{"id":515919,"date":"2026-09-08T14:33:43","date_gmt":"2026-09-08T14:33:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/515919\/"},"modified":"2026-09-08T14:33:43","modified_gmt":"2026-09-08T14:33:43","slug":"corra-ou-morra-critica-do-filme-de-paul-hough","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/515919\/","title":{"rendered":"Corra ou Morra: cr\u00edtica do filme de Paul Hough"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Paul Hough n\u00e3o concede ao espectador tempo para elaborar uma estrat\u00e9gia. Em \u201cCorra ou Morra\u201d, dezenas de pessoas arrancadas de suas vidas aparecem num lugar desconhecido e ouvem as regras de uma competi\u00e7\u00e3o t\u00e3o simples que quase dispensa explica\u00e7\u00f5es: \u00e9 preciso correr, permanecer no caminho, n\u00e3o pisar na grama e evitar ser ultrapassado duas vezes. O descumprimento resulta em morte instant\u00e2nea. N\u00e3o existe recurso, juiz ou oportunidade para reclamar do regulamento. Corre-se.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O argumento parece sa\u00eddo de alguma conversa adolescente depois de uma sess\u00e3o de \u201cBattle Royale\u201d, e Hough nunca escondeu a d\u00edvida. O diretor tamb\u00e9m apontou \u201cCorra, Lola, Corra\u201d como uma das inspira\u00e7\u00f5es do projeto, embora a verdadeira origem do filme seja bem mais interessante. Hough queria escrever um papel relevante para Eddie McGee, ator que perdera uma perna ainda crian\u00e7a devido a um c\u00e2ncer e encontrava enormes dificuldades para ser considerado para personagens que n\u00e3o fossem veteranos mutilados ou figuras reduzidas \u00e0 pr\u00f3pria defici\u00eancia. A solu\u00e7\u00e3o do cineasta foi de uma perversidade carinhosa: fazer um filme em que McGee tivesse de correr.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa informa\u00e7\u00e3o muda bastante a percep\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Eddie, o personagem de McGee, n\u00e3o \u00e9 colocado na disputa para inspirar compaix\u00e3o, tampouco ganha imunidade moral por possuir uma perna s\u00f3. Hough elimina gente com brutal indiferen\u00e7a e faz dessa igualdade macabra uma das ideias mais estimulantes de seu roteiro. H\u00e1 idosos, atletas, uma mulher gr\u00e1vida, pessoas com defici\u00eancia, um padre, gente aparentemente saud\u00e1vel e outras figuras que uma narrativa convencional trataria como mais ou menos aptas a sobreviver. Para as for\u00e7as que comandam aquela corrida, essas diferen\u00e7as n\u00e3o t\u00eam nenhum valor especial.<\/p>\n<p>Eddie McGee no centro da corrida<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O longa foi filmado aos peda\u00e7os durante anos, com um or\u00e7amento t\u00e3o pequeno que sua precariedade t\u00e9cnica aparece em cena sem pedir licen\u00e7a. Hough chegou a dispor de dinheiro para poucos dias consecutivos de grava\u00e7\u00e3o e concentrou boa parte da a\u00e7\u00e3o num antigo centro correcional juvenil pr\u00f3ximo de Los Angeles. A limita\u00e7\u00e3o ajuda e atrapalha. Algumas mortes t\u00eam a textura de um terror barato, um certo gosto de cinema de garagem, mas a secura do espa\u00e7o e a repeti\u00e7\u00e3o enlouquecedora do percurso refor\u00e7am a sensa\u00e7\u00e3o de que aqueles competidores foram arremessados dentro de uma experi\u00eancia cujo verdadeiro objetivo ningu\u00e9m conhece.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paul McCarthy-Boyington, como Justin, e McGee sustentam boa parte da transi\u00e7\u00e3o da carnificina coletiva para os conflitos individuais. Conforme o n\u00famero de corredores diminui, tamb\u00e9m v\u00e3o desaparecendo as ilus\u00f5es de solidariedade que pareciam t\u00e3o nobres no come\u00e7o. O padre pode continuar sendo padre enquanto a morte \u00e9 uma possibilidade abstrata; um sujeito razoavelmente civilizado pode defender regras de conviv\u00eancia at\u00e9 perceber que apenas uma pessoa sair\u00e1 dali viva. Hough parece mais interessado nesse momento de deteriora\u00e7\u00e3o que na identidade de quem montou o espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Quando os outros viram o obst\u00e1culo<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E isso livra \u201cCorra ou Morra\u201d de ser apenas mais uma brincadeira de elimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 um filme elegante. Em v\u00e1rias passagens, nem parece querer s\u00ea-lo. A viol\u00eancia vem seca, exagerada, \u00e0s vezes quase c\u00f4mica, e a encena\u00e7\u00e3o deixa expostas as costuras de um projeto independente que passou quatro anos lutando para existir. Entretanto, h\u00e1 alguma intelig\u00eancia naquele massacre. Os personagens come\u00e7am a corrida acreditando que o grande obst\u00e1culo est\u00e1 nas regras; pouco depois, percebem que o problema s\u00e3o os outros competidores.<\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eddie McGee vai avan\u00e7ando entre gente muito mais veloz, mais jovem, com duas pernas e nenhuma vantagem que realmente importe. Hough construiu um filme sobre correr e acabou encontrando seu assunto em quem Hollywood achava que n\u00e3o poderia faz\u00ea-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Paul Hough n\u00e3o concede ao espectador tempo para elaborar uma estrat\u00e9gia. 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