{"id":51791,"date":"2025-08-30T18:25:07","date_gmt":"2025-08-30T18:25:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/51791\/"},"modified":"2025-08-30T18:25:07","modified_gmt":"2025-08-30T18:25:07","slug":"caneta-e-capaz-de-detectar-se-tumor-e-maligno-em-poucos-segundos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/51791\/","title":{"rendered":"Caneta \u00e9 capaz de detectar se tumor \u00e9 maligno em poucos segundos"},"content":{"rendered":"<p>Em uma das salas cir\u00fargicas do Einstein Hospital Israelita, em S\u00e3o Paulo, um paciente \u00e9 preparado para a remo\u00e7\u00e3o de pelo menos metade da tireoide, gl\u00e2ndula que fica no pesco\u00e7o e que \u00e9 respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o de horm\u00f4nios importantes para o metabolismo. Mas algo destoa do usual. A poucos passos do campo cir\u00fargico, uma m\u00e1quina faz um ru\u00eddo persistente, como um pequeno ar-condicionado. E, ao lado dela, o operador, com privativo bege (o que indica que n\u00e3o \u00e9 do time assistencial), enumera os movimentos em curso e se prepara para quando chegar sua hora de agir.<\/p>\n<p>Cerca de 40 minutos depois do in\u00edcio da cirurgia, ele diz: &#8220;j\u00e1 d\u00e1 para ver a tireoide&#8221;. Gustavo Gon\u00e7alves \u00e9 o pesquisador respons\u00e1vel pela opera\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina, um espectr\u00f4metro de massa &#8211; equipamento que costuma habitar laborat\u00f3rios de pesquisa. O uso no contexto cir\u00fargico \u00e9 a novidade, e o plano \u00e9 que ele ajude a identificar tumores em quest\u00e3o de segundos. Para tornar isso vi\u00e1vel, foi constru\u00eddo at\u00e9 um carrinho especial para o espectr\u00f4metro de massa, que precisa permanecer em superf\u00edcie est\u00e1vel e permanecer ligado o tempo todo a uma bomba de v\u00e1cuo.<\/p>\n<p>A ida do minilaborat\u00f3rio ao centro cir\u00fargico faz sentido gra\u00e7as \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de uma brasileira, Livia Eberlin, qu\u00edmica formada pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) com doutorado pela Universidade Purdue e que tamb\u00e9m fundou a startup MS Pen Technologies. Hoje ela \u00e9 professora na Baylor College of Medicine, no Texas, onde desenvolve suas pesquisas. A grande sacada de Eberlin e colaboradores foi criar um m\u00f3dulo a ser acoplado ao espectr\u00f4metro de massa (Orbitrap, da Thermo Fisher, com valor estimado entre R$ 1 milh\u00e3o e R$ 2 milh\u00f5es), cuja ponteira, ou &#8220;caneta&#8221;, pode ser colocada direto sobre um tecido, seja normal ou tumoral.<\/p>\n<p>Com a caneta, uma pequena quantidade de \u00e1gua \u00e9 aplicada e aspirada novamente. O aparelho consegue, a partir de caracter\u00edsticas de cada mol\u00e9cula (como massa e carga), fazer uma leitura do que existe ali. O que esta e outras pesquisas j\u00e1 em curso nos EUA t\u00eam mostrado e pretendem mostrar \u00e9 que o conjunto de centenas de mol\u00e9culas que s\u00e3o extra\u00eddas naquela gotinha de \u00e1gua, na superf\u00edcie do tecido, \u00e9 suficiente para detectar e classificar tumores.<\/p>\n<p>S\u00e3o os chamados biomarcadores, objetos de pesquisa de Gustavo e de Kenneth Gollob, pesquisador s\u00eanior do Einstein justamente nessa seara. Gustavo passou um per\u00edodo de treinamento nos Estados Unidos para dominar a t\u00e9cnica, e conta que as grandes estrelas entre os poss\u00edveis biomarcadores no caso do c\u00e2ncer de tireoide s\u00e3o os lip\u00eddios. Uma explica\u00e7\u00e3o para isso \u00e9 a diferen\u00e7a na composi\u00e7\u00e3o das membranas celulares: como as c\u00e9lulas tumorais se dividem mais rapidamente que as convencionais, acabam apresentando altera\u00e7\u00f5es importantes em suas superf\u00edcies, compostas em grande parte por lip\u00eddios.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos come\u00e7ando com pulm\u00e3o e tireoide, em dois bra\u00e7os principais: validar os resultados em compara\u00e7\u00e3o ao padr\u00e3o-ouro atual e, ao mesmo tempo, explorar o potencial da caneta para ir al\u00e9m de dizer se h\u00e1 tumor ou n\u00e3o. Queremos entender tamb\u00e9m o microambiente tumoral, ou seja, como as c\u00e9lulas imunes reagem ali, porque isso pode indicar quem ter\u00e1 melhor resposta a determinados tratamentos&#8221;, explica Gollob.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje, quando precisamos saber se um n\u00f3dulo \u00e9 maligno ou benigno, retiramos um fragmento e o patologista faz a congela\u00e7\u00e3o: congela o tecido, corta em l\u00e2minas e olha no microsc\u00f3pio. \u00c9 r\u00e1pido para o padr\u00e3o da patologia, mas pode levar mais de 30 minutos no centro cir\u00fargico. Se conseguirmos uma resposta em segundos com a caneta, isso tem um impacto enorme no tempo e na seguran\u00e7a da opera\u00e7\u00e3o&#8221;, detalha o cirurgi\u00e3o Cl\u00e1udio Cernea, respons\u00e1vel pelo procedimento acompanhado pela reportagem.<\/p>\n<p>Depois da an\u00e1lise feita com a caneta em tecido normal e tumoral, o patologista Giulio Santo e equipe entram em cena. Preparam a congela\u00e7\u00e3o, realizam a colora\u00e7\u00e3o e o m\u00e9dico observa o material ao microsc\u00f3pio. &#8220;Papil\u00edfero&#8221;, diz ele, identificando o subtipo mais comum do c\u00e2ncer de tireoide.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje o que estamos fazendo \u00e9 gerar uma base de dados ampla, com o perfil metab\u00f3lico de tecidos normais e tumorais&#8221;, diz Carlos Ferreira, patologista cl\u00ednico do Einstein, e um dos art\u00edfices da colabora\u00e7\u00e3o com Eberlin e Thermo Fisher. &#8220;Esse projeto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pela jun\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. \u00c9 um modelo de colabora\u00e7\u00e3o que acelera a pesquisa e aproxima a inova\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica m\u00e9dica&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;A espectrometria de massas direta \u00e9 o futuro do diagn\u00f3stico no local de atendimento. A integra\u00e7\u00e3o da caneta ao [espectr\u00f4metro] Orbitrap permite obter a alta resolu\u00e7\u00e3o, precis\u00e3o e sensibilidade necess\u00e1rias para uma detec\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e confi\u00e1vel. \u00c9 exatamente o tipo de inova\u00e7\u00e3o que buscamos apoiar&#8221;, conta Dion\u00edsio Ottoboni, diretor de instrumentos anal\u00edticos da Thermo Fisher para a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Por enquanto, mesmo no protocolo de pesquisa, a tecnologia ainda n\u00e3o ajuda a definir a margem cir\u00fargica. Esse \u00e9 o peda\u00e7o de tecido normal removido, por seguran\u00e7a, junto ao que sabidamente \u00e9 c\u00e2ncer. Margens maiores d\u00e3o mais seguran\u00e7a quanto \u00e0 remo\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas cancerosas, enquanto margens menores ajudam a preservar a fun\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o ou sistema afetado &#8211; algo especialmente cr\u00edtico em tumores cerebrais, por exemplo.<\/p>\n<p>O estudo atual \u00e9 feito em paralelo com a an\u00e1lise patol\u00f3gica, mas a expectativa \u00e9 que, no futuro, a combina\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia artificial e a identifica\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es com uma biblioteca robusta de perfis moleculares permita diagn\u00f3sticos instant\u00e2neos e personalizados. &#8220;\u00c9 uma jornada de tentativas e erros, mas que pode transformar a forma como operamos o c\u00e2ncer. Ter o Brasil como primeiro pa\u00eds a testar fora dos Estados Unidos \u00e9 motivo de muito orgulho&#8221;, diz L\u00edvia Eberlin.<\/p>\n<p>Nos EUA, a tecnologia \u00e9 testada em tumores de mama, p\u00e2ncreas, ov\u00e1rio, c\u00e9rebro e pulm\u00e3o, em institui\u00e7\u00f5es como o MD Anderson, Johns Hopkins e Baylor College of Medicine. (GABRIEL ALVES E KARIME XAVIER)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em uma das salas cir\u00fargicas do Einstein Hospital Israelita, em S\u00e3o Paulo, um paciente \u00e9 preparado para a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":51792,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[116,32,33,117,110,3753],"class_list":{"0":"post-51791","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-health","9":"tag-portugal","10":"tag-pt","11":"tag-saude","12":"tag-tecnologia","13":"tag-tumor"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51791","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51791"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51791\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/51792"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51791"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51791"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51791"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}