{"id":507932,"date":"2026-09-01T18:43:14","date_gmt":"2026-09-01T18:43:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/507932\/"},"modified":"2026-09-01T18:43:14","modified_gmt":"2026-09-01T18:43:14","slug":"anemona-daniel-day-lewis-retorna-em-drama-familiar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/507932\/","title":{"rendered":"An\u00eamona: Daniel Day-Lewis retorna em drama familiar"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Um homem atravessa o norte da Inglaterra guiado por coordenadas anotadas num peda\u00e7o de papel. N\u00e3o procura exatamente um lugar. Procura o irm\u00e3o que decidiu desaparecer do mundo. Jem (Sean Bean) deixa para tr\u00e1s a mulher, Nessa (Samantha Morton), e Brian (Samuel Bottomley), o rapaz que criou como filho, e entra na mata at\u00e9 chegar \u00e0 cabana onde Ray (Daniel Day-Lewis) transformou isolamento em modo de vida. A princ\u00edpio, n\u00e3o h\u00e1 abra\u00e7o, explica\u00e7\u00e3o nem sequer conversa. Ray oferece comida, tolera a presen\u00e7a do visitante e se comporta como se vinte anos de aus\u00eancia fossem um contratempo dom\u00e9stico. Ronan Day-Lewis sabe que a parte mais interessante de \u201cAn\u00eamona\u201d est\u00e1 justamente a\u00ed. Duas pessoas podem se conhecer desde a inf\u00e2ncia e, ainda assim, precisar reaprender a falar uma com a outra.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ray n\u00e3o \u00e9 apenas um eremita. \u00c9 um homem que fez da pr\u00f3pria culpa uma resid\u00eancia. Ex-soldado brit\u00e2nico marcado pelo per\u00edodo dos conflitos na Irlanda do Norte, ele carrega lembran\u00e7as de viol\u00eancia, humilha\u00e7\u00e3o e abuso que aos poucos deixam de parecer acontecimentos separados. Tudo nele est\u00e1 contaminado por alguma coisa anterior. A brutalidade do pai. A experi\u00eancia militar. A religi\u00e3o. A vergonha. A rela\u00e7\u00e3o rompida com Nessa. O filho que abandonou antes mesmo de conhec\u00ea-lo. O filme evita a comodidade de escolher uma \u00fanica ferida para explicar o personagem. Ray \u00e9 o resultado de v\u00e1rias, acumuladas durante d\u00e9cadas, e Daniel Day-Lewis o interpreta como algu\u00e9m que precisa gastar energia f\u00edsica para impedir que tudo isso escape ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Daniel Day-Lewis e o retorno<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma volta curiosamente adequada para um ator que passou oito anos longe das telas. Depois de \u201cTrama Fantasma\u201d, em 2017, Daniel Day-Lewis anunciou que deixaria de atuar. Mais tarde reconheceria que provavelmente havia transformado em declara\u00e7\u00e3o definitiva aquilo que era, na verdade, exaust\u00e3o diante de uma forma de vida que j\u00e1 lhe custava demais. Ele nunca deixara de amar o trabalho de ator. O projeto que o trouxe de volta nasceu justamente da rela\u00e7\u00e3o com o filho. Ronan vinha h\u00e1 anos pensando numa hist\u00f3ria sobre irm\u00e3os; Daniel compartilhava o interesse pelo sil\u00eancio particular que existe dentro desse v\u00ednculo. Os dois come\u00e7aram a escrever juntos. O que poderia ter sido apenas um exerc\u00edcio privado se transformou no primeiro longa-metragem do filho e no retorno do pai ao cinema.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria f\u00e1cil demais enxergar autobiografia em tudo. \u201cAn\u00eamona\u201d n\u00e3o precisa disso. O fato extraf\u00edlmico interessa porque h\u00e1 alguma coisa fascinante no gesto de um pai aceitar voltar ao of\u00edcio justamente para participar da estreia do filho como diretor, enquanto ambos escrevem uma hist\u00f3ria sobre homens incapazes de exercer plenamente os pap\u00e9is que uma fam\u00edlia lhes atribuiu. O filme inteiro se organiza em torno de fun\u00e7\u00f5es deslocadas. Ray \u00e9 o pai ausente. Jem \u00e9 o tio que ficou. Nessa foi deixada por um homem e construiu a vida com o irm\u00e3o dele. Brian recebeu de Jem presen\u00e7a, cuidado e alguma ideia de paternidade, mas continua obcecado pelo homem que nunca esteve ali.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa talvez seja a melhor percep\u00e7\u00e3o do roteiro. A aus\u00eancia tamb\u00e9m educa.<\/p>\n<p>Brian e a heran\u00e7a do pai<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brian n\u00e3o conhece Ray e, no entanto, vive esmagado por ele. Est\u00e1 em crise, abandona o Ex\u00e9rcito e se envolve numa agress\u00e3o violenta que quase destr\u00f3i a vida de outro homem. N\u00e3o herdou do pai conviv\u00eancia, mem\u00f3ria ou afeto, mas parece ter herdado sua viol\u00eancia. \u00c9 um paradoxo cruel. O filho repete um homem que nunca teve oportunidade de conhecer. Nessa tenta impedir que ele transforme Ray numa explica\u00e7\u00e3o conveniente para tudo, enquanto Jem acredita que somente o pr\u00f3prio Ray poder\u00e1 interromper aquele processo. Por isso atravessa a floresta. N\u00e3o foi buscar o irm\u00e3o porque sentiu saudade. Foi busc\u00e1-lo porque percebeu que a hist\u00f3ria familiar come\u00e7ou a se repetir.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sean Bean faz aqui um trabalho ingrato e extraordinariamente preciso. Jem poderia ser apenas o homem razo\u00e1vel enviado para buscar o irm\u00e3o descontrolado, mas Bean evita essa facilidade. H\u00e1 ressentimento nele. H\u00e1 tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de superioridade moral que Ray percebe e detesta. Jem encontrou na religi\u00e3o alguma estrutura para continuar vivendo; Ray v\u00ea nessa f\u00e9 apenas outra vers\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es que o feriram. Os dois foram formados por viol\u00eancias semelhantes e escolheram respostas opostas. Um permaneceu. O outro fugiu. Um criou o filho do irm\u00e3o. O outro passou d\u00e9cadas castigando a si mesmo por acreditar que desaparecer era a \u00fanica contribui\u00e7\u00e3o que ainda poderia oferecer.<\/p>\n<p>Daniel Day-Lewis e Sean Bean na cabana<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 quando Ronan Day-Lewis deixa esses dois homens simplesmente ocuparem a mesma cabana que \u201cAn\u00eamona\u201d encontra sua for\u00e7a. Daniel Day-Lewis continua sendo um ator quase desconcertante de assistir. N\u00e3o porque fa\u00e7a mais que os outros, mas porque parece trabalhar em lugares que a c\u00e2mera mal alcan\u00e7a. Ray muda antes de uma fala come\u00e7ar. Um olhar endurece, a mand\u00edbula se move, o corpo prepara uma defesa e somente depois chegam as palavras. Em um longo relato sobre um sacerdote ligado a um trauma de inf\u00e2ncia, o personagem atravessa obscenidade, humor, vingan\u00e7a e dor sem separar uma coisa da outra. \u00c9 uma cena desconfort\u00e1vel porque permite que se ria por alguns segundos antes de revelar exatamente do que se estava rindo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema aparece quando o diretor parece desconfiar de que Daniel Day-Lewis e Sean Bean sejam suficientes. A fotografia de Ben Fordesman \u00e9 bel\u00edssima, e a floresta possui um verde \u00famido, quase febril, que combina com aquele homem escondido entre \u00e1rvores. Mas Ronan frequentemente deseja que a natureza diga aquilo que os personagens j\u00e1 disseram. O c\u00e9u amea\u00e7a. A tempestade chega. Animais assumem uma presen\u00e7a quase sobrenatural. A \u00e1gua, a escurid\u00e3o e figuras fant\u00e1sticas invadem uma narrativa que n\u00e3o precisava explicar por s\u00edmbolos a dimens\u00e3o de suas feridas. Bobby Krlic comp\u00f5e uma trilha igualmente pesada, \u00e0s vezes magn\u00edfica, \u00e0s vezes empenhada demais em informar ao espectador a gravidade do que j\u00e1 est\u00e1 diante dele.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma inseguran\u00e7a compreens\u00edvel num primeiro filme. Ronan Day-Lewis vem da pintura, e seu olhar para composi\u00e7\u00e3o, textura e paisagem \u00e9 evidente. H\u00e1 planos de grande beleza e uma vontade genu\u00edna de transformar o drama familiar numa esp\u00e9cie de f\u00e1bula sombria. O problema \u00e9 que nem toda dor precisa ganhar uma representa\u00e7\u00e3o visual. Algumas das melhores cenas de \u201cAn\u00eamona\u201d s\u00e3o justamente aquelas em que a dire\u00e7\u00e3o abandona a ambi\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica e observa dois homens numa mesa, uma refei\u00e7\u00e3o, uma pausa longa demais, uma frase que ningu\u00e9m gostaria de ouvir.<\/p>\n<p>Nessa e Brian<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Samantha Morton sofre com essa concentra\u00e7\u00e3o. Nessa guarda talvez a posi\u00e7\u00e3o moral mais complexa da hist\u00f3ria. Foi abandonada gr\u00e1vida por Ray, construiu outra fam\u00edlia com Jem e agora precisa aceitar a possibilidade de trazer de volta \u00e0 vida do filho justamente o homem cuja aus\u00eancia organizou aquela casa durante duas d\u00e9cadas. Morton consegue sugerir esse passado com muito pouco, mas o filme n\u00e3o lhe oferece o mesmo espa\u00e7o que reserva aos irm\u00e3os. Samuel Bottomley tem problema semelhante. Brian \u00e9 fundamental para a narrativa, por\u00e9m durante boa parte dela funciona mais como consequ\u00eancia dram\u00e1tica do passado de Ray do que como personagem plenamente conquistado.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso torna particularmente provocadora uma escolha pr\u00f3xima ao fim. \u201cAn\u00eamona\u201d constr\u00f3i durante duas horas a expectativa do encontro entre pai e filho, mas se interessa mais pelo caminho at\u00e9 essa aproxima\u00e7\u00e3o do que por transform\u00e1-la numa catarse convencional. Pode frustrar. Talvez devesse frustrar. Uma conversa n\u00e3o devolveria vinte anos. Uma explica\u00e7\u00e3o sobre a guerra n\u00e3o produziria inf\u00e2ncia retroativa. Um pedido de desculpas n\u00e3o transformaria Ray no pai que Brian n\u00e3o teve.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00edtulo vem da flor cultivada por Ray, uma lembran\u00e7a que atravessa a rela\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os com o pr\u00f3prio pai. \u00c9 uma imagem delicada para um filme povoado por homens que aprenderam a responder \u00e0 dor com viol\u00eancia, fuga ou sil\u00eancio. Ronan Day-Lewis ainda for\u00e7a algumas met\u00e1foras, demora demais em outras e por vezes parece querer provar que est\u00e1 realizando um filme importante quando a import\u00e2ncia j\u00e1 estava nos personagens. Mas h\u00e1 uma ideia dif\u00edcil no centro de \u201cAn\u00eamona\u201d que sobrevive a esses excessos. Pais deixam coisas para os filhos mesmo quando v\u00e3o embora. \u00c0s vezes deixam justamente aquilo de que passaram a vida inteira tentando fugir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um homem atravessa o norte da Inglaterra guiado por coordenadas anotadas num peda\u00e7o de papel. 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