{"id":52260,"date":"2025-08-31T03:43:09","date_gmt":"2025-08-31T03:43:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/52260\/"},"modified":"2025-08-31T03:43:09","modified_gmt":"2025-08-31T03:43:09","slug":"zolpidem-medicos-explicam-como-tratar-a-dependencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/52260\/","title":{"rendered":"Zolpidem: m\u00e9dicos explicam como tratar a depend\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Kayllani Lima Silva<br \/>Rep\u00f3rter<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos cinco anos, de acordo com dados da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa), 94,6 milh\u00f5es de caixas de zolpidem foram vendidas no Brasil. O uso abusivo do medicamento, indicado para o tratamento da ins\u00f4nia de curta dura\u00e7\u00e3o, pode causar depend\u00eancia e camuflar a necessidade de tratar transtornos como ansiedade e depress\u00e3o. Segundo especialistas, embora ainda n\u00e3o seja poss\u00edvel observar uma procura significativa pela interrup\u00e7\u00e3o do uso, a popula\u00e7\u00e3o tem se mostrado mais consciente dos riscos associados.<\/p>\n<p>O levantamento da Anvisa, cedido \u00e0 reportagem, aponta que, em 2020, foram comercializadas 18,3 milh\u00f5es de caixas do medicamento no pa\u00eds. J\u00e1 em 2024, o n\u00famero caiu para 15,9 milh\u00f5es, representando uma redu\u00e7\u00e3o de 12,7% nos \u00faltimos cinco anos. Apesar disso, 2020 e 2021 registraram os maiores volumes de vendas desde 2011, in\u00edcio da s\u00e9rie hist\u00f3rica, com 20,6 milh\u00f5es e 21,9 milh\u00f5es de caixas, respectivamente.<\/p>\n<p>De acordo com o m\u00e9dico psiquiatra Ernane Pinheiro, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Norte-Rio-Grandense de Psiquiatria (ANP-RN), o v\u00edcio no medicamento apresenta aspectos psicol\u00f3gicos e qu\u00edmicos. \u201cImagine uma pessoa que estava sem dormir e achava isso terr\u00edvel. Quando ela come\u00e7a a tomar um rem\u00e9dio e dorme muito bem, fica maravilhada. Ent\u00e3o, primeiramente, j\u00e1 se estabelece logo uma depend\u00eancia psicol\u00f3gica, pois ela acredita que se tomar o rem\u00e9dio vai dormir melhor\u201d, explica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do apego psicol\u00f3gico, o especialista ressalta que h\u00e1 tamb\u00e9m a depend\u00eancia qu\u00edmica, que pode se instalar no organismo em algumas semanas ou meses. Por isso, o medicamento deve ser usado apenas por curto per\u00edodo, j\u00e1 que o uso prolongado e em altas doses favorece a depend\u00eancia biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Entre os principais sinais de depend\u00eancia est\u00e1 a s\u00edndrome de abstin\u00eancia, marcada pelo sofrimento intenso do paciente ap\u00f3s a interrup\u00e7\u00e3o do tratamento. Segundo o presidente da ANP-RN, o quadro inclui dores de cabe\u00e7a fortes, irritabilidade, ins\u00f4nia, tristeza, ansiedade e depress\u00e3o. Outro indicativo de depend\u00eancia ocorre quando o paciente abandona os medicamentos voltados ao tratamento da causa da ins\u00f4nia, como a ansiedade, mas mant\u00e9m o uso do zolpidem.<\/p>\n<p>\u201cOu seja, ele faz de tudo pra manter a receita e a obt\u00e9m por diversos meios, \u00e0s vezes at\u00e9 clandestinos, mas n\u00e3o deixa de tomar esse rem\u00e9dio. J\u00e1 os outros que n\u00e3o causam depend\u00eancia, que s\u00e3o a maioria dos medicamentos prescritos pela psiquiatria, ele deixa\u201d, completa.<\/p>\n<p>Ernane Pinheiro alerta que, em diversos casos, o zolpidem costuma ser prescrito por cl\u00ednicos gerais. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, isso agrava o cen\u00e1rio, j\u00e1 que em muitas localidades os pacientes n\u00e3o t\u00eam contato direto com especialistas nas Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade (UBSs). \u201cAs pessoas v\u00e3o l\u00e1, falam com a enfermeira e dizem que o rem\u00e9dio \u00e9 de uso cont\u00ednuo. A enfermeira recebe, passa para o m\u00e9dico, que carimba e assina a prescri\u00e7\u00e3o para o paciente receber\u201d, relata.<\/p>\n<p>Embora o cen\u00e1rio seja preocupante, o presidente da ANP-RN afirma que tem observado em seu consult\u00f3rio uma maior procura por atendimento para interromper o uso do medicamento. Segundo ele, o processo deve ser gradual, para reduzir o sofrimento de quem j\u00e1 desenvolveu depend\u00eancia. \u201cQuando um paciente vai ao m\u00e9dico, \u00e9 para resolver um problema. Ent\u00e3o n\u00f3s vamos tentar fazer de uma maneira mais agrad\u00e1vel e menos sofrida. Naturalmente, pedimos que ele trate a doen\u00e7a que a origina e estabele\u00e7a uma retirada gradual do medicamento\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Entre as alternativas, est\u00e1 a substitui\u00e7\u00e3o do zolpidem por outro medicamento que n\u00e3o cause depend\u00eancia. J\u00e1 o m\u00e9dico psiquiatra Walter Barbalho Soares observa que, apesar de n\u00e3o haver aumento expressivo na busca pela redu\u00e7\u00e3o do uso, a popula\u00e7\u00e3o tem se mostrado mais alerta aos riscos do consumo cr\u00f4nico.<\/p>\n<p>Entre as consequ\u00eancias, ele destaca o mascaramento das causas da ins\u00f4nia, como transtornos de ansiedade, p\u00e2nico e quadros depressivos. \u201cEnt\u00e3o o uso do zolpidem \u00e9 perigoso porque o medicamento basicamente n\u00e3o trata nenhum desses quadros. Voc\u00ea mascara o sintoma colocando o paciente para dormir, pois \u00e9 uma medica\u00e7\u00e3o hipn\u00f3tica. Vai facilitar o in\u00edcio do sono, mas n\u00e3o vai ajudar no processo de tratar a causa da ins\u00f4nia\u201d, completa o especialista.<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo Rodolpho Cortez, por sua vez, observa que ainda n\u00e3o h\u00e1 uma procura significativa pela interrup\u00e7\u00e3o do uso. Pelo contr\u00e1rio, a rotina acelerada da sociedade tem levado muitas pessoas a buscar recursos que induzam o sono. Ele alerta, contudo, que a tend\u00eancia \u00e9 de que os riscos das chamadas drogas \u201cZ\u201d se tornem cada vez mais conhecidos, a exemplo do que ocorreu com benzodiazep\u00ednicos como o Rivotril.<\/p>\n<p><strong>Tratamento com zolpidem e prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica<\/strong><\/p>\n<p>O tempo necess\u00e1rio para o paciente superar a depend\u00eancia do zolpidem varia, j\u00e1 que cada caso tem particularidades e hist\u00f3rico pr\u00f3prio. \u201cJ\u00e1 tive pacientes que chegaram no meu consult\u00f3rio e tomavam 11 comprimidos por dia desse rem\u00e9dio, da maior dose. Ent\u00e3o \u00e9 claro que esse paciente tem muito mais do que a depend\u00eancia. O paciente precisa ser visto como um todo\u201d, explica Ernane Pinheiro.<\/p>\n<p>Segundo ele, a depend\u00eancia afeta, em sua maioria, pessoas com ansiedade e depress\u00e3o. Casos de hist\u00f3rico familiar de v\u00edcio ou de uso de subst\u00e2ncias como o \u00e1lcool tamb\u00e9m aumentam o risco de depend\u00eancia. O presidente da ANP-RN refor\u00e7a que o tratamento com zolpidem deve ser de curta dura\u00e7\u00e3o e indicado apenas quando o paciente n\u00e3o responde \u00e0s primeiras alternativas para resolver a ins\u00f4nia.<\/p>\n<p>O psiquiatra Walter Barbalho Soares refor\u00e7a a necessidade de orienta\u00e7\u00e3o especializada. \u201cO uso precisa ser cauteloso e no menor tempo poss\u00edvel, [sendo necess\u00e1rio] sempre pesquisar a real causa da ins\u00f4nia. Al\u00e9m disso, \u00e9 importante ressaltar que o processo de sono n\u00e3o \u00e9 simples como apertar um bot\u00e3o e desligar para dormir. Existe todo um processo e uma rotina de sono que deve ser valorizada\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>\u201cImagine que uma pessoa tinha depress\u00e3o e eu resolvo trat\u00e1-la com um medicamento antidepressivo, por exemplo, a amitriptilina. Esse medicamento, al\u00e9m de tratar a depress\u00e3o, trata o sono. Ent\u00e3o, muitas vezes, eu prescrevo um medicamento como esse \u00e0 noite e ele come\u00e7a a dormir bem, embora a depress\u00e3o ainda n\u00e3o tenha se resolvido. A depress\u00e3o demora mais tempo para se resolver. Ent\u00e3o, n\u00e3o necessariament\u201d, afirma Ernane Pinheiro.<\/p>\n<p>Ele ressalta que a amitriptilina tem a vantagem de n\u00e3o causar depend\u00eancia. J\u00e1 nos casos em que o zolpidem \u00e9 indicado, o uso costuma se limitar a cerca de um m\u00eas, podendo variar conforme o perfil do paciente.<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo Rodolpho Cortez acrescenta que o uso abusivo do zolpidem pode comprometer fun\u00e7\u00f5es cognitivas, prejudicar a mem\u00f3ria e afetar a tomada de decis\u00f5es. H\u00e1 relatos, por exemplo, de pessoas que realizaram compras exorbitantes no cart\u00e3o de cr\u00e9dito em decorr\u00eancia da altera\u00e7\u00e3o de comportamento provocada pela subst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Em maio deste ano, o aumento de relatos de uso irregular e abusivo do zolpidem levou a Anvisa a endurecer as regras para a prescri\u00e7\u00e3o do medicamento. A decis\u00e3o foi tomada ap\u00f3s an\u00e1lise que constatou crescimento no consumo da subst\u00e2ncia e mais registros de eventos adversos relacionados ao seu uso.<\/p>\n<p>Com a medida, qualquer medicamento que contenha zolpidem passou a exigir Notifica\u00e7\u00e3o de Receita B (azul) \u2014 a mesma utilizada para subst\u00e2ncias psicotr\u00f3picas de maior controle no Brasil. Esse tipo de receita s\u00f3 pode ser emitido por profissionais previamente cadastrados na vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria local.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Kayllani Lima SilvaRep\u00f3rter Nos \u00faltimos cinco anos, de acordo com dados da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa),&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":52261,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[15216,116,32,33,117],"class_list":{"0":"post-52260","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-destaques-2","9":"tag-health","10":"tag-portugal","11":"tag-pt","12":"tag-saude"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52260","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52260"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52260\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52261"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}