{"id":506191,"date":"2026-08-31T07:34:12","date_gmt":"2026-08-31T07:34:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/506191\/"},"modified":"2026-08-31T07:34:12","modified_gmt":"2026-08-31T07:34:12","slug":"dor-persistente-e-um-dos-sintomas-da-covid-longa-31-08-2026-equilibrio-e-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/506191\/","title":{"rendered":"Dor persistente \u00e9 um dos sintomas da Covid longa &#8211; 31\/08\/2026 &#8211; Equil\u00edbrio e Sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p>Durante a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2020\/11\/coronavirus-brasil-ja-esta-na-2a-onda-de-covid-19-diz-pesquisador-da-usp.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">segunda onda de Covid no Brasil<\/a>, minha colega (e coautora deste texto), Giselle Passos, contraiu a doen\u00e7a. Mesmo ap\u00f3s se recuperar da fase aguda da infec\u00e7\u00e3o, alguns sintomas permaneceram. Entre eles, dores que ela n\u00e3o sentia antes da Covid, incluindo <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2026\/07\/tomar-relaxante-muscular-sempre-que-sente-dor-pode-oferecer-riscos-a-saude-dizem-especialistas.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">muscular <\/a>e no <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrio\/2026\/01\/segredo-para-aliviar-a-dor-ciatica-e-continuar-se-movimentando.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">nervo ci\u00e1tico<\/a>, que exigiram tratamento com medicamentos e fisioterapia.<\/p>\n<p>Giselle e eu somos professores e pesquisadores da Faculdade de Farm\u00e1cia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Dividimos um laborat\u00f3rio onde estudamos, entre outros temas, os mecanismos envolvidos na dor. Por isso, a experi\u00eancia vivida por ela despertou uma pergunta que, naquele momento, come\u00e7ava a ganhar cada vez mais import\u00e2ncia: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2023\/06\/o-que-vem-depois-da-covid-entenda-sequelas-que-a-doenca-deixa.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Por que algumas pessoas continuam sentindo dor mesmo ap\u00f3s se recuperarem da Covid<\/a>?<\/p>\n<p>Na mesma \u00e9poca, estudos realizados em nosso laborat\u00f3rio j\u00e1 mostravam que a prote\u00edna spike, presente na superf\u00edcie do v\u00edrus Sars-CoV-2, era capaz de provocar, em animais, d\u00e9ficits cognitivos semelhantes aos observados em alguns pacientes com <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2025\/07\/o-que-a-covid-longa-pode-nos-ensinar-sobre-futuras-pandemias.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Covid longa<\/a>. Essa descoberta nos levou a pensar que a spike tamb\u00e9m poderia estar envolvida em outro <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2026\/02\/mulheres-sofrem-mais-de-dor-cronica-do-que-homens-aponta-novo-estudo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">sintoma persistente da doen\u00e7a: a dor<\/a>.<\/p>\n<p>A dor persistente \u00e9 um dos sintomas comuns relatados por pessoas com Covid longa. Estudos indicam que, durante a fase aguda da infec\u00e7\u00e3o, <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0889159126006999?dgcid=author#b0160\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">15% a 20% dos pacientes<\/a> apresentam dores musculares. Depois da recupera\u00e7\u00e3o, <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0889159126006999?dgcid=author#b0135\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">at\u00e9 40%<\/a> permanecem com dores persistentes por meses. Mas como e por que isso acontece?<\/p>\n<p>Essa pergunta motivou nossa pesquisa. Em um estudo com camundongos, investigamos se a prote\u00edna spike do Sars-CoV-2 poderia, por si s\u00f3, desencadear mecanismos capazes de manter a dor, mesmo ap\u00f3s o desaparecimento da inflama\u00e7\u00e3o inicial. O trabalho <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0889159126006999\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">acaba de ser publicado na revista Brain, Behavior, and Immunity<\/a> e recebeu apoio da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e outras ag\u00eancias de fomento.<\/p>\n<p>O trabalho foi realizado em colabora\u00e7\u00e3o com pesquisadores da Univali (Universidade do Vale do Itaja\u00ed), da UFRB (Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia), da Fiocruz e do King\u2019s College de Londres. Ele tamb\u00e9m faz parte do Instituto Nacional de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/ciencia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Ci\u00eancia<\/a> e Tecnologia de Inova\u00e7\u00e3o em Medicamentos e Identifica\u00e7\u00e3o de Novos Alvos Terap\u00eauticos (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/inctinovamed\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">INCT-INOVAMED<\/a>).<\/p>\n<p>O que descobrimos<\/p>\n<p>Nos experimentos, administramos a prote\u00edna spike em uma das patas dos camundongos. A inflama\u00e7\u00e3o acompanhada de incha\u00e7o no local apareceu rapidamente e desapareceu em at\u00e9 uma semana. Por\u00e9m, a sensibilidade \u00e0 dor permaneceu. Os animais passaram a reagir de forma mais intensa a est\u00edmulos mec\u00e2nicos e t\u00e9rmicos. E essa hipersensibilidade tamb\u00e9m apareceu na pata do lado oposto.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre a dura\u00e7\u00e3o da inflama\u00e7\u00e3o e da maior sensibilidade chamou nossa aten\u00e7\u00e3o. Os resultados indicam que uma inflama\u00e7\u00e3o inicialmente localizada pode desencadear altera\u00e7\u00f5es mais duradouras no sistema nervoso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m observamos diferen\u00e7as entre machos e f\u00eameas. A resposta dolorosa inicial ocorreu apenas nas f\u00eameas. Esse achado \u00e9 particularmente interessante considerando as <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0889159126006999?dgcid=author#b0055\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">evid\u00eancias crescentes<\/a> de diferen\u00e7as entre os sexos biol\u00f3gicos nos mecanismos imunes e neuroimunes envolvidos no processamento da dor. Tamb\u00e9m h\u00e1 maior preval\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es dolorosas em mulheres. No entanto, o incha\u00e7o da pata e a dor persistente se desenvolveram depois, tanto nas f\u00eameas quanto nos machos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, investigamos se a spike afetava diretamente os neur\u00f4nios sensoriais, respons\u00e1veis pela percep\u00e7\u00e3o da dor. Mas, em experimentos com culturas de c\u00e9lulas, essa prote\u00edna n\u00e3o foi capaz de ativ\u00e1-los diretamente. Al\u00e9m disso, estudos in vivo sugerem que a hipersensibilidade induzida pela spike n\u00e3o \u00e9 acompanhada de les\u00e3o neuronal. Em conjunto, esses achados sugerem que a prote\u00edna n\u00e3o provoca a hipersensibilidade diretamente, mas por meio da resposta inflamat\u00f3ria desencadeada por ela.<\/p>\n<p>Como a inflama\u00e7\u00e3o mant\u00e9m a dor<\/p>\n<p>Para entender os mecanismos envolvidos, avaliamos diferentes componentes da resposta imunol\u00f3gica. Identificamos a participa\u00e7\u00e3o essencial de uma prote\u00edna chamada TLR4, envolvida no reconhecimento de sinais associados a infec\u00e7\u00f5es. Em animais geneticamente modificados, que n\u00e3o produzem essa prote\u00edna, a spike n\u00e3o causou inflama\u00e7\u00e3o e nem hipersensibilidade dolorosa persistente.<\/p>\n<p>Observamos tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas de defesa. Tanto os fag\u00f3citos quanto as c\u00e9lulas T contribu\u00edram para manter a resposta inflamat\u00f3ria. Encontramos ainda n\u00edveis altos de citocinas, mol\u00e9culas produzidas por c\u00e9lulas do sistema imune, que ajudam a coordenar suas respostas. O interferon-gama (IFN-\u03b3) teve um papel particularmente importante. Em camundongos que n\u00e3o produzem essa mol\u00e9cula, tanto a inflama\u00e7\u00e3o quanto a hipersensibilidade foram muito mais brandas.<\/p>\n<p>O conjunto dos resultados indica que acontece uma cadeia de eventos. A prote\u00edna spike desencadeia uma resposta imunol\u00f3gica local. Isso ativa c\u00e9lulas de defesa e citocinas. Com o tempo, essa resposta se estende \u00e0 medula espinhal, onde altera\u00e7\u00f5es inflamat\u00f3rias persistentes podem contribuir para a manuten\u00e7\u00e3o da dor.<\/p>\n<p>Pr\u00f3ximos passos<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que nossos experimentos n\u00e3o reproduzem toda a complexidade da Covid longa. Usamos a prote\u00edna spike isoladamente, administrada na pata dos animais, e n\u00e3o uma infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus Sars-CoV-2. Por isso, os resultados n\u00e3o permitem afirmar que esse seja o \u00fanico mecanismo respons\u00e1vel pela dor em todas as pessoas que tiveram Covid.<\/p>\n<p>Por outro lado, o modelo mostra que a spike, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 capaz de provocar esses sintomas, sem depender da replica\u00e7\u00e3o viral. Isso nos permite estudar separadamente os mecanismos desencadeados por essa prote\u00edna e entender melhor como uma resposta inflamat\u00f3ria inicialmente localizada pode produzir altera\u00e7\u00f5es duradouras no sistema nervoso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m mostramos como uma inflama\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou em outro lugar do organismo pode deixar, semanas depois, uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria no sistema que processa a dor. Inclusive, esse parece ser um perfil diferente de <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0889159126006999?dgcid=author#b0255\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">outros modelos de dor cr\u00f4nica<\/a>. Conhecer melhor essas vias pode ajudar, no futuro, a identificar novos alvos para o tratamento da dor persistente associada \u00e0 Covid longa.<\/p>\n<p>Este texto foi publicado no <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/the-conversation\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">The Conversation<\/a>. Clique <a href=\"https:\/\/theconversation.com\/dor-pos-covid-estudo-explica-os-mecanismos-ligados-a-sequela-que-afeta-ate-40-das-pessoas-que-tem-a-doenca-290692\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">aqui <\/a>para ler a vers\u00e3o original.<\/p>\n<p>                  <script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Durante a segunda onda de Covid no Brasil, minha colega (e coautora deste texto), Giselle Passos, contraiu a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":506192,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[86],"tags":[109,3913,2641,5474,236,116,5473,5734,38921,32,33,117,5841],"class_list":["post-506191","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-saude","tag-ciencia","tag-coronavirus","tag-covid-19","tag-dor","tag-folha","tag-health","tag-inflamacao","tag-pandemia","tag-pandemia-do-coronavirus","tag-portugal","tag-pt","tag-saude","tag-the-conversation"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117188969284101056","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/506191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=506191"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/506191\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/506192"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=506191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=506191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=506191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}