{"id":5090,"date":"2025-07-28T09:43:10","date_gmt":"2025-07-28T09:43:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/5090\/"},"modified":"2025-07-28T09:43:10","modified_gmt":"2025-07-28T09:43:10","slug":"resistencia-cerebral-a-insulina-pode-ser-um-dos-fatores-que-ligam-epilepsia-a-alzheimer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/5090\/","title":{"rendered":"Resist\u00eancia cerebral \u00e0 insulina pode ser um dos fatores que ligam epilepsia a Alzheimer"},"content":{"rendered":"<p> 3 <\/p>\n<p>Pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) conseguiram mostrar, em modelo animal, que o processo de resist\u00eancia \u00e0 insulina no c\u00e9rebro tem efeitos tanto sobre a doen\u00e7a de Alzheimer quanto sobre a epilepsia e pode ser um fator de liga\u00e7\u00e3o entre as duas doen\u00e7as.<\/p>\n<p>O trabalho, apoiado pela FAPESP, corrobora evid\u00eancias cl\u00ednicas de que pessoas com epilepsia tendem a apresentar maior risco de desenvolver doen\u00e7a de Alzheimer ao longo do envelhecimento. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 raro que pacientes com doen\u00e7a de Alzheimer apresentem crises convulsivas.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m de demonstrar que a sinaliza\u00e7\u00e3o de insulina no c\u00e9rebro, quando alterada, influencia tanto a epilepsia quanto a doen\u00e7a de Alzheimer, o estudo refor\u00e7a a ideia de que a doen\u00e7a de Alzheimer \u00e9 ainda mais complexa e, portanto, requer abordagem terap\u00eautica mais ampla. Medicamentos centrados apenas em uma caracter\u00edstica da doen\u00e7a tendem a apresentar um efeito muito limitado. Por isso, precisamos de estudos mais variados sobre o tema\u201d, afirma Norberto Garcia-Cairasco, professor da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto (FMRP-USP), diretor do Laborat\u00f3rio de Neurofisiologia e Neuroetologia Experimental (LNNE) e autor correspondente do artigo publicado no Journal of Neural Transmission.<\/p>\n<p>Alzheimer \u00e9 uma doen\u00e7a neurodegenerativa complexa e multifatorial que ainda n\u00e3o tem cura ou causa definida. Dentre as diversas hip\u00f3teses para explicar seu surgimento, destaca-se a da cascata amiloide, segundo a qual a deposi\u00e7\u00e3o de placas de beta-amiloide no c\u00e9rebro seria o evento inicial e crucial que desencadearia uma s\u00e9rie de processos que culminariam na morte neuronal, perda de sinapses e, finalmente, dem\u00eancia.<\/p>\n<p>Formulada em 1992, a teoria tem sido hegem\u00f4nica nas pesquisas sobre Alzheimer nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Outras hip\u00f3teses importantes incluem a diminui\u00e7\u00e3o da acetilcolina, um neurotransmissor essencial para a mem\u00f3ria, e a neuroinflama\u00e7\u00e3o, que compromete a comunica\u00e7\u00e3o entre os neur\u00f4nios e pode ser desencadeada pelo ac\u00famulo de pept\u00eddeos amiloides no c\u00e9rebro. Al\u00e9m disso, a hiperfosforila\u00e7\u00e3o da prote\u00edna Tau, segundo principal biomarcador da doen\u00e7a de Alzheimer, leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de \u201cemaranhados\u201d dentro das c\u00e9lulas cerebrais, afetando seu funcionamento e contribuindo para a progress\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cAtualmente, os medicamentos mais usados no tratamento de Alzheimer [drogas anticolinester\u00e1sicas e antiglutamat\u00e9rgicas] apresentam baixa efic\u00e1cia, tendo efeito apenas sintom\u00e1tico. E j\u00e1 foram descritos casos de indiv\u00edduos com placas beta-amiloides no c\u00e9rebro [resultado da deposi\u00e7\u00e3o dos pept\u00eddeos amiloides] sem sintomas de Alzheimer\u201d, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p>Car\u00e1ter metab\u00f3lico<\/p>\n<p>Outra hip\u00f3tese para explicar o surgimento da doen\u00e7a de Alzheimer, destacada por Garcia-Cairasco, \u00e9 de que o processo de resist\u00eancia cerebral \u00e0 insulina levaria a danos neuronais e \u00e0 plasticidade sin\u00e1ptica defeituosa em uma \u00e1rea cerebral denominada hipocampo. A resist\u00eancia \u00e0 insulina cerebral poderia, at\u00e9 mesmo, comprometer a fun\u00e7\u00e3o colin\u00e9rgica e aumentar a probabilidade de neuroinflama\u00e7\u00e3o e neurodegenera\u00e7\u00e3o, desencadeando a produ\u00e7\u00e3o e o ac\u00famulo de prote\u00ednas beta-amiloide e Tau nos tecidos cerebrais.<\/p>\n<p>Embora pacientes com diabetes apresentem maior risco de Alzheimer, \u00e9 poss\u00edvel apresentar resist\u00eancia central \u00e0 insulina sem ter diabetes dos tipos 1 e 2. De acordo com essa hip\u00f3tese \u2013 que n\u00e3o \u00e9 consenso entre os especialistas \u2013, o Alzheimer seria decorrente de uma esp\u00e9cie de diabetes, quem vem sendo chamada de tipo 3, que descreve um estado de resist\u00eancia \u00e0 insulina no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>J\u00e1 a epilepsia abrange um grupo de transtornos caracterizados por crises (convulsivas ou n\u00e3o) recorrentes e espont\u00e2neas, com maior preval\u00eancia na inf\u00e2ncia e em adultos mais velhos. Entre os diferentes fatores desencadeadores das crises epil\u00e9pticas est\u00e1 a baixa concentra\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar no sangue (hipoglicemia). A causa da doen\u00e7a pode ser tamb\u00e9m gen\u00e9tica ou relacionada a trauma cerebral, dist\u00farbios autoimunes, problemas metab\u00f3licos e doen\u00e7as infecciosas.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 cientistas que associam a doen\u00e7a de Alzheimer exclusivamente \u00e0 neuroinflama\u00e7\u00e3o, a altera\u00e7\u00f5es dos neurotransmissores ou ao diabetes tipo 3. N\u00f3s acreditamos que o Alzheimer pode ser classificado como uma doen\u00e7a muito mais complexa e que o aprofundamento sobre sua rela\u00e7\u00e3o com a epilepsia e a resist\u00eancia \u00e0 insulina pode auxiliar no entendimento de um desses fatores ligados \u00e0 causalidade da doen\u00e7a\u201d, diz Garcia-Cairasco \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>O estudo \u00e9 um dos primeiros a mostrar uma liga\u00e7\u00e3o direta entre a resist\u00eancia \u00e0 insulina cerebral e a elevada suscetibilidade a crises convulsivas. Al\u00e9m disso, o trabalho \u00e9 parte de um projeto maior, que j\u00e1 rendeu dois pr\u00eamios de destaque cient\u00edfico em 2024 \u2013 o Pr\u00eamio Aristides Le\u00e3o (Melhor Trabalho na \u00c1rea B\u00e1sica), no 40\u00ba Congresso Brasileiro da Liga Brasileira de Epilepsia, e o Pr\u00eamio de Melhor P\u00f4ster em Geriatria, no 12\u00ba Congresso Brasileiro de Alzheimer.<\/p>\n<p>Crise epil\u00e9ptica<\/p>\n<p>Para chegar a esses resultados, os pesquisadores da FMRP-USP descobriram que ratos microinjetados intracerebralmente com estreptozotocina \u2013 uma subst\u00e2ncia qu\u00edmica utilizada para induzir a doen\u00e7a de Alzheimer experimentalmente \u2013 tamb\u00e9m apresentavam caracter\u00edsticas de epilepsia.<\/p>\n<p>\u201cPara testar a hip\u00f3tese do diabetes tipo 3 em modelo animal, injetamos estreptozotocina nos roedores, um composto conhecido por induzir resist\u00eancia \u00e0 insulina e usado para modelar diabetes e doen\u00e7a de Alzheimer. Com isso, surpreendentemente, alguns animais come\u00e7aram a apresentar sintomas semelhantes a uma crise convulsiva, ap\u00f3s receberem est\u00edmulo sonoro de alta intensidade\u201d, conta Su\u00e9len Santos Alves, aluna de doutorado e primeira autora do estudo. \u201cEmbora o estudo fosse exclusivamente sobre Alzheimer, ele estava sendo realizado em um laborat\u00f3rio de epilepsia, o que despertou interesse de outros pesquisadores. Com isso, demonstramos que o processo de resist\u00eancia \u00e0 insulina tem efeitos n\u00e3o s\u00f3 na doen\u00e7a de Alzheimer, mas tamb\u00e9m na epilepsia\u201d, complementa.<\/p>\n<p>O contr\u00e1rio tamb\u00e9m foi observado: ratos da linhagem Wistar Audiogenic Rat (WAR), desenvolvidos geneticamente para o estudo da epilepsia, tamb\u00e9m passaram a apresentar altera\u00e7\u00f5es moleculares de Alzheimer, como hiperfosforila\u00e7\u00e3o da prote\u00edna Tau e diminui\u00e7\u00e3o de receptores de insulina no hipocampo.<\/p>\n<p>Uma \u00fanica dose da droga injetada nos roedores com epilepsia e doen\u00e7a de Alzheimer n\u00e3o s\u00f3 induziu a resist\u00eancia cerebral \u00e0 insulina, como tamb\u00e9m acarretou a piora na mem\u00f3ria dos roedores e aumento da frequ\u00eancia e gravidade de crises convulsivas.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m dos d\u00e9ficits de mem\u00f3ria, descobrimos que esse modelo exibe maior suscetibilidade a crises convulsivas audiog\u00eanicas, juntamente com ativa\u00e7\u00e3o neuronal elevada em regi\u00f5es cerebrais ricas em receptores de insulina. Essas descobertas fortalecem a no\u00e7\u00e3o de que a resist\u00eancia \u00e0 insulina cerebral desempenha um papel crucial na epilepsia e pode ser um dos principais mecanismos que ligam esse transtorno \u00e0 doen\u00e7a de Alzheimer\u201d, diz Alves.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m disso, os resultados observados na linhagem WAR ressaltam a import\u00e2ncia do hist\u00f3rico gen\u00e9tico na forma\u00e7\u00e3o das respostas ao tratamento, indicando que caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas podem influenciar as interrup\u00e7\u00f5es da sinaliza\u00e7\u00e3o da insulina, afetando a progress\u00e3o da doen\u00e7a\u201d, conclui a pesquisadora.<\/p>\n<p>A linhagem de ratos que apresenta epilepsia e doen\u00e7a de Alzheimer, desenvolvida geneticamente na FMRP-USP, foi doada para o Rat, Resource and Research Center (RRRC), da Universidade de Missouri (Estados Unidos), onde est\u00e1 atualmente dispon\u00edvel para pesquisadores do mundo inteiro que queiram realizar experimentos. Antes de ser doada, a linhagem foi higienizada no Centro Multidisciplinar para Investiga\u00e7\u00e3o Biol\u00f3gica na \u00c1rea da Ci\u00eancia em Animais de Laborat\u00f3rio (Cemib) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para passar pelas barreiras sanit\u00e1rias internacionais.<\/p>\n<p>O grupo segue investigando a rela\u00e7\u00e3o entre as duas doen\u00e7as. Por meio de estudo conduzido em colabora\u00e7\u00e3o com o Centro de Cirurgia de Epilepsia (Cirep) do Hospital das Cl\u00ednicas da FMRP-USP, vai replicar a pesquisa realizada em ratos com tecidos de pacientes submetidos a cirurgias para tratamento de epilepsia (portanto resistentes ao tratamento farmacol\u00f3gico).<\/p>\n<p>A varia\u00e7\u00e3o na express\u00e3o gen\u00e9tica e de prote\u00ednas das c\u00e9lulas desses pacientes tamb\u00e9m ser\u00e1 analisada por meio de t\u00e9cnicas de prote\u00f4mica e transcript\u00f4mica, em colabora\u00e7\u00e3o com pesquisadores da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O artigo Insulin signaling disruption exacerbates memory impairment and seizure susceptibility in an epilepsy model with Alzheimer\u2019s disease-like pathology pode ser lido em: https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s00702-025-02896-1.<\/p>\n<p><strong>Mat\u00e9ra \u2013 Maria Fernanda Ziegler | Ag\u00eancia FAPESP<\/strong><br \/><strong>Imagem \u2013 Pesquisadores da FMRP-USP j\u00e1 haviam descoberto que ratos injetados com uma subst\u00e2ncia qu\u00edmica usada para induzir a doen\u00e7a de Alzheimer experimentalmente tamb\u00e9m apresentavam caracter\u00edsticas de epilepsia (imagem: L\u00e9o Ramos Chaves\/Pesquisa FAPESP)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"3 Pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) conseguiram mostrar, em modelo animal, que o processo de resist\u00eancia&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5091,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[314,2625,116,2885,2886,32,33,2887,117],"class_list":{"0":"post-5090","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-alzheimer","9":"tag-epilepsia","10":"tag-health","11":"tag-insulina","12":"tag-neurobiologia","13":"tag-portugal","14":"tag-pt","15":"tag-resistencia-cerebral","16":"tag-saude"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5090","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5090"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5090\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5091"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5090"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5090"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5090"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}