{"id":512148,"date":"2026-09-04T20:49:11","date_gmt":"2026-09-04T20:49:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/512148\/"},"modified":"2026-09-04T20:49:11","modified_gmt":"2026-09-04T20:49:11","slug":"brooklyn-sem-pai-nem-mae-e-o-poder-em-nova-york","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/512148\/","title":{"rendered":"Brooklyn: Sem Pai Nem M\u00e3e e o poder em Nova York"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Edward Norton levou cerca de vinte anos para transformar \u201cBrooklyn Sem Pai Nem M\u00e3e\u201d, o romance de Jonathan Lethem publicado em 1999, no filme que queria. E n\u00e3o queria filmar o livro como ele era. Transferiu a a\u00e7\u00e3o dos anos 1990 para 1957, inventou personagens, mergulhou a trama na pol\u00edtica urbana de Nova York e transformou Moses Randolph, o personagem de Alec Baldwin, numa vers\u00e3o ficcional de Robert Moses, o homem que durante d\u00e9cadas redesenhou a cidade com pontes, avenidas, parques, desapropria\u00e7\u00f5es e uma quantidade incalcul\u00e1vel de decis\u00f5es tomadas sem precisar receber um \u00fanico voto. Lethem deixou. Ainda bem.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No centro de tudo permanece Lionel Essrog, detetive particular cuja s\u00edndrome de Tourette faz com que palavras escapem de sua boca antes que consiga det\u00ea-las, um sujeito que parece condenado a dizer em voz alta justamente o que a sociedade sofisticada prefere manter silencioso. Frank Minna, seu chefe, mentor, pai improvisado e prov\u00e1vel picareta, \u00e9 assassinado, e Lionel decide entender por qu\u00ea. Bruce Willis fica pouco tempo em cena, mas deixa o fantasma necess\u00e1rio para que as duas horas e vinte e quatro minutos seguintes n\u00e3o se reduzam a mais uma investiga\u00e7\u00e3o sobre gente poderosa fazendo coisas que gente poderosa sempre fez.<\/p>\n<p>Lionel Essrog e o crime<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro acerto de Norton est\u00e1 em n\u00e3o transformar a condi\u00e7\u00e3o de Lionel numa cole\u00e7\u00e3o de tiques concebidos para arrancar compaix\u00e3o. O personagem \u00e9 inconveniente, obsessivo, \u00e0s vezes muito engra\u00e7ado sem querer ser, mas tamb\u00e9m o homem certo para um mist\u00e9rio cuja solu\u00e7\u00e3o depende de notar aquilo que todos os outros aprenderam a ignorar. Seu c\u00e9rebro n\u00e3o aceita bem lacunas. Uma palavra chama outra, um ru\u00eddo pede repeti\u00e7\u00e3o, uma pista mal encaixada torna-se uma esp\u00e9cie de coceira mental, e assim a investiga\u00e7\u00e3o vai andando entre clubes de jazz, reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, corti\u00e7os condenados \u00e0 demoli\u00e7\u00e3o e escrit\u00f3rios onde homens de terno decidem o destino de bairros inteiros.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a\u00ed que \u201cBrooklyn: Sem Pai Nem M\u00e3e\u201d deixa de ser apenas noir e come\u00e7a a revelar a obsess\u00e3o verdadeira de Norton. Moses Randolph n\u00e3o quer simplesmente dinheiro; dinheiro \u00e9 consequ\u00eancia. O que ele deseja \u00e9 poder para redesenhar o mundo, ainda que para abrir uma avenida seja necess\u00e1rio apagar quarteir\u00f5es, expulsar fam\u00edlias e chamar esse processo de moderniza\u00e7\u00e3o. Alec Baldwin empresta ao personagem uma seguran\u00e7a insolente, a tranquilidade pr\u00f3pria de quem j\u00e1 passou da fase de corromper o sistema porque se tornou ele mesmo o sistema.<\/p>\n<p>Moses Randolph e a cidade<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha tem uma camada ainda mais pessoal. O av\u00f4 de Norton, James Rouse, tamb\u00e9m foi um importante urbanista e incorporador americano, mas defendia um modelo de desenvolvimento muito distinto daquele associado a Robert Moses; Norton afirmou que parte dessa vis\u00e3o humanista chegou ao personagem de Willem Dafoe. Essa informa\u00e7\u00e3o ajuda a entender por que a disputa territorial do filme parece t\u00e3o mais apaixonada que o assassinato que teoricamente a desencadeia. Para Norton, ruas, pr\u00e9dios e bairros n\u00e3o s\u00e3o cenografia. S\u00e3o pol\u00edtica petrificada em concreto.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lionel chega a Laura Rose por esse caminho. Gugu Mbatha-Raw d\u00e1 \u00e0 personagem uma serenidade que funciona bem contra a verborragia involunt\u00e1ria do protagonista, e os dois aproximam-se quando j\u00e1 se percebe que Frank Minna abriu uma porta para um c\u00f4modo muito maior do que imaginava. Laura est\u00e1 ligada \u00e0 luta contra despejos e interven\u00e7\u00f5es urban\u00edsticas que atingem sobretudo bairros pobres e negros; Lionel, que come\u00e7ara procurando apenas o assassino de um amigo, descobre que talvez esteja investigando uma cidade.<\/p>\n<p>Lionel e Laura Rose<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Norton exagera. H\u00e1 momentos em que parece incapaz de abandonar uma cena porque gosta demais dela, um di\u00e1logo demora tr\u00eas minutos al\u00e9m do necess\u00e1rio, outra pista ganha solenidade de documento hist\u00f3rico, e o filme amea\u00e7a dobrar sob o peso das muitas coisas que seu diretor-roteirista decidiu colocar dentro dele. Mas essa megalomania tamb\u00e9m \u00e9 parte de seu encanto. O jazz, os chap\u00e9us, os autom\u00f3veis enormes, a fuma\u00e7a, os apartamentos escuros e os sal\u00f5es de homens poderosos poderiam resultar num baile de fantasias noir, n\u00e3o fosse Lionel demasiado esquisito para caber numa homenagem t\u00e3o comportada.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No romance policial cl\u00e1ssico, descobrir o assassino deveria reorganizar o universo. Aqui n\u00e3o. Lionel percebe que saber quem matou Frank Minna \u00e9 uma parte pequena do problema, porque homens morrem e estruturas ficam. Norton passa duas horas construindo um labirinto e, quando o detetive finalmente entende a planta, descobre que a sa\u00edda n\u00e3o leva para fora de Nova York. Leva mais fundo para dentro dela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Edward Norton levou cerca de vinte anos para transformar \u201cBrooklyn Sem Pai Nem M\u00e3e\u201d, o romance de Jonathan&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":512149,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[140],"tags":[114,115,147,471,148,146,32,33],"class_list":["post-512148","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-filmes","tag-entertainment","tag-entretenimento","tag-film","tag-filme","tag-filmes","tag-movies","tag-portugal","tag-pt"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/512148","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=512148"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/512148\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/512149"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=512148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=512148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=512148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}