{"id":511817,"date":"2026-09-04T15:40:10","date_gmt":"2026-09-04T15:40:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/511817\/"},"modified":"2026-09-04T15:40:10","modified_gmt":"2026-09-04T15:40:10","slug":"como-um-antigo-satelite-espiao-podera-ajudar-a-desvendar-os-maiores-misterios-do-universo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/511817\/","title":{"rendered":"Como um antigo sat\u00e9lite espi\u00e3o poder\u00e1 ajudar a desvendar os maiores mist\u00e9rios do universo"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\">Assine a revista National Geographic agora por apenas <b>1\u20ac por m\u00eas<\/b>.<\/p>\n<p>Sob o tecto alto como o de uma catedral de umas <strong>instala\u00e7\u00f5es altamente controladas da NASA no estado americano de Maryland<\/strong>, um gigantesco telesc\u00f3pio espacial est\u00e1 deitado de lado: uma massa colossal em tons de cinzento metalizado e negro obsidiana. O seu espelho banhado a prata est\u00e1 escondido, envolto num inv\u00f3lucro protector, e os seus <strong>pain\u00e9is solares, pontilhados por milhares de c\u00e9lulas brilhantes que ir\u00e3o absorver a energia do Sol<\/strong>, est\u00e3o dobrados \u00e0 sua volta, como p\u00e9talas de uma flor que antecipa a escurid\u00e3o da noite.<\/p>\n<p>Algumas dezenas de t\u00e9cnicos deslocam-se em redor da estrutura. As suas vozes ecoam na c\u00e2mara cavernosa. Alguns sobem em elevadores de constru\u00e7\u00e3o para inspeccionarem a robusta estrutura branca que circunda o observat\u00f3rio. \u201cEstamos a come\u00e7ar opera\u00e7\u00f5es perigosas\u201d, diz um dos t\u00e9cnicos-chefe ao grupo e, pouco depois, o topo da sala come\u00e7a a zumbir com o movimento da maquinaria.<\/p>\n<p>\u00c9 um dia de Junho no <a href=\"https:\/\/www.nasa.gov\/goddard\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><strong>Centro de Voo Espacial Goddard, da NASA<\/strong><\/a>, e a equipa est\u00e1 a embalar o novo <strong>Telesc\u00f3pio Espacial Nancy Grace Roman <\/strong>para envi\u00e1-lo para a costa debruada por palmeiras da Florida, onde o potente <strong>foguete Falcon Heavy, da SpaceX<\/strong>, ir\u00e1 lan\u00e7\u00e1-lo para o c\u00e9u. Uma grua gigante desliza lentamente junto ao tecto, controlada por um t\u00e9cnico que manuseia um joystick c\u00e1 em baixo. O mecanismo assume a posi\u00e7\u00e3o certa e depois desce, tal como uma garra todo-poderosa de um jogo de arcada, pronta para pegar no seu pr\u00e9mio de <strong>4.300 milh\u00f5es de d\u00f3lares e 9.100 quilogramas<\/strong>. \u201cEstou sempre em pulgas com este tipo de coisas\u201d, diz-me Tim Aland, gestor adjunto de testes e integra\u00e7\u00e3o do observat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O telesc\u00f3pio Roman \u00e9 a mais recente grande miss\u00e3o astrof\u00edsica da NASA e o seu lan\u00e7amento estava agendado para dia 30 de Agosto. Depois de chegado ao seu poleiro distante, a 1,6 milh\u00f5es de quil\u00f3metros da Terra, <strong>o Roman come\u00e7a a captar vistas amplas do universo <\/strong>com uma combina\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de velocidade e sensibilidade. Segundo Nicky Fox, administradora adjunta das miss\u00f5es cient\u00edficas da NASA, o volume de dados enviado para casa ser\u00e1 suficiente para fazer \u201cuma pilha hipot\u00e9tica de ensaios cient\u00edficos capaz de chegar \u00e0 Lua\u201d.<\/p>\n<p>Durante os seus primeiros cinco anos de funcionamento, o Roman ir\u00e1 <strong>observar centenas de milh\u00f5es de gal\u00e1xias e as in\u00fameras estrelas <\/strong>nelas contidas, bem como centenas de milh\u00f5es de estrelas da nossa pr\u00f3pria Via L\u00e1ctea. Estes pontos de dados brilhantes, j\u00e1 de si enormes e fascinantes enquanto observa\u00e7\u00f5es individuais, ir\u00e3o, colectivamente, ajudar os cientistas a<strong> estudar os componentes invis\u00edveis do universo, a mat\u00e9ria escura e a mat\u00e9ria negra<\/strong>, que s\u00e3o dois dos mist\u00e9rios mais enigm\u00e1ticos da ci\u00eancia. Juntas, representam cerca de 95 por cento da composi\u00e7\u00e3o do universo \u2013 e s\u00e3o fundamentais para compreender a sua origem, bem como o seu eventual fim. Os astr\u00f3nomos tamb\u00e9m ir\u00e3o <strong>examinar a luz das estrelas da nossa gal\u00e1xia em busca de mundos alien\u00edgenas<\/strong>, acrescentando dezenas de milhares de planetas conhecidos ao cat\u00e1logo j\u00e1 existente.<\/p>\n<p>Hoje, por\u00e9m, o Roman est\u00e1 dentro da sala limpa, a maior do seu g\u00e9nero em todo o mundo, concebida para proteger equipamentos destinados ao espa\u00e7o de serem contaminados pelo ser humano. Visto o mesmo uniforme que todos os outros, que me tapa dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a: m\u00e1scara facial, toca, um fato-macaco num tecido branco delicado, duas camadas de protec\u00e7\u00f5es para sapatos, luvas de l\u00e1tex azuis fixadas com fita-cola em volta dos pulsos e um capuz que parece a extremidade arredondada de marshmallow. Os telem\u00f3veis n\u00e3o s\u00e3o permitidos, mas os gestores do Roman deixam-me levar o meu, sob a condi\u00e7\u00e3o de o utilizar apenas para gravar \u00e1udio e manter o equipamento em modo de avi\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim equipados, apenas os nossos olhos s\u00e3o vis\u00edveis e est\u00e3o todos apontados para o mecanismo da grua que agarra a estrutura em volta do Roman. O objectivo \u00e9 levantar o observat\u00f3rio e faz\u00ea-lo pairar at\u00e9 \u00e0 metade inferior de um contentor de transporte, que \u00e9 tamb\u00e9m como uma sala limpa em miniatura, com clima controlado. Os trabalhadores j\u00e1 deslocaram o Roman v\u00e1rias vezes durante a montagem e os testes, mas nunca fizeram esta sequ\u00eancia de movimentos em particular.<\/p>\n<p>\u201cEngasgo-me de vez em quando\u201d, diz Mark Melton, engenheiro-chefe do Roman \u2013 que se juntou ao projecto quando o telesc\u00f3pio era apenas uma apresenta\u00e7\u00e3o de PowerPoint \u2013 enquanto o admira sob a grua. \u00c0 sombra do telesc\u00f3pio, os pr\u00f3prios t\u00e9cnicos parecem pequenos extraterrestres, ultimando os preparativos da sua mais recente cria\u00e7\u00e3o celestial. Se nos afastarmos ainda mais, parecer\u00e3o os membros de uma civiliza\u00e7\u00e3o relativamente nova de navegadores espaciais, que vive num dos bra\u00e7os reluzentes da sua gal\u00e1xia, ansiosa por explorar o reino que se estende acima das nuvens do seu planeta.<\/p>\n<p>O telesc\u00f3pio Roman, com o seu espelho principal, um elegante disco de vidro com 2,4metros de di\u00e2metro, esteve outrora abandonado num armaz\u00e9m no norte do estado de Nova Iorque, onde ningu\u00e9m deveria saber da sua exist\u00eancia. O telesc\u00f3pio pertencia ao National Reconnaissance Office, a ag\u00eancia que comanda os <strong>sat\u00e9lites espi\u00f5es <\/strong>dos EUA, e destinava-se a uma exist\u00eancia clandestina em \u00f3rbita, com o seu olhar dissimulado perpetuamente virado para a Terra. Mas a empresa contratada para gerir o programa de imagiologia do sat\u00e9lite r<a href=\"http:\/\/spacenews.com\/donated-space-telescopes-are-remnants-of-failed-nro-program\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">ebentou com o or\u00e7amento e os prazos<\/a> de tal ordem que as autoridades cancelaram o empreendimento em 2005. Os seus restos permaneceram ali at\u00e9 2011, quando<strong> o gabinete de espionagem os ofereceu, <a href=\"http:\/\/www.nbcnews.com\/id\/wbna47679801\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">gratuitamente, \u00e0 NASA<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p>Na altura, o Telesc\u00f3pio Espacial Hubble ainda estava a fazer descobertas ap\u00f3s duas semanas em \u00f3rbita e os t\u00e9cnicos estavam a trabalhar nos espelhos para o Telesc\u00f3pio Espacial James Webb, que seria lan\u00e7ado em 2021. No entanto, os cientistas j\u00e1 estavam a desenvolver o conceito para mais um observat\u00f3rio. A ag\u00eancia espacial, n\u00e3o desdenhando de um telesc\u00f3pio oferecido, aceitou o equipamento de espionagem e come\u00e7ou a trabalhar na sua reconfigura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA maioria das pessoas ficaram excitadas com isto\u201d, diz John Grunsfeld, f\u00edsico, astronauta reformado e antigo oficial da NASA que supervisionou a remodela\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina. Apesar disso, diz Grunsfeld, alguns mostraram-se c\u00e9pticos quanto \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o da tecnologia existente para um fim completamente diferente, incluindo engenheiros que estavam ansiosos por construir equipamentos de raiz, fazendo as suas pr\u00f3prias escolhas de design em vez de adaptarem um equipamento em segunda m\u00e3o. \u201cTeve os seus desafios\u201d, diz ele. O revestimento original do espelho do sat\u00e9lite espi\u00e3o foi removido, o vidro ganhou novas formas e foi finamente polido de modo a atingir os requisitos desejados para examinar o cosmo. Os elementos \u00f3pticos foram rigorosamente testados sobre as temperaturas mais frias que teriam de suportar durante o seu funcionamento num telesc\u00f3pio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/missao_c6303d95_260903181508_800x1004.webp\" alt=\"Miss\u00e3o\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"1004\" data-aspectratio=\"800\/1004\"\/>&#13;Michael Seeley<\/p>\n<p>A miss\u00e3o recebeu o nome da primeira chefe de astronomia da NASA, <strong>Nancy Grace Roman<\/strong>, que foi tamb\u00e9m a <strong>primeira mulher a ocupar uma posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a na ag\u00eancia<\/strong>. Nancy Roman estudou astronomia na d\u00e9cada de 1940 e doutorou-se no tema, apesar da discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero generalizada da \u00e9poca. \u201cDisseram-me desde o in\u00edcio que as mulheres n\u00e3o podiam ser cientistas\u201d, <a href=\"http:\/\/science.nasa.gov\/people\/nancy-roman\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">disse ela, mais tarde<\/a>. Em 1959, um funcion\u00e1rio da NASA perguntou a Nancy, que estava ent\u00e3o a investigar as propriedades das estrelas da Via L\u00e1ctea, se ela conhecia algu\u00e9m que quisesse montar um programa de astronomia na ag\u00eancia, que tinha ainda poucos meses de idade. Ela sugeriu-se a si pr\u00f3pria para o trabalho e f\u00ea-lo durante 20 anos.<\/p>\n<p>Nancy Roman, que morreu em 2018, promoveu a cria\u00e7\u00e3o do Hubble. <a href=\"http:\/\/news.uchicago.edu\/story\/nasa-names-telescope-after-pioneering-astronomer-nancy-grace-roman\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Organizou<\/a> um grupo de astr\u00f3nomos e engenheiros para imaginar um conceito para um telesc\u00f3pio e depois passou anos a exercer influ\u00eancia junto de legisladores do Congresso a fim de obter financiamento. O Hubble revelou um universo iluminado por gal\u00e1xias, mas as mais distantes encontravam-se para al\u00e9m da sua capacidade de observa\u00e7\u00e3o, ocultando-se na luz infravermelha que o telesc\u00f3pio n\u00e3o conseguia captar. E embora o Webb seja capaz de espreitar suficientemente no campo dos infravermelhos para vislumbrar as gal\u00e1xias primitivas, tem um campo de vis\u00e3o muito mais estreito. O Roman far\u00e1 algo que nenhum dos seus dois antecessores foi programado para fazer:<strong> a sua vis\u00e3o ser\u00e1 gloriosamente ampla, cerca de cem vezes superior \u00e0 do Hubble, e conseguir\u00e1 captar luz vis\u00edvel e no infravermelho pr\u00f3ximo<\/strong>. Segundo os cientistas, a lista de especifica\u00e7\u00f5es do Roman \u00e9 particularmente adequada para sondar a hist\u00f3ria do universo, desde o seu in\u00edcio intrigante ao seu fim incerto.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s<strong> quinze anos em constru\u00e7\u00e3o<\/strong>, o telesc\u00f3pio hom\u00f3nimo de Roman est\u00e1 pronto para se aventurar no vazio.<\/p>\n<p>O transporte e manuseio de equipamentos c\u00f3smicos n\u00e3o \u00e9 um processo que se apresse e exige algum esfor\u00e7o f\u00edsico. Antes de o Roman fazer qualquer tipo de desloca\u00e7\u00e3o, os trabalhadores do Goddard t\u00eam de retirar o observat\u00f3rio do suporte onde se encontra montado na sala limpa <strong>desaparafusando as 192 cavilhas de fixa\u00e7\u00e3o<\/strong>. Come\u00e7am por utilizar chaves inglesas enormes e ouve-se ocasionalmente um tinido na c\u00e2mara, semelhante ao latir em staccato de um lulu-da-Pomer\u00e2nia. Alguns trabalhadores aproximam-se at\u00e9 cerca de meio metro do Roman e retiram um cabo enrolado do seu uniforme, fixando-o a um cabo que serpenteia pelo observat\u00f3rio para libertarem a electricidade est\u00e1tica do seu corpo. \u201cQuando tocamos numa ma\u00e7aneta no Inverno e sentimos aquele choque \u2013 se uma pessoa conseguisse sentir isso, iria obliterar as componentes electr\u00f3nicas da nave espacial\u201d, explica Missie Vess, engenheira de sistemas de naves espaciais da miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu, Melton e Vess estamos agora no mezanino da sala limpa, a observar a ac\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s horas de <strong>desaparafusamento met\u00f3dico<\/strong> \u2013 \u00e9 mesmo verdade, este trabalho n\u00e3o pode ser apressado \u2013 a equipa deparou-se com um obst\u00e1culo. \u00c0 medida que as cavilhas foram sendo removidas, <strong>a distribui\u00e7\u00e3o do peso do Roman foi alternando sobre a grua, inclinando-a ligeiramente<\/strong>. \u201cN\u00e3o est\u00e1 precisamente nivelada\u201d, explica Melton, e as duas \u00faltimas cavilhas est\u00e3o presas. E sua remo\u00e7\u00e3o tem de ser quase impercept\u00edvel. A aplica\u00e7\u00e3o de for\u00e7a bruta acarreta o <strong>risco de danificar o equipamento e contaminar a maquinaria<\/strong>.<\/p>\n<p>Por isso, os t\u00e9cnicos come\u00e7am a puxar cordas compridas penduradas de ambos os lados do telesc\u00f3pio, fazendo badalar o sino mec\u00e2nico do sistema de roldanas. Fazem uma pausa ap\u00f3s cada tentativa para verificar o alinhamento do Roman. \u00c9 uma demonstra\u00e7\u00e3o deliciosamente antiquada de conhecimento da f\u00edsica, <strong>um simples cen\u00e1rio mec\u00e2nico que os matem\u00e1ticos resolveram h\u00e1 muitos s\u00e9culos<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 o tipo de f\u00edsica que mant\u00e9m os astrof\u00edsicos te\u00f3ricos acordados durante a noite \u2013 as quest\u00f5es misteriosas, esquivas e existenciais que Roman poder\u00e1 ajudar a esclarecer em breve.<\/p>\n<p><strong>Estamos completamente rodeados por mat\u00e9ria escura.<\/strong> Pelo menos, os f\u00edsicos acham que tem de existir para os seus modelos do universo fazerem algum sentido, embora a subst\u00e2ncia nunca tenha sido observada directamente e se desconhe\u00e7a a sua composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Os astr\u00f3nomos <a href=\"http:\/\/public.nrao.edu\/radio-astronomy\/dark-matter\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">suspeitaram<\/a> da exist\u00eancia da mat\u00e9ria escura pela primeira vez na d\u00e9cada de 1930<\/strong> e ficaram convencidos ap\u00f3s <a href=\"http:\/\/www.economist.com\/the-world-in-brief\/2026\/07\/04\/322b6c9c-220e-4403-baef-28b23dad008b\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">observa\u00e7\u00f5es fundamentais<\/a> realizadas na d\u00e9cada de 1970. Independentemente da direc\u00e7\u00e3o na qual olhassem, as gal\u00e1xias desafiavam as regras que pensamos reger a massa e a gravidade, permanecendo intactas quando deveriam estar a afastar-se. Os cientistas determinaram que, <strong>embora esta estranha forma de mat\u00e9ria n\u00e3o reflicta nem emita luz, possui gravidade e exerce essa for\u00e7a para atrair g\u00e1s e poeira c\u00f3smica, juntando-os para formar estrelas, gal\u00e1xias e requintados aglomerados de gal\u00e1xias<\/strong>. A mat\u00e9ria escura \u201ccriou toda a estrutura do universo \u00e0 nossa volta\u201d, diz Dominic Benford, astrof\u00edsico e cientista do programa do Roman. Depois deu origem a \u201csistemas solares e planetas e c\u00e3es e gatos e essas coisas todas\u201d, diz.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o dos cientistas, existe muito mais mat\u00e9ria escura do que mat\u00e9ria comum no universo e eles passaram d\u00e9cadas a teorizar sobre o que poder\u00e1 ser \u2013 imaginando part\u00edculas hipot\u00e9ticas de mat\u00e9ria escura e realizando experi\u00eancias complexas para capt\u00e1-las. A miss\u00e3o do Roman ocorre num momento fascinante desta discuss\u00e3o, diz Priya Natarajan, astrof\u00edsica te\u00f3rica de Yale. \u201cAinda n\u00e3o encontr\u00e1mos a part\u00edcula e n\u00e3o estamos minimamente perto de encontrar a part\u00edcula\u201d, Natarajan diz. \u201cA situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito difusa, mas \u00e9 difusa de uma forma que nos exige avan\u00e7ar em direc\u00e7\u00e3o a algo novo.\u201d<\/p>\n<p>Os principais candidatos \u2013 <strong>part\u00edculas pesadas e lentas conhecidas como WIMPs<\/strong> (part\u00edculas maci\u00e7as de interac\u00e7\u00e3o fraca) \u2013 ainda est\u00e3o em jogo, mas nos \u00faltimos anos os cientistas come\u00e7aram a ponderar seriamente outras possibilidades, nomeadamente os <strong><a href=\"http:\/\/physicsworld.com\/a\/dark-matters-secret-identity-wimps-or-axions\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">axi\u00f5es<\/a><\/strong>, part\u00edculas te\u00f3ricas que se transformam em unidades min\u00fasculas de luz em campos electromagn\u00e9ticos extremos, e <strong><a href=\"http:\/\/www.scientificamerican.com\/article\/dark-matter-black-holes-could-fly-through-the-solar-system-once-a-decade\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">buracos negros primordiais<\/a><\/strong>, que poderiam estar amachucados nos prim\u00f3rdios do universo.<\/p>\n<p>Para ajudar a testar estes modelos, o Roman ir\u00e1 observar um fen\u00f3meno conhecido como<strong> efeito de lente gravitacional forte<\/strong>, que ocorre quando a gravidade de uma gal\u00e1xia na nossa linha de vis\u00e3o curva o trajecto da luz emanada por uma gal\u00e1xia situada directamente atr\u00e1s dela, mostrando-nos vistas distorcidas do objecto mais distante. Os cientistas podem analisar a luz encurvada em busca de distor\u00e7\u00f5es min\u00fasculas causadas por aglomerados de mat\u00e9ria escura, que lhes permitam perceber a potencial estrutura do material invis\u00edvel existente entre as gal\u00e1xias.<\/p>\n<p>Espera-se que o Roman revele <strong>centenas destes casos de distor\u00e7\u00e3o de luz gal\u00e1ctica no tempo c\u00f3smico<\/strong>. \u201cIsto vai mudar a \u00e1rea [de conhecimento]\u201d, diz Natarajan. Os astr\u00f3nomos n\u00e3o v\u00e3o encontrar a part\u00edcula de mat\u00e9ria escura propriamente dita, diz ela, mas v\u00e3o ter mais certezas do que nunca sobre a direc\u00e7\u00e3o que os seus estudos devem seguir.<\/p>\n<p>Mustapha Ishak-Boushaki, um astrof\u00edsico te\u00f3rico da universidade do Texas, em Dallas, espera uma inova\u00e7\u00e3o semelhante no estudo da <strong>energia escura<\/strong>, uma for\u00e7a fantasma que exerce uma influ\u00eancia poderosa no destino do universo. H\u00e1 mais de um s\u00e9culo, os astr\u00f3nomos que estudavam o brilho emitido por gal\u00e1xias distantes aperceberam-se de que esses sistemas celestes estavam a afastar-se de n\u00f3s e que, quanto mais longe se encontrassem da Terra, mais depressa pareciam deslocar-se. Os astr\u00f3nomos conclu\u00edram que <strong>o pr\u00f3prio tecido do espa\u00e7o-tempo estava a esticar-se ao longo do tempo<\/strong>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/missao_c6303d95_260903181508_800x1004.webp\" alt=\"Miss\u00e3o\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"1004\" data-aspectratio=\"800\/1004\"\/>&#13;Michael Seeley<\/p>\n<p>Em 1998, investigadores que tentavam medir esta expans\u00e3o <a href=\"http:\/\/news.berkeley.edu\/2026\/08\/18\/expanding-whats-known-about-our-fast-expanding-universe\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">descobriram<\/a> que ela estava a acelerar, surpreendendo a comunidade cient\u00edfica. \u201cPens\u00e1mos que iria abrandar, como acontece quando atiramos uma bola ao ar\u201d, diz Ishak-Boushaki. \u201cEla sobe, sobe, sobe, abranda, p\u00e1ra e volta a descer por causa da gravidade.\u201d Em vez disso, <strong>uma for\u00e7a invis\u00edvel estava a acelerar a infla\u00e7\u00e3o do cosmo e poderia eventualmente conduzi-lo rumo a uma exist\u00eancia sombria e vazia<\/strong>.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria sofreu uma viragem dram\u00e1tica no ano passado, quando os astr\u00f3nomos <a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2025\/03\/19\/science\/space\/astronomer-desi-dark-energy.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">apresentaram evid\u00eancias convincentes<\/a> de que a energia escura, que era desde h\u00e1 muito considerada uma for\u00e7a constante e imut\u00e1vel, poder\u00e1, na verdade, ser um<strong> fen\u00f3meno din\u00e2mico capaz de evoluir ao longo do tempo<\/strong>. Segundo diz Ishak-Boushaki, o censo realizado pelo Roman a centenas de estrelas explosivas poder\u00e1 ajudar a confirmar este resultado, orientando-nos possivelmente em direc\u00e7\u00e3o a um destino c\u00f3smico diferente, no qual a expans\u00e3o desenfreada possa cessar, conduzindo a um universo est\u00e1vel, ou inverter o seu rumo, esmagando tudo num ponto singular e insonoro.<\/p>\n<p>Ou talvez haja outra reviravolta: <strong>a energia escura pode nem sequer existir<\/strong>. Aquilo que os cientistas pensam ser energia escura poder\u00e1, na verdade, dever-se aos <strong>efeitos de for\u00e7as gravitacionais ainda por descobrir<\/strong>. Para sondar esta possibilidade, os cientistas utilizar\u00e3o as observa\u00e7\u00f5es de grande angular de aglomerados sucessivos de gal\u00e1xias captadas pelo Roman para <strong>cartografar os andaimes c\u00f3smicos<\/strong>. \u201cTalvez a gravidade naquelas escalas maiores do universo seja diferente\u201d, diz Ishak-Boushaki.<\/p>\n<p>No Centro Goddard, as for\u00e7as da natureza acabam por colaborar, libertando as \u00faltimas cavilhas e, subitamente, o Roman fica suspenso no ar. Segurado pela grua, desloca-se com uma quietude quase sobrenatural ao longo da sala como se deslizasse sobre um corpo de \u00e1gua invis\u00edvel, seguido por um mar de olhos desencarnados. Melton e os outros engenheiros que se encontram \u00e0 minha volta, entusiasmados com o espect\u00e1culo \u2013 e talvez tontos depois de terem estado quase sete horas em p\u00e9 a olhar fixamente para aquilo \u2013 desatam a cantarolar as<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Szdziw4tI9o\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> famosas notas de <\/a><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Szdziw4tI9o\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">2001<\/a>: Odisseia no Espa\u00e7o,uma melodia que anuncia um come\u00e7o grandioso.<\/p>\n<p>O momento assinala o in\u00edcio de algo mais do que um empreendimento. <strong>O Roman cont\u00e9m a semente da ideia da pr\u00f3xima grande miss\u00e3o da astrof\u00edsica.<\/strong> Para al\u00e9m dos seus instrumentos cient\u00edficos principais, o observat\u00f3rio transportar\u00e1 um <strong>sistema experimental in\u00e9dito para fotografar directamente exoplanetas <\/strong>\u2013 planetas que orbitam outras estrelas. O <strong>coron\u00f3grafo<\/strong>, um conjunto sofisticado de m\u00e1scaras, prismas e espelhos, funciona suprimindo o brilho radiante de uma estrela e captando a luz delicada reflectida pelos planetas que a orbitam, um <strong>enorme desafio t\u00e9cnico a anos-luz de dist\u00e2ncia<\/strong>.<\/p>\n<p>O instrumento ir\u00e1 focar-se em mundos j\u00e1 identificados para treinar. \u201cOs planetas que estamos a tentar ver s\u00e3o milhares de milh\u00f5es de vezes mais t\u00e9nues do que as suas estrelas hospedeiras\u201d, diz Jason Wang, astr\u00f3nomo da Northwestern University que trabalha em t\u00e9cnicas de imagiologia de exoplanetas. \u201cBasta um brilho disperso da estrela para abafar o sinal emitido por esses planetas.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/mascara-focal_bb9c0427_260903181719_800x532.webp\" alt=\"M\u00e1scara focal \" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"532\" data-aspectratio=\"800\/532\"\/>&#13;NASA\/JPL<\/p>\n<p>A m\u00e1scara focal do coron\u00f3grafo do telesc\u00f3pio, vis\u00edvel nesta imagem, \u00e9 utilizada para suprimir a luz das estrelas e revelar os planetas que orbitam uma estrela. Cada sec\u00e7\u00e3o circular cont\u00e9m v\u00e1rias \u201cm\u00e1scaras\u201d \u2013 obstru\u00e7\u00f5es opacas cuidadosamente desenhadas para bloquear a luz estelar.<\/p>\n<p>O Roman tamb\u00e9m ir\u00e1 procurar novos mundos sem utilizar o coron\u00f3grafo e espera-se que descubra <strong>at\u00e9 100.000 exoplanetas entre a Terra e o centro da gal\u00e1xia <\/strong>usando uma particularidade da gravidade para detectar o movimento dos planetas em redor de outras estrelas. Mas o Roman n\u00e3o conseguir\u00e1 encontrar um g\u00e9meo verdadeiro da Terra: um exoplaneta rochoso do nosso tamanho, orbitando na zona habit\u00e1vel da sua estrela hospedeira. O mesmo se aplica ao Hubble e ao Webb. Este tipo de mundos s\u00e3o \u201ccomo um pirilampo ao lado de um holofote\u201d, diz Grant Tremblay, astrof\u00edsico do Centro de Astrof\u00edsica Harvard-Smithsonian.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que <strong>os engenheiros esperam estudar o desempenho do coron\u00f3grafo do Roman para finalizar os designs do pr\u00f3ximo grande telesc\u00f3pio, o Habitable Worlds Observatory<\/strong>, que ser\u00e1 lan\u00e7ado na d\u00e9cada de 2040. Esta miss\u00e3o ir\u00e1 procurar planetas do tamanho da Terra na \u00f3rbita de estrelas pr\u00f3ximas semelhantes ao Sol, utilizando as caracter\u00edsticas do nosso planeta como guia para detectar potenciais sinais de vida nas suas atmosferas. Captar a luz filtrada por uma atmosfera alien\u00edgena exige um telesc\u00f3pio capaz de permanecer quase im\u00f3vel, sem nenhuma oscila\u00e7\u00e3o que desfoque as suas observa\u00e7\u00f5es, diz Tremblay. Os telesc\u00f3pios vibram devido ao funcionamento dos seus sistemas internos e, mesmo no espa\u00e7o, podem abanar, sacudidos pela brisa suave do vento solar. \u201cAlguns engenheiros acham que isto n\u00e3o \u00e9 solucion\u00e1vel e algumas pessoas s\u00e3o muito optimistas\u201d, diz Tremblay. <strong>Uma das possibilidades implica dividir o observat\u00f3rio em dois quando estiver em \u00f3rbita<\/strong>, permitindo ao telesc\u00f3pio deslocar-se livremente durante as observa\u00e7\u00f5es e depois voltar a fix\u00e1-lo ao resto da nave espacial.<\/p>\n<p><strong>A NASA planeia avaliar a viabilidade dos designs at\u00e9 ao fim da d\u00e9cada<\/strong>, quando o Roman j\u00e1 tiver ultrapassado a \u00f3rbita da Lua. O mais recente conceito da miss\u00e3o \u00e9 um projecto no valor de 11.000 milh\u00f5es de d\u00f3lares, com partida agendada para 2045, mas <strong>os esfor\u00e7os extraterrestres est\u00e3o sujeitos aos caprichos de circunst\u00e2ncias terrenas como or\u00e7amentos e pol\u00edticas<\/strong>. O pr\u00f3prio Roman foi alvo de <a href=\"http:\/\/arstechnica.com\/space\/2025\/12\/the-4-3-billion-space-telescope-trump-tried-to-cancel-is-now-complete\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">repetidas <strong>tentativas<\/strong><\/a><strong> de cancelamento pela administra\u00e7\u00e3o Trump<\/strong>, incluindo no ano passado, mas o Congresso continuou a atribuir fundos ao programa. Jared Isaacman, o actual administrador da NASA, disse que quer acelerar o cronograma do Habitable Worlds Observatory e sugeriu o lan\u00e7amento de miss\u00f5es de prepara\u00e7\u00e3o mais pequenas. Fox, a oficial da NASA, disse aos jornalistas na Primavera passada que \u201cn\u00e3o estamos interessados em fazer algo agora que vai ser lan\u00e7ado na d\u00e9cada de 2040\u201d, e que recusaria financiamentos daquele valor. (Talvez outro telesc\u00f3pio gr\u00e1tis pudesse ajudar \u2013 o National Reconnaissance Office ofereceu dois sat\u00e9lites inaproveitados \u00e0 ag\u00eancia espacial, mas a \u201cNASA diz n\u00e3o ter planos para o outro bem doado\u201d, afirma Claire Andreoli, porta-voz da NASA.)<\/p>\n<p>O Roman pode n\u00e3o encontrar um planeta parecido com a Terra, mas <strong>enquanto aguardam actualiza\u00e7\u00f5es sobre o Habitable Worlds, os cientistas podem pelo menos riscar da lista outras perguntas existenciais sobre o universo <\/strong>\u2013 e talvez acrescentar mais algumas. Como acontece com o lan\u00e7amento de qualquer grande observat\u00f3rio, h\u00e1 probabilidades de o Roman encontrar algo que ningu\u00e9m pensara em procurar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Assine a revista National Geographic agora por apenas 1\u20ac por m\u00eas. 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