{"id":511547,"date":"2026-09-04T11:08:14","date_gmt":"2026-09-04T11:08:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/511547\/"},"modified":"2026-09-04T11:08:14","modified_gmt":"2026-09-04T11:08:14","slug":"caso-lindsay-clancy-onde-comeca-e-acaba-a-responsabilidade-do-pai-ou-como-quem-esta-ao-lado-pode-salvar-vidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/511547\/","title":{"rendered":"Caso Lindsay Clancy. Onde come\u00e7a e acaba a responsabilidade do pai ou como &#8220;quem est\u00e1 ao lado&#8221; pode &#8220;salvar vidas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>                A discuss\u00e3o em torno da responsabiliza\u00e7\u00e3o de Patrick Clancy pela morte dos tr\u00eas filhos, sabendo ele que a mulher estava doente, est\u00e1 a provocar sucessivos impasses na delibera\u00e7\u00e3o do j\u00fari que tem de decidir se Lindsay Clansy, a m\u00e3e, deve ou n\u00e3o ser considerada culpada. E se o caso fosse em Portugal? O pai poderia ser responsabilizado criminalmente. Mas estamos a capacitar os pais para estarem verdadeiramente atentos?<\/p>\n<p style=\"margin-bottom:11px\">As imagens agora reproduzidas pelos jornais mostram uma fam\u00edlia feliz e sorridente. Patrick, engenheiro inform\u00e1tico a trabalhar para a gigante Microsoft, e Lindsay, enfermeira num dos maiores hospitais de Boston, seguram nos bra\u00e7os o beb\u00e9 Callan e o outro rapaz, Dawson, de tr\u00eas anos. No meio, com os cabelos presos por um la\u00e7o generoso, est\u00e1 Cora, de cinco anos. Outra fotografia mostra as tr\u00eas crian\u00e7as a brincar no sof\u00e1 de casa. Outra ainda mostra <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/search?pagina=1&amp;pesquisa=Lindsay+Clancy\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Lindsay Clancy<\/a> com os tr\u00eas filhos, todos sentados num banco de jardim: Cora faz caretas para a fotografia, Dawson olha para tr\u00e1s, Callan para o lado e Lindsay sorri. Parece estar tudo bem com uma t\u00edpica fam\u00edlia americana.<\/p>\n<p>Naquele 24 de janeiro de 2023, em que Boston ainda cheirava a Natal, com a neve a cobrir as ruas, o dia foi em quase tudo normal. Conta o jornal online <a href=\"https:\/\/www.boston.com\/news\/crime\/2023\/02\/17\/lindsay-clancy-timeline-january-24-duxbury-mother-children\/#utm_source=chatgpt.com\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Boston.com<\/a> que, pela manh\u00e3, Lindsay levou a filha mais velha ao pediatra e depois as duas brincaram na neve com Dawson. Lindsay enviou mesmo fotografias das brincadeiras \u00e0 m\u00e3e e ao marido.<\/p>\n<p>A rotina come\u00e7ou a mudar pelas 16:00, quando Lindsay come\u00e7ou a fazer pesquisas online sobre um laxante para crian\u00e7as e takeaway num restaurante local. \u00c0s 16:53 enviou uma mensagem ao marido a pedir que passasse no restaurante a comprar jantar. Ela pr\u00f3pria ligou para o restaurante a encomendar. Enquanto Patrick foi buscar a comida e o laxante para os filhos que a pr\u00f3pria mulher lhe pediu, Lindsay tentou matar os tr\u00eas filhos por estrangulamento e suicidar-se de seguida, mutilando-se e atirando-se da janela do quarto para a neve fria do jardim.<\/p>\n<p>Quando foram socorridas, as crian\u00e7as estavam em paragem cardiorrespirat\u00f3ria. Cora e Dawson foram declarados mortos poucos minutos depois, \u00e0s 19:28. O beb\u00e9 foi transportado de helic\u00f3ptero para o hospital, onde morreu tr\u00eas dias depois. Lindsay ficou parapl\u00e9gica. Comparece agora diante do tribunal com o olhar vazio, sem o sorriso das fotografias antigas e numa cadeira de rodas.<\/p>\n<p>Nas fotografias agora reproduzidas pelos jornais, o sorriso de Lindsay esconde os fantasmas contra os quais lutava desde setembro do ano anterior, altura em que, confessa, come\u00e7ou a sentir-se ansiosa com o regresso ao trabalho, depois do nascimento de Callan. De acordo com o jornal <a href=\"https:\/\/www.boston.com\/news\/crime\/2023\/02\/21\/lindsay-clancy-timeline-duxbury-mother-mental-health-treatment\/#utm_source=chatgpt.com\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Boston.com<\/a>, durante o julgamento o advogado de defesa apresentou provas de que Lindsay tomava 13 medicamentos diferentes para a ansiedade, depress\u00e3o e ins\u00f3nia. Estava com psicose p\u00f3s-parto. O marido disse em tribunal que ela lhe tinha confessado \u201cpensamentos intrusivos\u201d de provocar danos aos filhos e ideais suicidas. Ele diz que lhe perguntou se era seguro ela ficar sozinha com os filhos. Ela disse que sim. Ele confiou.<\/p>\n<p>O j\u00fari debate-se h\u00e1 v\u00e1rios dias com a decis\u00e3o: Lindsay \u00e9 culpada pela morte dos filhos ou a doen\u00e7a mental levou-a a isso? E, conhecendo Patrick o estado de sa\u00fade da mulher, pode ou n\u00e3o ser responsabilizado? A aus\u00eancia sucessiva de acordo entre o j\u00fari, que esta sexta-feira se re\u00fane para deliberar pelo s\u00e9timo dia consecutivo, mostra a dificuldade de julgamento.<\/p>\n<p>E se fosse em Portugal? <\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/5f4fc5be0cf2e21cf331934d.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   A legisla\u00e7\u00e3o portuguesa prev\u00ea a responsabiliza\u00e7\u00e3o do pai por omiss\u00e3o, em casos como o de Lindsay Clancy. (DR) <\/p>\n<p>Se o crime tivesse acontecido em Portugal, as d\u00favidas jur\u00eddicas n\u00e3o seriam menores. \u00c0 pergunta se um pai pode ser responsabilizado penalmente quando, sabendo da condi\u00e7\u00e3o mental da mulher, nada faz para impedir que ela fa\u00e7a mal aos filhos, o advogado penalista Tiago Geraldo, s\u00f3cio da Morais Leit\u00e3o, mostra-se cauteloso. \u201cComo com quase todas as quest\u00f5es jur\u00eddicas interessantes, a \u00fanica resposta rigorosa e honesta \u00e9: depende. Depende dos factos e do que se provar quanto a eles\u201d, come\u00e7a por sublinhar.<\/p>\n<p>\u201cMas, em termos abstratos, e assumindo em benef\u00edcio do racioc\u00ednio alguns pressupostos-base (psicose p\u00f3s-parto da m\u00e3e, conhecimento dessa condi\u00e7\u00e3o por parte do pai, aus\u00eancia do pai de casa com os tr\u00eas filhos em comum, que estavam aos cuidados da m\u00e3e, no momento em que as crian\u00e7as s\u00e3o mortas), a resposta \u00e9 sim. Em Portugal, o pai (este ou qualquer outro) poderia ser criminalmente responsabilizado, al\u00e9m da m\u00e3e, pela morte dos filhos\u201d, acrescenta, explicando que o pai poderia ser responsabilizado \u201cpor omiss\u00e3o\u201d. \u201cN\u00e3o por ter matado, mas por ter deixado morrer\u00a0as crian\u00e7as ou, dito de forma mais rigorosa, por n\u00e3o ter feito o que podia e devia fazer para evitar esse desfecho.\u201d<\/p>\n<p>Tiago Geraldo acrescenta que \u201ca responsabilidade penal por omiss\u00e3o tem requisitos adicionais e mais apertados\u201d do que a responsabilidade penal por a\u00e7\u00e3o \u201ce um deles \u00e9 precisamente a exist\u00eancia de uma posi\u00e7\u00e3o de garante\u201d. \u201cA posi\u00e7\u00e3o de garante vai muito al\u00e9m de uma obriga\u00e7\u00e3o moral ou de um dever geral de solidariedade: \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica material que imp\u00f5e ao respetivo titular um dever pessoal de evitar certos resultados (relacionados com crimes que prevejam como elemento constitutivo um certo resultado &#8211; por exemplo, no caso do homic\u00eddio, a morte), obrigando-o a atuar, no sentido de evitar ou reduzir as possibilidades de ocorr\u00eancia de um certo resultado, quando exista uma situa\u00e7\u00e3o de facto que coloque esse risco\u201d, explica o penalista.<\/p>\n<p>\u201cSe um dos progenitores se encontrar numa situa\u00e7\u00e3o de inimputabilidade, ou mesmo imputabilidade diminu\u00edda, o outro progenitor tem o dever de n\u00e3o expor filhos menores comuns \u00e0 guarda exclusiva do progenitor que se encontra naquela condi\u00e7\u00e3o. Isto, naturalmente, se essa guarda comportar um risco para a vida ou integridade f\u00edsica das crian\u00e7as\u201d, refor\u00e7a o advogado, que acrescenta que, no caso de ambos os progenitores estarem numa situa\u00e7\u00e3o afetiva est\u00e1vel, \u201cassumem reciprocamente posi\u00e7\u00f5es de garante um quanto ao outro, o que significa que est\u00e3o pessoalmente obrigados a atuar para evitar ocorr\u00eancias danosas quando um deles se encontre numa situa\u00e7\u00e3o de risco\u201d. E isto \u00e9 v\u00e1lido em rela\u00e7\u00e3o aos filhos, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao outro \u2013 a posi\u00e7\u00e3o de garante \u00e9 rec\u00edproca.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, como explica o advogado, em resposta escrita \u00e0 CNN Portugal, podemos estar a falar de responsabilidade por crime de homic\u00eddio doloso, por omiss\u00e3o, se se provar que o pai se tinha apercebido do real estado de sa\u00fade da m\u00e3e. \u201cSe, diferentemente, n\u00e3o se apercebeu desse risco (e, consequentemente, do dever de agir no sentido de o neutralizar ou diminuir), embora as circunst\u00e2ncias objetivas levassem um terceiro imparcial e objetivo a aperceber-se do mesmo, poder\u00e1 falar-se em responsabilidade pelo crime de homic\u00eddio negligente, tamb\u00e9m por omiss\u00e3o\u201d, ressalva Tiago Geraldo.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tenha o dever legal de procurar ajuda m\u00e9dica para a m\u00e3e, essa seria uma das formas do pai cumprir a sua posi\u00e7\u00e3o de garante quer perante os filhos, quer perante a pr\u00f3pria mulher.<\/p>\n<p>E Portugal at\u00e9 tem jurisprud\u00eancia que corrobora a responsabiliza\u00e7\u00e3o de pais cujos filhos foram mortos ou maltratados, sem que eles nada fizessem para o evitar. N\u00e3o envolvem exatamente quest\u00f5es de sa\u00fade mental no p\u00f3s-parto, mas ilustram a quest\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de garante. Tiago Geraldo lembra o caso de uma m\u00e3e que foi condenada por homic\u00eddio qualificado por omiss\u00e3o, por ter assistido \u00e0 agress\u00e3o fatal do companheiro sobre a filha de ambos, sem prestar socorro (ac\u00f3rd\u00e3o STJ 92\/20.6GAPNI.C1.S1). Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o caso de um pai que assistiu, sem se opor, aos maus-tratos infligidos pela madrasta ao filho (ac\u00f3rd\u00e3o STJ 540\/21.8T9STR-A.S1), foi condenado por viol\u00eancia dom\u00e9stica agravada, na forma omissiva. \u201cE, num caso que foi na altura bastante medi\u00e1tico, uma m\u00e3e foi condenada, tamb\u00e9m por homic\u00eddio qualificado por omiss\u00e3o, por ter entregado a sua filha como garantia\u00a0do pagamento de d\u00edvidas a terceiros, deixando-a confiada a estes \u00faltimos, que maltrataram e torturaram a crian\u00e7a, levando \u00e0 sua morte (ac\u00f3rd\u00e3o STJ 596\/22.6PCSTB.E1.S1)\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Depress\u00e3o p\u00f3s-parto vs. psicose p\u00f3s-parto <\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/5fc785ab0cf2c78555542c3a.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Depress\u00e3o p\u00f3s-parto e psicose p\u00f3s-parto n\u00e3o s\u00e3o a mesma coisa e os sinais que as diferem nem sempre s\u00e3o percet\u00edveis, alerta a psiquiatra Maria Moreno. (DR) <\/p>\n<p>O facto de uma mulher sofrer de depress\u00e3o p\u00f3s-parto n\u00e3o significa que ela possa constituir um perigo para os filhos. A psiquiatra Maria Moreno explica, ali\u00e1s, que \u201ca depress\u00e3o p\u00f3s-parto grave pode dar idea\u00e7\u00e3o suicida e pode levar ao suic\u00eddio\u201d, mas \u201c\u00e9 errado transformar depress\u00e3o p\u00f3s-parto em sin\u00f3nimo de perigo\u201d para o beb\u00e9. \u201cO homic\u00eddio dos filhos sem psicose n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, mas \u00e9 raro. Quando aparece perda de contacto com a realidade, entramos noutro territ\u00f3rio. Aqui, falamos de psicose p\u00f3s-parto. \u00c9 uma emerg\u00eancia. M\u00e3e e beb\u00e9 precisam de ajudam imediata!\u201d, alerta a m\u00e9dica, ressalvando que essa distin\u00e7\u00e3o \u201ctem de ficar muito clara\u201d. \u201cN\u00e3o podemos fazer com que uma m\u00e3e saia deste artigo com medo de contar ao m\u00e9dico que est\u00e1 com depress\u00e3o, ansiedade, irritabilidade ou que teve um pensamento assustador. Os pensamentos assustadores s\u00e3o muito frequentes\u201d, sublinha.<\/p>\n<p>\u201cNa depress\u00e3o p\u00f3s-parto, a mulher mant\u00e9m o contacto com a realidade. Na psicose, a mulher pode sentir e acreditar em coisas que n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade e ganhar a cren\u00e7a de que matar \u00e9, absurdamente, proteger ou salvar. Uma \u00e9 uma doen\u00e7a que precisamos de tratar. A outra \u00e9 uma emerg\u00eancia. Agora &#8211; e esta distin\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental &#8211; pensar \u2018tenho medo de fazer mal ao meu beb\u00e9\u2019 n\u00e3o \u00e9 o mesmo que querer faz\u00ea-lo. E n\u00e3o \u00e9 o mesmo que, numa psicose, acreditar que faz\u00ea-lo \u00e9 necess\u00e1rio\u201d, sublinha Maria Moreno.<\/p>\n<p>Os sinais de alerta de uma psicose p\u00f3s-parto podem nem sempre ser os mais claros, mas a psiquiatra ouvida pela CNN Portugal sublinha que \u00e9 preciso estar atento quando \u201ca mulher deixa de parecer ela pr\u00f3pria\u201d, quando a mulher n\u00e3o dorme, fica confusa, \u201cmuito acelerada\u201d, come\u00e7a a \u201couvir ou acreditar em coisas que n\u00e3o est\u00e3o a acontecer\u201d, come\u00e7a a \u201cter ideias estranhas sobre o beb\u00e9 ou falar em morrer ou fazer mal\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSempre que a mulher est\u00e1 diferente, n\u00e3o esperamos para ver se passa. O p\u00f3s-parto \u00e9 uma esp\u00e9cie de tempestade perfeita. H\u00e1 uma mudan\u00e7a de vida gigantesca, priva\u00e7\u00e3o de sono, uma nova identidade e a maior altera\u00e7\u00e3o hormonal que o corpo feminino atravessa em t\u00e3o pouco tempo ao longo da vida\u201d, refor\u00e7a a m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Maria Moreno alerta ainda que h\u00e1 sinais evidentes, mas outros \u201cnem tanto\u201d. A depress\u00e3o p\u00f3s-parto n\u00e3o est\u00e1 a acontecer s\u00f3 quando a mulher est\u00e1 anormalmente triste ou n\u00e3o consegue estabelecer liga\u00e7\u00e3o com o beb\u00e9. As altera\u00e7\u00f5es do sono, numa altura em que se tem um rec\u00e9m-nascido em casa e que, por isso mesmo, ningu\u00e9m dorme bem, s\u00e3o dif\u00edceis de avaliar. A irritabilidade, muitas vezes, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 cansa\u00e7o acumulado. A ansiedade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 excesso de zelo. \u201cUma m\u00e3e que n\u00e3o deixa ningu\u00e9m aproximar-se do beb\u00e9 pode ser vista como \u2018super-protetora\u2019, quando na verdade pode estar profundamente ansiosa. E, numa psicose, isto pode ser ainda mais dif\u00edcil, porque a pessoa n\u00e3o tem de estar permanentemente desorganizada ou \u2018fora de si\u2019. Pode ter momentos em que parece coerente, conversa normalmente, organiza tarefas e, ainda assim, ter altera\u00e7\u00f5es muito profundas do pensamento. \u00c9 por isso que eu teria muito cuidado com a ideia de que \u2018era imposs\u00edvel n\u00e3o perceber\u2019\u201d, diz.<\/p>\n<p>E se uma mulher com depress\u00e3o, por norma, tem \u201cconsci\u00eancia de que alguma coisa n\u00e3o est\u00e1 bem\u201d e a dificuldade reside mais em perceber o tamanho do problema ou em admitir que precisa de ajuda\u201d, no caso de uma psicose, quem est\u00e1 \u00e0 volta destas mulheres adquire uma import\u00e2ncia muito maior. \u201cNa psicose, a mulher pode deixar de perceber que est\u00e1 doente porque perdeu contacto com a realidade. Isso \u00e9 comum. A\u00ed, quem vive com ela tem de estar atento e \u00e9 essencial pedir ajuda na hora\u201d, esclarece a especialista.<\/p>\n<p>O sistema de sa\u00fade est\u00e1 preparado? <\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/617a7ef00cf25f36739786fd.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Recomenda\u00e7\u00f5es defendem o rastreio de sa\u00fade mental da m\u00e3e em contexto pedi\u00e1trico, uma vez que, no p\u00f3s-parto, o beb\u00e9 \u00e9 mais vezes visto por profissionais de sa\u00fade do que a m\u00e3e. (DR) <\/p>\n<p>A par do julgamento em que ela pr\u00f3pria \u00e9 a r\u00e9, Lindsay Clancy est\u00e1 a processar os m\u00e9dicos que a seguiam, alegando neglig\u00eancia m\u00e9dica por falha no diagn\u00f3stico e tratamento adequados.<\/p>\n<p>Na verdade, o papel dos profissionais de sa\u00fade na dete\u00e7\u00e3o atempada de uma depress\u00e3o p\u00f3s-parto ou de uma psicose p\u00f3s-parto \u00e9 fundamental. O obstetra Fernando Cirurgi\u00e3o, diretor do Servi\u00e7o de Obstetr\u00edcia e Ginecologia na Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, sublinha \u00e0 CNN Portugal que essa import\u00e2ncia \u00e9 transversal e vai desde o obstetra que ajudou a colocar o beb\u00e9 no mundo ao pediatra ou m\u00e9dico de medicina familiar que o segue nos meses seguintes.<\/p>\n<p>No p\u00f3s-parto, o beb\u00e9 \u00e9 mais vezes visto por profissionais de sa\u00fade do que a m\u00e3e. E \u00e9 precisamente por isso que v\u00e1rias recomenda\u00e7\u00f5es defendem\u00a0rastreio no contexto pedi\u00e1trico\u00a0(consultas de vigil\u00e2ncia do beb\u00e9) \u201cpara aumentar oportunidades de identifica\u00e7\u00e3o e encaminhamento\u201d.<\/p>\n<p>O especialista considera, contudo, que nem sempre o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade (SNS) est\u00e1 preparado para acolher as jovens m\u00e3es, do ponto de vista da sa\u00fade mental. H\u00e1 falta de recursos especializados, diz, e forma\u00e7\u00e3o insuficiente dos profissionais, reclama. \u201cMesmo quando detetado, o acesso a psic\u00f3logos e psiquiatras com forma\u00e7\u00e3o em sa\u00fade perinatal \u00e9 muito limitado no SNS, o que atrasa o in\u00edcio do tratamento. E muitos profissionais de sa\u00fade (incluindo obstetras, m\u00e9dicos de fam\u00edlia e enfermeiros) n\u00e3o se sentem capacitados para distinguir com seguran\u00e7a entre baby blues, depress\u00e3o p\u00f3s-parto e sinais de perturba\u00e7\u00f5es mais graves\u201d, admite.<\/p>\n<p>\u201cUm estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto revelou que\u00a0uma parte significativa dos profissionais de sa\u00fade na \u00e1rea perinatal n\u00e3o identifica corretamente os sintomas obsessivo-compulsivos, correndo o risco de os confundir com pensamentos psic\u00f3ticos ou depressivos. Este \u00e9 um alerta s\u00e9rio, pois o tratamento e as medidas de seguran\u00e7a (como a necessidade de afastar ou n\u00e3o a m\u00e3e do beb\u00e9) s\u00e3o completamente diferentes\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Em maio deste ano, arrancou a primeira p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade Mental Perinatal em Portugal, na Escola Superior de Enfermagem de S\u00e3o Francisco das Miseric\u00f3rdias (<a href=\"https:\/\/academy.autonoma.pt\/cursos\/saude-mental-perinatal\/?utm_source=google_ads&amp;utm_medium=search&amp;utm_campaign=paid_media&amp;gad_source=1&amp;gad_campaignid=24129809495&amp;gbraid=0AAAABCrjgJnMmnc05wkNT0982-JxAF3jz&amp;gclid=Cj0KCQjwteTUBhD4ARIsAEYjs3okvIBts5-YbEALwDv6cAuGxs1YWmRlHYIk_RWlXjyuv9o7U8MOiYsaAlNeEALw_wcB\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">ESESFM<\/a>), da Universidade Aut\u00f3noma de Lisboa. Para Fernando Cirurgi\u00e3o, a cria\u00e7\u00e3o deste curso mostra que falta de forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica nesta mat\u00e9ria \u201c\u00e9 uma lacuna reconhecida\u201d.<\/p>\n<p>&#8220;Descoordena\u00e7\u00e3o&#8221; entre cuidados <\/p>\n<p>Em Portugal, n\u00e3o h\u00e1 um rastreio generalizado de sa\u00fade mental das jovens m\u00e3es. Fernando Cirurgi\u00e3o lembra, ali\u00e1s, que \u201cas guidelines sublinham que rastrear s\u00f3 faz sentido com diagn\u00f3stico, tratamento e seguimento garantidos, incluindo resposta a crise\u201d.\u00a0Mas o m\u00e9dico reconhece que ainda h\u00e1 muita descoordena\u00e7\u00e3o entre cuidados e \u201ca informa\u00e7\u00e3o sobre o estado de sa\u00fade mental da mulher nem sempre \u00e9 transmitida de forma eficaz entre a maternidade e os Cuidados de Sa\u00fade Prim\u00e1rios\u201d. \u201cA pu\u00e9rpera pode cair\u00a0num vazio assistencial entre consultas\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>E uma das maiores falhas do SNS \u00e9 precisamente para com as mais vulner\u00e1veis \u2013 as mulheres com antecedentes psiqui\u00e1tricos, considera Fernando Cirurgi\u00e3o. \u201cEm Portugal,\u00a0n\u00e3o existe, por norma, um plano de sa\u00fade mental perinatal formalizado e estruturado para mulheres com antecedentes psiqui\u00e1tricos\u00a0(depress\u00e3o, bipolaridade, psicose, tentativas de suic\u00eddio)\u201d, diz.<\/p>\n<p>E essa aten\u00e7\u00e3o especial, sublinha o m\u00e9dico, devia passar por \u201cum \u2018plano de seguran\u00e7a\u2019 antes da alta, que envolvesse a equipa de sa\u00fade, a mulher e o companheiro, definindo quem acompanha a m\u00e3e, quem contactar numa crise e em que circunst\u00e2ncias ela n\u00e3o deve ficar sozinha com o beb\u00e9\u201d. \u201cN\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica comum\u201d, resume, acrescentando que \u201co que acontece muitas vezes \u00e9 uma \u2018referencia\u00e7\u00e3o\u2019 para a consulta de psiquiatria, com pouca articula\u00e7\u00e3o com a equipa que acompanha a gravidez e o parto\u201d.<\/p>\n<p>Um mero acompanhante que &#8220;podia salvar vidas&#8221; <\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/69b9a0cfd34edcee7c61fc5b.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Apesar de as boas pr\u00e1ticas sugerirem o contr\u00e1rio, o pai ainda\u00a0 \u201cmaioritariamente visto como um acompanhante&#8221;, lamenta Fernando Cirurgi\u00e3o. (DR) <\/p>\n<p>As boas pr\u00e1ticas recomendam o envolvimento do pai, mas a realidade \u00e9 que o homem ainda \u00e9 \u201cmaioritariamente visto como um acompanhante, e n\u00e3o como um parceiro ativo na vigil\u00e2ncia da sa\u00fade mental materna\u201d, considera Fernando Cirurgi\u00e3o.\u00a0\u201cEmbora haja uma crescente consciencializa\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia do seu papel, a pr\u00e1tica cl\u00ednica ainda est\u00e1 longe do ideal. N\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica comum os profissionais de sa\u00fade ensinarem sistematicamente os companheiros a reconhecer os sinais de alarme psicol\u00f3gicos, nem darem instru\u00e7\u00f5es claras sobre o que fazer. N\u00e3o existe, de forma generalizada, um \u2018plano de seguran\u00e7a\u2019 formal que o envolva\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>E se um pai pode ser responsabilizado criminalmente num caso como o de Lindsay Clancy, n\u00e3o faria ent\u00e3o sentido ele ser preparado para isso? \u201cFaria todo o sentido\u201d, responde, sem hesitar, o obstetra.<\/p>\n<p>\u201cTal como se ensinam os sinais f\u00edsicos de alarme no beb\u00e9 (febre, dificuldade respirat\u00f3ria, etc.), tamb\u00e9m fazia sentido que se dessem aos pais informa\u00e7\u00f5es claras sobre os sinais de alarme relativos \u00e0 sa\u00fade mental materna. Isto faz parte da literacia em sa\u00fade mental. Capacitar o companheiro para reconhecer sinais de alerta como a tristeza profunda e persistente, a ansiedade extrema, a confus\u00e3o ou a incapacidade de cuidar de si ou do beb\u00e9, e dar-lhe instru\u00e7\u00f5es claras sobre quem contactar (SNS24, servi\u00e7o de urg\u00eancia, m\u00e9dico de fam\u00edlia) poderia salvar vidas\u201d, sublinha.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nota do editor: se est\u00e1 ou conhece algu\u00e9m que esteja a debater-se com pensamentos suicidas ou quest\u00f5es de sa\u00fade mental, por favor ligue para a\u00a0Linha de Preven\u00e7\u00e3o do Suic\u00eddio e Apoio Psicol\u00f3gico &#8211; 1411 &#8211; ou para a linha de crise\u00a0Voz Amiga 213 544 545 | 963 524 660, para o SNS24 (808 24 24 24) ou para o 112, ou consulte o site prevenirsuicidio.pt<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A discuss\u00e3o em torno da responsabiliza\u00e7\u00e3o de Patrick Clancy pela morte dos tr\u00eas filhos, sabendo ele que a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":511548,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[50],"tags":[609,836,611,27,28,607,608,333,832,604,62286,135,610,476,15,16,301,830,14,603,25,26,79533,570,8204,21,22,831,833,3968,62,834,12,13,19,20,835,602,52,32,5617,23,24,80775,1030,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":["post-511547","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mundo","tag-alerta","tag-analise","tag-ao-minuto","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-comentadores","tag-costa","tag-crime","tag-depressao-pos-parto","tag-desporto","tag-direto","tag-economia","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-governo","tag-guerra","tag-headlines","tag-justica","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-lindsay-clancy","tag-live","tag-mae","tag-main-news","tag-mainnews","tag-mais-vistas","tag-marcelo","tag-mulher","tag-mundo","tag-negocios","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-opiniao","tag-pais","tag-politica","tag-portugal","tag-pos-parto","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-psicose-pos-parto","tag-saude-mental","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias","tag-world","tag-world-news","tag-worldnews"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/511547","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=511547"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/511547\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/511548"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=511547"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=511547"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=511547"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}