{"id":506293,"date":"2026-08-31T09:40:16","date_gmt":"2026-08-31T09:40:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/506293\/"},"modified":"2026-08-31T09:40:16","modified_gmt":"2026-08-31T09:40:16","slug":"ia-tenta-rastrear-fatores-ocultos-na-pesquisa-cientifica-31-08-2026-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/506293\/","title":{"rendered":"IA tenta rastrear fatores ocultos na pesquisa cient\u00edfica &#8211; 31\/08\/2026 &#8211; Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Recentemente, em uma tarde, cientistas realizavam experimentos em um laborat\u00f3rio em Cambridge, no estado americano de Massachusetts. Os equipamentos eram os de sempre: uma capela de exaust\u00e3o para trabalhar com subst\u00e2ncias qu\u00edmicas perigosas e uma incubadora para cultivar c\u00e9lulas. Os procedimentos eram id\u00eanticos aos adotados em laborat\u00f3rios de biologia do mundo todo.<\/p>\n<p>Um olhar mais atento, por\u00e9m, revelava peculiaridades. Al\u00e9m de jalecos e luvas, a maioria dos cientistas tinha c\u00e2meras em miniatura presas a faixas na cabe\u00e7a. Outras tr\u00eas c\u00e2meras, instaladas em uma prateleira, apontavam para cada bancada de trabalho.<\/p>\n<p>Os pesquisadores narravam em voz baixa o que faziam diante de microfones. Uma equipe se reunia em uma das extremidades do laborat\u00f3rio para examinar v\u00eddeos dos experimentos.<\/p>\n<p>Essa era a verdadeira pesquisa em andamento naquele laborat\u00f3rio. Com um sistema de sensores e software concebido para registrar a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/ciencia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">ci\u00eancia<\/a> enquanto ela acontece, com precis\u00e3o de milissegundos, os cientistas treinavam modelos de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/inteligencia-artificial\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">intelig\u00eancia artificial<\/a> para reconhecer cada objeto utilizado por eles e cada a\u00e7\u00e3o realizada.<\/p>\n<p>A IA chegou at\u00e9 a compor sua pr\u00f3pria narrativa, descrevendo trechos de poucos segundos de v\u00eddeo com frases como: &#8220;O operador ressuspende o pellet, aspirando-o e dispensando-o com a pipeta dez vezes&#8221;.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/tecnologia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">tecnologia<\/a> foi criada por uma startup chamada Transfyr, que recebeu US$ 25 milh\u00f5es (R$ 130 milh\u00f5es) em um financiamento inicial. A empresa est\u00e1 enfrentando um desafio da ci\u00eancia: os fatores ocultos que levam alguns experimentos a darem certo e outros a fracassarem.<\/p>\n<p>O fracasso pode assumir muitas formas. Pesquisadores podem passar meses preparando uma linhagem de c\u00e9lulas geneticamente modificadas, apenas para v\u00ea-las morrer misteriosamente no decorrer do processo. Um teste para Covid parece funcionar em um laborat\u00f3rio, mas n\u00e3o consegue detectar o v\u00edrus quando usado por outras pessoas. Uma empresa de biotecnologia cria um medicamento promissor, mas, quando repassa o protocolo para a produ\u00e7\u00e3o em larga escala, ele deixa de funcionar.<\/p>\n<p>&#8220;Esse \u00e9 um problema extremamente doloroso&#8221;, disse Anna Marie Wagner, cofundadora da Transfyr. &#8220;H\u00e1 uma troca de acusa\u00e7\u00f5es de ambos os lados. O protocolo estava errado? Ou voc\u00ea cometeu algum erro? S\u00e3o falhas muito caras em termos de tempo, dinheiro e vidas.&#8221;<\/p>\n<p>O sucesso pode ser t\u00e3o misterioso quanto o fracasso. Alguns pesquisadores conseguem, de forma consistente, fazer seus experimentos darem certo.<\/p>\n<p>Ao conduzirem experimentos, os cientistas mant\u00eam registros cuidadosos, tanto em cadernos de laborat\u00f3rio quanto, posteriormente, em artigos cient\u00edficos. Outros pesquisadores recorrem a essas informa\u00e7\u00f5es para repetir o experimento.<\/p>\n<p>Mas todo cientista descobre, mais cedo ou mais tarde, que o conhecimento essencial n\u00e3o est\u00e1 necessariamente registrado por escrito.<\/p>\n<p>&#8220;Um protocolo \u00e9 uma receita&#8221;, afirmou Jonathan Livny, pesquisador do Broad Institute que j\u00e1 colaborou com a Transfyr. &#8220;Voc\u00ea pode dar uma receita a algu\u00e9m, mas isso n\u00e3o far\u00e1 dessa pessoa um grande chef.&#8221;<\/p>\n<p>Assim como aprendizes de cozinha, os cientistas passam anos se capacitando, acompanhando especialistas, fazendo perguntas e testando procedimentos por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Para fazer um experimento funcionar, talvez seja preciso tomar milhares de pequenas decis\u00f5es ao longo de um dia. Um tubo precisa ser agitado \u2014\u00e9 melhor deix\u00e1-lo vibrar sobre uma plataforma ou simplesmente sacudi-lo para a frente e para tr\u00e1s com a m\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes, as pessoas boas n\u00e3o sabem por que s\u00e3o t\u00e3o boas&#8221;, disse Livny. &#8220;Elas n\u00e3o se lembram das 20 vezes em que fizeram algo de outra maneira e n\u00e3o deu certo. Bloquearam toda essa tristeza.&#8221;<\/p>\n<p>Em teoria, a ci\u00eancia avan\u00e7a \u00e0 medida que os pesquisadores se apoiam em trabalhos anteriores. Quando um novo estudo \u00e9 publicado, outros cientistas tentam reproduzi-lo. Se o resultado original estiver correto, a reprodu\u00e7\u00e3o deveria chegar aos mesmos resultados.<\/p>\n<p>Com uma frequ\u00eancia surpreendente, isso n\u00e3o ocorre. Os cientistas n\u00e3o conseguem saber exatamente como reproduzir um estudo apenas lendo a respeito dele.<\/p>\n<p>Renee Wegrzyn, cofundadora da Transfyr, percebeu essa lacuna durante suas pesquisas de p\u00f3s-doutorado. Ela anotava em um caderno os registros de seus experimentos com prote\u00ednas, mas eles representavam apenas uma fra\u00e7\u00e3o de todo o seu trabalho.<\/p>\n<p>Quando Wegrzyn publicou seus resultados, teve de condensar ainda mais seus registros. &#8220;Fiz um p\u00f3s-doutorado que durou tr\u00eas anos e, no fim, tudo foi resumido em um artigo de tr\u00eas p\u00e1ginas.&#8221;<\/p>\n<p>O que n\u00e3o aparecia nessas anota\u00e7\u00f5es e nesses relat\u00f3rios eram todas as pequenas decis\u00f5es que Wegrzyn havia tomado ao realizar sua pesquisa.<\/p>\n<p>&#8220;Todos esses detalhes podem ser importantes, mas n\u00e3o sabemos se s\u00e3o&#8221;, disse Brian Nosek, especialista em replica\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/universidade\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Universidade<\/a> da Virg\u00ednia que n\u00e3o est\u00e1 envolvido no Transfyr.<\/p>\n<p>Quando a replica\u00e7\u00e3o de um estudo n\u00e3o produz os resultados originais, isso pode significar que o estudo original estava errado. Ou talvez estivesse certo, e os cientistas respons\u00e1veis pela replica\u00e7\u00e3o tenham cometido um erro sem perceber. Pode ser dif\u00edcil para as equipes de cientistas chegar a um consenso sobre o que aconteceu.<\/p>\n<p>Em 1993, por exemplo, a psic\u00f3loga Frances Rauscher e seus colegas relataram que pessoas que ouvem m\u00fasicas compostas por Wolfgang Amadeus Mozart apresentam uma melhora tempor\u00e1ria em testes de racioc\u00ednio.<\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o em torno do chamado efeito Mozart levou outros pesquisadores a realizarem seus pr\u00f3prios experimentos.<\/p>\n<blockquote class=\"c-quote\">\n<p class=\"c-quote__content\">A varia\u00e7\u00e3o que observamos at\u00e9 mesmo entre cientistas bem treinados \u00e9 de deixar qualquer um boquiaberto<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Muitos deles n\u00e3o conseguiram encontrar nenhum benef\u00edcio significativo, mas Rauscher minimizou esses resultados negativos. Segundo ela, os outros cientistas n\u00e3o haviam detectado o efeito Mozart porque n\u00e3o eram suficientemente competentes na condu\u00e7\u00e3o de experimentos.<\/p>\n<p>A busca pelo efeito Mozart continuou por anos. No fim, outros cientistas encontraram poucas evid\u00eancias de que ele realmente existe.<\/p>\n<p>Com a Transfyr, Wegrzyn e Wagner est\u00e3o desenvolvendo um sistema capaz de absorver enormes quantidades de dados sobre o que acontece em um laborat\u00f3rio, na forma de registros de v\u00eddeo, \u00e1udio e sensores de equipamentos laboratoriais. A Transfyr rastreia at\u00e9 mesmo a origem dos suprimentos, chegando aos n\u00fameros de lote das caixas de luvas.<\/p>\n<p>Nosek afirmou que essa nova abordagem pode revelar segredos por tr\u00e1s do sucesso ou do fracasso dos experimentos. &#8220;O que eu gosto neles \u00e9 que est\u00e3o se empenhando ao m\u00e1ximo para destrinchar cada detalhe. Faz muito sentido apostar tudo nisso e, depois, descobrir o que realmente importa.&#8221;<\/p>\n<p>A empresa fornece seu registro digital dos experimentos a computadores treinados para reconhecer os equipamentos usados em experimentos de bioqu\u00edmica. Sistemas de intelig\u00eancia artificial monitoram os equipamentos e as m\u00e3os dos cientistas, decifrando cada a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise revelou que os profissionais de laborat\u00f3rio fazem o mesmo experimento de muitas maneiras diferentes. &#8220;A varia\u00e7\u00e3o que observamos at\u00e9 mesmo entre cientistas bem treinados \u00e9 de deixar qualquer um boquiaberto&#8221;, afirmou Wagner.<\/p>\n<p>A Transfyr conquistou uma empresa de diagn\u00f3sticos e outros clientes que querem usar o software para acompanhar suas pesquisas. Wagner afirmou que, no futuro, talvez seja poss\u00edvel que o sistema n\u00e3o apenas detecte erros, mas tamb\u00e9m registre descobertas inesperadas.<\/p>\n<p>Em vez de vasculhar cadernos em busca de pistas, o sistema pode revisitar cada segundo do trabalho e consultar a IA sobre a\u00e7\u00f5es incomuns realizadas pelos pesquisadores sem que eles pr\u00f3prios percebessem.<\/p>\n<p>Nosek afirmou que a Transfyr teria de apresentar resultados detalhados para provar que esse sistema de fato melhora a ci\u00eancia. &#8220;Pegue 50 laborat\u00f3rios, acompanhe metade dos experimentos com esse recurso e n\u00e3o acompanhe a outra metade \u2014depois, procure diferen\u00e7as no progresso&#8221;, sugeriu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Recentemente, em uma tarde, cientistas realizavam experimentos em um laborat\u00f3rio em Cambridge, no estado americano de Massachusetts. 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