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