{"id":52292,"date":"2025-08-31T04:44:18","date_gmt":"2025-08-31T04:44:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/52292\/"},"modified":"2025-08-31T04:44:18","modified_gmt":"2025-08-31T04:44:18","slug":"medicamentos-para-emagrecer-evoluiram-com-menos-efeitos-colaterais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/52292\/","title":{"rendered":"Medicamentos para emagrecer evolu\u00edram com menos efeitos colaterais"},"content":{"rendered":"<p>Dos estimulantes que eram como uma paulada farmacol\u00f3gica no c\u00e9rebro \u00e0s mol\u00e9culas que copiam e at\u00e9 superam horm\u00f4nios gastrointestinais, a evolu\u00e7\u00e3o dos rem\u00e9dios para emagrecer reflete um movimento da medicina: sair de mecanismos amplos e pouco seletivos para estrat\u00e9gias cada vez mais precisas.<\/p>\n<p>Se anfetaminas reduziam o apetite ao custo de efeitos colaterais graves, hoje drogas mais modernas, como a semaglutida e a tirzepatida, conseguem modular a fome e a saciedade em pontos-chave da maquinaria hormonal do trato gastrointestinal e do sistema nervoso central, com resultados sem precedentes no controle da obesidade.<\/p>\n<p>Claro, se fosse poss\u00edvel, todo mundo ia querer emagrecer por conta pr\u00f3pria, mas nem sempre \u00e9. A complexidade da obesidade e de suas causas -que v\u00e3o da gen\u00e9tica aos chamados sistemas alimentares obesog\u00eanicos- faz com que o portf\u00f3lio crescente de solu\u00e7\u00f5es seja muito bem-vindo. De estrat\u00e9gias de reeduca\u00e7\u00e3o alimentar e pr\u00e1ticas esportivas \u00e0 cirurgia bari\u00e1trica, tudo \u00e9 v\u00e1lido em busca de mais sa\u00fade, inclusive recorrer aos f\u00e1rmacos emagrecedores.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980, as anfetaminas e seus derivados dominaram as prescri\u00e7\u00f5es para perda de peso. No Brasil, o arsenal inclu\u00eda anfepramona, femproporex e mazindol, todas com a\u00e7\u00e3o no sistema nervoso central. Essas drogas aumentavam a libera\u00e7\u00e3o de neurotransmissores como dopamina e noradrenalina, reduzindo a sensa\u00e7\u00e3o de fome e aumentando o estado de alerta.<\/p>\n<p>Se as canetas com os rem\u00e9dios mais modernos custam mais de R$ 1.000, as drogas mais antigas n\u00e3o pesavam assim no bolso. \u201cEram medicamentos eficazes, muito baratos. Havia pacientes que respondiam de uma forma excelente, com baixa incid\u00eancia de efeitos colaterais. Isso quando usados numa pr\u00e1tica de rotina. No entanto, existia um abuso. Muitos tomavam uma dose cavalar. Ent\u00e3o os pacientes emagreciam muito r\u00e1pido, mas n\u00e3o dormiam, tinham mudan\u00e7a de comportamento, pelo uso errado da medica\u00e7\u00e3o\u201d, conta a endocrinologista Maria Edna de Melo, do grupo de obesidade do Hospital das Cl\u00ednicas da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cIns\u00f4nia, irritabilidade e altera\u00e7\u00f5es de comportamento e cardiovasculares eram efeitos colaterais frequentes, n\u00e3o desprez\u00edveis, que dificultavam suas prescri\u00e7\u00f5es e culminaram com a proibi\u00e7\u00e3o das drogas em nosso pa\u00eds\u201d, explica Antonio Carlos do Nascimento, doutor em endocrinologia e metabologia pela Faculdade de Medicina da USP.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nos \u00faltimos anos tentou-se liberar o registro dessas medica\u00e7\u00f5es por meio de projetos de lei e iniciativas no Legislativo, mas preponderou a vis\u00e3o da Anvisa, de que os riscos de depend\u00eancia, abuso e complica\u00e7\u00f5es cardiovasculares superavam os potenciais benef\u00edcios cl\u00ednicos, levando \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da proibi\u00e7\u00e3o. Nos EUA, por\u00e9m, algumas dessas subst\u00e2ncias, como a fentermina, continuam em uso e v\u00e3o bem nas vendas.<\/p>\n<p>Foi na virada dos anos 1990 que chegou ao estrelato o orlistate (Xenical). Em vez de uma atua\u00e7\u00e3o na circuitaria cerebral, a a\u00e7\u00e3o era no intestino. O medicamento inibe a enzima lipase pancre\u00e1tica, respons\u00e1vel por quebrar as gorduras da dieta em mol\u00e9culas menores para absor\u00e7\u00e3o. Ao bloquear cerca de 30% dessa absor\u00e7\u00e3o, o orlistate reduz as calorias dispon\u00edveis para o corpo.<\/p>\n<p>\u201cEle n\u00e3o exerce influ\u00eancia no sistema nervoso central, e se provou mais eficaz como laxante e modificador da flora intestinal do que um f\u00e1rmaco emagrecedor\u201d, resume Nascimento. Os efeitos adversos incluem diarreia oleosa, urg\u00eancia evacuat\u00f3ria e flatul\u00eancia com perda fecal, especialmente ap\u00f3s refei\u00e7\u00f5es ricas em gordura. Al\u00e9m disso, como n\u00e3o atuava na regula\u00e7\u00e3o central do apetite, seu impacto no peso era modesto.<\/p>\n<p>\u201cVeio como uma revolu\u00e7\u00e3o, porque era aquela p\u00edlula da churrascaria, que voc\u00ea podia comer o que quisesse e iria eliminar. S\u00f3 que como isso sa\u00eda \u00e9 que as pessoas n\u00e3o imaginavam\u2026 E acabou levando a muitos efeitos colaterais de uma forma bem desagrad\u00e1vel\u201d, diz Melo.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos anos 2000, esteve em pauta a sibutramina, que tinha um mecanismo mais pr\u00f3ximo ao das anfetaminas, mas considerado mais seguro. Ela \u00e9 um inibidor da recapta\u00e7\u00e3o de serotonina e noradrenalina, neurotransmissores envolvidos no controle da saciedade. \u201cExercer sua principal a\u00e7\u00e3o moduladora no centro da saciedade fez da sibutramina uma inova\u00e7\u00e3o, como confortar mais com menores ingest\u00f5es cal\u00f3ricas\u201d, diz Nascimento.<\/p>\n<p>Mas, de novo, nem tudo eram flores. Estudos mostraram que, em idosos, a mol\u00e9cula aumentava o risco de AVC, al\u00e9m de n\u00e3o sustentar a perda de peso a longo prazo. Por isso, sua venda foi restrita em v\u00e1rios pa\u00edses. Melo conta que, tamb\u00e9m pelo baixo custo, muitos pacientes se beneficiam -mas que n\u00e3o \u00e9 algo para todos.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o prescreve sibutramina para paciente que tem doen\u00e7a cardiovascular, problema psiqui\u00e1trico, ou alt\u00edssimo risco cardiovascular, ou que seja de mais idade. Mas ainda \u00e9 muito usada aqui no Brasil. Gra\u00e7as a Deus que tem, porque \u00e9 uma medica\u00e7\u00e3o que \u00e9 de baixo custo e que sim, tem benef\u00edcios para o paciente\u201d, diz a m\u00e9dica.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A era contempor\u00e2nea dos emagrecedores se inicia pouco depois disso. Em 2005, veio a exenatida, primeira representante dos an\u00e1logos do GLP-1. Esses medicamentos imitam esse horm\u00f4nio intestinal liberado ap\u00f3s as refei\u00e7\u00f5es. O GLP-1 atua em m\u00faltiplos alvos: estimula a secre\u00e7\u00e3o de insulina (que reduz o a\u00e7\u00facar da corrente sangu\u00ednea), retarda o esvaziamento do est\u00f4mago e, no sistema nervoso central, reduz a fome e aumenta a sensa\u00e7\u00e3o de saciedade.<\/p>\n<p>Nascimento lembra que os primeiros passos foram limitados por efeitos colaterais: \u201cA exenatida oferecia compet\u00eancia in\u00e9dita para o controle do diabetes tipo 2 e o benef\u00edcio adicional do emagrecimento, mas a enorme frequ\u00eancia de efeitos colaterais, como n\u00e1useas, v\u00f4mitos e diarreias, foi fator limitante para seu uso.\u201d<\/p>\n<p>A consolida\u00e7\u00e3o veio em 2010 com a liraglutida (Victoza e, depois, Saxenda), que se mostrou eficaz tanto no controle do diabetes quanto na perda de peso, inclusive em pessoas sem diabetes. Hoje, os protagonistas s\u00e3o a semaglutida (Ozempic\/Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro). A primeira \u00e9 outro agonista de GLP-1, com efeito m\u00e9dio de cerca de 15% de perda de peso corporal. A segunda combina a a\u00e7\u00e3o no GLP-1 com a ativa\u00e7\u00e3o do receptor do GIP (polipept\u00eddeo inibit\u00f3rio g\u00e1strico), com efeito em torno de 20%, uma \u201ccapacidade emagrecedora incr\u00edvel\u201d, segundo Nascimento.<\/p>\n<p>Ao aproveitar mecanismos fisiol\u00f3gicos naturais de regula\u00e7\u00e3o da fome e do metabolismo, os agonistas de GLP-1 conquistaram espa\u00e7o ao agir diretamente nos circuitos da saciedade, permitem um controle mais consistente da ingest\u00e3o cal\u00f3rica, sem depender apenas da for\u00e7a de vontade do paciente.<\/p>\n<p>\u201cO diferencial desses medicamentos mais novos est\u00e1 na tolerabilidade, porque s\u00e3o medicamentos de um potencial mais amplo. Ent\u00e3o a gente pode receitar para paciente que teve cardiopatia, doen\u00e7a psiqui\u00e1trica\u201d, explica Melo.<\/p>\n<p>Os an\u00e1logos de GLP-1 n\u00e3o est\u00e3o livres de efeitos colaterais. Os mais comuns s\u00e3o os gastrointestinais, como n\u00e1useas, v\u00f4mitos, sobretudo no in\u00edcio do tratamento. H\u00e1 efeitos mais raros como pancreatite aguda e c\u00e1lculos biliares associados \u00e0 perda r\u00e1pida de peso. Mas o consenso \u00e9 que a balan\u00e7a \u00e9 bem favor\u00e1vel ao uso deles.<\/p>\n<p>Estar\u00edamos, dessa forma, numa esp\u00e9cie de o\u00e1sis farmacol\u00f3gico para o tratamento da obesidade? N\u00e3o, por causa do alto pre\u00e7o das drogas mais modernas, e que permanecem indispon\u00edveis no SUS. \u201cA gente ainda tem um acesso muito dif\u00edcil para a popula\u00e7\u00e3o, ou seja, quem mais precisa \u00e9 quem menos tem acesso\u201d, diz a m\u00e9dica.<\/p>\n<p>C\u00e1lculos sugerem que, embora caros, esses medicamentos podem gerar economia a m\u00e9dio e longo prazo ao reduzir hospitaliza\u00e7\u00f5es, complica\u00e7\u00f5es cardiovasculares e custos associados \u00e0 obesidade e ao diabetes tipo 2. Pacientes que respondem bem ao tratamento vivem mais anos livres de doen\u00e7as graves, o que refor\u00e7a a vis\u00e3o de que investir nesses f\u00e1rmacos pode ser mais barato do que arcar com as consequ\u00eancias da obesidade n\u00e3o tratada.<\/p>\n<p>*GABRIEL ALVES\/folhapress<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Dos estimulantes que eram como uma paulada farmacol\u00f3gica no c\u00e9rebro \u00e0s mol\u00e9culas que copiam e at\u00e9 superam horm\u00f4nios&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":52293,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[116,32,33,117],"class_list":{"0":"post-52292","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-health","9":"tag-portugal","10":"tag-pt","11":"tag-saude"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52292"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52292\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}