{"id":53151,"date":"2025-08-31T21:30:27","date_gmt":"2025-08-31T21:30:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/53151\/"},"modified":"2025-08-31T21:30:27","modified_gmt":"2025-08-31T21:30:27","slug":"alemanha-quando-o-estado-social-se-torna-insustentavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/53151\/","title":{"rendered":"Alemanha. Quando o estado social se torna insustent\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de um s\u00e9culo e meio, o ic\u00f3nico chanceler alem\u00e3o Otto von Bismarck plantava a semente daquilo a que hoje conhecemos como Estado social ou Estado-provid\u00eancia moderno. \u00ab[A verdadeira quest\u00e3o] \u00e9 se o Estado \u2013 e por Estado refiro-me sempre ao imp\u00e9rio \u2013 [\u2026] tem o direito de abandonar ao acaso o cumprimento de uma responsabilidade do Estado, nomeadamente, proteger o trabalhador contra acidentes e necessidades quando ele se lesiona ou envelhece\u00bb, dizia o \u2018Chanceler de Ferro\u2019 ao Reichstag quando se discutia a lei de indemniza\u00e7\u00e3o por acidente de trabalho em 1884. \u00abNo entanto, assim que o Estado se preocupa com estas quest\u00f5es \u2013 e acredito que \u00e9 dever do Estado preocupar-se\u00bb, continuava, \u00abdeve procurar a forma menos dispendiosa e n\u00e3o tirar proveito disso e, acima de tudo, n\u00e3o perder de vista o benef\u00edcio para os pobres e necessitados\u00bb. Tr\u00eas anos antes, o kaiser Guilherme I, influenciado por Bismarck, enviara uma carta ao Parlamento onde notava que \u00abaqueles que est\u00e3o incapacitados para o trabalho devido \u00e0 idade e invalidez t\u00eam um direito bem fundamentado a receber cuidados do Estado\u00bb.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s estas iniciativas e v\u00e1rias contendas parlamentares, foi estabelecido aquele que v\u00e1rios historiadores consideram o primeiro Estado social da era moderna. Como pode ler-se no arquivo da Seguran\u00e7a Social dos Estados Unidos, a \u00abAlemanha tornou-se o primeiro pa\u00eds do mundo a adotar um programa de seguran\u00e7a social para idosos em 1889\u00bb. Laurence Reed escreveu que se algu\u00e9m \u00e9 o pai das vers\u00f5es modernas do Estado social, \u00ab[e]sse homem \u00e9 Otto von Bismarck\u00bb.<\/p>\n<p>Hoje, 136 anos depois, \u00e9 tamb\u00e9m um chanceler alem\u00e3o que volta a colocar decisivamente a quest\u00e3o do Estado social em cima da mesa. N\u00e3o para o expandir, mas para lhe desferir um duro golpe. \u00abO Estado social que temos hoje n\u00e3o pode mais ser financiado com o que produzimos na economia\u00bb, foram as palavras de Friedrich Merz num com\u00edcio da CDU em Osnabr\u00fcck, uma cidade no noroeste da Alemanha.<\/p>\n<p>O debate sobre a insustentabilidade deste modelo que assenta sobretudo no princ\u00edpio da redistribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 novo. Mas \u00e9 a primeira vez que um l\u00edder europeu declara a sua fal\u00eancia de forma perent\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>A estagna\u00e7\u00e3o e a despesa<br \/><\/strong>A Alemanha \u00e9 o grande motor econ\u00f3mico da Europa. Mas os indicadores dos \u00faltimos anos n\u00e3o s\u00e3o animadores. Desde 2021, ano de recupera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o in\u00edcio da pandemia, que a taxa de crescimento do PIB alem\u00e3o tem vindo a decrescer. De 3,7% em 2021 para 1,4% em 2022 at\u00e9 chegar \u00e0 contra\u00e7\u00e3o em 2023 (-0,3%), de acordo com os dados do Banco Mundial. Em 2024, a taxa de crescimento do PIB ficou-se pelos -0,2%. A recess\u00e3o era praticamente inevit\u00e1vel e acabou por ser confirmada no segundo trimestre de 2025, quando o PIB caiu mais 0,3%. Ao mesmo tempo, a despesa do governo em percentagem do PIB tem registado um crescimento mais ou menos constante: de acordo com previs\u00f5es da Statista, chegar\u00e1 aos 52,05% em 2030. Tamb\u00e9m a d\u00edvida p\u00fablica apresenta uma trajet\u00f3ria ascendente, podendo chegar, ainda de acordo com as previs\u00f5es da Statista, aos 74,85% do PIB em 2030. O desemprego tamb\u00e9m vindo a crescer, situando-se agora nos 6,3%. E o crescimento da despesa em benef\u00edcios sociais b\u00e1sicos chegou aos 46,9 mil milh\u00f5es de euros em 2024, um aumento de 4 mil milh\u00f5es de euros em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior, reportou a ag\u00eancia de not\u00edcias alem\u00e3 Deutsche Welle (DW).<\/p>\n<p>A Alemanha, tal como a generalidade dos pa\u00edses da Europa ocidental, depara-se com um problema de envelhecimento populacional. E \u00e9 aqui que o problema da insustentabilidade se cristaliza. De acordo com a AARP International, que utiliza dados da UN Population Division, a \u00abpopula\u00e7\u00e3o alem\u00e3 com 65 anos ou mais dever\u00e1 crescer 41%, atingindo 24 milh\u00f5es at\u00e9 2050, o que representa quase um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o total. Ao mesmo tempo, a popula\u00e7\u00e3o entre 15 e 64 anos diminuir\u00e1 23%, passando de cerca de 53 milh\u00f5es em 2015 para cerca de 41 milh\u00f5es em 2050\u00bb.<br \/>Analisando todos estes dados, as declara\u00e7\u00f5es de Merz s\u00e3o mais f\u00e1ceis de compreender. O que n\u00e3o implica que sejam facilmente aceites, especialmente pelo SPD \u2013 o Partido Social Democrata que sustenta a governa\u00e7\u00e3o dos democratas-crist\u00e3os da CDU.<\/p>\n<p><strong>Os custos pol\u00edticos<br \/><\/strong>O SPD, que sofreu uma pesada derrota nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de fevereiro, j\u00e1 se havia comprometido a colaborar numa reforma do sistema. Mas independentemente da vontade pol\u00edtica de trabalhar em conjunto numa reforma, \u00e9 no car\u00e1ter desta \u00faltima que reside a diferen\u00e7a fundamental entre os dois partidos tradicionais da democracia alem\u00e3. Enquanto Merz quer cortar despesas sem aumentar impostos, o SPD salientou, segundo a DW, \u00aba necessidade de solu\u00e7\u00f5es criativas, em vez de apenas cortes para os trabalhadores\u00bb e n\u00e3o descartou \u00aba possibilidade de aumentos de impostos para os rendimentos m\u00e9dios e elevados\u00bb. \u00abContinuaremos a ser um pa\u00eds que ajuda as pessoas que passam por dificuldades, que adoeceram e precisam de ajuda\u00bb, garantiu o vice-chanceler social-democrata Lars Klingbeil ao Funke. Mas, para o chanceler, o aumento nas tributa\u00e7\u00f5es, principalmente a empresas, parece fora de quest\u00e3o: \u00abN\u00e3o haver\u00e1 qualquer aumento do imposto sobre o rendimento das empresas de m\u00e9dia dimens\u00e3o na Alemanha com este governo federal sob a minha lideran\u00e7a\u00bb.<\/p>\n<p>Assim, Merz n\u00e3o dever\u00e1 conseguir executar a reforma que planeia na sua totalidade e o problema poder\u00e1 continuar a arrastar-se e os custos pol\u00edticos podem assumir v\u00e1rias formas, sendo que a pior, para o chanceler e para a CDU, seria o desmembramento da coliga\u00e7\u00e3o entre CDU e SPD e uma eventual vit\u00f3ria dos nacional-populistas da AfD nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es \u2013 algo que as mais recentes sondagens mostram ser poss\u00edvel. A taxa de aprova\u00e7\u00e3o do chanceler caiu de 43% em junho para 29% em agosto e, de acordo com uma sondagem recente da Forsa, a CDU (24%) foi ultrapassada nas inten\u00e7\u00f5es de voto pela AfD (26%). O decl\u00ednio do SPD continua, conseguindo apenas 13% das inten\u00e7\u00f5es \u2013 o mesmo que os verdes e apenas mais 2% que o Linke, partido da esquerda radical.<\/p>\n<p>Por tudo isto, o panorama econ\u00f3mico, financeiro e pol\u00edtico da Alemanha \u00e9 preocupante e os partidos doc entro ter\u00e3o uma \u00e1rdua tarefa nos pr\u00f3ximos tempos.<\/p>\n<p><strong>Um problema generalizado<br \/><\/strong>Mas o problema da insustentabilidade do Estado social, dos impasses pol\u00edticos e do crescimento de partidos que se autointitulam antissistema n\u00e3o \u00e9 exclusivo \u00e0 Alemanha. As duas outras grandes pot\u00eancias europeias, a Fran\u00e7a e o Reino Unido, navegam por \u00e1guas igualmente turvas.<\/p>\n<p>Em Fran\u00e7a, o desequil\u00edbrio fiscal foi identificado pelo primeiro-ministro Fran\u00e7ois Bayrou como um \u00abperigo mortal\u00bb, acrescentando que o pa\u00eds est\u00e1 na \u00ab\u00faltima paragem antes do precip\u00edcio\u00bb, antes de ser \u00abesmagado pela d\u00edvida\u00bb. Est\u00e3o previstos cortes na fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, uma \u00abcontribui\u00e7\u00e3o de solidariedade\u00bb imposta aos mais ricos e o congelamento das pens\u00f5es p\u00fablicas. Tamb\u00e9m o corte de dois feriados est\u00e1 em cima da mesa. Bayrou vai submeter-se a uma mo\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a no Assembleia que est\u00e1 destinada a fracassar. E se na Alemanha a AfD j\u00e1 est\u00e1 em primeiro nas sondagens, o Rassemblement National em Fran\u00e7a j\u00e1 venceu umas elei\u00e7\u00f5es europeias e continua a liderar as sondagens com uma margem confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>No Reino Unido, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 semelhante ou ainda pior. O Telegraph View, uma sec\u00e7\u00e3o do jornal brit\u00e2nico The Telegraph, resumiu a quest\u00e3o: \u00ab[P]ode argumentar-se que a Gr\u00e3-Bretanha est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o ainda pior do que qualquer economia ocidental, incluindo a It\u00e1lia, onde, apesar da elevada d\u00edvida, foram implementadas medidas para reduzir os gastos. Aqui, uma tentativa pouco convincente do governo de reduzir os gastos com assist\u00eancia social foi bloqueada pela amea\u00e7a de uma rebeli\u00e3o dos deputados trabalhistas, e os ministros parecem n\u00e3o ter ideia do que fazer a seguir, al\u00e9m de aumentar os impostos e piorar a situa\u00e7\u00e3o\u00bb. \u00abO Tesouro emprestou 20,7 mil milh\u00f5es de libras em junho, dos quais 16,4 mil milh\u00f5es foram apenas para pagar os juros da d\u00edvida anterior\u00bb, pode ainda ler-se no artigo que acaba com uma frase forte: \u00abComo disse o chanceler Merz: isto simplesmente n\u00e3o pode continuar\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 cerca de um s\u00e9culo e meio, o ic\u00f3nico chanceler alem\u00e3o Otto von Bismarck plantava a semente daquilo&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":53152,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[1305,27,28,15,16,14,25,26,21,22,62,12,13,19,20,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-53151","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-alemanha","9":"tag-breaking-news","10":"tag-breakingnews","11":"tag-featured-news","12":"tag-featurednews","13":"tag-headlines","14":"tag-latest-news","15":"tag-latestnews","16":"tag-main-news","17":"tag-mainnews","18":"tag-mundo","19":"tag-news","20":"tag-noticias","21":"tag-noticias-principais","22":"tag-noticiasprincipais","23":"tag-principais-noticias","24":"tag-principaisnoticias","25":"tag-top-stories","26":"tag-topstories","27":"tag-ultimas","28":"tag-ultimas-noticias","29":"tag-ultimasnoticias","30":"tag-world","31":"tag-world-news","32":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53151","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53151"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53151\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53152"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}