{"id":507520,"date":"2026-09-01T12:28:14","date_gmt":"2026-09-01T12:28:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/507520\/"},"modified":"2026-09-01T12:28:14","modified_gmt":"2026-09-01T12:28:14","slug":"o-ultimo-verao-de-renoir-arte-desejo-e-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/507520\/","title":{"rendered":"O \u00daltimo Ver\u00e3o de Renoir: arte, desejo e guerra"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Pierre-Auguste Renoir est\u00e1 morrendo enquanto pinta mulheres cheias de vida. As m\u00e3os deformadas pela artrite j\u00e1 n\u00e3o obedecem com facilidade, a esposa morreu, a Primeira Guerra Mundial devora rapazes franceses e Jean, um de seus filhos, volta do front ferido. Gilles Bourdos poderia ter feito de \u201cO \u00daltimo Ver\u00e3o de Renoir\u201d uma prociss\u00e3o de despedidas. Prefere colocar uma jovem ruiva diante do velho pintor e observar o que acontece quando um corpo pr\u00f3ximo do fim encontra outro que parece ter acabado de descobrir sua for\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Andr\u00e9e Heuschling chega \u00e0 propriedade dos Renoir na C\u00f4te d\u2019Azur para posar. Christa Th\u00e9ret n\u00e3o a interpreta como musa no sentido passivo que a palavra adquiriu com o tempo. Andr\u00e9e quer ser vista, quer dinheiro, deseja outra vida e compreende depressa que beleza tamb\u00e9m \u00e9 uma moeda, embora n\u00e3o tenha nenhuma inten\u00e7\u00e3o de permanecer apenas como superf\u00edcie para os quadros de um homem c\u00e9lebre. Renoir, vivido por Michel Bouquet, olha para ela profissionalmente, sensualmente, paternalmente, \u00e0s vezes tudo junto. \u00c9 um velho que ainda pinta a carne como se n\u00e3o acreditasse na morte.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bourdos levou o filme ao Festival de Cannes de 2012, onde \u201cRenoir\u201d encerrou a mostra Un Certain Regard. No ano seguinte, a Fran\u00e7a o escolheu para disputar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro. A distin\u00e7\u00e3o faz sentido menos pela rever\u00eancia ao nome Renoir que pela decis\u00e3o de concentrar-se numa passagem quase dom\u00e9stica entre duas hist\u00f3rias gigantescas da arte. Auguste j\u00e1 \u00e9 Auguste Renoir. Jean ainda n\u00e3o \u00e9 Jean Renoir.<\/p>\n<p>Jean e Andr\u00e9e<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 uma das melhores ideias do filme. Vincent Rottiers encarna o futuro diretor de \u201cA Grande Ilus\u00e3o\u201d e \u201cA Regra do Jogo\u201d quando ele ainda poderia ter sido outra coisa. Jean volta ferido da guerra, caminha com dificuldade e encontra na casa do pai uma esp\u00e9cie de para\u00edso indecente, cheio de luz, comida, mulheres e telas, enquanto homens de sua idade continuam sendo destro\u00e7ados a poucos quil\u00f4metros dali. N\u00e3o h\u00e1 ainda um mestre do cinema. H\u00e1 um rapaz sem muita certeza do que fazer consigo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E h\u00e1 Andr\u00e9e. Ela ser\u00e1 decisiva na vida de Jean, que se apaixona por aquela mulher t\u00e3o inadequada ao universo protegido dos Renoir quanto a guerra que insiste em mandar not\u00edcias. O velho pintor percebe o movimento e n\u00e3o o recebe com entusiasmo. Andr\u00e9e \u00e9 modelo, energia, mat\u00e9ria de trabalho. Para Jean, torna-se desejo e possibilidade de futuro. Bourdos monta o tri\u00e2ngulo sem precisar reduzi-lo a rivalidade amorosa. Pai e filho n\u00e3o disputam propriamente a mesma mulher. Disputam maneiras diferentes de olhar para ela.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fotografia de Mark Lee Ping-Bing compreende que um filme sobre Renoir corria o risco \u00f3bvio de querer parecer uma exposi\u00e7\u00e3o de Renoir. Algumas vezes sucumbe \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o. A luz atravessa folhas, a pele das modelos parece reter o calor do ver\u00e3o, frutas, tecidos e corpos ganham uma sensualidade quase pict\u00f3rica. Mas h\u00e1 algo mais \u00e1spero por baixo dessa beleza. Auguste sente dor para segurar o pincel. Jean carrega no corpo a guerra. Andr\u00e9e sabe que aquele \u00c9den pertence aos outros.<\/p>\n<p>A guerra e o pincel<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Michel Bouquet evita o monumento. Seu Renoir \u00e9 caprichoso, teimoso, sensual, \u00e0s vezes desagrad\u00e1vel e inteiramente submetido \u00e0 necessidade de continuar pintando. A velhice n\u00e3o lhe trouxe sabedoria universal, apenas a consci\u00eancia de que o tempo encurtou. Ele pode precisar que amarrem o pincel \u00e0 m\u00e3o, mas ainda sabe exatamente o que quer fazer com ele.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guerra funciona como ru\u00eddo exterior e amea\u00e7a \u00edntima. Jean considera voltar ao front, decis\u00e3o que para o pai parece uma afronta ao instinto elementar de sobreviv\u00eancia. O jovem, por\u00e9m, ainda pertence \u00e0quela gera\u00e7\u00e3o que aprendeu a confundir sacrif\u00edcio com dever. Andr\u00e9e oferece outra sa\u00edda. N\u00e3o necessariamente uma vida mais virtuosa, mas uma vida.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bourdos n\u00e3o tenta explicar de que maneira Jean Renoir se tornar\u00e1 cineasta, e nisso acerta. Seria f\u00e1cil espalhar sinais de genialidade futura, fazer o rapaz olhar para a luz como um diretor ou organizar pessoas dentro de um quadro como quem descobre a mise-en-sc\u00e8ne. O filme prefere deix\u00e1-lo incompleto. O cinema ainda n\u00e3o existe para Jean como destino; existe como possibilidade.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO \u00daltimo Ver\u00e3o de Renoir\u201d \u00e9 mais interessante quando se lembra disso. N\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria de dois g\u00eanios, um passando a chama ao outro. \u00c9 a hist\u00f3ria de um artista que est\u00e1 acabando, de outro que ainda n\u00e3o come\u00e7ou e de uma mulher que se recusa a existir apenas no intervalo entre ambos. Andr\u00e9e entra na casa para ser pintada. Sai dela levando Jean para outra arte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Pierre-Auguste Renoir est\u00e1 morrendo enquanto pinta mulheres cheias de vida. 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