{"id":516257,"date":"2026-09-08T20:10:14","date_gmt":"2026-09-08T20:10:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/516257\/"},"modified":"2026-09-08T20:10:14","modified_gmt":"2026-09-08T20:10:14","slug":"sera-que-as-celulas-sao-capazes-de-comunicar-entre-si-uma-ia-descobre-o-metodo-que-utilizam-para-comunicar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/516257\/","title":{"rendered":"Ser\u00e1 que as c\u00e9lulas s\u00e3o capazes de &#8220;comunicar&#8221; entre si? Uma IA descobre o m\u00e9todo que utilizam para comunicar"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\">Assine a revista National Geographic agora por apenas <b>1\u20ac por m\u00eas<\/b>.<\/p>\n<p>Quando o <strong>\u00f3vulo <\/strong>e o <strong>espermatoz\u00f3ide<\/strong> se unem, forma-se o <strong>zigoto<\/strong>, uma \u00fanica c\u00e9lula a partir da qual, se tudo correr bem, acabar\u00e1 por se formar um <strong>ser humano<\/strong>.<\/p>\n<p>O zigoto \u00e9, portanto, o que se designa por <strong>c\u00e9lula totipotente, a partir da qual se pode formar qualquer tecido<\/strong>. Quando se divide, as duas c\u00e9lulas resultantes tamb\u00e9m s\u00e3o totipotentes e, \u00e0 medida que estas continuam a dividir-se, as quatro que restam tamb\u00e9m o ser\u00e3o. Mas, <strong>pouco a pouco, as c\u00e9lulas perdem a sua totipot\u00eancia e v\u00e3o-se especializando em tecidos espec\u00edficos<\/strong>. E isto levanta uma das quest\u00f5es mais interessantes da embriologia: <strong>como \u00e9 que uma c\u00e9lula de um embri\u00e3o sabe que tem de se transformar numa c\u00e9lula muscular? Ou num adip\u00f3cito? Ou num neur\u00f3nio?<\/strong><\/p>\n<p>Para acabarem por se transformar nos tecidos finais, as c\u00e9lulas seguem as instru\u00e7\u00f5es que lhes s\u00e3o ditadas pelos seus genes. Embora haja aqui um truque, uma vez que<strong> todas as c\u00e9lulas de um mesmo corpo humano cont\u00eam a mesma informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica no seu interior<\/strong>. Portanto, a chave est\u00e1 em como e quando as instru\u00e7\u00f5es codificadas nesses genes s\u00e3o activadas. E esse \u00e9 o verdadeiro mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>A resposta a estas perguntas parece estar mais pr\u00f3xima gra\u00e7as a um novo estudo liderado por <a href=\"https:\/\/scholar.google.com\/citations?user=2WTF_TsAAAAJ&amp;hl=en\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Pulin Li<\/a> e <a href=\"https:\/\/scholar.google.com\/citations?user=A8Y8el0AAAAJ&amp;hl=en\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Nicholas Hutchins<\/a>, do Instituto Whitehead, e <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41592-026-03213-8\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">publicado na revista Nature Methods<\/a>. Segundo os investigadores, a chave n\u00e3o est\u00e1 nas c\u00e9lulas em si, mas nas comunica\u00e7\u00f5es que estas mant\u00eam entre si. Gra\u00e7as a isso, as c\u00e9lulas &#8220;compreendem&#8221; em que local e em que momento do desenvolvimento se encontram e que caminho devem seguir.<\/p>\n<p>Compreender uma linguagem qu\u00edmica<\/p>\n<p>As mensagens nas c\u00e9lulas s\u00e3o transmitidas atrav\u00e9s do que se denomina <strong>&#8220;cascatas de sinaliza\u00e7\u00e3o&#8221;<\/strong>. Isto significa que, quando a c\u00e9lula detecta um componente qu\u00edmico ou uma hormona na sua superf\u00edcie, produz uma altera\u00e7\u00e3o num componente da membrana e transmite para o seu interior <strong>uma s\u00e9rie de reac\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas que se sucedem uma ap\u00f3s a outra<\/strong>. O processo assemelha-se ao que acontece quando accionamos um interruptor. Ao premir o bot\u00e3o, fechamos um circuito el\u00e9ctrico e permitimos que os electr\u00f5es fluam. Os electr\u00f5es, por sua vez, aquecem o filamento de uma l\u00e2mpada, que se torna incandescente e, assim, nos d\u00e1 luz.<\/p>\n<p>Na c\u00e9lula, a informa\u00e7\u00e3o transmitida pela subst\u00e2ncia activa um interruptor semelhante, mas que, no caso do desenvolvimento, resulta na <strong>activa\u00e7\u00e3o ou desactiva\u00e7\u00e3o de determinados genes<\/strong>. No entanto, o mais importante desta descoberta \u00e9 que os investigadores conseguiram estudar estas mensagens de forma inversa. Ou seja, detectaram que<strong> cada cascata de sinaliza\u00e7\u00e3o deixa uma marca \u00fanica que revela exactamente quais os sinais que a c\u00e9lula recebeu e como reagiu<\/strong>. Desta forma, tamb\u00e9m conseguiram descobrir que as c\u00e9lulas reagem de forma semelhante a estas cascatas, independentemente do tecido em que se encontram.<\/p>\n<p>Tudo isto foi poss\u00edvel gra\u00e7as a um modelo de aprendizagem autom\u00e1tica (machine learning) chamado <strong>IRIS, que foi treinado especificamente com milhares de dados provenientes das diferentes cascatas de sinaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>. &#8220;Pense nos sistemas de reconhecimento de voz como a Siri, que s\u00e3o treinados principalmente em ingl\u00eas, mas que depois utilizam esse treino para reconhecer outras l\u00ednguas&#8221;, explica Li, que tamb\u00e9m \u00e9 professor adjunto de biologia no MIT. &#8220;A isto chama-se <strong>aprendizagem por transfer\u00eancia<\/strong>, e \u00e9 a raz\u00e3o pela qual o IRIS consegue funcionar em muitos tipos diferentes de c\u00e9lulas.&#8221;<\/p>\n<p>O que significa que o IRIS compreende as c\u00e9lulas<\/p>\n<p>O IRIS \u00e9 um <strong>modelo de intelig\u00eancia artificial <\/strong>concebido para <strong>reconhecer padr\u00f5es em dados muito complexos<\/strong>. Para tal, foi treinado especificamente em <strong>c\u00e9lulas embrion\u00e1rias humanas<\/strong>, nas quais Li e Hutchins activavam ou desactivavam artificialmente as seis principais cascatas de sinaliza\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s milhares de combina\u00e7\u00f5es e r\u00e9plicas, os investigadores criaram umenorme <strong>mapa rodovi\u00e1rio que permitia detectar o percurso que cada c\u00e9lula seguiria, dependendo da cascata que activassem<\/strong>. Assim, conhecendo a situa\u00e7\u00e3o inicial e os sinais que iriam enviar, <strong>em teoria o IRIS poderia prever se a c\u00e9lula se transformaria num neur\u00f3nio ou numa c\u00e9lula card\u00edaca<\/strong>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/instituto-whitehead_ae9a6180_260908171825_800x800.webp\" alt=\"Instituto Whitehead\" class=\"lazyload\" width=\"800\" height=\"800\" data-aspectratio=\"800\/800\"\/>&#13;Instituto Whitehead<\/p>\n<p>Um dos ensaios foi tamb\u00e9m realizado com tecido pulmonar. Na imagem, \u00e9 poss\u00edvel ver as ramifica\u00e7\u00f5es pulmonares (a azul) em desenvolvimento num sistema de cultura in vitro.<\/p>\n<p>Mas uma coisa \u00e9 a teoria e outra \u00e9 a pr\u00e1tica, pelo que o passo seguinte foi<strong> lan\u00e7ar o IRIS ao mundo real<\/strong>. Para tal, testaram-no em <strong>c\u00e9lulas embrion\u00e1rias de ratinho<\/strong> durante o processo conhecido como<strong> gastrula\u00e7\u00e3o<\/strong>. Durante essa fase do desenvolvimento, as c\u00e9lulas come\u00e7am a transformar-se nos principais tecidos do corpo, pelo que era o terreno ideal para os testes. <strong>O IRIS conseguiu prever com precis\u00e3o quando \u00e9 que cada cascata de sinaliza\u00e7\u00e3o se activaria<\/strong>, levando as c\u00e9lulas a fazer parte do tecido card\u00edaco, intestinal, muscular e da medula espinhal.<\/p>\n<p>&#8220;O IRIS est\u00e1 a ajudar-nos a decifrar a linguagem que as c\u00e9lulas utilizam para comunicarem entre si a um <strong>ritmo muito mais r\u00e1pido do que aquele que poder\u00edamos alcan\u00e7ar de forma realista<\/strong> atrav\u00e9s de experi\u00eancias&#8221;, afirma Hutchins. Desta forma, tamb\u00e9m poder\u00e3o compreender exactamente o que acontece quando a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre como deveria. <strong>Estes modelos permitiriam compreender a origem de doen\u00e7as como a asma ou a fibrose pulmonar<\/strong>, em que as c\u00e9lulas pulmonares se transformam em tecido cicatricial sem que haja uma causa conhecida por tr\u00e1s disso.<\/p>\n<p>Por outro lado, tamb\u00e9m se especula sobre a possibilidade de utilizar estes modelos para conceber <strong>tratamentos baseados na regenera\u00e7\u00e3o de tecidos<\/strong>. No entanto, para tal, \u00e9 necess\u00e1rio continuar a aprender a linguagem das c\u00e9lulas e, assim, continuar a observar que mensagens elas trocam entre si para, por fim, formar o corpo humano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Assine a revista National Geographic agora por apenas 1\u20ac por m\u00eas. 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