{"id":517028,"date":"2026-09-09T13:17:21","date_gmt":"2026-09-09T13:17:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/517028\/"},"modified":"2026-09-09T13:17:21","modified_gmt":"2026-09-09T13:17:21","slug":"ipma-explica-o-que-aconteceu-em-aveiro-granizo-e-downburst-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/517028\/","title":{"rendered":"IPMA explica o que aconteceu em Aveiro: Granizo e downburst \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>O granizo que caiu no distrito de Aveiro no s\u00e1bado n\u00e3o foi apenas um aguaceiro de gelo particularmente intenso, segundo<a href=\"https:\/\/www.ipma.pt\/pt\/index.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> a an\u00e1lise t\u00e9cnica divulgada agora pelo Instituto Portugu\u00eas do Mar e da Atmosfera<\/a> (IPMA). O epis\u00f3dio de 5 de setembro mostra que a atmosfera reuniu naquele fim de tarde as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para produzir <strong data-start=\"1044\" data-end=\"1132\">granizo de grande dimens\u00e3o, com pedras superiores a dois cent\u00edmetros, e um downburst<\/strong>, uma corrente de ar que desce violentamente de uma nuvem de trovoada e que, quando chega ao solo, se espalha em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Houve granizo e rajadas associadas a trovoadas noutras localidades do interior Norte e Centro, mas com menor intensidade. A c\u00e9lula mais forte formou-se ao final da tarde na regi\u00e3o Centro, a leste de Aveiro, e atingiu sobretudo a freguesia da Branca e \u00e1reas lim\u00edtrofes dos concelhos de Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azem\u00e9is.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o para aquilo que aconteceu \u00e0 superf\u00edcie come\u00e7a v\u00e1rios quil\u00f3metros acima dela. Naquele dia havia <strong>um anticiclone a sudeste dos A\u00e7ores, um vale depression\u00e1rio entre Marrocos e a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e outro vale depression\u00e1rio em altitude, a oeste de Portugal continental.<\/strong> Sobre o territ\u00f3rio estava uma massa de ar inst\u00e1vel, com possibilidade de chuva, mas que se mantinha relativamente seca nos n\u00edveis mais baixos. Foi neste ambiente que come\u00e7aram a formar-se aguaceiros e trovoadas durante a tarde.<\/p>\n<p>Uma granizada \u00e9 um epis\u00f3dio de queda de granizo em quantidade significativa. As pedras come\u00e7am a formar-se no interior das grandes nuvens de trovoada, onde fortes correntes ascendentes (podem ter at\u00e9 5 km) conseguem transportar pequenas part\u00edculas de gelo para regi\u00f5es muito frias da nuvem. A\u00ed encontram got\u00edculas de \u00e1gua que permanecem l\u00edquidas mesmo abaixo de 0\u00baC e que congelam quando entram em contacto com o gelo, formando camadas sobre camadas.<\/p>\n<p>Foi a for\u00e7a dessas correntes ascendentes que se tornou importante no epis\u00f3dio de Aveiro. A<a href=\"https:\/\/www.ipma.pt\/pt\/index.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> an\u00e1lise do IPMA<\/a> identifica uma combina\u00e7\u00e3o de <strong>forte instabilidade, humidade dispon\u00edvel e cisalhamento vertical do vento<\/strong>. Cisalhamento significa que o vento era relativamente fraco nos n\u00edveis inferiores da atmosfera e muito mais intenso em altitude. Ao final da tarde, numa pequena zona de converg\u00eancia formada a norte de Coimbra, o vento era particularmente forte junto dos 300 hPa, aproximadamente nove quil\u00f3metros acima do solo.<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a de velocidade com a altitude <strong>inclinou as c\u00e9lulas de trovoada<\/strong>. \u00c9 um detalhe muito importante: ao inclinar a nuvem, o cisalhamento ajuda a evitar que toda a precipita\u00e7\u00e3o caia diretamente sobre a corrente de ar que a alimenta. A corrente ascendente consegue assim manter-se organizada e o<strong> gelo permanece mais tempo dentro da nuvem<\/strong>.<\/p>\n<p>Foi isso que, segundo o IPMA, favoreceu \u201ca forma\u00e7\u00e3o e o crescimento prolongado do granizo\u201d, explicando simultaneamente a quantidade de gelo e a dimens\u00e3o das pedras que chegaram ao solo. As pr\u00f3prias imagens do radar mostram o que estava a acontecer dentro da nuvem. Nos cortes verticais feitos entre as 19h26 e as 19h46, o <strong>IPMA identificou volumes extensos de gelo, incluindo graupel e granizo de maior dimens\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>O graupel \u00e9 importante para perceber como cresce uma pedra de granizo. Forma-se quando as tais got\u00edculas de \u00e1gua sobrefundida \u2014 \u00e1gua l\u00edquida a temperaturas inferiores a 0\u00baC \u2014 congelam sobre cristais de gelo. Produzem pequenos gr\u00e2nulos opacos, mais macios do que uma pedra de granizo. Dentro de uma trovoada suficientemente forte, essas part\u00edculas podem continuar a acumular gelo e a crescer.<\/p>\n<p>Em Albergaria-a-Velha cresceram o suficiente para que fossem observadas pedras com mais de dois cent\u00edmetros de di\u00e2metro. Ou seja, uma granizada n\u00e3o depende apenas de \u201chaver muito gelo\u201d dentro da nuvem. Para produzir pedras grandes \u00e9 especialmente importante quanto tempo as correntes ascendentes conseguem manter esse gelo em crescimento antes de a gravidade vencer e o fazer cair. Neste caso, a estrutura da trovoada favoreceu esse crescimento prolongado.<\/p>\n<p>A mesma trovoada explica as rajadas que provocaram parte dos estragos. Nos n\u00edveis inferiores da atmosfera ainda existia ar relativamente seco. Quando grandes quantidades de chuva e granizo come\u00e7aram a cair, parte da \u00e1gua evaporou e parte do gelo passou diretamente do estado s\u00f3lido para vapor. <strong>Ambos os processos retiram calor ao ar, que arrefeceu, ficou mais denso e desceu.<\/strong><\/p>\n<p>A precipita\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m teve peso porque contribui para arrastar ar consigo. O IPMA conclui que a combina\u00e7\u00e3o destes processos intensificou <strong>a corrente descendente at\u00e9 produzir um fen\u00f3meno do tipo downburst<\/strong>.<\/p>\n<p>Um downburst \u00e9 uma corrente de ar que desce rapidamente de uma nuvem de trovoada e, quando atinge o solo, se espalha horizontalmente em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es. Esse fen\u00f3meno pode produzir rajadas muito fortes numa \u00e1rea relativamente pequena. Foi o que aconteceu na regi\u00e3o de Albergaria-a-Velha: o ar atingiu o solo e ao espalhar-se de forma intensa junto \u00e0 superf\u00edcie produziu as rajadas associadas aos danos causados.<\/p>\n<p>Neste caso n\u00e3o se trata apenas de uma interpreta\u00e7\u00e3o feita depois de observados os estragos. O downburst ficou registado no radar. As imagens Doppler do radar de Arouca mostram, entre as 19h26 e as 19h46, a evolu\u00e7\u00e3o da velocidade do vento dentro da c\u00e9lula. A partir das 19h36, o IPMA identifica a assinatura caracter\u00edstica do estabelecimento do downburst: o ar chega \u00e0 superf\u00edcie e come\u00e7a a espalhar-se para lados opostos.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m isso que distingue um downburst de um tornado. No tornado, o elemento essencial \u00e9 uma coluna de ar em forte rota\u00e7\u00e3o. Num downburst, o movimento dominante \u00e9 descendente e depois divergente junto ao solo. Os dois podem provocar danos importantes, mas a din\u00e2mica \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>No caso de Aveiro, a an\u00e1lise do radar aponta para downburst, e o IPMA relaciona diretamente essa corrente descendente com as fortes rajadas registadas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Granizo e vento forte n\u00e3o foram, portanto, dois acontecimentos independentes. Foram dois resultados da mesma trovoada.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio come\u00e7ou v\u00e1rias horas antes e abrangeu uma \u00e1rea muito maior. Entre as 11h00 e as 14h00, os aguaceiros e trovoadas concentraram-se sobretudo nas zonas mais ocidentais do Norte e Centro. Entre as 15h00 e as 17h00, a atividade estendeu-se ao interior, sobretudo a Tr\u00e1s-os-Montes, onde as descargas el\u00e9tricas se tornaram mais numerosas.<\/p>\n<p>Mas a c\u00e9lula respons\u00e1vel pelos danos mais significativos s\u00f3 se organizou ao final da tarde. Formou-se ent\u00e3o a pequena zona de converg\u00eancia a norte de Coimbra, num ambiente de forte vento em altitude, e desenvolveu-se <strong>uma convec\u00e7\u00e3o intensa, mas muito localizada<\/strong>, que atingiu a Branca e as \u00e1reas pr\u00f3ximas de Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azem\u00e9is.<\/p>\n<p>Uma trovoada severa n\u00e3o precisa de abranger um distrito inteiro. Pode desenvolver-se numa \u00e1rea relativamente pequena e, durante um per\u00edodo curto, produzir granizo grande, precipita\u00e7\u00e3o intensa e rajadas capazes de provocar estragos. Quando isso aconteceu, Aveiro estava sob aviso amarelo de trovoada do IPMA, v\u00e1lido at\u00e9 \u00e0s 22h00, que previa precisamente a possibilidade de aguaceiros fortes, granizo e rajadas intensas.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio ocorreu poucas semanas depois de o IPMA ter alterado, em agosto, os crit\u00e9rios usados para emitir estes avisos. A avalia\u00e7\u00e3o deixou de olhar apenas para a distribui\u00e7\u00e3o espacial e temporal das descargas el\u00e9tricas e passou a incorporar de forma mais expl\u00edcita os fen\u00f3menos severos que podem acompanhar uma trovoada: chuva intensa, rajadas fortes e granizo.<\/p>\n<p>O que aconteceu no s\u00e1bado reuniu os tr\u00eas. Mas foi a combina\u00e7\u00e3o de dois deles \u2014 pedras de gelo que tiveram condi\u00e7\u00f5es para crescer durante mais tempo dentro da nuvem e uma massa de ar que depois desceu violentamente at\u00e9 ao solo \u2014 que deixou mais marcas em Albergaria-a-Velha.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s, atrav\u00e9s dos mapas de produ\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica que temos, sab\u00edamos que vinha alguma chuva aqui para o concelho de Albergaria-a-Velha, acompanhada de trovoada. Chuva essa que n\u00e3o seria muito significativa. O que \u00e9 certo \u00e9 que na freguesia da Branca, local das Laginhas, aconteceu um fen\u00f3meno meteorol\u00f3gico extremo\u201d, disse Jo\u00e3o Oliveira, respons\u00e1vel da Prote\u00e7\u00e3o Civil de Albergaria-a-Velha.<\/p>\n<p>Em causa esteve \u201cmuita massa de \u00e1gua ca\u00edda num per\u00edodo curto de tempo, e associada a essa chuva teve muito vento e\u00a0granizo\u201d, em que \u201cas bolas chegavam a ter entre dois e tr\u00eas cent\u00edmetros\u201d.<\/p>\n<p>\u201cJuntando estes tr\u00eas fatores, tivemos muitos preju\u00edzos em termos de telhados \u2013 levantou-se telha de cer\u00e2mica e telha de chapa \u2013 viaturas que estavam no exterior e mesmo viaturas que estavam debaixo de telha tamb\u00e9m foram atingidas\u201d, contou o respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o respons\u00e1vel pela Prote\u00e7\u00e3o Civil de Oliveira de Azem\u00e9is, Alberto Godinho, relatou uma \u201csitua\u00e7\u00e3o extrema\u201d vivida em Pinheiro da Bemposta e Palmaz, falando numa \u201cdispers\u00e3o de ocorr\u00eancias\u201d que tamb\u00e9m incluiu queda de \u00e1rvores al\u00e9m de \u201cduas habita\u00e7\u00f5es com danos em telhados, n\u00e3o muito significativos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cHouve uma ou outra situa\u00e7\u00e3o em que houve tamb\u00e9m danos como consequ\u00eancia das quedas de \u00e1rvores: danos nas linhas de instala\u00e7\u00e3o el\u00e9trica e de telecomunica\u00e7\u00f5es\u201d, contou. O respons\u00e1vel relatou ainda uma situa\u00e7\u00e3o em que num edif\u00edcio com cobertura em chapa, \u201cas chapas vieram para a via p\u00fablica\u201d, al\u00e9m de j\u00e1 ter sido feita a \u201climpeza da via com detritos\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O granizo que caiu no distrito de Aveiro no s\u00e1bado n\u00e3o foi apenas um aguaceiro de gelo particularmente&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":517029,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[10],"tags":[27,28,442,71529,15,16,14,25,26,21,22,606,12,13,19,20,32,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":["post-517028","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-portugal","tag-breaking-news","tag-breakingnews","tag-ciu00eancia","tag-cu00e9u-e-terra","tag-featured-news","tag-featurednews","tag-headlines","tag-latest-news","tag-latestnews","tag-main-news","tag-mainnews","tag-meteorologia","tag-news","tag-noticias","tag-noticias-principais","tag-noticiasprincipais","tag-portugal","tag-principais-noticias","tag-principaisnoticias","tag-pt","tag-top-stories","tag-topstories","tag-ultimas","tag-ultimas-noticias","tag-ultimasnoticias"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117241278874483206","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/517028","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=517028"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/517028\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/517029"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=517028"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=517028"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=517028"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}