{"id":514264,"date":"2026-09-06T22:44:20","date_gmt":"2026-09-06T22:44:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/514264\/"},"modified":"2026-09-06T22:44:20","modified_gmt":"2026-09-06T22:44:20","slug":"bee-happy-splash-rui-miguel-tovar-mostra-o-porto-covo-de-antonio-jose-seguro-entre-futebol-cabrito-e-32-anos-de-ferias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/514264\/","title":{"rendered":"\u201cBee happy, splash\u201d. Rui Miguel Tovar mostra o Porto Covo de Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro, entre futebol, cabrito e 32 anos de f\u00e9rias"},"content":{"rendered":"<p>                Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro escolhe h\u00e1 32 anos a mesma aldeia do litoral alentejano para passar parte das f\u00e9rias e este setembro regressou j\u00e1 como Presidente da Rep\u00fablica. Rui Miguel Tovar, residente em Porto Covo desde novembro, percorre os lugares, as pessoas e as mem\u00f3rias que prendem Seguro \u00e0 terra e avisa: \u201c\u00c9 m\u00e1gico, Porto Covo\u201d<\/p>\n<p>N\u00f4n\u00f4s, Kikis, Santis, T\u00e9t\u00e9s. A fauna de Porto Covo em Agosto entristece-me. Don\u2019t get me wrong: \u00e9 que vivo aqui no bem-bom desde Novembro, habituado a lidar com caminhantes estrangeiros, sobretudo alem\u00e3es e italianos, todos over-60, cheios de genica nas pernas e olhar vivo, e, de repente, levar com camisas c\u00f3c\u00f3, cal\u00e7as pipi, sapatos de vela e di\u00e1logos insanos \u00e9 um mai\u00fasculo BAQUE.<\/p>\n<p>Again, don\u2019t get me wrong. Sou portugu\u00eas (n\u00e3o se nota?), gosto de portugueses e adoro Portugal. \u00c0 cabe\u00e7a, este belo do Alentejo. Se abandono Lisboa por vontade pr\u00f3pria, \u00e9 porque estou cansado de apanhar bon\u00e9s, autocarros, metros, uberes e boltes. E, convenhamos, estou farto de embater em turistas e pessoas como se fosse uma bola de pinball. A escolha pelo Alentejo \u00e9 un\u00e2nime. Re\u00fano-me com a minha cabe\u00e7a e o meu cora\u00e7\u00e3o, em salas separadas, ela no zoom, ele no teams. Ambos concordam, ela usa o adjectivo apaixonante, ele excitante.<\/p>\n<p>Convencido estou, de armas e bagagens para o litoral alentejano eu vou (at\u00e9 j\u00e1 falo \u00e0 Yoda, que beleza). O que se sucede da\u00ed em diante \u00e9 um mimo. Lembro-me ami\u00fade de Jacques Cousteau, o Sousa Veloso dos oceanos: \u2018Para a abelha e o golfinho, a felicidade \u00e9 a exist\u00eancia; o homem deve descobrir e maravilhar-se com isso.\u2019 Descubro e maravilho-me. Porto Covo \u00e9 um para\u00edso. De Novembro at\u00e9 Maio, digo. Depois a tal bola de pinball bate em mim. Com for\u00e7a, viol\u00eancia desmedida.<\/p>\n<p>H\u00e1 excep\u00e7\u00f5es, claro. Ver um mi\u00fado vestido \u00e0 Milan com o 22 de Kak\u00e1 nas costas \u00e9 um achado arqueol\u00f3gico ao n\u00edvel daquele que li h\u00e1 dias em que, afinal, as pinturas rupestres se mexem, se acendermos a tocha certa. Ou ver dois LeBron James no mesmo dia e na mesma rua, um equipado \u00e0 Lakers, a empurrar um carrinho de beb\u00e9, outro \u00e0 Cavaliers, sentado no \u2018Sorriso\u2019 a ingerir comida saud\u00e1vel \u2013 \u00e9 como aquela hist\u00f3ria que li sobre a descoberta de que estamos enganados h\u00e1 d\u00e9cadas e d\u00e9cadas porque, bem vistas as coisas, n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 o coelho europeu, tamb\u00e9m h\u00e1 o ib\u00e9rico.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1788734659_421_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>Enfim. Por muitos dias de c\u00e9u azul, a nuvem negra acompanha-me a fazer a cena mais corriqueira, seja descer as escadas para a praia ou entrar em casa. H\u00e1 sempre turistas e pessoas no caminho, apre! Se ainda fossem abelhas e golfinhos&#8230;<\/p>\n<p>Dizia, \u00e9 um para\u00edso de Novembro at\u00e9 Maio. \u00c9 m\u00e1gico, Porto Covo. Ponto de partida, \u00e9 uma aldeia. Depois, zero sem\u00e1foros. Finalmente, os seus habitantes. Fauna como deve ser. As conversas, um primor. Estou sentado na recep\u00e7\u00e3o do Alojamento Z\u00e9 In\u00e1cio, na rua principal, a pedonal, e chega uma senhora com 89-quase-90 anos. De repente, palavra puxa palavra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A minha prima andou muitos anos com um rapaz e, um dia, deixou-se apanhar.<\/p>\n<p>&#8211; Apanhar? (perguntei inocentemente)<\/p>\n<p>&#8211; Engravidou!<\/p>\n<p>&#8211; Ahhhhhh.<\/p>\n<p>&#8211; Agora \u00e9 que h\u00e1 umas artimanhas que nem sei o que s\u00e3o e impedem essas coisas.<\/p>\n<p>(sil\u00eancio, tenho medo de fazer mais perguntas inocentes)<\/p>\n<p>Mais acima, j\u00e1 perto da escola prim\u00e1ria, aventuro-me a beber um caf\u00e9 ao lado do mercado, \u00e0 espera do autocarro. Mal entro, percebo a falta de sintonia entre duas senhoras over-60. Ofere\u00e7o-me para desempatar. &#8216;N\u00e3o percebo a l\u00edngua dela&#8217;, diz-me a dona do spot, do lado de l\u00e1 do balc\u00e3o. Um-zero. &#8220;Hot, just hot water&#8221;, responde-me a lady, do lado de c\u00e1. One-nil. A turista quer um copo de \u00e1gua quente para juntar \u00e0 cevada. Fa\u00e7o a connection. Alegria no ar. A turista senta-se atr\u00e1s de mim, triunfante com o copo de \u00e1gua, e mostra-me o frasco de cevada. Bebo o caf\u00e9 na paz e arrepio caminho. \u00c0 sa\u00edda, trope\u00e7o em quatro homens de barba rija, em amena cavaqueira com a senhora do caf\u00e9. Ahhh, agora sim, ela domina a cena: em bom portugu\u00eas nos entendemos.<\/p>\n<p>Um dos homens olha para mim, os outros fazem sil\u00eancio e sinto-me agrafado. S\u00f3 que nada, sigo a marcha com um sorriso a abanar ligeiramente a cabe\u00e7a. H\u00e1 um burburinho atr\u00e1s de mim. Quando vou sair, uma s\u00e9rie de mochileiros atrapalham-me o andamento. O tal homem aproveita e toca-me no bra\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8216;O senhor n\u00e3o \u00e9 o Rui Manuel Tovar?&#8217;<\/p>\n<p>&#8216;Sou, sim!&#8217;<\/p>\n<p>&#8216;\u00c9 a fotoc\u00f3pia do senhor seu pai. At\u00e9 o sorriso t\u00edmido.&#8217;<\/p>\n<p>&#8216;Essa nunca me tinham dito.&#8217;<\/p>\n<p>&#8216;Fui electricista no Est\u00e1dio Jos\u00e9 Alvalade e o senhor seu pai aparecia l\u00e1 muito. Cumprimentava-me sempre, sabe? Sempre! Nunca de frete, sempre a sorrir.&#8217;<\/p>\n<p>Pele de galinha, eu. G\u2019anda mariquinhas p\u00e9 de salsa. Depois queixo-me dos portugueses aqui em Porto Covo no Ver\u00e3o&#8230; Pudera. Adiante, p\u2019r\u00e1 frente \u00e9 o caminho. J\u00e1 estamos no mercado. Tenho duas refer\u00eancias magn\u00edficas. A Dina, da peixaria.<\/p>\n<p>&#8211; Quero bife de atum<\/p>\n<p>&#8211; Leve antes a lula.<\/p>\n<p>&#8211; Fant\u00e1stico.<\/p>\n<p>&#8211; Uma?<\/p>\n<p>&#8211; Uma! E agora, como a cozinho?<\/p>\n<p>&#8211; Cozida?<\/p>\n<p>&#8211; Bahhh.<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a assim, tomatada de lula.<\/p>\n<p>&#8211; Maravilha. Como \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Tem tomate em casa?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho.<\/p>\n<p>&#8211; Cebola?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho.<\/p>\n<p>&#8211; Batatas?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho.<\/p>\n<p>&#8211; Pimento?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Compre ali, junte tudo com azeite e fica uma maravilha.<\/p>\n<p>O \u2018compre ali\u2019 \u00e9 na Dona Eul\u00e1lia<\/p>\n<p>&#8211; Tem pimentos, dona Eul\u00e1lia?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 vermelhos e verdes. Prefiro os vermelhos, t\u00eam mais sabor. Os verdes tamb\u00e9m t\u00eam, mas menos. Os amarelos nem pensar. Os roxos, esque\u00e7a &#8212; e nem s\u00e3o de c\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Venha o vermelho.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe o que \u00e9 de c\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, o qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Estas bananas, j\u00e1 viu?<\/p>\n<p>&#8211; Maravilha.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o daqui de Porto Covo, do dono da padaria. Ele tem uma bananeira e fornece-nos. Leve, vai gostar muito. Quantas quer?<\/p>\n<p>&#8211; Seis. E tamb\u00e9m quero cenoura e feij\u00e3o verde para fazer uma sopa. E quatro di\u00f3spiros.<\/p>\n<p>&#8211; A sua cara n\u00e3o me estranha, sabe? Perguntei ao meu marido, ele \u00e9 que me disse que aparece na televis\u00e3o, tal como o seu pai. Eu sabia que o conhecia de algum lado. Como \u00e9 que se chama?<\/p>\n<p>&#8211; Rui.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, senhor Rui, leve tamb\u00e9m coentros e este tomate para a sopa. Coentros na sopa \u00e9 essencial. Sabe o que me aconteceu ontem?<\/p>\n<p>&#8211; Diga.<\/p>\n<p>&#8211; Fui a Lisboa e entrei num s\u00edtio para almo\u00e7ar. Havia sopa de cenoura e a senhora perguntou-me com coentros ou sem? Disse-lhe que nunca tinha comido sopa de cenoura com coentros. E, claro, pedi com coentros. Temos de provar tudo. Estava bem boa. Tive de ir a Lisboa para provar sopa de cenoura com coentros, j\u00e1 viu?<\/p>\n<p>&#8211; E eu tive de vir aqui ao mercado de Porto Covo para saber que se serve sopa de cenoura com coentros em Lisboa.<\/p>\n<p>&#8211; Ahahah. Senhor Rui, dez euros.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3?<\/p>\n<p>&#8211; Os coentros e o tomate s\u00e3o oferta.<\/p>\n<p>Nada disto se compara ao meu outro Alentejo, o do interior. Falo de Oriola, onde mantive contacto com a popula\u00e7\u00e3o durante uns dois anos sem estar l\u00e1 meses a fio, como aqui em Porto Covo. Mesmo assim, a fauna \u00e9 diferente. As conversas&#8230; Decidam voc\u00eas, senhoras e senhores ouvintes.<\/p>\n<p>O primeiro &#8216;concorrente&#8217; chama-se Chanana, ali\u00e1s, senhor Chanana, e \u00e9 sobre licen\u00e7a de pesca para carpas e l\u00facios (desconhecia por completo este peixe)<\/p>\n<p>&#8211; fa\u00e7o o pagamento da licen\u00e7a por multibanco, porque n\u00e3o estou para fazer duas viagens de 80 km ao todo at\u00e9 \u00c9vora para ter o comprovativo<\/p>\n<p>&#8211; pois, \u00e9 mais pr\u00e1tico fazer aqui<\/p>\n<p>&#8211; s\u00f3 que a nova tinta dos multibancos \u00e9 preta e desaparece num instante<\/p>\n<p>&#8211; (arregalo os olhos) verdadeeee, as letras perdem-se<\/p>\n<p>&#8211; um dia fui multado porque j\u00e1 n\u00e3o se via o meu n\u00famero fiscal; antigamente, a letra dos pap\u00e9is de multibanco era a azul<\/p>\n<p>&#8211; (arregalo sabem-muito-bem-o-qu\u00ea) veeeedadeeee<\/p>\n<p>O segundo \u00e9 o Tom\u00e9, ali\u00e1s, senhor Tom\u00e9, sobre constru\u00e7\u00f5es manuais a tr\u00eas dimens\u00f5es<\/p>\n<p>&#8211; com este sol, hoje n\u00e3o vou fazer nada em casa, agora s\u00f3 com as trovoadas de maio<\/p>\n<p>&#8211; h\u00e1 trovoadas em maio?<\/p>\n<p>&#8211; sempre. e espero que n\u00e3o sejam secas como h\u00e1 um ano, sen\u00e3o vai ser um problema. e, a\u00ed sim, volto a estar em casa para fazer as minhas constru\u00e7\u00f5es. \u00e0s vezes, perco-me nas horas. e outras irrito-me<\/p>\n<p>(e mostra-me no telem\u00f3vel as suas inven\u00e7\u00f5es)<\/p>\n<p>&#8211; isto d\u00e1 trabalho, mas gosto muito.<\/p>\n<p>(passa um mi\u00fado de moto e sem capacete)<\/p>\n<p>&#8211; eh bruto do cabr\u00e3o, anda mais devagar; se o teu pai te v\u00ea, d\u00e1-te uma carga de porrada<\/p>\n<p>(o mi\u00fado p\u00e1ra e diz qualquer coisa)<\/p>\n<p>&#8211; cuidado; se me dizes uma asneira, apanhas j\u00e1 e este senhor \u00e9 testemunha<\/p>\n<p>(arregalo os-j\u00e1-sabem)<\/p>\n<p>&#8211; inspirei-me nestas constru\u00e7\u00f5es quando fui uma vez a uma f\u00e1brica muito conhecida de m\u00f3veis. agora escapa-me o nome<\/p>\n<p>&#8211; (tonto, eu) ikea?<\/p>\n<p>&#8211; n\u00e3 n\u00e3 n\u00e3, estes m\u00f3veis j\u00e1 est\u00e3o feitos<\/p>\n<p>&#8211; moviflor?<\/p>\n<p>&#8211; tamb\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>(passam-se minutos em sil\u00eancio)<\/p>\n<p>&#8211; Pa\u00e7os de Ferreira<\/p>\n<p>(e arrepia caminho)<\/p>\n<p>O terceiro e \u00faltimo, o senhor Z\u00e9, disserta sobre a vida ao contr\u00e1rio<\/p>\n<p>&#8211; n\u00e3o sei o que fa\u00e7a, amigo<\/p>\n<p>(olho para ele e penso &#8216;n\u00e3o o conhe\u00e7o de todo, mas est\u00e1 mesmo a falar para mim porque n\u00e3o est\u00e1 aqui mais ningu\u00e9m&#8217;)<\/p>\n<p>&#8211; tenho a mulher em \u00c9vora, que j\u00e1 n\u00e3o me quer, e tenho a amante em Viana, que n\u00e3o p\u00e1ra de me chatear no facebook<\/p>\n<p>(j\u00e1 nem arregalo nada)<\/p>\n<p>&#8211; n\u00e3o sei mesmo, vou mas \u00e9 beber uma cerveja para ganhar coragem para dizer n\u00e3o \u00e0 de Viana, que fala muito por facebook mas depois chego l\u00e1 e nada.<\/p>\n<p>Crazy world, Oriola. N\u00e3o conhe\u00e7o nenhum destes tr\u00eas. Nem um. Nunca houve uma conversa entre n\u00f3s, nem sequer um bom dia. \u00c9 tudo de improviso. Apanham-me ali a jeito e toma l\u00e1 disto, sem aviso pr\u00e9vio. Tenho o port\u00e1til ligado e aberto, \u00e0 minha frente, e escrevo os di\u00e1logos as we speak. O barulho das teclas n\u00e3o os incomoda nem um pouco. Eu, feliz da vida. Penso eu. Quando chego a Porto Covo, entendo, a\u00ed sim, o conceito de felicidade. Bee happy, splash.<\/p>\n<p>Novembro 2025, dia 11. S\u00e3o Martinho no Largo Marqu\u00eas de Pombal, \u00e0 frente da igreja iluminada, com direito a jeropiga, \u00e1gua-p\u00e9 e castanhas assadas. Des\u00e7o a rua e entro no Z\u00e9 In\u00e1cio. Cumprimento o Paulo, dono e filho do Z\u00e9 In\u00e1cio. A empatia \u00e9 imediata. O Paulo \u00e9 abelha e golfinho ao mesmo tempo. Tamb\u00e9m conhe\u00e7o o Jorginho, um gato bigger than life, cinzento, esperto e actor principal de Porto Covo, by far a personagem mais Instagram\u00e1vel das redondezas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1788734660_158_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>Come\u00e7am os almo\u00e7os prolongados de sabores do mar. E ou\u00e7o, aqui e ali, o nome de Seguro, Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro. Que o novo candidato \u00e0s Presidenciais 2026 \u00e9 j\u00e1 ilustre visitante de Porto Covo h\u00e1 uns 30 anos, que gosta de aparecer no restaurante para o passou-bem, que d\u00e1 uns chutos na bola no Campo do Mar, ali em cima, ligeiramente para l\u00e1 do mercado e da escola prim\u00e1ria, que isto, que aquilo. Que o sogro, o senhor Freitas, \u00e9 uma pessoa cinco estrelas. Que o sogro merece uma v\u00e9nia. Que isto, que aquilo. Passam-se uns dias e happy new year, com dois emojis \u2618\ufe0f\ud83d\ude18. Passam-se uns dias e Seguro \u00e9 eleito Presidente da Rep\u00fablica, na segunda volta. Volta e meia, o seu nome vem \u00e0 baila nos generosos almo\u00e7os. H\u00e1 aqui amizades enraizadas, pessoas com liga\u00e7\u00e3o a Seguro h\u00e1 anos e anos. \u00c9 natural, o homem vem para aqui h\u00e1 32 anos, a sua mulher h\u00e1 mais de 40.<\/p>\n<p>O aqui \u00e9 tanta coisa. H\u00e1 o Primo Xico, agora ideal para tomar o pequeno-almo\u00e7o, antes uma taberna famosa por abrir \u00e0s sete da manh\u00e3 para dar as boas-vindas ao ent\u00e3o trio mais famoso daqui, o barbeiro Salvador, que cortava as cristas aos camones, Z\u00e9 Sineiro e T\u00f3ino Lavagante (todos consumiam vinho e\/ou baga\u00e7o a partir daquela hora e, j\u00e1 se sabe, era o fungag\u00e1 da bicharada). H\u00e1 a Cantarinha, com carac\u00f3is aos fins-de-semana e past\u00e9is de nata caseiros dia sim, dia sim. H\u00e1 o Pescador, local de peregrina\u00e7\u00e3o para quem gosta de mariscadas. H\u00e1 o Miramar, antes Maresia, antes Jos\u00e9 Domingos, com vista soberba sobre o oceano e magn\u00edfica carne, do talho do senhor Ant\u00f3nio, entalado entre o Meu Super e o Spar, uma inova\u00e7\u00e3o de 2026. H\u00e1 o Ti Joaquim, com boas ameijoas. H\u00e1 a Bella Vita da comida italiana, h\u00e1 o Sorriso da comida saud\u00e1vel. H\u00e1 o Abranda, do Pedro, filho do Fausto, da Padaria, para beber vinho e comer queijo, presunto e boquerones. H\u00e1 o Lamelas, tamb\u00e9m sofisticado e igualmente familiar, ou n\u00e3o fosse a chef Ana Moura a filha dos donos do restaurante. H\u00e1 o restaurante Figo, antes o caf\u00e9 Lucky Luke, com bilhar na cave. E h\u00e1 a padaria, com p\u00e3o quente das dez da noite \u00e0s duas da manh\u00e3 no ver\u00e3o, sempre na companhia sorridente do senhor Manafaia, cujo tio tem nome de rua em Sines, tem nome de piscinas municipais, tamb\u00e9m em Sines, e foi cinco vezes campe\u00e3o nacional de ca\u00e7a submarina. E h\u00e1 o Z\u00e9 In\u00e1cio, j\u00e1 sabiam? Melhor \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Para sair deste ram-ram, h\u00e1 duas sa\u00eddas a p\u00e9. Sempre a p\u00e9. O carro quer \u00e9 descanso, sen\u00e3o tamb\u00e9m se queixa da bola de pinball. Para a esquerda, h\u00e1 a ilha do Pessegueiro. Vale a pena a caminhada de 40 minutos, desde cedo, muito cedo. Digo isto para apanhar o sol a nascer. H\u00e1 uma s\u00e9rie de praias min\u00fasculas e apetec\u00edveis para um mergulho at\u00e9 desaguarmos no areal imenso \u00e0 frente da ilha. Para a direita, h\u00e1 a caminhada pela fal\u00e9sia at\u00e9 \u00e0 Samoqueira, ao Burrinho, a S\u00e3o Torpes, you name it at\u00e9 Sines. Pelo meio, mais uma s\u00e9rie de praias. A mais tentadora \u00e9 a da Cerca Nova. Aqui, as escadas de madeira dividem-se para a direita e a esquerda. Prefiro a esquerda. Calma, isto n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica. Mas pode ser, \u00e9 tranquilo. E at\u00e9 essencial.<\/p>\n<p>Tenho um problema com a pol\u00edtica. N\u00e3o entendo nada. Nem a percebo. E fazem-me confus\u00e3o as v\u00e1rias cabe\u00e7as especadas atr\u00e1s dos discursos inflamados de gravata aos microfones dos jornalistas, a az\u00e1fama popular por um aceno, as mentiras escandalosas, os ditos por n\u00e3o ditos, os mind games, os jogos de cintura, os infinitos programas de televis\u00e3o e os pingue-pongues da m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o nos debates. Contas feitas, tal e qual o futebol. Tamb\u00e9m n\u00e3o o entendo, desde os discursos aos pingue-pongues.<\/p>\n<p>De volta \u00e0 pol\u00edtica, n\u00e3o vejo interesse nenhum em ser ministro. Quero dizer, n\u00e3o o vejo como um pr\u00e9mio para ningu\u00e9m. E se algu\u00e9m pensa que sim, devia olhar para o seu umbigo e, quem sabe?, sacar ideias sobre a sua vida um pouco mais interessantes. \u00c9 por isso que n\u00e3o h\u00e1 governos brilhantes? \u00c9 por isso que n\u00e3o h\u00e1 governos brilhantes! Seja onde for. Eles querem ser ministros, \u00e9 um sonho de consumo, e isso, para mim, n\u00e3o pode ser bom. Pergunto, e a comunidade? O sonho, digo eu, \u00e9 a comunidade. Ser ministro para fazer a diferen\u00e7a, &#8216;s\u00f3&#8217; isso, e n\u00e3o para o status, a fama, o proveito, a gan\u00e2ncia, a cadeira do poder, a arrog\u00e2ncia do cargo, o achar-se importante s\u00f3 porque.<\/p>\n<p>Tal como me intriga o futebol actual. H\u00e1 muitas virtudes e tamb\u00e9m muitos defeitos, o maior de todos, e para colar \u00e0 minha ideia sobre pol\u00edtica, \u00e9 a debandada de jogadores para a Ar\u00e1bia Saudita. Jogadores de selec\u00e7\u00e3o. A portuguesa, e n\u00e3o s\u00f3. R\u00faben Neves, um exemplo. Jo\u00e3o F\u00e9lix, outro. Trinc\u00e3o, mais um. Preferem o dinheiro \u00e0 competitividade, tudo bem, nada contra. E tamb\u00e9m nada a favor. Afinal de contas, qual \u00e9 a gra\u00e7a de ser o melhor em campo num jogo de marrecos? (que n\u00e3o me perdoem os sauditas) Claro, dinheiro. Pergunto, e jogar \u00e0 bola ao mais alto n\u00edvel?<\/p>\n<p>Estilo&#8230; ser o her\u00f3i num domingo \u00e0 tarde em Inglaterra, que tal? Olhem l\u00e1 para Palhinha, cujo golo solit\u00e1rio na \u00faltima jornada salva o Tottenham da descida de divis\u00e3o. Ou at\u00e9 Jo\u00e3o M\u00e1rio, na insossa Gr\u00e9cia, a marcar o golo do t\u00edtulo para o AEK Atenas aos 90\u2019+3. Tudo isto conta mais que dinheiro. Quando falo ou escrevo sobre dinheiro, lembro-me sempre da reportagem d\u2019A Bola com a m\u00e3e de Eus\u00e9bio em 1960, ano em que o rapaz troca as voltas ao Sporting e aparece em Lisboa para jogar no Benfica. O t\u00edtulo d\u00e1 voz \u00e0 m\u00e3e do king do futuro: \u2018Benfica ofereceu-me dinheiro grande\u2019. Dinheiro grande, ai ai.<\/p>\n<p>Para fechar este cap\u00edtulo, digo mais um fen\u00f3meno. J\u00e1 temos pol\u00edtica e futebol, acrescento televis\u00e3o. Entrei na faculdade em 1995 e muitos colegas de curso ambicionavam logo ali o lugar de pivot no jornal da tarde ou da noite. A tend\u00eancia mant\u00e9m-se. Ali\u00e1s, cresce a olhos vistos. Porque h\u00e1 mais canais, h\u00e1 mais media e h\u00e1 muito mais interessados em sentar-se na cadeira \u00e0 frente da c\u00e2mara para debitar pivots, alguns da sua lavra, outros nem tanto, cof cof cof. Insisto: se algu\u00e9m pensa que sim, que isso \u00e9 o melhor, devia olhar para o seu umbigo e, quem sabe?, sacar ideias sobre a sua vida um pouco mais interessantes. Pergunto, e fazer jornalismo? Come\u00e7ar por a\u00ed, pelo essencial, em vez do dinheiro grande, da ambi\u00e7\u00e3o, do aparecer, do parecer.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1788734660_437_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>Isto tudo vem \u00e0 baila a prop\u00f3sito da palavra esquerda, vejam l\u00e1 bem, tssss tssss. Sou destro, aten\u00e7\u00e3o. De resto&#8230; Quando apanho Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro a subir a rua pedonal em Porto Covo, na companhia da mulher Margarida Maldonado Freitas, fixo-me \u00e0 esquerda do Presidente para trocar umas impress\u00f5es. Uns largos minutos depois, na hora do \u2018say cheeeese\u2019 e o clique \u00e9 de uma espanhola, que passa f\u00e9rias em Porto Covo h\u00e1 15 anos, estaciono \u00e0 esquerda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fot\u00f3grafa. Gotcha? Great!<\/p>\n<p>A conversa \u00e9 inesperadamente sentimental, porque Seguro conhece o meu pai desde os anos 80, quando se cruzavam no n\u00famero 85 da Avenida Columbano Bordalo Pinheiro. Fala-me da igreja man\u00e1 por baixo desse pr\u00e9dio e das bombas de gasolina \u00e0 frente, falo-lhe da pastelaria Baloi\u00e7o e da loja de m\u00f3veis Kol, ambos \u00e0&#8230; esquerda da nossa casa.<\/p>\n<p>Quando lhe comunico a encomenda da CNN \u00e0 minha pessoa para um texto sobre ele-himself em Porto Covo, nem h\u00e1 um segundo de hesita\u00e7\u00e3o. Pega na bola, ataca a baliza e \u00e9 golo. Fico pregado ao ch\u00e3o, at\u00f3nito. Que vem c\u00e1 h\u00e1 32 anos, quase sempre em Setembro (a mulher fala de uns anos em que vieram meio Agosto e meio Setembro quando os filhos eram pequenos e deixa escapar um gesto com os olhos, como quem me diz \u2018zero abelhas e golfinhos\u2019), que gostava de cal\u00e7ar as chuteiras para ir aos treinos de futebol da equipa de Porto Covo no pelado do Campo do Mar, que j\u00e1 sabe da mudan\u00e7a para sint\u00e9tico do Campo do Mar h\u00e1 uns dois meses, que tamb\u00e9m joga futebol de sal\u00e3o no pavilh\u00e3o multiusos com amigos, que tem muita gente amiga com quem estar durante estes 15 dias de f\u00e9rias, que ainda ontem comeu cabrito assado num conv\u00edvio com 30 pessoas, que vai comer um destes dias sopa de lebre \u00e0 Sonega com dois casais amigos (a mulher \u00e9 engra\u00e7ada e descreve a sopa ao pormenor, a \u00faltima palavra \u00e9 p\u00e3o e d\u00e1-me \u00e1gua na boca \u00e0s 11-e-pouco da manh\u00e3), que jogou futebol no Penamacorense, como avan\u00e7ado, que gosta de dar a sua volta matinal e tomar o pequeno-almo\u00e7o l\u00e1 acima, ao largo.<\/p>\n<p>A Margarida, sempre ela!, fala ent\u00e3o daquela rua pedonal em tempos idos: caf\u00e9 do Herm\u00ednio, Restaurante C\u00e1 Come (onde se viu a preto e branco o Mundial-66) e o imp\u00e9rio do Ism\u00e9nio, dono do bar 31, da pastelaria-gelataria \u2018Marqu\u00eas\u2019 e ainda do restaurante \u2018Marqu\u00eas\u2019, mais de um bar \u00e0 faroeste chamado Saloon na barraca do Chico P\u00eaga ali no Portinho, com portas de&#8230; saloon e ch\u00e3o de terra batida, do tr\u00e2nsito rodovi\u00e1rio na rua de tr\u00e1s, a Jos\u00e9 Faial, das guitarradas iniciadas com cinco pessoas no largo e, depois, transformadas em ajuntamento popular at\u00e9 \u00e0 Praia Grande, da invas\u00e3o dos hippies alem\u00e3es a promover o campismo selvagem e o desporto sui generis do vinho tinto a escorrer pela rua abaixo, e do nascimento da Ouri\u00e7ada, agora um evento anual bem saboroso, por parte do capit\u00e3o Guerreiro, natural do Cercal, estacionado em Gr\u00e2ndola e com casa em Porto Covo.<\/p>\n<p>\u00c9 um desfile bem engra\u00e7ado de mem\u00f3rias. Obrigado Margarida e Ant\u00f3nio, os reis de Porto Covo \u2013 com a devida autoriza\u00e7\u00e3o do Jorginho, \u00f3bvio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro escolhe h\u00e1 32 anos a mesma aldeia do litoral alentejano para passar parte das f\u00e9rias&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":514265,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[10],"tags":[33005,288,609,3399,611,27,28,607,608,604,610,539,15,16,8223,82462,14,603,25,26,82461,570,21,22,606,12,13,19,20,602,44790,32,23,24,33,82460,58,605,17,18,29,30,31],"class_list":["post-514264","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-portugal","tag-aldeia","tag-alentejo","tag-alerta","tag-antonio-jose-seguro","tag-ao-minuto","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-cnn","tag-cnn-portugal","tag-crime","tag-direto","tag-educacao","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-guia","tag-guia-sentimental","tag-headlines","tag-justica","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-litoral-alentejano","tag-live","tag-main-news","tag-mainnews","tag-meteorologia","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-pais","tag-porto-covo","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-pt","tag-rui-miguel-tovar","tag-sociedade","tag-tempo","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias"],"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/514264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=514264"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/514264\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/514265"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=514264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=514264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=514264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}